
Diane Ackerman
Uma Histria
Natural dos Sentidos
Crculo de Leitores



Ttulo original:
   A Natural Histry 
      of the Senses

Traduo de:
   Sofia Gomes

Capa: Ard-Cor

Copyright *C* 1990 by 
   Diane Ackemman
Impresso e encadernado para 
   o Crculo de Leitores
   por SIG -- Sociedade 
   Industrial Grfica, 
   Lda. em Maio de 1997
Nmero de edio: 4241
Depsito legal nmero: 
   110875/97
ISBN 972-42-1539-3

   


   O mistrio inicial que preside a todas as viagens  antes
de mais nada, como foi que o viajante chegou ao seu ponto de
parti-da? Como alcancei a janela, as paredes, a lareira, a
prpria sala, como vim parar debaixo deste tecto e em cima
deste cho? Oh, isso dava para muitas conjecturas, argumentos
contra e a favor, inves-tigaes, suposies, dialctica! 
coisa de que mal me consigo re-cordar. Ao contrrio de
Livingstone no limiar da mais obscura -frica, no disponho
de mapas, nem de globos terrestres ou celestes, de nenhuma
carta hidrogrfica ou topogrfica, nenhum mapa do relevo, dos
lagos, nenhum sextante, nenhum horizonte artificial. Se alguma
vez possui uma bssola, h muito que ela desapareceu. Deve
existir, contudo, uma explicao plausvel para a minha
pre-sena aqui. Um qualquer passo trouxe-me nesta direco,
por opo-sio a todos os outros pontos do globo habitvel.
Tenho de pensar nisso, tenho de descobrir essa razo.

Louise Bogan,
Journey Around My Room


   Um esprito que se expande at uma ideia nova nunca mais
re-gressa  sua dimenso inicial.

Oliver Wendell Holmes




AGRADECIMENTOS PESSOAIS


   Muitos amigos e conhecidos enviaram-me livros e artigos
teis, ou partilharam comigo as suas impresses sobre os cinco
sentidos. Sinto-me especialmente em dvida para com Walter
Anderson, Ronald Buckalew, Whitney Chadwick, Ann Druyan,
Tiffany Field, Marcia Fink, Geoff Haines-Stiles, Jeanne
Mackin, Charles Mann, Peter Meese, o Monell Chemical
Institute, Joseph Schall, Saul Schanberg, Dava Sobel, Sandy
Steltz e Merlin Tuttle. Os meus agradecimentos tambm ao Dr.
David Campbell e ao Dr. Roger Payne, que tiveram a
generosidade de ler o manuscrito, em busca de alguma frase
infeliz.
   Quase todas as semanas recebia um sobrescrito familiar do
meu editor Sam Vaughan, em cujas indicaes, sugestes e
questes confio inteiramente e cuja amizade me  preciosa.
   A revista *Parade* publicou, em primeira mo, quatro
excertos de O Tacto, A Viso e O Olfacto.
   O captulo Invocando as Musas foi publicado no *New York
Times Book Review*. Uma parte de Porque  Que as Folhas Mudam
de Cor no Outono surgiu no *Cond Nast Traveler*.
   Como Observar o Cu foi escrito para a obra *The Curious
Naturalist* da National Geographic Society, e quero deixar
expressa a minha gratido pela compreenso demonstrada.


 


introduo



:em todos os sentidos


   Como o mundo  sensorialmente exuberante! No Vero, basta o
doce aroma da brisa que penetra pela janela do nosso quarto
para nos apetecer saltar para fora da cama. O sol brinca com
as cortinas de tule, que parece *moir* quando a luz as faz
estremecer. No Inverno, algum ouve o rudo madrugador de um
cardeal a lanar-se contra a sua prpria imagem reflectida na
vidraa da janela e consegue per-ceber, embora adormecido, a
que corresponde esse rudo; sacudindo a cabea em desespero,
sai da cama, vai at ao escritrio e desenha um mocho ou
qualquer outro predador numa folha de papel, cola-a na janela
e depois vai para a cozinha preparar um caf aromtico,
levemente cido.
   Podemos neutralizar um ou vrios dos nossos sentidos
durante algum tempo -- por exemplo, flutuando dentro de gua 
tempera-tura do nosso corpo --, mas isso s tornar os outros
mais intensos. No  possvel compreender o mundo sem primeiro
o detectar atra-vs do sistema de radar dos nossos sentidos.
Podemos expandi-los com a ajuda de microscpios,
estetoscpios, robs, satlites, apa-relhos auditivos, culos
graduados e coisas assim, mas  impossvel conhecer o que lhes
fica fora do alcance. Os nossos sentidos defi-nem o limite da
conscincia e, porque nascemos exploradores e investigadores
do desconhecido, passamos grande parte da vida a marcar passo
frente a esse permetro batido pelo vento. Tomamos drogas;
vamos ao circo; atravessamos selvas; ouvimos msica rui-dosa;
compramos fragrncias exticas; pagamos preos elevados por
novidades culinrias e chegamos a estar dispostos a arriscar a
vida para provar um novo sabor. No Japo, os grandes
cozinheiros oferecem a carne do *fugu*, ou peixe-bola, que 
extremamente :, venenosa quando no  preparada com os maiores
cuidados. Os cozi-nheiros mais requintados deixam na carne
algum veneno, apenas a quantidade suficiente para que os
lbios do convidado fiquem ligei-ramente entorpecidos, de modo
a que ele compreenda como est prximo da mortalidade.  claro
que, por vezes, h um ou outro que se aproxima demasiado, e
todos os anos alguns apreciadores de *fugu* morrem a meio da
refeio.
   A forma de regalarmos os nossos sentidos varia muito de
cultura para cultura (as mulheres massais, que usam excremento
nos seus penteados, achariam estranho o facto de as mulheres
americanas gostarem de perfumar o hlito com hortel-pimenta),
no entanto o modo como usamos esses sentidos  exactamente o
mesmo. O mais espantoso no  o facto de os sentidos
transporem distncias ou culturas, mas conseguirem transpor o
tempo. Os nossos sentidos li-gam-nos intimamente ao passado,
de uma forma que as nossas ideias mais queridas nunca
conseguiriam igualar. Por exemplo, quando leio os poemas do
antigo poeta romano Proprcio, que escreveu pormenorizadamente
sobre o comportamento sexual da sua amiga Hstia, com quem ele
fazia amor nas margens do Arno, fico es-pantada com o pouco
que os jogos amorosos mudaram desde 20 a. C. Alis, o amor
tambm no mudou muito. Proprcio promete e an-seia como
qualquer amante. Mais notvel ainda  que o corpo dela 
rigorosamente igual ao de qualquer mulher americana dos dias
de hoje. Milhares de anos no alteraram nada. Todos os seus
pequenos pontos delicados e graciosos so to atraentes e
sens-veis como os de uma mulher moderna. Hstia pode ter
interpretado as sensaes de forma diferente, mas tanto as
informaes enviadas aos seus sentidos como as que eles
enviaram so as mesmas.
   Se viajssemos at frica, onde os ossos da nossa
pequenina me, *Lucy*, (*) repousam, no mesmo lugar 

(*) Nome dado ao esqueleto feminino de um *Australopithecus
afarensis*, com pouco mais de 3 mi-lhes de anos, descoberto
na Etipia em 1974. Lucy media entre 1,10 e 1,20 metros. (*N.
da T.*)

onde ela faleceu h mil-nios, e olhssemos atravs do vale,
distinguiramos  distncia as mesmas montanhas que ela
conheceu. Talvez tenham sido a lti-ma coisa que Lucy viu
antes de morrer. Muitos aspectos do mundo fsico dela mudaram:
a posio das constelaes alterou-se ligeira-mente, a
paisagem e as condies meteorolgicas esto um pouco
diferentes, mas o contorno dessa montanha ainda  praticamente
o mesmo que ela contemplou. Ela t-lo- visto como ns o
vemos. Agora, dem um salto at 1942, ao Rio de Janeiro, at 
casa do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, cuja
msica, to rigorosa :, quanto excessiva, comea com uma
estrutura ordenada tipicamente europeia para depois explodir
nos sons agudos, vibrantes, agitados e ardentes da floresta
amaznica. Villa-Lobos costumava compor sentado ao piano do
seu salo: abria as janelas que davam para as montanhas em
volta do Rio, escolhia cada dia uma paisagem nova, de-senhava
o contorno das montanhas na sua pauta e depois utilizava essa
silhueta como linha meldica. Dois mil anos separam os dois
observa-dores, em frica e no Brasil -- cujos olhos
interpretam o perfil de uma montanha -- e contudo o processo
de observar  idntico.
   Os sentidos no se limitam a *interpretar* a vida atravs
de actos esclarecedores, ousados ou subtis, mas decompem a
realidade em partes significativas que depois voltam a
encaixar, formando um padro com um significado. Tiram
amostras de eventualidade. Permitem que uma multido seja
representada por um exemplo. Negoceiam at chegar a uma verso
razovel e fazem pequenas e delicadas transaces. A vida
inunda tudo, radiosa, efusiva. Os sen-tidos enviam ao crebro
fragmentos de informao que so como peas de um *puzzle*.
Quando rene a quantidade suficiente de peas, o crebro
diz: *vaca. Vejo uma vaca*. Isto pode acontecer antes de todo
o animal estar visvel; o desenho sensorial de uma vaca pode
ser um contorno, ou metade do animal, ou dois olhos, orelhas,
um focinho. Nas plancies do Sudoeste, em cima de uma pe-quena
mancha surge uma minscula linha. *Cowboy*, diz o crebro,
uma pessoa que voltou a cabea, revelando a aba de um chapu.
Por vezes, a informao chega em segunda ou terceira mo.
Nuvem de poeira  distncia: camioneta em grande velocidade.
*Raciocnio, chamamos-lhe, como se se tratasse de um
condimento mental.
   Um marinheiro est de p no convs de um navio, segurando
uma bandeira em cada mo cada. De repente, ergue as mos,
ba-loua-as para a direita num gesto brusco, depois vira-se,
pe-se de ccoras e agita as bandeiras por cima da cabea. O
marinheiro  um emissor de sentidos. Os que o vem e lem so
os receptores. As bandeiras so sempre as mesmas, mas o modo
como ele as agita  diferente, consoante a mensagem, e o seu
reportrio de gestos cobre muitas contingncias. Mudemos a
imagem: uma mulher sentada ao teclado de um telgrafo
transmite uma mensa-gem em morse ao longo de um fio. Os pontos
e traos so impul-sos nervosos que podem combinar-se de
formas elaboradas para tornar as mensagens claras.
   Quando nos definimos como entes sencientes (do latim
*sentire*, sentir e do indo-europeu *sent*, dirigir-se a,
ir; da ir mentalmente) queremos dizer que somos
conscientes. O sentido :, mais literal e abrangente  que
temos percepo sensorial. Tu no tens conscincia!, grita
algum, furioso e descrente. A imagem de uma pessoa que saltou
do respectivo corpo e paira sobre o mundo como uma entidade
autnoma parece impossvel. S os fantasmas so representados
no tendo literalmente os cinco sentidos, ou en-to os anjos.
*Libertados* dos seus sentidos, costumamos dizer, no bom
sentido, quando nos referimos ao estado de transcendente
se-renidade que se encontra na religio asitica, por exemplo.
 si-multaneamente terrvel e um privilgio sermos mortais e
providos de sentidos. Somos prisioneiros dos nossos sentidos.
Embora eles nos engrandeam, tambm nos limitam e constrangem,
mas fazem--no de uma forma maravilhosa! Tambm o amor  uma
escravido maravilhosa.
   Precisamos de voltar a sentir as texturas da vida. Muito do
que se passa na Amrica do sculo XX consiste num esforo
para fu-girmos a essas texturas, para nos remetermos a uma
rotina rgida, simples, solene, puritana, geral, que exclua
algo de to incmodo como o sabor sensorial. Uma das grandes
sensustas (*) -- mais do que Clepatra, Marilyn Monroe,
Proust ou qualquer outro conhecido epicurista -- foi uma
mulher deficiente a quem faltavam alguns dos seus cinco
sentidos. Cega, surda e muda, os restantes sentidos de Helen
Keller estavam to extraordinariamente harmonizados que quando
colocava as mos sobre um aparelho de rdio para apreciar uma
msica, era capaz de distinguir as cornetas e as cordas.
Escutava histrias coloridas e simples sobre a vida no
Mississpi da boca do seu amigo Mark Twain. Escreveu
extensamente, com a volup-tuosidade de uma cortes, sobre o
poder das sensaes, do tacto, dos sabores e aromas da vida.
Apesar das suas deficincias, estava mais viva do que muitas
pessoas da sua gerao.
   Gostamos de nos considerar criaturas sofisticadas e
evoludas, de fato e gravata ou *collants* e vestido justo,
que 

(*) Algum que se compraz na experincia sensorial. Os seus
apetites sexuais. (*N. da A*.)

vivemos intelec-tualmente afastadssimos e a muitos milnios
da era das cavernas, mas no  isso o que os nossos corpos
pensam. Podemos dar-nos ao luxo de estar no topo da cadeia
alimentar, mas a nossa adrenalina ainda hoje acelera quando
damos com um predador, real ou imagi-nrio. Chegamos a
exercitar esse medo primitivo vendo filmes de terror. Ainda
definimos ou demarcamos o nosso territrio, apesar de agora
muitas vezes o fazermos ligando o volume do rdio no mximo.
Ainda manobramos para conseguir posio ou poder. :,

 Um sensualista  algum que procura satisfazer

Ainda produzimos obras de arte para evidenciar os nossos
sentidos e acrescentar ainda mais sensaes ao mundo
transbordante, de modo a criarmos um mximo de espectculos de
vida. Ainda so-fremos violentamente por amor, luxria,
lealdade, paixo. E o mundo ainda lateja, em tudo o que tem de
arrebatadoramente belo e terrvel, nos nossos prprios pulsos.
No h outra hiptese. Para comear a compreender a
extraordinria febre que  ter conscincia, temos de entender
os sentidos: como evoluram, como podem ser expan-didos, quais
os seus limites, a quais associmos tabus e o que nos podem
eles ensinar sobre o maravilhoso mundo que temos o privi-lgio
de habitar.
   Para compreender, temos de usar a cabea, ou seja, o
esprito. A maior parte das pessoas pensa que o esprito est
localizado na cabea, mas as mais recentes descobertas em
psicologia sugerem que, de facto, o *esprito* no se encontra
no crebro, antes percorre o corpo todo em caravanas de
hormonas e enzimas, interpretando as maravilhas complexas que
catalogamos como tacto, gosto, olfacto, audio, viso. O que
pretendo explorar neste livro  a origem e a evoluo dos
sentidos, como variam de cultura para cultura, os seus alcance
e reputao, folclore e cincia, os idiomas sensoriais de que
nos servimos para falar do mundo, alm de alguns tpicos
especiais que, espero, divirtam outros amantes dos sentidos
como me diverti-ram a mim e faam com que os espritos mais
sisudos, durante pelo menos um momento, se deixem espantar.
Inevitavelmente, um livro assim  um acto de celebrao.



O OLFACTO


O olfacto  um feiticeiro 
poderoso 
que nos transporta ao longo
das muitas milhas e anos que
j vivemos. Os aromas dos frutos 
levam-me  minha casa no Sul, 
s minhas travessuras infantis no meio dos 
pessegueiros. Outros cheiros, 
instantneos e fugazes, fazem
meu corao dilatar alegremente 
ou contrair-se com a recordao de uma
dor. Basta-me pensar em cheiros 
e o meu nariz enche-se de fragrncias 
que despertam doces memrias 
de Veres passados e searas distantes.

Helen Keller
          



O SENTIDO MUDO


   Nada  mais memorvel do que um cheiro. Um odor pode ser
inesperado, momentneo e efmero, e no entanto evocar um Vero
da infncia, passado junto a um lago, em Poconos, quando as
amo-reiras silvestres estavam carregadas do suculento fruto e
o sexo oposto constitua um mistrio to grande como uma
viagem espa-cial; um outro traz-nos horas de paixo ao luar
numa praia da Flori-da, onde os cactos se cobriam de flores
durante a noite, enchendo o ar de espessas ondas de perfume,
cobertos de traas gigantescas que batiam ruidosamente as
asas; um terceiro leva-nos a um Agosto de mirtilos, numa vila
do Midwest, quando os pais de algum ainda estavam ambos
vivos. Os cheiros detonam suavemente na nossa memria, como
minas pungentes escondidas sob a capa de ervas daninhas de
muitos anos e experincias. Basta tocar o rastilho de um
cheiro, que se d imediatamente uma exploso de recordaes.
Uma viso complexa salta da vegetao rasteira.
   Em todas as culturas houve sempre pessoas obcecadas pelo
cheiro, que usavam perfumes com enorme extravagncia. A rota
da seda abriu as portas do Oriente ao mundo ocidental, mas a
rota dos cheiros abriu o corao da Natureza. Os nossos
ante-passados passearam entre os frutos da Terra com narizes
atentos e rigorosos, acompanhando as estaes, cheiro a
cheiro, nas suas despensas bem fornecidas. Podemos detectar
mais de dez mil odores diferentes, tantos, na realidade, que a
nossa memria nos trairia se tentssemos tomar nota de tudo o
que representam. Em *O Co dos Baskerville*, Sherlock Holmes
identifica uma mulher pelo cheiro do seu papel de carta,
insistindo em salientar que existem setenta e cinco perfumes,
sendo indispensvel a um perito criminal conseguir
distingui-los uns dos outros. Um :, nmero pequeno, sem
dvida. Afinal, qualquer pessoa com um faro para o crime
devia ser capaz de descobrir o culpado fare-jando a sua
fazenda, tinta-da-china, p de talco, sapatos de couro
italiano e um sem-nmero de objectos com cheiro. Para no
falar nos odores, radiantes e annimos, que deciframos sem
sequer o sa-ber. O crebro  um bom assistente de encenao.
Prossegue o seu trabalho enquanto estamos ocupados a
representar as nossas cenas. Embora muitas pessoas estejam
prontas a jurar que nunca consegui-riam fazer tal coisa,
estudos recentes indicam que tanto as crianas como os adultos
conseguem, s pelo cheiro, dizer se uma pea de vesturio foi
usada por um homem ou por uma mulher.
   O nosso sentido do olfacto pode ser de uma preciso
extraordi-nria; no entanto,  quase impossvel descrever a
que cheira uma coisa a algum que no a cheirou. O odor das
pginas lustrosas de um livro novo, por exemplo, ou as
primeiras folhas, ainda ensopa-das de solvente, sadas de um
mimegrafo, ou um cadver, ou as subtis diferenas dos aromas
de plantas como balsaminas, cornisos ou lilases. O olfacto  o
sentido mudo, aquele para o qual no h palavras. Faltando-nos
o vocabulrio, ficamos sem fala,  procura das palavras num
mar de prazer e exaltao desarticulados. S ve-mos quando a
luz  suficiente, s sentimos sabores quando mete-mos coisas
dentro da boca, s palpamos quando estabelecemos contacto com
algum ou alguma coisa, ouvimos apenas os sons
su-ficientemente altos. Mas estamos sempre a cheirar, como
estamos sempre a respirar. Se taparmos os olhos deixaremos de
ver, se ta-parmos os ouvidos deixaremos de ouvir, mas se
taparmos o nariz e deixarmos de cheirar... morreremos. O ar
que inspiramos e expira-mos no  neutro nem indistinto --
trata-se de ar *cozinhado*; vivemos num constante ponto de
fervura. H um fogo nas nossas clulas e quando respiramos
fazemos o mundo atravessar os nossos corpos, damos-lhe uma
fervura e voltamos a deix-lo sair, suavemente alte-rado
depois de nos ter conhecido.


:um mapa do olfacto


   Respirar  um acto duplo, excepto em dois momentos das
nos-sas vidas: o princpio e o fim. Ao nascer, inspiramos pela
primeira vez; ao morrer, expiramos pela ltima. Entre um e
outro, durante toda a espuma dos nossos dias, cada vez que
respiramos, o ar atra-vessa todos os pontos do nosso aparelho
olfactivo. Todos os dias respiramos cerca de 23040 vezes e
deslocamos aproximadamente 86 mil centmetros cbicos de ar.
Demoramos  volta de cinco :, segundos a respirar -- dois
segundos para inspirar e trs segundos para expirar -- e,
durante esse tempo, molculas de odor inundam os nossos
sistemas. Ao inspirar e respirar, cheiramos. Os cheiros
co-brem-nos, envolvem-nos, penetram nos nossos corpos, emanam
deles. Vivemos num constante banho de cheiros. No entanto,
quando tentamos descrever um cheiro, faltam-nos as palavras,
sendo, como so, artifcios. As palavras so pequenas formas
no formidvel caos que  o mundo. Mas so formas, tornam o
mundo inteligvel, encer-ram ideias, aguam os pensamentos,
pintam aguarelas de percepo. Em *A Sangue-Frio*, Truman
Capote narra as desventuras de dois assassinos que colaboraram
num crime particularmente terrvel. Um psiclogo criminal, ao
tentar explicar o acontecimento, observou que nenhum deles
teria conseguido cometer o crime sozinho, mas juntos formavam
uma terceira pessoa, algum que era capaz de ma-tar. Para mim,
uma metfora  algo mais benigno do que aquilo a que os
qumicos chamam hipergol, mas igualmente poderoso. Pode-mos
pegar em duas substncias, junt-las e produzir algo
totalmente diferente (sal de mesa), por vezes mesmo explosivo
(nitroglicerina). O encanto da linguagem  que, embora tenha
sido criada pelo ho-mem, consegue, em ocasies excepcionais,
capturar emoes e sen-saes que no so obra humana.
Infelizmente, os laos psicolgicos entre os centros olfactivo
e da linguagem do crebro so muito fra-cos. O que no
acontece com a ligao do centro olfactivo com o da memria,
via que nos conduz agilmente atravs do tempo e da dis-tncia.
Ou as ligaes dos nossos outros sentidos com a linguagem.
Quando vemos alguma coisa, somos capazes de descrev-la em
efu-sivo pormenor, com grande riqueza de imagens. Podemos
rastejar pela sua superfcie como formigas, fazendo o
levantamento de cada caracterstica, sentindo todas as suas
texturas e descrevendo-as com adjectivos visuais como
vermelho, azul, claro, grande e assim por diante. Mas quem
pode fazer o levantamento das caractersticas de um cheiro?
Quando utilizamos palavras como fumoso, sulfuroso, flo-ral,
frutado, doce, estamos a descrever cheiros em funo de outras
coisas (fumo, enxofre, flores, frutos, acar). Os cheiros so
como aquele parente prximo e querido, de cujo nome no nos
consegui-mos recordar. Em vez disso, tentamos descrever o que
ele nos faz sentir. As coisas tm um cheiro nojento,
inebriante, enjoativo, agradvel, delicioso,
excitante, hipntico ou revoltante.
   A minha me contou-me um passeio que deu com o meu pai
pelos laranjais de Indian River, na Florida, quando as rvores
esta-vam em flor, enchendo o ar com a sua fragrncia. Foi para
ela um prazer extraordinrio. :,
   -- Cheirava a qu? -- perguntei.
   -- Oh, era delicioso, um cheiro inebriante e delicioso.
   -- Mas a que *cheira* esse cheiro? -- voltei a perguntar.
-- A la-ranjas? -- Se assim fosse, talvez eu lhe comprasse uma
gua-de--colnia que se produz desde o sculo XVIII e era a
preferida de Ma-dame du Barry, feita de neroli (leo que se
obtm a partir da flor da laranjeira), bergamota (extrada da
casca da laranja) e outros in-gredientes menos importantes.
(Embora o prprio neroli j se usas-se como perfume no tempo
das Sabinas.)
   -- Oh, no -- respondeu ela com toda a segurana --, no
cheira de todo a laranjas.  um cheiro delicioso. Um cheiro
maravilhoso.
   -- Descreva-o -- supliquei-lhe. E ela ergueu as mos,
desesperada.
   Experimentem agora. Descrevam o cheiro do vosso amante, do
vosso filho, de um dos vossos pais. Ou mesmo um dos clichs
aro-mticos que a maioria das pessoas, mesmo de olhos
vendados, seria capaz de reconhecer s pelo cheiro: uma
sapataria, uma padaria, uma igreja, um talho, uma biblioteca.
Ser que conseguem descre-ver o cheiro da vossa cadeira
preferida, do vosso sto ou do vosso automvel? Em *The
Place in Flowers Where Pollen Rests*, o ro-mancista Paul West
afirma que o sangue cheira a p. Uma met-fora interessante,
que assenta na comparao, como quase sempre sucede com as
metforas relacionadas com cheiros. Outra testemu-nha
insinuante e subjectiva  o escritor Witold Gombrowicz que, no
primeiro volume do seu dirio, recorda um pequeno-almoo
toma-do no Ermitage com A. e sua mulher... A comida cheira a,
per-doem-me, uma retrete muito luxuosa. Presumo que ele no
apre-ciasse rins fritos ao pequeno-almoo, ainda que caros e
da melhor qualidade. Para uma cartografia do olfacto,
precisamos de cartgra-fos sensoriais que esbocem palavras
novas, cada uma delas to pre-cisa como um socalco na terra ou
um ponto cardeal. Devia haver uma palavra para o cheiro da
cabea de um beb, um misto de p de talco e frescura, ainda
no poludo pela vida e pela alimentao. Os pinguins tm um
forte cheiro a *pinguim*, um cheiro to espec-fico e nico
que um sucinto adjectivo deveria capt-lo. *Pingucola*, que
poderia significar que vive na gordura, no serve.
*Pinguinflio* faz lembrar folhas de plantas.
*Pinguiniforme* seria o modelo normal, mas apenas
atravancaria a linguagem, alm de que quali-fica sem
descrever. Se existem palavras para todos os matizes de uma
cor --alfazema, malva, fcsia, ameixa e lils -- porque no
descobrem um nome para cada tom e *nuance* de um aroma? E como
se ficssemos globalmente hipnotizados e nos ordenassem que
es-quecssemos selectivamente. Tambm pode ser que os cheiros
nos :, afectem tanto, precisamente por no podermos dizer os
seus nomes. Num mundo exuberante e em que tudo se pode dizer
por palavras, os cheiros esto muitas vezes na ponta da nossa
lngua -- mas no passam da -- e isso confere-lhes uma
espcie de distncia mgica, mistrio, um poder sem nome, uma
aura sagrada.


VIOLETAS E NEURNIOS


   Recorrendo ao mtodo habitual, posso sugerir que as
violetas cheiram a cubos de acar mergulhados em limo e
veludo: definir um cheiro por meio de outro cheiro ou outro
dos sentidos. Numa carta famosa, Napoleo dizia a Josefina
para no tomar banho durante as duas semanas que faltavam
para o seu prximo encontro, para ele poder desfrutar de todos
os aromas naturais dela. Mas Na-poleo e Josefina tambm
adoravam violetas. Ela usava com fre-quncia um perfume de
violetas que constitua a sua imagem de marca. Quando morreu,
em 1814, Napoleo plantou violetas na campa dela. Antes de ir
para o exlio em Santa Helena, foi em pere-grinao at l,
apanhou algumas violetas e fechou-as num medalho que usava ao
pescoo; a ficaram at ao fim dos seus dias. Na Londres do
sculo XIX, as ruas estavam cheias de raparigas pobres que
ven-diam pequenos ramos de violetas e alfazema. Com efeito, a
sinfonia *London* de Ralph Vaughan Williams inclui uma
orquestrao do prego das jovens vendedeiras de flores. As
violetas sempre resisti-ram  arte do perfumista.  possvel
obter um perfume de grande qualidade a partir de violetas, mas
 extremamente difcil e caro. S os mais abastados poderiam
pag-lo; mas sempre houve imperatri-zes, *dandies* e ditadores
da moda suficientemente extravagantes pa-ra dar que fazer s
fbricas de perfumes. O problema das violetas, que muitos
consideram enjoativas ao ponto de causar nuseas,  que as
reaces que provocam nunca duram muito; como diz
Sha-kespeare, elas so:

*Atrevidas mas no permanentes,
Doces, mas no duradouras,
So um minuto de perfume e splica*.

   As violetas contm ionona, que causa um curto-circuito no
nosso olfacto. A flor continua a espalhar a sua fragrncia,
mas perdemos a capacidade de cheir-la. Se esperarmos um ou
dois minutos, voltamos a sentir o seu aroma. Depois,
desaparece mais uma vez e assim su-cessivamente. Muito tpico
de Josefina, uma mulher de sensualidade :, forte, isto de
escolher como imagem de marca um perfume que a-gride o nariz
com um jacto aromtico para no momento seguinte o deixar
virginal, voltando pouco depois a acometer com violncia. No
h odor mais namoradeiro. Aparece, desaparece, volta a
apare-cer, a desaparecer, jogando s escondidas com os nossos
sentidos, sem que haja forma de tirarmos dele maior proveito.
A violeta ine-briou os antigos Atenienses de tal modo que foi
escolhida para flor oficial e smbolo da cidade. As mulheres
vitorianas gostavam de per-fumar o hlito com rebuados de
violeta, em especial depois de terem bebido. Escrevo isto aps
ter provado uma embalagem de pastilhas de violeta uma
confeco deliciosa, um aroma refrescante, e a doce, pungente
e antiquada infuso de violetas quase me esmagou. Por outro
lado, no Amazonas fiz uma vez um ch de *casca-preciosa*, uma
planta aromtica da famlia do sassafrs, cuja casca macerada
me perfumou o rosto, o cabelo, as roupas, o quarto e o
esprito com violetas quentes de uma subtileza requintada. Se
as violetas nos ex-citaram, obcecaram, repeliram e de certas
formas aturdiram durante sculos, por que razo  to difcil
descrev-las e s o conseguimos fazer indirectamente? Ser que
cheiramos indirectamente? De ma-neira nenhuma.
   O olfacto  o mais directo dos nossos sentidos. Quando
aproximo do meu nariz uma violeta e inspiro, molculas de odor
flutuam e entram na cavidade nasal, por trs do septo nasal,
onde so absor-vidas pela mucosa que contm clulas receptoras
com plos mins-culos chamados clios. Cinco milhes dessas
clulas enviam impul-sos ao lobo olfactivo do crebro, ou
bulbo olfactivo. Tais clulas s existem no nariz. Se
destruirmos um neurnio no crebro,  o seu fim: ele no volta
a crescer. Se lesarmos neurnios nos olhos ou ouvidos, ambos
os rgos ficaro irremediavelmente danificados. Mas os
neurnios do nariz so substitudos aproximadamente de trinta
em trinta dias e, ao contrrio de todos os outros neurnios do
corpo humano, saem para o exterior e agitam-se  passagem do
ar como anmonas num recife de coral.
   As mucosas nasais, situadas na extremidade superior das
nari-nas, so amarelas, ricas em humidade e carregadas de
substncias gordurosas. Estamos habituados a pensar na
hereditariedade como aquilo que determina a altura de uma
pessoa, a forma do rosto, ou a cor do cabelo. A
hereditariedade tambm determina qual o tom de amarelo da
mucosa nasal. Quanto mais escura for, mais forte e agu-ado
ser o olfacto. Os albinos tm um olfacto fraco. Os animais,
que cheiram com uma grandeza beatfica, tm mucosas nasais
ama-relo-escuras; as nossas so amarelo-claras. As da raposa
so de um :, castanho-avermelhado, as do gato cor de mostarda
escura. Segun-do um conhecido cientista, os homens de pele
escura tm mucosas nasais mais escuras e devem, por isso, ter
narizes mais sensveis. Quando o bolbo olfactivo detecta algo
-- durante uma refeio, o acto sexual, um encontro
emocionante, um passeio pelo parque
d sinal ao crtex cerebral e envia uma mensagem directamente
pa-ra o sistema lmbico, uma seco misteriosa, antiga e
intensamente emotiva do nosso crebro, na qual sentimos,
desejamos e inventa-mos. Ao contrrio dos outros sentidos, o
olfacto no precisa de in-trprete. O efeito  imediato e no
diludo pela linguagem, pelo pensamento, pela traduo. Um
cheiro pode ser extremamente nostlgico por desencadear
imagens e emoes muito fortes sem que tenhamos tempo de
seleccion-las. O que vemos e ouvimos pode ser depressa
absorvido pela atravancada memria de curto prazo mas, como
observa Edwin T. Morris em *Fragrance*, praticamente no
existe uma memria de curto prazo para os odo-res. E sempre
de longo prazo. Alm disso, os cheiros estimulam a
aprendizagem e a reteno. Quando se facultou a um grupo de
crianas informao olfactiva juntamente com uma lista de
pala-vras, salientou Morris, a lista foi muito melhor e mais
facilmente retida na memria do que quando foi fornecida sem
pistas olfacti-vas. Quando oferecemos um perfume a algum,
oferecemos me-mria no estado lquido. Kipling tinha razo:
 mais provvel um cheiro mexer connosco do que uma imagem
ou um som.


:a forma do cheiro


   Os cheiros podem classificar-se numa srie de categorias
bsi-cas, quase como as cores primrias: mentolado
(hortel-pimenta), floral (rosas), ptrido (ovos podres),
cido (vinagre), odor a ter (peras), almscar e cnfora. E
por isso que os fabricantes de perfume obtiveram tanto sucesso
preparando aromas  base de flores ou nu-ma proporo exacta
de almscar ou frutos. As substncias naturais deixaram de ser
necessrias; os perfumes podem ser feitos a nvel molecular em
laboratrios. Um dos primeiros perfumes a ser obtido a partir
de um aroma totalmente sinttico (um aldedo) (*) foi o
*Cha-nel N.o 5*, um clssico da 

(*) Aldedos so uma classe genrica de molculas orgnicas, a
maioria das quais ocorre natural-mente; o rum e o vinho so
perfumados com aldedos de madeira que absorvem quando dentro
do barril. (*N. da A*.)

sensualidade feminina desde a sua criao em 1922. Alm disso,
deu origem a comentrios histricos. Quando um reprter
perguntou a Marilyn Monroe o que usava para dormir, ela :,
respondeu timidamente: *Chanel N.o 5*. A sua nota
principal, aquela que cheiramos primeiro,  o aldedo, depois
o nariz detecta a nota intermdia de jasmim, rosa,
lrio-dos-vales, lrio-florentino e ilan-gue-ilangue e,
finalmente, a nota de base, a que suporta o perfume e o faz
perdurar: vetiver, sndalo, cedro, baunilha, mbar, civeta e
almscar. As notas de base so quase sempre de origem animal,
emissrias venerveis do cheiro que nos transportam atravs de
bosques e savanas.
   Durante sculos, as pessoas torturaram e muitas vezes
mataram animais para obter quatro secrees glandulares: o
mbar-cinzento (o lquido oleoso com que certas baleias
protegem os seus estma-gos da afiada concha interna das lulas
e dos chocos de que se ali-mentam), o castreo (que os
castores do Canad e da Rssia usam para marcar o territrio e
se encontra nas suas bolsas abdominais), a civeta (uma
secreo semelhante ao mel, extrada do aparelho genital do
nocturno e carnvoro gato-da-etipia) e o almscar (secreo
vermelha e gelatinosa do intestino de um veado que habita o
Leste da sia). Como  que as pessoas descobriram que os
sacos anais de alguns animais continham fragrncias? A
bestialidade era comum entre os pastores de algumas dessas
regies e no se pode ignorar essa hiptese. Sendo o almscar
animal muito semelhante  testosterona, somos capazes de
cheir-lo em pores to nfimas como 0,000000000000000 896
gramas. Felizmente, os qumicos criaram j vinte almscares
sintticos, por um lado porque os ani-mais se encontram em
vias de extino, por outro para assegurar uma consistncia
difcil de obter com substncias naturais. Mas por-que ser
que secrees de glndulas de veados, javalis, gatos e outros
animais estimulam o apetite sexual nos seres humanos? A
resposta parece ser que essas secrees apresentam a mesma
forma qumica que um esteride e quando as cheiramos temos,
portanto, uma reaco idntica. Com efeito, numa experincia
levada a cabo na International Flavors and Fragrances, as
mulheres que cheiravam almscar tinham ciclos menstruais mais
curtos, ovulaes mais fre-quentes e concebiam com maior
facilidade. O perfume ter impor-tncia, ou servir apenas
para chamar a ateno? No necessariamente. O cheiro
influencia-nos biologicamente? Sem dvida. O almscar pro-voca
uma alterao hormonal nas mulheres que o cheiram. Quanto 
razo pela qual os odores florais nos excitam... Bem, as
flores tm uma vida sexual robusta e enrgica:  atravs da
sua fragrncia que uma flor declara ao mundo que  frtil,
desejvel e est dispo-nvel, com os seus rgos sexuais
destilando nctar. De um modo rudimentar, o seu aroma
recorda-nos fertilidade, vigor, vida, todo o :, optimismo,
esperana e paixo da juventude. Inspiramos a sua fra-grncia
intensa e, qualquer que seja a nossa idade, sentimo-nos jovens
e casadoiros, num mundo ardente de desejo.
   A luz do Sol faz desaparecer os cheiros, o que pode ser
com-provado por todos os que j penduraram no estendal roupa a
cheirar a bafio. Mesmo assim, ela conserva um cheiro
desagradvel a hu-midade. Precisamos apenas de oito molculas
de qualquer substn-cia para transmitir um impulso a um
terminal nervoso, mas temos de estimular quarenta terminais
nervosos para cheirarmos seja o que for. Nem tudo tem cheiro:
apenas as substncias suficiente-mente volteis para lanar
partculas microscpicas na atmosfera. Muitas das matrias com
que nos cruzamos todos os dias, incluindo pedra, vidro, ao e
marfim, no se evaporam a uma temperatura ambiente, por isso
no as cheiramos. Se aquecermos couves, elas tornam-se mais
volteis (algumas das suas partculas passam para o ar) e de
repente o seu cheiro torna-se mais forte. No espao, a
au-sncia de peso faz com que os astronautas percam o gosto e
o olfacto. No havendo gravidade, as molculas no podem
volatilizar-se, sendo portanto poucas as que penetram no nosso
nariz a uma pro-fundidade que lhes permita serem registadas
como odores.  um problema para os nutricionistas que estudam
a alimentao no es-pao. Muito do sabor da comida depende do
seu cheiro; certos qumicos chegaram mesmo ao ponto de afirmar
que o vinho no passa de um lquido sem sabor mas
profundamente aromtico. Be-bam vinho quando estiverem
constipados e vero que sabe a gua, dizem. Para saborearmos
alguma coisa, ela tem de ser dissolvida num lquido (por
exemplo, um rebuado tem de ser dissolvido em saliva); e, para
cheirarmos uma coisa, ela tem de ser transportada atravs do
ar. S somos capazes de distinguir quatro sabores: doce,
amargo, salgado e cido. O que significa que tudo o mais a que
chamamos sabor , na verdade, um odor. E muitos dos
alimentos que julgamos terem sabor tm apenas odor. O
acar no  voltil, portanto no o cheiramos, muito embora
sintamos com intensidade o seu gosto. Se tivermos a boca cheia
de algo deli-cioso, que desejamos saborear e apreciar,
inspiramos; desse modo, o ar que est dentro da nossa boca
atravessa os nossos receptores olfactivos, por conseguinte
cheiramo-lo melhor.
   Mas como consegue o crebro reconhecer e catalogar tantos
cheiros? Uma teoria do olfacto, a teoria estereoqumica de
J. E. Amoore, estabelece as ligaes entre a forma geomtrica
de cada molcula e as sensaes olfactivas que produz. Quando
uma mol-cula com a forma adequada surge, encaixa-se no seu
nicho neurnico :, e depois envia um impulso nervoso ao
crebro. Os odores a almscar tm molculas em forma de disco
que se encaixam numa zona elptica e cncava do neurnio. Os
odores mentolados tm uma molcula em forma de cunha que se
encaixa numa zona em forma de V. Os odores a cnfora tm uma
molcula esfrica que se encaixa numa zona elptica, mas mais
pequena do que a do almscar. Os cheiros a ter tm uma
molcula com a forma de um eixo que se encaixa numa espcie de
ca-leira. Os odores florais tm uma molcula em forma de disco
com uma cauda que se encaixa numa concavidade com uma caleira.
Os odores ptridos tm uma carga negativa que  atrada para
uma zona de carga positiva. Alguns odores encaixam-se em
vrias zonas, dando um efeito de composio ou mistura. Amoore
apresentou esta teoria em 1949, mas ela j fora proposta no
ano 60 a. C, pelo poeta Lucrcio na sua nica obra, *De rerum
natura*. Essa metfora de chave e fechadura parece servir
cada vez mais para explicar a Natureza, como se o mundo fosse
uma sala cheia de portas fechadas  chave. Ou talvez uma chave
a que corresponde uma fechadura seja simplesmente uma imagem
fa-miliar, um dos poucos modos pelo qual os seres humanos
conseguem entender o mundo  sua volta (sendo os outros dois a
linguagem e a matemtica). Como disse Abram Maslow: Se a
nica ferramenta de um homem for uma chave, ele imaginar
todos os problemas como fe-chaduras.
   Alguns cheiros so fabulosos quando diludos,
verdadeiramente re-pulsivos quando o no so. O odor fecal da
civeta revoltaria qualquer estmago, mas usada em pequenas
doses transforma um perfume num afrodisaco. Alguns odores --
cnfora, ter, leo de cravo-da-ndia, por exemplo --, mesmo
em pores muito pequenas, so excessivos, en-torpecem o nariz
e quase o impossibilitam de cheirar mais alguma coisa. Certas
substncias tm um cheiro igual ao de outras com as quais no
tm nenhum parentesco, constituindo o equivalente nasal da dor
reflexa (as amndoas amargas cheiram a cianeto, os ovos podres
cheiram a enxofre). Muitas pessoas normais tm pontos cegos,
espe-cialmente em relao a certos almscares, enquanto outras
conseguem detectar cheiros muito tnues e fugazes. Temos
tendncia para subes-timar aquilo que  normal os seres
humanos sentirem. Uma coisa sur-preendente nos cheiros  a
grande variedade de respostas que encon-tramos ao longo da
curva que consideramos normal.


CARRADAS DE LUZ


   Grande parte da vida acaba por passar para segundo plano,
mas  atributo da arte lanar carradas de luz sobre as sombras
e fazer :, essa vida renascer. Muitos escritores viveram em
gloriosa harmonia com os odores: o ch de tlia e as
*madeleines* de Proust; as flores de Colette, que a levavam de
volta aos jardins da infncia e  me, Si-do; o cortejo de
cheiros citadinos de Virginia Woolf; as memrias de Joyce
sobre urina de beb e oleados, santidade e pecado; a accia
molhada pela chuva que recordava a Kipling a sua casa e os
com-plexos cheiros da sua vida militar (um bafejo... e  a
Arbia); o fedor de Petersburgo de Dostoievsky; os cadernos
de Coleridge, onde ele recordava que uma estrumeira 
distncia cheira a alms-car, um co morto a flores de
sabugueiro; as descries rapsdicas de Flaubert sobre o
cheiro dos chinelos e das luvas da amante, que ele guardava na
gaveta da secretria; os passeios ao luar de Thoreau, pelos
campos onde as maarocas tinham um cheiro a seco, os arbustos
de mirtilos exalavam odor a mofo e as bagas da rvore-da-cera
cheira-vam a rebuados; Baudelaire mergulha no cheiro at a
sua alma se elevar atravs do perfume, como as almas dos
outros se elevam atravs da msica; a descrio feita por
Milton dos odores que Deus considera agradveis ao Seu nariz
divino e dos preferidos de Satans, um especialista em cheirar
podrido (da carne putrefacta, das inmeras presas... aroma
de carcaas vivas); o prazer fetichista e ntimo de Robert
Herrick, ao cheirar a sua amada cujos seios, l-bios, mos,
coxas e pernas... so todos/ricamente aromticos, no havendo
dvida que todas as especiarias do Oriente/esto aqui
re-unidas; o elogio que Walt Whitman faz do aroma do suor
mais fino do que a prece; a obra *La Robe Prtexte* de
Franois Mauriac, que  a adolescncia recordada atravs dos
cheiros; *O Conto do Moleiro* de Chaucer, onde pela primeira
vez em literatura se fala em perfumar o hlito; as
milagrosamente delicadas alegorias de flores feitas por
Shakespeare ( violeta pergunta: Doce ladra, de onde roubaste
a doura seno do hlito do meu amor?); o armrio da roupa
branca de Czeslaw Milosz, cheio do tumulto mudo das
re-cordaes; a obsesso de Joris-Karl Huysmans por
alucinaes nasais, cheiros de licores e suor feminino, que
inunda o seu romance decadente e hedonista *A Rebours*. Ao
descrever uma personagem, Huysmans diz que era uma mulher
desequilibrada, nervosa, que adorava macerar os mamilos em
perfumes, mas que sentia realmente um xtase genuno e
dominante quando um pente lhe passava pela cabea e, enquanto
um amante a acariciava, inalava o odor da fuli-gem de uma
chamin, da humidade de uma casa durante um dia chuvoso, ou do
p de uma tempestade de Vero.
   O poema mais oloroso de todos os tempos, A Cano de
Salomo, evita falar do corpo, ou mesmo de odores naturais, e
:, contudo constri uma exuberante histria de amor em torno
de per-fumes e unguentos. Numa regio rida, onde a gua era
escassa, as pessoas perfumavam-se com frequncia e abundncia,
e o casal de prometidos, cujo dia de casamento estava prximo,
vai trocando palavras de amor enquanto espera, num doce
dilogo de elogios profusos e inventivos. Quando ele come 
mesa dela  um amontoado de mirra ou um cacho de canforeira
nas vinhas de En-ge-di ou  musculoso e elegante como uma
jovem gazela. Para ele, a resistente virgindade dela  um
secreto jardim... uma Primavera aprisionada, uma fonte
selada. Os lbios dela so oblquos como um favo de mel; h
mel e leite sob a tua lngua; e o cheiro das tuas vestes 
igual ao cheiro do Lbano. Ele diz-lhe que na noite de
npcias penetrar no jardim dela e enumera todos os frutos e
especiarias que ir l encontrar: olbano, mirra, aafro,
cnfora, rom, alo, canela, clamo e outras preciosidades.
Ela te-cer uma trama de amor em volta dele e impregnar-lhe-
os senti-dos at ficarem saturados de extravagncia ocenica.
To perturba-da est ela com tal tributo de amor, e to louca
de desejo, que responde que sim, para ele abrir de par em par
os portes do seu jardim: Acorda,  vento do Norte; e venha
tambm o do Sul; sopra no meu jardim para que as especiarias
que l se encontram possam libertar-se. Deixem que o meu amado
entre neste jardim e coma os seus agradveis frutos.
   No macabro romance contemporneo de Patrick Sskind *O
Per-fume*, o heri, que vive em Paris no sculo XVIII,  um
homem que nasceu desprovido de qualquer cheiro prprio, embora
desenvolva um olfacto prodigiosamente forte: Em breve deixou
de se conten-tar em cheirar apenas a madeira; cheirava as
essncias de madeira: cer, carvalho, pinheiro, ulmeiro,
pereira, cheirava a madeira velha, nova, bolorenta,
apodrecida, musgosa e at troncos, aparas, serradu-ra, e era
capaz de as distinguir melhor atravs do odor do que os outros
poderiam faz-lo com a vista. Quando bebe um copo de leite,
consegue cheirar a vaca de onde provem; em passeio,
identifi-ca com facilidade a origem de qualquer fumo. A sua
falta de cheiro humano assusta as pessoas, que o tratam mal,
facto que deforma a sua personalidade. Chega a criar para si
prprio odores pessoais que os outros no identificam como
tais mas que o tornam mais normal, incluindo iguarias como um
cheiro a modstia, uma tmida e prosaica capa de odores que
no deixa de ter presente o aroma ci-do e grosseiro da
humanidade. Acaba por se transformar num per-fumista
assassino, que procura destilar a essncia aromtica de certas
pessoas, como se fossem flores. :,
   Muitos autores escreveram sobre o facto de o cheiro trazer
bafo-radas de recordaes. Em *No Caminho de Swann*, Proust,
esse grande criador de trilhas de aromas que percorrem
extensos campos de luxria e de memrias, descreve o turbilho
momentneo que invade um dos seus dias:

   (...) eu dava alguns passos, do genuflexrio at s
poltronas de espesso veludo, sempre revestidas de cabeceiras
de croch: e o fo-go, que cozinhava, como se fossem uma massa,
os apetitosos chei-ros de que se achava coalhado o ar do
quarto, e que j tinham sido trabalhados e /levantados/ pela
frescura hmida e ensolarada da manh, folhava-os, dourava-os,
enrugava-os, tufava-os, fazendo deles um invisvel e palpvel
bolo provinciano, uma imensa torta, na qual, depois de
ligeiramente saboreados os aromas mais esta-lantes, mais
finos, mais respeitveis do armrio, da cmoda e do papel de
ramagens, eu voltava sempre, com inconfessada cobia, a
envisgar-me no odor medocre, pegajoso, inspido, indigesto e
enjoativo da colcha de flores.

   Durante a sua vida adulta, Charles Dickens declarou que um
simples bafejo do tipo de cola usado para fixar os rtulos nas
garra-fas lhe trazia de volta, com insuportvel fora, toda a
angstia dos seus primeiros anos de vida, quando a falncia
levou o seu pai a abandon-lo num sinistro armazm onde se
fabricavam garrafas dessas. No sculo X, no Japo, uma
brilhante e talentosa senhora, Murasaki Shikibu, dama da
corte, escreveu o primeiro romance realista, *Genji
Monogatari* (A Histria de Genji), uma narrativa amorosa,
tecida numa vasta trama histrica e social, cujo elenco inclui
perfumistas-alquimistas que preparam perfumes baseados na aura
e no destino de um indivduo. Um dos verdadeiros testes para
um escritor, em especial um poeta,  conseguir escrever bem
acerca de aromas. Se ele no conseguir descrever o cheiro a
santidade de uma igreja, po-deremos confiar-lhe a descrio
dos meandros do corao?


:no palcio de inverno das borboletas


   Todos ns possumos as nossas prprias memrias olfactivas.
Uma das que conservo com maior nitidez est associada a um
misto de vapor e de perfume. Uma vez, na altura do Natal,
percorri a costa da Califrnia envolvida num projecto do Los
Angeles Mu-seum.s Monarch, a localizar e etiquetar grandes
quantidades de borboletas hibernantes do gnero *Danaus
plexippus*, conhecidas :, nos EUA por *monarch*. Preferem
hibernar em eucaliptais, enchendo-os de uma fragrncia muito
forte. A primeira vez que entrei num, e todas as vezes da em
diante, fui assaltada por ternas recor-daes da infncia, de
frices mentoladas e constipaes. Primeiro, alcanmos o
topo das rvores, onde as borboletas estavam suspen-sas em
grinaldas douradas e esvoaantes, e apanhmos um grupo delas
com redes telescpicas. Em seguida, sentmo-nos no cho
densamente coberto por uma planta carnuda sul-africana, uma
das raras que suporta os pesados leos que pingam das rvores.
Ao es-correr, esses leos expulsam tambm os insectos e, 
excepo do coaxar de algumas rainetas do Pacfico, que fazem
um rudo seme-lhante ao da abertura de um cofre com segredo,
ou de um tolo gaio tentando alimentar-se de borboletas (cujas
asas contm um veneno do gnero da dedaleira), o ensolarado
eucaliptal estava sereno, se-pulcral, e o silncio fazia-o
parecer imenso. Devido aos vapores que deles se desprendiam,
eu no me limitava a cheirar os eucaliptos, tam-bm sentia o
seu aroma dentro do nariz e da garganta. O som mais alto que
se ouvia, e que parecia o de uma porta a ranger, era o barulho
de um pedao de casca a soltar-se de uma rvore e a cair ao
cho, onde num instante se enrolava como um papiro. Para onde
quer que eu olhasse, pensava ver proclamaes deixadas por uma
antiga tribo. No entanto, para o meu nariz aquilo era o
Illinois nos anos 50. Era dia de aulas; eu estava metida na
cama, protegida e confortvel, en-quanto a minha me me
friccionava o peito com *Vicks VapoRub*. Esse cheiro e essa
recordao trouxeram uma serenidade adicional s horas que
passei silenciosamente sentada na floresta, ocupada com
aquelas borboletas raras, criaturas delicadas cheias de vida e
beleza, que no fazem mal a ningum e vivem de nctar, como os
deuses da Antiguidade. O que tornava essa recordao
duplamente doce era a forma como ela estava estratificada nos
meus sentidos. Embora, de incio, etiquetar borboletas me
fizesse recordar a in-fncia, em breve a prpria actividade se
transformou numa re-cordao perfumada e, alm disso,
substituiu a original: certo dia, em Manhattan, parei junto a
uma florista de rua e escolhi al-gumas flores para pr no
quarto do hotel, como fao sempre que viajo. Dois recipientes
continham ramos de eucalipto, cujas folhas estavam ainda
frescas: verde-azuladas com a parte de cima esbran-quiada;
algumas tinham-se partido e lanavam no ar o seu vapor forte e
penetrante. Apesar do barulho do trnsito na Terceira
Ave-nida, do rudo das perfuradoras do Departamento de Obras
Pbli-cas, do p que se soltava das ruas e do cinzento
coagulado do cu, fui momentaneamente transportada para um
eucaliptal especialmente :, belo perto de Santa Barbara. Uma
nuvem de borboletas esvoaava ao longo do leito seco de um
rio. Sentei-me serenamente no cho, reti-rando da minha rede
mais urna borboleta dourada e preta, etiquetei-a com cuidado e
lancei-a novamente no ar, ficando a olh-la por ins-tantes
para me certificar de que voava em segurana, apesar da
eti-queta colada sobre uma das asas como uma minscula dragona
A paz desse instante invadiu-me como o rebentar de uma onda e
saturou os meus sentidos. Um jovem vietnamita, que expunha a
sua mercadoria, olhou-me com insistncia e apercebi-me de que
os meus olhos de repente se tinham enchido de lgrimas. Ao
todo, o episdio no pode ter demorado mais de alguns
segundos, mas o conjunto das recordaes trazidas pelo cheiro
do eucalipto fizeram com que ele exercesse sobre mim um efeito
quase selvagem e me emocionasse. Nessa mesma tarde, dirigi-me
a uma das minhas lojas preferidas, uma *boutique* na Village
onde nos preparam loes para o banho com uma base de leo de
amndoas doces, ou champs e cremes para o corpo a partir de
outros ingredientes aromticos. Pendurado no suporte do
chuveiro, por cima da banheira, tenho um saco azul de rede,
daqueles que as mulheres francesas usam para ir s compras. L
dentro, guardo uma enorme variedade de loes pa-ra o banho,
sendo a de eucalipto uma das mais calmantes. Como  possvel
que o encontro fortuito de Dickens com umas molculas de cola,
ou o meu com o eucalipto, nos levem de volta a um mundo de
outra forma inacessvel?


:os oceanos dentro de ns


   Um passeio pelo campo ao pr do Sol fornece-nos uma
cata-dupa de odores: estrume, erva cortada, madressilva,
hortel, feno, chalotas, chicria, alcatro da estrada.
Conhecer novos aromas  um dos encantos de uma viagem. No
incio da nossa evoluo, no viajvamos por prazer mas para
procurar comida, e o cheiro era-nos essencial. Muitas espcies
de vida martima tm de ficar  espera que os alimentos passem
por elas ou se coloquem ao alcance dos seus tentculos. Ns,
guiados pelo olfacto, tornmo-nos nmadas capazes de partir em
busca de alimentos, ca-los e at escolher aquilo que mais
nos agradava. Na nossa verso mais primitiva e aqutica,
tambm nos servamos do olfacto para descobrir com quem
acasalar ou detectar a aproximao de uma barracuda. O cheiro
desempenhava um papel imprescindvel, permitindo-nos evitar
que algo venenoso entrasse na nossa boca e no sistema delicado
e opaco que  o nosso corpo. O olfacto era o nosso sentido
mais importante :,
e era to eficaz que, mais tarde, a pequena massa de tecido
olfactivo no topo do nervo transformou-se num crebro. Os
nossos hemisfrios cerebrais eram originalmente umas
salincias nas extremidades dos pednculos olfactivos.
*Pensamos* porque *cheirmos*.
   O sentido do olfacto, como tantas outras funes do nosso
corpo, remete para esse tempo, no princpio da evoluo,
quando vivamos nos oceanos. H alguns anos, ao praticar
mergulho nas Baamas, re-parei pela primeira vez em duas
coisas: transportamos o oceano dentro de ns e as nossas veias
espelham as mars. Sendo eu uma mulher, com ovrios que contm
vulos dispostos como as ovas dos peixes, ao penetrar no tero
macio e ondulante do oceano, de onde os nossos antepassados
surgiram h milhares de anos, fiquei to comovida que os meus
olhos se encheram de lgrimas, mistu-rando a minha gua
salgada com a do mar. Embrenhada nesses pensamentos, olhei em
volta para saber qual era a minha posio em relao ao barco,
mas em vo. Contudo, no me importei: sen-tia-me em casa.
   Esse momento de misticismo entupiu-me as cavidades
acess-rias das fossas nasais, e a subida  superfcie foi
dolorosa at eu tirar a mascara, assoar o nariz num estranho
movimento de duas fases e sentir-me emocionalmente mais
tranquila. Porm, nunca mais esqueci aquela sensao de
pertena. O nosso sangue  em grande parte composto por gua
salgada; precisamos ainda de uma soluo salina (gua salgada)
para lavar os olhos ou mergulhar as lentes de contacto e,
atravs dos tempos, o odor da vagina das mulheres tem sido
descrito como cheiro a peixe. Com efeito, Sandor Ferenczi,
discpulo de Freud, foi mesmo ao ponto de declarar, na sua
obra *Thalassa. A Theory of Genitality*, que os homens fazem
amor com as mulheres apenas porque os seus teros cheiram 
gua utilizada nas conservas de arenque e eles desejam
regressar ao oceano primi-tivo -- sem dvida uma das mais
curiosas teorias sobre o assunto. No props nenhuma
explicao para o facto de as mulheres terem relaes sexuais
com os homens. Um investigador alega que esse cheiro a peixe
no se prende com nada que seja intrnseco  va-gina, mas 
provocado por falta de higiene depois do acto sexual, por uma
vaginite ou pelo esperma. Se algum depositar smen na vagina
e o deixar l ficar, ele acabar por cheirar a peixe,
explica. H algo de etimologicamente credvel nisso, se nos
lembrarmos que em muitas lnguas europeias os termos de calo
usados para prostituta constituem variaes da raiz
indo-europeia pu que significa estragar-se, apodrecer: em
irlands *old put*, em italiano *putta*, em espanhol e
portugus *puta*. Como palavras cognatas :, temos ptrido,
pus, supurar e putrio (referente ao touro-ftido, um animal
da famlia dos fures). Em ingls a palavra para furo 
*skunk* que deriva do termo algonquino para touro-ftido,
*pole-cat*; durante os sculos XVI e XVII em Inglaterra,
*polecat* era uma palavra depreciativa para prostituta. No s
devemos ao mar os nossos sentidos do olfacto e do paladar,
como cheiramos e sa-bemos a mar.


:noes e naes do suor


   Em geral, os seres humanos tm um forte odor corporal e,
segundo o antropologista Dr. Louis S. B. Leakey, os nossos
an-tepassados tero possudo um odor ainda mais intenso, um
cheiro que os animais predadores achavam suficientemente
desagradvel para dele se afastarem. Ainda no h muito tempo,
passei al-gum tempo no Texas a estudar morcegos. Coloquei um
grande morcego-da-indonsia no meu cabelo para ver se ficava
enredado nele, como reza a tradio popular. No s no se
enredou como comeou a tossir suavemente devido  mistura de
cheiros do meu sabonete, gua-de-colnia, sal, leos e outros
odores hu-manos. Quando voltei a coloc-lo na sua gaiola,
lambeu-se co-mo um gato durante imenso tempo, sendo bvio que
se sentia sujo depois daquele contacto humano. Muitas plantas,
como o rosmaninho e a slvia, desenvolveram odores penetrantes
para repelir predadores; porque no os animais? A Natureza
raramente volta as costas a uma estratgia eficaz. Claro que
nuns seres humanos os odores so muito mais fortes do que
noutros. A sa-bedoria popular afirma que as morenas tm um
cheiro diferente do das ruivas, e estas um cheiro diferente do
das louras. Existem tantas histrias onde se prova que raas
diferentes tm cheiros diferentes -- devido  alimentao,
hbitos, tipo de cabelo ou falta dele -- que  difcil
ignor-las, muito embora o tema assuste muitos cientistas, os
quais temem, compreensivelmente, virem a ser chamados racistas
(*). 

(*) De acordo com os autores de um estudo publicado, h alguns
anos, na revista *Science*, certos ne-gros tero o pnis
maior do que os brancos; ou seja, o seu pnis parece maior
quando em repouso, pois o gene que contm a clula da anemia
tem tendncia para colocar o pnis em semiereco quando se
encontra flcido. Disseram-me que os autores desse estudo
hesitaram em dar a conhecer as suas descobertas, e acabaram
por faz-lo mas com muita apreenso (*N. da A*.)

No se fez muita investigao no campo dos odores nacionais e
raciais. De qualquer modo, uma cultura no tem um cheiro
melhor ou pior do que outra, apenas di-ferente, mas talvez
seja por isso que a palavra fedorento  :, utilizada tantas
vezes em insultos racistas. Os Asiticos no tm tan-tas
glndulas sebceas na base dos folculos capilares como os
Ocidentais e, em consequncia, acham que os Europeus tm um
cheiro amadurecido. Um odor corporal forte  to raro nos
ho-mens japoneses que houve tempos em que era motivo para os
considerarem inaptos para o servio militar.  tambm por
isso que na sia existe uma preocupao to grande em
perfumar as casas e o ar em vez dos corpos. Os odores
penetrantes so ab-sorvidos pela gordura: se colocarmos uma
cebola ou uma meloa dentro do frigorfico junto a um pacote
aberto de manteiga, esta absorver o odor. O cabelo tambm
contm gordura, razo pela qual deixa manchas nos travesseiros
e nas costas dos sofs. Absorve, tambm, os cheiros. A
abundncia de cabelo nos povos caucasianos e negros f-los
suar muito, em comparao com os Asiticos, mas as
guas-de-colnia fervilham nos seus leos e corpos como velas
votivas.
   O odor corporal vem de glndulas alveolares, que so
pequenas quando nascem e se desenvolvem e ramificam durante a
puberdade; h muitas delas espalhadas pelas axilas, rosto,
peito, rgos genitais e nus. Alguns investigadores
concluram que grande parte do pra-zer que temos em beijar
resulta, na verdade, de cheirarmos e acari-ciarmos um rosto,
zona que melhor reflecte o odor pessoal. Nalgu-mas tribos
espalhadas por uma srie de zonas -- como Bornu, o rio Gmbia
na frica Ocidental, Birmnia, Sibria, ndia -- a pala-vra
para beijo significa tambm cheiro; um beijo , com
efeito, um cheirar prolongado do amante, parente ou amigo. Os
membros de uma tribo da Nova Guin despedem-se colocando as
mos nas axilas do amigo, depois retiram-nas e esfregam-nas
nos seus prprios corpos, ficando assim cobertos do cheiro
dele; outras culturas cumprimen-tam-se farejando-se ou
esfregando os narizes uns nos outros.


:a personalidade do cheiro


   O cheiro das pessoas que comem carne  diferente do das
pes-soas vegetarianas, o cheiro das crianas  diferente do
dos adultos, os fumadores no cheiram ao mesmo que os no
fumadores; h in-divduos com um cheiro especfico,
determinado por factores here-ditrios, sade, ocupao,
alimentao, medicao, estado emocional e at estado de
esprito. Como observa Roy Bedichek na obra *The Sense of
Smell*: O odor corporal da presa excita de tal modo o
pre-dador que a este cresce gua na boca, e todas as fibras do
seu corpo ficam tensas, todos os sentidos alerta. Ao mesmo
tempo, nas :, narinas da presa o medo e o dio passam a estar
associados ao cheiro do predador (*). 

(*) Muitos romancistas escreveram sobre o aroma do medo, e
experincias feitas com ratazanas re-velaram que as que se
encontram em grande sofrimento emanam um odor especial. As
outras, mais calmas, detectam esse cheiro e tm uma reaco
fsica e analgsica, preparando-se para suportar a dor. (*N.
da A*.)

Assim, nos nveis inferiores da vida animal, um odor
especfico tem origem num determinado estado de esprito com o
qual passa a ser associado. Cada pessoa tem um cheiro
prprio, como uma impresso digital. Um co  capaz de
identific-lo com facilidade e reconhece o dono mesmo que ele
tenha um gmeo ou uma gmea. Helen Keller jurou que lhe
bastava cheirar uma pessoa para saber em que  que
trabalhava. O cheiro da madeira, do ferro, da tinta e dos
medicamentos impregnam a roupa de quem trabalha com essas
substncias... Quando uma pessoa passa rapidamente de um lugar
para outro, sei pelo cheiro de onde vem: da cozinha, do jardim
ou da enfermaria.
   Para as pessoas dotadas de uma sensualidade requintada, no
h nada mais inebriante do que o cheiro almiscarado de um
amante encharcado em suor. Mas nem todos consideramos os
odores cor-porais particularmente sedutores. Na era isabelina,
os namorados trocavam mas do amor 
-- uma mulher guardava no sovaco uma ma descascada e quando
esta ficava saturada do seu suor oferecia-a ao amado para que
a cheirasse. Hoje existe uma indstria dedicada  eliminao
dos nossos odores corporais, substituindo-os por aromas
artificiais. Por que razo preferimos que o nosso hlito
cheire a mentol e no a bactrias podres, o seu odor natural?
 certo que um cheiro desagradvel pode ser sinal de doena.
Podemos no nos sentir atrados por uma pessoa com um cheiro
pouco saudvel, e um excesso de bactrias podres pode
levar-nos a pensar que esta-mos a conversar com algum que
tem, por exemplo, clera e nos pode pegar a doena. Mas em
grande parte preferimos um cheiro a outro, graas  iniciativa
de Madison Avenue e  nossa credulidade. A parania dos aromas
d bom dinheiro. Na sua gula criativa, con-venceram-nos de que
os nossos odores naturais so ofensivos e de que devemos
disfar-los com cremes e loes.
   O que  exactamente para ns um cheiro mau? E qual  o pior
cheiro do mundo? As respostas dependem da cultura, idade e
gosto pessoal. Os Ocidentais acham repulsivos os odores
fecais, mas os Massais gostam de se pentear com esterco de
vaca, que d aos seus cabelos um brilho alaranjado e um odor
profundo. Para as crianas, todos os cheiros so bons at lhes
ensinarem o contrrio. Quando Gerald Durrell, naturalista e
funcionrio do jardim zoolgico, quis :, apanhar alguns
morcegos para o seu prprio jardim zoolgico da ilha de
Jersey, deslocou-se  ilha de Rodriguez, a oriente de
Mada-gscar, e colocou na sua rede, para servir de isco, um
fruto grande e castanho cuja polpa branca tinha um cheiro
semelhante ao cruza-mento entre um caixo aberto e um
esgoto, um verdadeiro depsito de cadaveres. Parece
horrvel, de modo que eu, s para ver se ele tem razo,
coloquei essa ilha e esse fruto na extensa lista de destinos
sensoriais que gostaria de visitar um dia.
   Embora antiga, natural e incontrolvel, uma ventosidade
anal , em geral, considerada repelente, uma falta de
educao, havendo mesmo quem a considere o cheiro do diabo.
*The Merck Manual*, num divertido e inesperado captulo sobre
Doenas Funcionais do Intestino com o subttulo Gases,
descreve as suas possveis cau-sas e tratamentos, os seus
diversos sintomas e sinais, acrescentando esta informao:

   Entre aqueles que sofrem de flatulncia, a quantidade e
fre-quncia da emisso de gases pode atingir propores
assombrosas. Um estudo cuidadosamente elaborado registou um
paciente com uma frequncia diria de 141 flatos, incluindo 70
emisses num perodo de quatro horas. Este sintoma, que
provoca grande angs-tia psicossocial, foi classificado, de
forma no oficial, de acordo com as suas caractersticas
proeminentes: (1) a /bufa/ (tipo /elevador em hora de
ponta/) que  libertada lentamente e sem estrondo, por vezes
com um efeito devastador; (2) o tipo /esfncter aberto/, ou
/pum/, que se diz ser de temperatura elevada e mais
aromtico; e (3) o tipo /traque/ ou /rufo de tambor/,
facilmente ouvido em privacidade.
   Embora se tenham levantado ultimamente questes
relaciona-das com poluio e degradao da atmosfera, nenhuns
estudos fo-ram ainda efectuados. Parece, contudo, no existir
perigo para as pessoas que trabalham junto ao fogo e h mesmo
conhecimento de uma brincadeira infantil que consiste em
expelir gases sobre a chama de um fsforo. Embora raramente,
houve quem tirasse par-tido deste sintoma, de um modo geral
angustiante, como aconteceu com um francs conhecido por *Le
Ptomane* que fez fortuna com as suas actuaes no palco do
Moulin Rouge.

   Em *Le Miasme et la Jonquille*, uma histria fascinante
sobre o mau cheiro, o perfume e a sociedade, Alain Corbin
descreve os esgotos a cu aberto na Paris do tempo da
Revoluo e salienta o papel im-portante que o cheiro teve na
fumigao atravs dos tempos. H vrios tipos de fumigao:
fumigao por razes de sade (sobretudo durante :, as
pestes); fumigao de insectos; e at fumigao religiosa e
moral. Nos castelos medievais, espalhava-se pelo cho junco,
alfazema e to-milho, que se dizia evitarem o tifo. Tambm os
perfumes eram muitas vezes usados para fins mgicos e
alquimistas, prometendo a realizao de um desejo. Se julgam
extravagantes os anncios de perfumes dos nossos dias, reparem
nos que se faziam no sculo XVI. Em *Les Secrets de Maistre
Alexys le Piedmontois*, um livro sobre cosmticos, o autor
promete que a sua *eau de toilette* far as mulheres belas,
no apenas por uma noite mas eternamente. Eternamente 
uma expresso poderosa em publicidade e provavelmente leva o
po-tencial consumidor a ler a letra mida. Aqui tm a
vampiresca receita: Retirem um corvo jovem do seu ninho,
alimentem-no de ovos cozi-dos durante quarenta dias, matem-no
e depois destilem-no com folhas de mirtilo, p de talco e leo
de amndoas. Esplndido. Exceptuando o fedor e um desejo
incontrolvel de citar Poe, sem dvida que o seu utilizador se
transformar numa beldade devoradora, empoleirada no beiral da
eternidade.
   

FEROMONAS


   As feromonas so os animais de carga do desejo (do grego
*phe-rein*, carregar, e *horman*, excitar). Tal como ns, os
animais no s tm odores distintos como tambm possuem
poderosas feromonas que levam o outro animal a ovular e a
acasalar, ou estabelecem hie-rarquias de influncia e poder.
Influenciam pelo cheiro, muitas ve-zes de formas engenhosas.
As crias do arganaz e do pequeno lmu-re-africano molham as
solas das patas com urina, com a qual marcam o cho ao
patrulharem o seu territrio. Os antlopes marcam as rvores
com as glndulas aromticas dos seus focinhos. Os gatos tm
glndulas de cheiro nas bochechas, que costumam esfregar na
perna de algum ou de uma mesa preferida. Depois de fazermos
uma festa a um gato, se ele gosta de ns lambe-se para
apreciar o cheiro deixado pela nossa mo. E em seguida pode ir
arranhar o nosso sof preferido e anichar-se nele, no por
ach-lo confortvel mas porque ele contm o nosso cheiro. O
furo, tal como o texugo, ar-rasta o nus pelo cho a fim de
deixar a sua marca. Jane Goodall, em *The Innocent Killers*,
relata que a fmea e o macho do co sel-vagem marcam com os
seus cheiros exactamente as mesmas folhas de erva a fim de
informar todos os interessados que formam um ca-sal. Quando a
minha amiga leva a sua cadela *Jackie* a passear, esta fareja
o passeio, uma pedra, uma rvore, para saber que co ali :,
esteve, qual a sua idade e sexo, e qual o seu estado de
esprito ou de sade quando l esteve pela ltima vez.  como
se *Jachie* estivesse a ler a coluna social do jornal da
manh. A rua revela as suas pistas invisveis ao faro de
*Jackie*, de uma forma que no est ao alcance da dona. A
cadela acrescenta o seu odor ao j existente num tufo de relva
e o prximo co a passar por ali ler, nos hierglifos
aromti-cos daquele bairro: Cinco da tarde, jovem fmea, a
fazer um tra-tamento  base de hormonas devido a uma infeco
da bexiga, bem alimentada, alegre, procura amigo.
   Muitas vezes, as mensagens no podem ser imediatas:
precisam de perdurar durante um certo tempo, sem deixarem de
ser um aviso permanente, como um faro1 que orienta os animais
atravs dos mo-lhes da incerteza. A maior parte dos cheiros
resplandecer durante algum tempo no local onde um piscar de
olhos talvez passe desper-cebido, um msculo flectido d a
entender demasiadas coisas, uma voz espante ou ameace. Para a
presa, o cheiro do seu perseguidor servir-lhe- de aviso; para
o caador, o cheiro da sua presa servir-lhe-- de isco. Claro
que muitos animais emanam determinados odores como forma de
defesa. Certos fures fazem o pino e esguicham um fedor
horrvel para cima dos seus atacantes. Para os insectos, o
cheiro  a forma de comunicao por excelncia: um guia dos
stios ideais para fazer o ninho ou pr ovos, uma maneira de
convocar reunies, um toque de clarim que anuncia a realeza,
um sinal de perigo, um centro de cartografia. Na floresta
tropical, vem-se longas filas de in-fatigveis formigas,
marchando umas atrs das outras sobre trilhos aromticos que
os seus guias prepararam para elas. Pode parecer que seguem
com dificuldade, fazendo um esforo laborioso, mas esto
sempre em contacto umas com as outras, tagarelando
constantemente sobre algo importante para elas. Uma borboleta
macho da famlia *Danaidae* vai voando de flor em flor e
guardando uma mistura de cheiros nas bolsas que tem nas patas
traseiras, at obter a fragrncia perfeita para atrair uma
fmea. (*) 

(*) Para atrair um parceiro, as borboletas libertam um aroma
que pode cheirar a rosas, heliotrpios e outras flores. (*N.
da A*.)

Os pssaros cantam para anunciar a sua presena no mundo,
marcar o seu territrio, impressionar um parceiro, dar a
conhecer o seu estatuto -- afinal, quase sempre por motivos
relacionados com sexo e acasalamento. Os mamferos prefe-rem
usar os odores em composies to complexas e originais como
as canes dos pssaros, e que tambm se propagam pelo ar. As
crias de cangurus, os cachorrinhos e muitos outros mamferos
so cegos  nascena e encontram o mamilo pelo cheiro. Quando
as mes focas :, vm da pesca e regressam a uma praia cheia de
filhotes, reconhecem os seus pelo cheiro. Uma me morcego, ao
entrar numa gruta com milhes de mes e filhotes morcegos
agarrados s paredes ou a es-voaar, consegue encontrar a sua
cria chamando-a e cheirando o seu rasto. H tempos estive num
rancho de gado no Novo Mxico e muitas vezes via um vitelo a
mamar tranquilamente com a pele de outro vitelo atada s
costas. As vacas reconhecem as suas crias pelo cheiro, o qual
estimula os seus instintos maternais, portanto sempre que um
vitelo nascia morto, o rancheiro tirava-lhe a pele e passava o
seu cheiro para um rfo.
   Os animais no seriam capazes de viver muito tempo sem
fero-monas, pois no poderiam marcar o territrio nem escolher
parceiros receptivos e frteis. Mas existem feromonas humanas?
E podem ser comercializadas? Entre algumas mulheres chiques de
Manhattan tor-nou-se popular um perfume chamado *Pheromone*,
que custa apro-ximadamente 100 dlares por decilitro. Caro,
talvez, mas qual o preo da afrodisia? Baseado em descobertas
sobre os atractivos se-xuais emanados pelos bichos, o perfume
promete, implicitamente, dar  mulher um cheiro provocante e a
capacidade de transformar os homens mais renitentes em
escravos do desejo: ressuscit-los pa-ra o amor. O facto
curioso acerca das pretenses desse perfume  que o fabricante
no revelou *que* feromonas contm. As feromonas humanas ainda
no foram identificadas pelos investigadores, ao passo que as
do javali, por exemplo, j foram. Uma gerao de mulheres
jovens a andar pelas ruas usando feromonas de javali  uma
viso estranha, mesmo para Manhattan. Permitam-me que proponha
uma receita subversiva: soltem uma vara de porcas em Park
Avenue. Misturem bem com grupos de mulheres usando a
gua-de-colnia *Pheromone*. Chamem o 115.
   Se  verdade que ainda no localizmos feromonas humanas, 
certo que podemos usar as nossas secrees, tal como os
animais e guardar em frascos os nossos eflvios de diferentes
dias do ms. Avery Gilbert, biofisilogo, no pensa assim.
Para ele, isso teria um efeito psicolgico e no qumico.
Declarou  revista *Gentle-man.s Quarterly*: Se pegssemos
num frasco cheio de fluidos ge-rados pelas glndulas sexuais
femininas durante a copulao e o colocssemos em cima da
secretria de um homem, mesmo que re-conhecesse o odor, ele
sentir-se-ia *embaraado*. Porque estaria fora do contexto,
que  o que marca a diferena. Os consumidores do sexo
masculino s acreditam no argumento de que esse componente
excita as mulheres quando so ingnuos. No creio que haja um
produto qumico capaz de faz-lo. Porm, o importante talvez
no
:, seja exactamente o odor que os homens emanam, mas o sinal
de disponibilidade, a sugesto de autoconfiana. So esses os
argu-mentos implcitos e que talvez resultem. E essa 
provavelmente a razo bsica pela qual as pessoas usam o
produto.
   Um dos colegas de Gilbert, George Preti, levou a cabo uma
expe-rincia em que se dava a cheirar a dez mulheres, a
intervalos regula-res, o suor de outras mulheres. Ao fim de
trs meses, as mulheres comearam a menstruar ao mesmo tempo
do que as outras cujo suor tinham cheirado. Um outro grupo,
lambuzado com lcool em vez de suor, no alterou de forma
alguma os seus ciclos. Tornou-se bvio que a feromona do suor
afecta a sincronia menstrual, e por isso  frequente que as
mulheres que partilham um dormitrio ou so amigas ntimas
tenham a menstruao ao mesmo tempo, um fenmeno conhecido
como efeito McClintock (de Martha McClintock, a psicloga
que o observou pela primeira vez). Parece existirem outros
efeitos. Quando um homem tem uma relao com uma mulher,
qualquer que seja a sua durao, o seu cabelo facial comea a
crescer mais depressa do que antes. As mulheres que vi-vem
separadas dos homens (num colgio interno, por exemplo)
en-tram na puberdade mais tarde do que as que convivem com
ho-mens. As mes reconhecem o cheiro dos seus recm-nascidos,
e vice-versa, de modo que alguns mdicos esto a fazer a
experincia de dar a cheirar s crianas o odor da me
juntamente com o anes-tsico, nas operaes. Os bebs sabem
pelo cheiro se a me entrou no quarto, apesar de no a verem.
Em *Peter Pan*, de J. M. Barrie, as crianas conseguem mesmo
cheirar o perigo enquanto dormem. As mes de crianas
pequenas sabem qual a *T-shirt* que o seu filho usou. O mesmo
no se passa com os pais, que no reconhecem o cheiro dos
filhos, embora saibam dizer se uma *T-shirt* foi usada por um
homem ou por uma mulher. As feromonas afectam, de facto, as
pessoas. Mas at que ponto? Provocaro em ns reaces
vigorosas, tal como nas traas ou castores, ou ser que, na
nossa longa lista de per-cepes sensoriais, a sua importncia
no ultrapassa a dos estmulos visuais ou auditivos? Se vejo
um belo homem de olhos azuis, terei uma visualmona como lhe
chamou certo investigador, ou no ser que os olhos azuis me
excitam apenas porque so considerados atraentes na cultura,
poca e contexto em que me encontro inserida? Os olhos azuis,
olhos de beb, lembram-nos recm-nascidos de raa branca e
en-chem-nos de instintos maternais. Todavia, em certas
culturas africanas so considerados demonacos, frios, feios.
   A fico cientifica assustou-nos muitas vezes apresentando
os seres humanos como autmatos, dirigidos por foras
desconhecidas, :, com crebros que emitem sinais telefnicos.
Suponhamos que as feromonas neutralizam secretamente as nossas
capacidades de es-colha e deciso. A ideia aflige. No
gostamos de perder o controlo, a no ser de propsito --
durante o sexo, festas, misticismo reli-gioso ou sob o efeito
de drogas --, e mesmo assim estamos con-vencidos de que
continuamos a controlar as coisas, ou pelo menos de que
retomaremos esse controlo rapidamente. A evoluo  com-plexa,
por vezes divertida, e  uma aventura to grande que poucos
dos seus caprichos ou *obbligatos* me assustam. A nossa
aparente necessidade de violncia mete medo, mas no a
possibilidade de termos uns com os outros conversas
elaboradas, embora subtis, por meio de feromonas. A livre
vontade poder no ser inteiramente livre, mas  com certeza
voluntariosa; no entanto, parece conter muito de forado.
Magistrais improvisadores, os seres humanos sa-bem rever a sua
posio seja qual for o tema. Se h alguma coisa em que somos
bons,  em ultrapassar limites, inventar estratgias,
descobrir formas de contornar as verdades mais duras, agarrar
a vi-da pelos colarinhos e sacudi-la bem.  certo que tudo
isso tem um efeito de ricochete, mas tal facto nunca nos
deteve.



NARIZES


   Quando rastejmos ou pulmos do mar para a terra coberta de
arvoredo, o sentido do olfacto perdeu um pouco da sua
premncia. Mais tarde, assumimos uma posio vertical e
comeamos a olhar em redor, a trepar, e descobrimos um mundo
fantstico, espalhado  nossa frente como um campo texano de
tremoos! Conseguimos ver num raio de muitos quilmetros, em
todas as direces! Os inimi-gos, os alimentos, os caminhos
tornaram-se visveis! A sombra de um leo ao longe, movendo-se
furtivamente pela vegetao, cons-titua um aviso mais til do
que qualquer cheiro. A viso e o ouvido tornaram-se mais
importantes para a nossa sobrevivncia. Os ma-cacos no
farejam to bem como os ces. A maior parte dos pssa-ros no
dispe de narizes sofisticados, embora existam excepes: os
abutres do Novo Mundo localizam a carne putrefacta pelo
cheiro, e certas aves marinhas navegam orientando-se pelo
olfacto. Porm, os animais com um faro mais apurado tm
tendncia para andar a quatro patas, com as cabeas prximas
do cho, onde se encontram as hmidas, pesadas e aromticas
molculas do odor. Incluem-se tambm as cobras e os insectos,
bem como os elefantes (cujas trombas chegam ao cho) e a
maioria dos quadrpedes. Os porcos cheiram trufas, enterradas
na terra, a dez centmetros de :, profundi-dade. Os esquilos
encontram nozes que enterraram meses atrs. Os sa-bujos sentem
o cheiro de um homem numa sala, muitas horas de-pois de ele
sair, e em seguida detectam as poucas molculas que passam
atravs das solas dos sapatos para o cho que ele pisa, mesmo
que o terreno seja acidentado e que a noite esteja de
tem-pestade. Os peixes precisam de ter capacidades olfactivas:
o salmo consegue cheirar as guas longnquas onde nasceu, s
quais precisa de se dirigir para desovar. De regresso a casa,
uma borboleta macho orienta-se pelo cheiro da fmea que est a
quilmetros de distncia. Pobres de ns, os compridos, altos e
verticais, cujo sentido do ol-facto enfraqueceu com o tempo.
Quando nos dizem que um ser humano tem cinco milhes de
clulas olfactivas, parece-nos uma brutalidade. Mas um co
pastor, que tem duzentos e vinte milhes, cheira quarenta e
quatro vezes melhor do que ns. Que cheira ele? Que ficamos a
perder? Imaginem s o mundo estereofnico de aromas que temos
de atravessar como sonmbulos sem auscultadores Mesmo assim, 
verdade que possumos um sentido do olfacto no-tavelmente
detalhado, tendo em conta a pequenez dos nossos r-gos
olfactivos. Como os nossos narizes so salientes em relao ao
nosso rosto, os odores ainda tm um longo caminho a percorrer
antes de tomarmos conscincia do que o nariz sondou.  por
isso que enrugamos o nariz e fungamos: para deslocar as
molculas do odor de modo a aproxim-las dos nossos receptores
olfactivos, in-comodamente escondidos nas regies mais
recnditas do nariz.


ESPIRROS


   Poucos prazeres so to intensos como um simples espirro.
Todo o corpo se encrespa num deleite orgstico. Mas s os
seres humanos es-pirram com a boca aberta. Os ces, gatos,
cavalos e a maior parte dos animais espirram apenas pelo
nariz, descrevendo o ar uma ligeira curva na regio do
pescoo. J os humanos incham e estremecem, numa im-pacincia
preparatria, inspiram uma grande golfada de ar, contraem as
costelas e o estmago como se fossem foles e disparam
violentamente o ar para o nariz, onde ele fica retido,
dinamita toda a regio, acabando por ser expelido
simultaneamente e com grande espalhafato pelo nariz e pela
boca. No teria grande importncia, se os nossos pulmes
liber-tassem lentamente o ar durante um espirro. Contudo, um
grupo de in-vestigadores da Universidade de Rochester
descobriu que um espirro expele ar a oitenta e cinco por cento
da velocidade do som, velocidade suficiente para expulsar
bactrias e outros detritos do organismo, o objectivo do
espirro. Os narizes humanos tm uma curva apertada ao :,
fundo das vias nasais, o que torna todo o processo da
respirao mais rduo e a inalao de molculas do cheiro mais
difcil. O percurso do ar durante um espirro no  em linha
recta. Temos de abrir a boca. Se espirrarmos de boca fechada,
o ar troveja pelas cavidades e vias que temos na cabea, em
busca de uma sada, e pode magoar os nossos ou-vidos. Existem
muitas teorias para o mau *design* dos nossos narizes; em
ltima anlise, ter provavelmente a ver com o aumento de
tama-nho dos nossos crebros e o pouco espao deixado
disponvel no cr-nio, e com o objectivo de permitir uma viso
estereofnica. Bedichek sugere que o *design* s se tornou
pouco apropriado quando nos aglomermos nas zonas
congestionadas a que chamamos /cidades/. A, o nariz viu-se
de repente forado a exercer uma funo que no era suposto
desempenhar, expelir p e poeira, estando ao mesmo tempo
sujeito aos odores insuportveis da porcaria municipal e,
finalmente, a vapores do vasto laboratrio qumico em que a
cidade moderna se transformou. O poeta do sculo XVII
Abraham Cowley coloca a questo sob a forma de pergunta
retrica:

*Quem, no seu perfeito juzo e olfacto 
No preferiria viver entre rosas e jasmins, 
Em vez de sufocar o seu humor 
Em exalaes de sujidade e vapor*?

   Basta uma pequena comicho. Ou o sol. H pessoas que, como
eu, herdaram uma estranha caracterstica gentica que os faz
espir-rar quando enfrentam uma forte claridade. Tenho de dizer
que tal sintoma recebeu o nome excessivamente engenhoso de
ACHOO (acrnimo de Autosomol Dominant Compelling
HelioOphtalmic Outburst: exploso helioftlmica compulsiva
dominante auto-somtica). Se sinto que um espirro se aproxima,
basta-me fitar o sol para provocar a exploso, um ligeiro
apocalipse.


:o cheiro como camuflagem 


   Embora estejamos em Abril, h semanas que neva em Ithaca,
pelo menos  o que diz o meu vizinho -- eu tenho estado em
Ma-nhattan, de clima martimo. Em direco  porta e s
grandes jane-las de minha casa, descubro pegadas de veado
pequenas e sumidas que atravessam do lago gelado coberto de
geada brilhante e depois descrevem uma linha sinuosa at
atingirem as duas macieiras com os seus frutos envoltos em
gelo. Vejo que aprenderam a caminhar sobre a gua, a pastar as
delcias aromticas escondidas debaixo da :, terra e at a
melhor maneira de se deslocarem numa estao evasiva de caa e
gelo. Ser que me procuraram, ou o local onde me costu-mava
colocar, reflectida no vidro? E se, l mais para o fim da
Pri-mavera, o lago gelado lhes prega uma partida e cede sob as
suas patas, depois quebra e eu no lhes ouo os gritos
submersos? E se eu, como a neve, fui longe de mais?
Entusiasmada com o dialecto das cidades, esqueci-me do modo
como os veados entram furtiva-mente nos quintais com os seus
coraes grandes e sonhos frgeis. No estava c, no pude
seguir os seus olhos tristes e sensatos nem a desconcertante
poesia das suas patas.
   Vejo-os muitas vezes a pastar no quintal, mas quando saio
para os ver mais de perto eles sentem o meu forte odor humano,
esqui-vam-se at  vedao e regressam, num pulo, ao seu
pandemnio verde. Este Vero vou mascarar-me-de confera ou
cogumelo. Vi a receita num nmero recente da revista *Field
and Stream*: para en-ganar veados e coelhos, pegue em algo que
no contenha demasiado tanino (btula, pinheiro, cogumelos,
cicuta, gaultria ou uma confera aromtica, por exemplo) e
ponha a secar durante uma ou duas semanas. Pique tudo e
coloque dentro de um frasco, enchen-do-o at meio. Junte vodca
pura. Coe num filtro de papel. Verta o lquido obtido para um
vaporizador. Aplique abundantemente para disfarar o seu
cheiro humano. Deixe germinar as suas ideias.


ROSAS


   Tenho na mo uma rosa cor de alfazema denominada Angel
Face, de uma das vinte e cinco variedades de roseiras
plantadas em volta de minha casa. Durante os primeiros anos,
os veados que frequentam o meu quintal costumavam entrar
furtivamente ao rom-per da manh e comer todos os apetitosos
rebentos e botes. Uma vez comeram as roseiras todas at ao
p, deixando apenas umas pe-quenas salincias que pareciam o
despontar de pequenos chifres. Estou habituada a desfalques
desses no meu quintal. No primeiro Vero da videira, assisti 
evoluo de dois cachos que se encheram de suculentos frutos
arroxeados com um aspecto delicioso e que pa-recia rebentarem
de tanta fragrncia. Todos os dias os observava, esperando o
ponto de maturidade perfeito, imaginando como seria delicioso
rolar os bagos frescos, doces e sumarentos na minha ln-gua.
Um dia, a luminosidade roxa das uvas transformou-se numa
iridescncia forte e tensa e percebi que na manh seguinte
estaria na altura de apanh-las. Tal conhecimento no me
estava exclusiva-mente reservado. Quando acordei, vi que todas
as uvas tinham sido :, chupadas uma a uma e as peles
espalhavam-se pelo cho como pre-pcios roxos. Da em diante,
a mesma cena, desempenhada pelos guaxinins, repetia-se todos
os Outonos, apesar das armadilhas, cho-calhos, arame farpado e
outros mtodos de dissuaso e, para ser franca, nunca mais
quis saber de uvas nem de guaxinins. Mas as ro-sas so um
problema mais complicado.
   Gosto tanto de veados como de rosas, de forma que decidi
usar o cheiro como arma -- ao fim e ao cabo,  o que as
plantas fazem --, e borrifei as roseiras com uma mistura de
tabaco e nafta. Deu resultado, mas o ar ficou impregnado de um
fedor pestilento. A no ser que achem bom o cheiro de uma
equipa de jogadores de basebol num acampamento de Inverno, com
as bocas fartas de mastigar porcarias e os bolsos cheios de
bolas de naftalina. Para este ano, estou a pensar noutra
coisa: alfazema. Os veados detestam o seu cheiro penetrante;
encomendei dzias de arbustos para plantar em volta das
roseiras e dos hemerocales, na esperana de que for-mem uma
barreira aromtica quando os veados vierem fazer a sua visita.
No entanto, dividiremos o esplio. Deixo-lhes os exuberantes
arbustos de framboesas, que eu desisti de colher, e as duas
macieiras. Os guaxinins ficam com a videira, os coelhos com os
morangos silvestres. Mas as rosas so sacrossantas por
encherem os meus sentidos com aromas to delicados. O perfume
mais caro do mundo, e um clssico de todos os tempos, o
*Joy*,  uma mistura de dois aromas florais: jasmim e montes
de rosas.
   Mais do que qualquer outra flor, as rosas tm atormentado,
seduzido e embriagado muita gente. Desde a Antiguidade que
con-quistam burgueses, camponeses, viciados em flores e
sensustas. Em Damasco e na Prsia, as pessoas costumavam
enterrar no jar-dim frascos cheios de botes de rosa que iam
buscar em ocasies especiais para usar nos banquetes: as
flores desabrochavam sobre as travessas, causando um efeito
espectacular. Na verso cinematogr-fica de Jean Cocteau do
conto *A Bela e o Monstro*, toda a confuso e magia comea
quando um homem apanha uma rosa para oferecer  filha, o nico
desejo dela entre um mar de riquezas. H muitos anos, os
Europeus criaram uma robusta espcie hbrida de roseira,
vis-tosa, diferente de todas as outras e muito resistente,
cuja fragrncia conseguia at perfumar uma esttua. Mas no
sculo XVIII comea-ram a importar da China as requintadas
rosas-ch, que cheiravam a folhas de ch esmagadas, alm de
outras espcies resistentes ao frio e com muitas floraes, de
cores que iam do amarelo ao vermelho--vivo. Cruzando as
hbridas chinesas com as rosas europeias, com o mesmo desvelo
com que se cruzam cavalos de corrida, obtiveram :, uma
produo de rosas subtis e sofisticadas, numa variedade
infinita de cores, formas e aromas. Chamaram-lhes rosas-ch
hbridas. Desde ento, j se criaram mais de vinte mil
variedades, chegando a rosa a estar em risco de perder o seu
aroma devido ao excesso de cru-zamentos. A fragrncia parece
ser uma caracterstica recessiva nas rosas, e da enxertia de
roseiras profundamente aromticas pode nas-cer uma variedade
com ptalas perfeitas mas sem cheiro. Felizmente, hoje esto
na moda as roseiras perfumadas. A rosa-ch hbrida mais
popular em todo o mundo  a Paz, uma variedade soberba, em
v-rias tonalidades pastel com matizes cor de poente que
gritam ao meio-dia, emudecem ao pr do Sol e vo registando
todo o espectro de luz ao longo do dia. Os seus botes ovais
abrem-se em folhos amarelo-plidos com extremidades
translcidas muitas vezes laiva-das de amarelo. E cheira a
couro adoado com mel. Entre todas as minhas rosas, a Paz
parece ter uma pele e ndole quase humanas, que variam
conforme a humidade e luz de cada dia. Sendo uma rosa
experimental, foi baptizada a 2 de Maio de 1945 (dia da queda
de Berlim), na Pacific Rose Society. em Pasadena, porque esta
ex-traordinria rosa dos nossos dias deve receber o nome
daquilo que os homens mais desejam: a paz. Muitos presidentes
deram o nome a variedades de rosas (a Lincoln  vermelha cor
de sangue, a John Kennedy  imaculadamente branca) e h
rosas cujo nome homena-geia espirituosamente artistas de
cinema ou outras celebridades (a Dolly Parton  vistosa e
insinuante, com enormes botes). Embora as rosas simbolizem a
beleza e o amor, as suas cores, textura, formas e cheiros so
difceis de descrever. A Sutter.s Gold, uma das mi-nhas
hbridas preferidas, produz uma flor achatada e ondulada de
ptalas amarelas com pinceladas cor de damasco, fcsia e
cor-de-rosa e um aroma a folhas doces e hmidas. As
floribundas, embora sejam rosas modernas, enchem-se de flor
durante todo o Vero. A Fairy praticamente no tem cheiro
mas  uma exploso constante de flores, da Primavera ao
Inverno, mesmo que caia neve. As rosas j eram consideradas
antigas em 270 a. C., quando o botnico grego Teo-frasto
escreveu sobre a rosa-de-cem-folhas. Encontraram-se rosas
bravas fossilizadas com quarenta milhes de anos. A rosa
egpcia era aquela a que hoje chamamos centiflia, conhecida
pela sua enorme quantidade de ptalas. Quando Clepatra
recebeu Marco Antnio no seu quarto, o cho estava juncado
dessas ptalas, formando um tapete com quarenta centmetros de
espessura. Ser que usaram o cho e fi-zeram amor sobre um mar
de ptalas, macias, aromticas e trepidan-tes? Ou tero
preferido a cama, como se estivessem em cima de uma jangada,
flutuando num oceano perfumado? :,
   Clepatra conhecia bem o seu convidado. Poucas pessoas
senti-ram pelas rosas uma obsesso to grande como os Romanos.
As ro-sas eram espalhadas nas cerimnias pblicas e banquetes;
as fontes do imperador jorravam gua de rosas, que tambm
ondulava nos banhos pblicos; nos anfiteatros, as multides
sentavam-se debaixo de toldos embebidos em perfume de rosas;
usavam-se ptalas de ro-sa como enchimento para travesseiros;
enfeitavam-se os cabelos com grinaldas de rosas; comiam-se
doces feitos de rosas; todos os remdios, poes de amor e
afrodisacos continham rosas. Nenhuma bacanal, a orgia oficial
romana, estava completa sem uma profuso de rosas. Criou-se um
feriado, Rosalia, para celebrar oficialmente a paixo pela
flor. Num banquete famoso, Nero mandou colocar uns tubos de
prata cheios de perfume debaixo de cada prato, para que os
convidados pudessem vaporizar-se durante a refeio. Puderam
ainda admirar um tecto onde estava pintado o paraso celeste e
que se abria para os salpicar de perfume e flores. Num outro,
gastou o equivalente a 160 mil dlares s em rosas -- e um dos
convidados morreu su-focado debaixo de uma chuva de ptlas.
   Para as culturas islmicas, a rosa era um smbolo mais
espiri-tual, smbolo esse que, segundo o mstico do sculo
XIII Yunus Emre,  suposto clamar Al! Al! de cada vez
que  cheirado. Maom, grande devoto do perfume, afirmou que a
superioridade do extracto de violetas sobre todas as outras
flores era como a sua su-perioridade em relao a todos os
outros homens. Todavia, era com gua de rosas que se fazia a
argamassa em todos os seus templos. As rosas dissolvem-se
surpreendentemente bem na gua, produzindo excelentes
refrescos e massas; por isso a flor  um delicado ingre-diente
bsico da cozinha islmica, alm de ser muito usada para
aromatizar ornamentos. Ainda hoje, a hospitalidade islmica
manda que se salpique um convidado com gua de rosas mal ele
entre em casa do seu anfitrio.
   Os primeiros rosrios consistiam em 165 ptalas de rosa
cui-dadosamente secas e enroladas (algumas delas escurecidas
com negro-de-fumo, um conservante) e a rosa era o smbolo da
Vir-gem Maria. Quando os cruzados regressaram  Europa, com os
sentidos saturados das delcias exticas que descobriram no
conv-vio com os infiis, trouxeram com eles essncia de
rosas, alm de sndalo, bolas de cermica contendo substncias
aromticas e ou-tras ricas especiarias e aromas, alm da
recordao dos harns, on-de mulheres sensuais e lnguidas se
dedicavam a dar prazer aos homens. Os leos perfumados que
vieram com os cavaleiros ime-diatamente se popularizaram,
sugerindo todos os prazeres :, depravados do Oriente, to
sedutores e irresistveis quanto proibidos. Pra-zeres que
atordoavam os sentidos, tal como uma rosa.






O ANJO CADO


   Os cheiros evocam memrias, mas tambm nos despertam os
sentidos adormecidos, mimam-nos e favorecem-nos, ajudam a
criar a nossa imagem, atiam o nosso caldeiro de encantos,
avisam-nos do perigo, levam-nos  tentao, activam o nosso
fervor religioso, acompanham-nos ao cu, aliam-nos  moda,
mergulham-nos no lu-xo. No entanto, com o correr dos tempos, o
olfacto tornou-se o me-nos necessrio dos nossos sentidos, o
anjo cado, como lhe cha-mou dramaticamente Helen Keller.
Alguns investigadores crem que  de facto atravs do olfacto
que recebemos grande parte das mes-mas informaes que chegam
aos outros animais. Numa sala cheia de homens de negcios,
sabemos quem so os indivduos impor-tantes, os mais
confiantes, os que esto sexualmente disponveis, os que tm
problemas, tudo atravs do olfacto. A diferena  que no
estamos preparados para responder. Tomamos conscincia do
chei-ro, mas no reagimos automaticamente de determinada forma
por causa dele, como acontece com muitos animais.
   Certa manh apanhei o comboio para Filadlfia, a fim de
visitar o Centro Monell Chemical Senses, que fica perto da
Universidade Drexel. Construdo como um bairro vertical, o
edifcio Monell aloja centenas de investigadores que estudam a
qumica, a psicologia, as propriedades curativas e as
caractersticas especiais do cheiro. Muitos estudos polmicos
sobre feromonas foram efectuados no Monell ou em instituies
similares. Numa experincia, contrata-ram-se inmeras
donas-de-casa para cheirar axilas de annimos; num outro
estudo, levado a cabo por um fabricante de desodorizante para
mulheres, o espectculo era ainda mais bizarro. Algumas das
preocupaes do Centro Monell: como reconhecemos os cheiros;
que acontece quando uma pessoa perde o olfacto; variao do
ol-facto  medida que a pessoa vai envelhecendo; formas
originais de controlar os parasitas da vida selvagem atravs
do cheiro; de que forma podem os odores corporais ajudar a
diagnosticar doenas (o suor dos esquizofrnicos  diferente
do das outras pessoas, por exemplo); influencia dos odores
corporais no nosso comportamento social e sexual. Os
investigadores do Centro Monell descobriram, numa das
experincias mais fascinantes do nosso tempo, que os ratos
conseguem detectar diferenas genticas de potenciais
parcei-ros apenas pelo cheiro; adivinham informaes sobre os
sistemas :, imunitrios dos outros animais. Quem quiser
produzir uma descen-dncia robusta ter de acasalar com algum
com resistncias dife-rentes das suas, de modo a criar o
mximo de defesas em relao a intrusos, vrus, bactrias,
etc. E a melhor maneira de consegui-lo  produzir um sistema
imunitrio omnicompetente. A Natureza s ganha com o
cruzamento de espcies. *Misture bem*  o lema da vida. Aos
cientistas do Centro Monell foi possvel criar ratos
especiais, que diferem uns dos outros num nico gene apenas, e
observar as suas preferncias em relao ao acasalamento.
Todos escolheram parceiros cujos sistemas imunitrios,
combinados com os seus, produziriam as mais robustas crias.
Alm disso, no basea-vam a sua escolha na percepo do seu
prprio cheiro, mas na re-cordao que conservavam do cheiro
dos pais. Nada disto era pon-derado, claro; os ratos
acasalavam apenas de acordo com o seu instinto, sem se darem
conta de ordens subliminares.
   Ser possvel que os seres humanos faam o mesmo e tambm
sem dar por isso? No necessitamos de cheiros para marcar
territ-rios, estabelecer hierarquias, reconhecer indivduos
e, principal-mente, saber se uma mulher est no seu perodo
frtil. No entanto, basta reparar no uso excessivo do perfume
e no efeito psicolgico que ele exerce sobre ns, para se
tornar claro que o cheiro  um velho cavalo-de-batalha da
evoluo, que tratamos bem e alimen-tamos, e de que no
conseguimos libertar-nos. No precisamos dele para sobreviver,
mas precisamos dele sem saber porqu; talvez, em parte, pela
nostalgia que sentimos por um tempo em que ramos mais
parecidos com os outros animais, profundamente ligados 
Natureza.  medida que a evoluo tem vindo a fazer
desaparecer o nosso olfacto, os qumicos tm-se esforado por
restaur-lo. Nem  coisa que faamos ocasionalmente; ns
encharcamo-nos deles, nadamos em cheiros. Perfumamos no s os
nossos corpos e casas, mas quase todos os objectos que fazem
parte da nossa vida, do au-tomvel ao papel higinico. Os
vendedores de carros em segunda mo usam um *spray* com
cheiro a carro novo, de resultados ga-rantidos na venda do
maior monte de sucata. Os agentes imobilirios costumam
espalhar aromas de bolos a cozer na cozinha das casas antes
de mostr-las aos clientes. Os centros comerciais introduzem
aroma a *pizza* nos seus sistemas de ar condicionado para
levar as pessoas a visitar os seus restaurantes. Vesturio,
pneus, marcado-res de feltro, brinquedos, tudo  bem
perfumado. At se encon-tram  venda uns discos de perfume que
se podem tocar como os outros no gira-discos, s que deitam
cheiro. Como muitas experincias demonstraram perante dois
frascos de um leo para mveis idntico, :,
um deles com um aroma agradvel, as pessoas so capazes de
jurar que o que cheira bem  mais eficaz. O odor afecta
grandemente a apreciao que fazemos das coisas e a nossa
opinio sobre as pes-soas. Mesmo os chamados produtos sem
cheiro esto na verdade perfumados, em geral com um pouco de
almscar, para disfarar os odores qumicos dos ingredientes
que os compem. Com efeito, apenas 20 por cento dos lucros da
indstria da perfumaria vem do fabrico de perfumes; os outros
80 por cento vm do perfume de objectos que fazem parte da
nossa vida. A nacionalidade tem influncia sobre as
fragrncias, como descobriram muitas compa-nhias. Os Alemes
gostam de pinheiro, os Franceses preferem aromas florais, os
Japoneses, odores mais delicados, os Norte-Americanos
in-sistem nos cheiros intensos e os Sul-Americanos gostam de
cheiros mais fortes ainda. Na Venezuela, os produtos para
limpeza do cho contm dez vezes mais aroma de pinheiro do que
os que se vendem nos Estados Unidos. O que  comum a quase
todas as nacionalida-des  a necessidade de revestir cho e
paredes com odores agrad-veis, quase sempre a pinheiro ou
limo, para as pessoas se sentirem rodeadas de aroma.
   H uma pequena loja na Terceira Avenida, perto de Gramercy
Park, que, tal como muitos outros estabelecimentos espalhados
por Nova Iorque, vende misturas de delcias para os sentidos.
Encon-tramos l muitas peas de porcelana *Port Meiron*
decoradas com desenhos detalhados de plantas, e o papel de
carta e de embrulho  todo feito  mo, sendo bem visveis as
fibras da madeira e as im-perfeies. Alguns tm uma textura
grosseira, manchados de muitas cores diferentes. O nariz
vai-nos guiando. Pequenas contas de sais de banho pretendem
ter o aroma da Chuva Primaveril, ou de Nantucket. Qual o
cheiro da chuva primaveril? O perfume  muito popular. Mas
talvez nem o maior sensusta saiba explicar a diferena
entre a chuva da Primavera e, digamos, a do Vero ou do
Outono. Se apelarmos antes de mais  imaginao, vem-nos 
mente uma imagem de chuva na Primavera, depois inalamos o seu
cheiro doce e mineral e pensamos, provavelmente, nos lquenes
de chapu vermelho chamados soldados britnicos que
descobrimos quando estivemos no Berkshire, aos dez anos de
idade. Ou evoca o cheiro da chuva caindo sobre a velha tenda
verde e o rudo dos pingos martelando em cima da lona, como um
milhar de dedos. Gramercy Park parece muito prximo desses
anos longnquos. Uma das prateleiras da loja destina-se
inteiramente a fragrncias ambientais. Utilize com o nosso
candeeiro de alumnio para per-fumar os espaos que habita,
explica uma das embalagens. :, *Parfum de l.Ambiance*. Encha
o ar de aromas, perfume aquilo que lhe entra nas narinas, tome
um banho de doura ao passar de uma sala para outra, dance
para misturar as fragrncias.
   Parece que somos incapazes de viver na Natureza sem nos
apode-rarmos dos seus perfumes e us-los como talisms,
imaginando que possumos a sua ferocidade, o seu magnetismo ou
energia. Por um la-do, gostamos de viver em locais onde reina
a higiene e a ordem, e se a Natureza tem a ousadia de
invadi-los, sob a forma de uma ratazana, mosca ou formiga
rastejando pelos rodaps das paredes, um esquilo nos
alicerces, ou um morcego no sto, perseguimo-la com a nsia
de um caador. Por outro lado, insistimos em trazer a Natureza
para den-tro de casa. Com um toque na parede, fazemos a luz do
Sol invadir um quarto, giramos um disco e  Vero, rodeamo-nos
de uma pliade de aromas do exterior absolutamente
desnecessrios: pinheiro, limo, flo-res. Talvez no
precisemos do cheiro para sobreviver, mas sem ele sentimo-nos
perdidos e desadaptados.





ANOSMIA


   Numa noite chuvosa de 1976, um matemtico de trinta e trs
anos foi dar uma volta a p aps o jantar. Todos o
consideravam um gastrnomo, mas tambm um gnio, pois tinha a
capacidade de, depois de provar um prato, enumerar todos os
seus ingredientes com incrvel preciso. Um escritor descreveu
o feito como estando ao nvel da perfeio. Mal ps um p na
rua, uma carrinha que passava a baixa velocidade atingiu-o na
cabea, atirando-o para o passeio. Um dia depois de sair do
hospital descobriu, com horror, que perdera o seu olfacto.
   Visto as suas papilas gustativas ainda funcionarem,
conseguia detectar alimentos salgados, amargos, doces ou
cidos, mas para ele a vida perdera toda a sua impetuosa
suculncia. Sete anos mais tarde, ainda sem conseguir cheirar
e profundamente deprimido, processou o condutor da carrinha e
ganhou. Ficou provado, primeiro, que a sua vida ficara
irremediavelmente mais pobre e, segundo, que sem olfacto ele
corria perigo. Durante esses sete anos, no tinha conse-guido
detectar, por no dispor de olfacto, o fumo durante um
in-cndio no prdio onde vivia; sofrera uma intoxicao
alimentar por no ter cheirado o estado de putrefaco da
comida; no conseguira cheirar algumas fugas de gs. Pior,
talvez, do que tudo isso, perdera a capacidade de sentir
fragrncias e odores que lhe proporcionavam recordaes e
associaes empolgantes. Sinto-me vazio, numa es-pcie de
limbo, disse a um reprter. O pesadelo que estava a viver :,
nem sequer tinha um nome. Aos que no ouvem chamamos surdos
e aos que no vem cegos, mas qual  a palavra para os que
no cheiram? Haver coisa mais aflitiva do que ser gravemente
atingido por uma ausncia sem nome? Anosmia  o termo
cient-fico, uma combinao simples do grego e do latim: sem
+ cheiro. Mas no h uma designao vulgar, como churdo,
por exemplo, que d a uma pessoa uma sensao de integrao ou
normalidade.
   Na *Newsweek* de 21 de Maro de 1988, a coluna My Turn,
escrita por Judith R. Birnberg, constitui um lamento muito
como-vente acerca da sbita perda do olfacto da autora. S
consegue dis-tinguir a textura e a temperatura dos alimentos:
Sou deficiente: um dos 2 milhes de americanos que sofrem de
anosmia, incapacidade de sentir cheiros ou sabores (os dois
sentidos encontram-se fisiolo-gicamente ligados)... Para ns o
rico aroma do caf e o doce sabor das laranjas so de tal modo
um dado adquirido que quando perdemos esses sentidos  quase
como se nos tivssemos esquecido de como se respira. Pouco
antes de ter perdido o olfacto, Judith Birnberg passara um ano
a espirrar. A causa? Uma alergia desconhecida. A anosmia veio
sem pr-aviso... Durante os ltimos trs anos houve curtos
es-paos de tempo, minutos, por vezes horas, em que eu de
repente sentia odores e sabia que isso significava que
conseguiria tambm sentir sabores. Que comer primeiro? Uma
vez, uma dentada numa banana fez-me chorar. As vezes, sentia o
olfacto a desaparecer quando se aproximava a hora de jantar;
ento, o meu marido e eu corramos para o nosso restaurante
preferido. Por duas ou trs ve-zes, consegui saborear, como
por milagre, cada garfada de uma re-feio completa. Mas
normalmente quando acabvamos de arrumar o carro j o paladar
me tinha desaparecido.
   Embora existam centros para o tratamento de disfunes do
olfacto e do paladar (dos quais o mais conhecido talvez seja o
Monell), pouco se pode fazer quanto  anosmia. J fiz uma
tomo-grafia, anlises ao sangue e aos seios nasais, testes de
alergia, vaci-nas antialrgicas, zincoterapia prolongada,
irrigaes semanais dos seios nasais, levei injeces de
cortisona no nariz e fiz quatro ope-raes diferentes. O meu
caso j foi apresentado a vrias juntas medicas... Percorri
todo o inferno hospitalar. Chegou-se ao seguinte consenso:
anosmia provocada por alergia e infeco. Podem existir outras
causas. H pessoas que nascem assim. Ou o nervo olfactivo 
lesionado em resultado de uma concusso. A anosmia pode ser
tambm uma consequncia do envelhecimento, de um tumor
cere-bral ou de exposio a substncias qumicas txicas. Seja
qual for a sua causa, todos nos encontramos numa situao de
risco, por no :, podermos detectar incndios, fugas de gs e
comida estragada. Por fim, Judith resolveu arriscar e
permitiu que um mdico lhe receitasse um esteride
anti-inflamatrio chamado *Prednisone*, numa tenta-tiva de
reduzir o inchao na zona dos nervos olfactivos. Ao se-gundo
dia, tive uma breve sensao de cheiro ao inspirar
profun-damente... Ao quarto dia, comi uma salada ao almoo e
de repente apercebi-me de que conseguia sentir todos os
sabores. Foi como aquele momento de *O Feiticeiro de Oz*,
quando o mundo passa de preto e branco para tecnicolor.
Saboreei a salada: um feijo, uma ti-ra de couve, uma semente
de girassol. Ao quinto dia, solucei -- no por causa da
experincia de cheirar e saborear, mas por verificar que
aquela loucura tinha passado.
   No dia seguinte, ao pequeno-almoo, sentiu o odor do marido
e lancei-me para cima dele, chorando de alegria e
cheirando-o, in-capaz de parar. Tratava-se de um cheiro
familiar perdido durante tanto tempo e agora redescoberto.
Sempre pensei que sacrificaria o olfacto ao paladar, se
tivesse de escolher entre os dois, mas de re-pente percebi
quanto tinha perdido. Tomamo-lo como certo e no reparamos que
*tudo* tem cheiro: as pessoas, o ar, a minha casa, a minha
pele... Passei a inalar todos os odores, bons e maus, como uma
vi-ciada. Infelizmente, esses prazeres duraram apenas alguns
me-ses. Quando Judith comeou a reduzir a dosagem de
*Prednisone*, o que foi inevitvel por uma questo de
segurana (o *Prednisone* provoca edemas e pode suprimir o
sistema imunolgico, alm de ou-tros efeitos secundrios muito
desagradveis), a sua capacidade de cheirar desvaneceu-se mais
uma vez. Seguiram-se duas novas opera-es. Decidiu voltar ao
*Prednisone* e anseia pelo dia mgico em que o seu olfacto
regresse to misteriosamente como desapareceu.
   Nem todas as pessoas sem olfacto sofrem to profundamente.
Do mesmo modo, nem todas as disfunes do olfacto so uma
questo de perda; a deficincia pode revestir as mais
estranhas for-mas. No Monell, tm sido tratadas inmeras
pessoas que sofrem de persistncia de odores, que no
conseguem deixar de sentir o mesmo cheiro desagradvel onde
quer que vo. Algumas esto sempre com um sabor amargo na
boca. Outras tm um olfacto distor-cido ou deformado. Uma rosa
cheira-lhes a lixo. Um bife cheira-lhes a enxofre. O nosso
olfacto enfraquece  medida que envelhecemos e atinge o seu
ponto mximo na meia-idade. As pessoas que sofrem da doena de
Alzheimer perdem muitas vezes o olfacto, juntamente com a
memria (esto ambos intimamente ligados); no futuro, tes-tes
Scratch-and-Sniff (raspar e cheirar) podem ser teis no
diag-nstico da doena. :,
   Investigaes levadas a cabo por Robert Henkin, do Center
for Sensory Disorders, da Universidade de Georgetown, indicam
que em cerca de um quarto das pessoas com problemas de
ol-facto, o desejo sexual desaparece. Que importncia tem o
cheiro no acto de fazer amor? Muita, em especial para as
mulheres. Estou certa de que, mesmo de olhos vendados, seria
capaz de re-conhecer pelo cheiro os homens que conheci
intimamente. Uma vez comecei a sair com um homem elegante,
sofisticado e a-traente, mas quando o beijei foi uma
desiluso, pois senti um le-ve odor a milho numa das suas
faces. No se tratava de gua-de--colnia nem de sabonete: era
apenas o seu subtil cheiro natural e fiquei chocada quando
reparei que ele me repugnava visceral-mente. Embora nos homens
uma resposta to especfica ao chei-ro natural do outro seja
rara, ela  to frequente entre as mu-lheres que se tornou um
clich romntico: quando o amante est longe, ou o marido
morre, uma mulher angustiada tira do arm-rio dele um roupo
ou uma camisa, comprime-a contra o rosto e sente-se invadida
por uma ternura enorme. No se conhecem h-bitos semelhantes
entre os homens, mas no  de admirar que as mulheres dem
maior importncia aos cheiros. As mulheres so mais sensveis
aos odores do que os homens, independentemente do grupo
etrio. Durante algum tempo, os cientistas convence-ram-se de
que isso estava relacionado com o estrogneo, visto haver
provas concludentes de que as grvidas tinham um olfacto mais
apurado, mas vieram a descobrir que o olfacto das raparigas
du-rante a puberdade  mais forte do que o dos rapazes, e nas
grvidas no  mais aguado do que nas outras mulheres. O que
se passa  que as mulheres em geral tm o sentido do olfacto
mais desenvolvi-do. Talvez seja um bnus concedido nos
primrdios da nossa evo-luo, quando ele nos era
indispensvel para o namoro, o acasala-mento e o exerccio da
nossa funo de mes; ou talvez seja o resultado de as
mulheres passarem mais tempo a tratar de alimentos e crianas,
a detectar pelo cheiro o que no est bem. Visto muitas vezes
as mulheres tomarem a iniciativa do acasalamento, o olfacto
tem-lhes servido de arma, engodo e deixa.


OLFACTOS PRODIGIOSOS


   Tal como existem pessoas com um sentido do olfacto
distor-cido, deficiente, ou mesmo inexistente, outras h que
se situam no extremo oposto do espectro olfactivo, dotadas de
um olfacto pro-digioso, das quais a mais famosa talvez seja
Helen Keller. O :, sentido do olfacto, escreveu ela,
avisa-me que uma tempestade se a-proxima horas antes de surgir
qualquer sinal visvel. Sinto primeiro uma vibrao de
expectativa, um ligeiro estremecimento, uma con-centrao nas
narinas.  medida que a tempestade avana, as mi-nhas narinas
dilatam-se para melhor receberem a torrente de odores que vm
da terra e parecem multiplicarem-se e expandirem-se, at que
sinto um pingo de chuva cair-me no rosto. Quando a tempesta-de
termina e lentamente se afasta, os odores desvanecem-se,
tor-nam-se cada vez mais indistintos at se apagarem no
espao. Outros indivduos tambm conseguiram cheirar mudanas
de tempo e, claro, os animais so grandes meteorologistas (as
vacas, por exemplo, deitam-se quando adivinham um temporal). A
chuva, a neblina e o vento fazem a terra respirar como uma
grande besta escura. Quando a presso atmosfrica  elevada, a
terra sustm a respirao e os vapores alojam-se nos
intervalos vazios e nas fre-chas do solo, s voltando a sair
quando a presso baixa e a terra ex-pira. As pessoas com um
olfacto apurado cheiram esses vapores emanados do solo, sinais
que lhes indicam se vai chover ou nevar. Talvez seja desse
modo que os animais prenunciam tremores de ter-ra, cheirando
os ies que se desprendem do solo.
   Numa noite de temporal, uma pessoa que esteja a vestir-se
para uma festa no precisa de usar muito perfume, pois este
tem um cheiro mais intenso antes das tempestades, por um lado
porque a humidade torna o nosso olfacto mais aguado e, por
outro, porque a baixa presso faz com que os lquidos
volteis, como o perfume, se espalhem mais rapidamente. Afinal
de contas, um perfume con-tm 98 por cento de gua e lcool e
apenas 2 por cento de gordura e molculas de perfume. Em
perodos de baixa presso, as mol-culas evaporam-se mais
depressa e podem passar para os cantos de um quarto a uma
velocidade considervel. O mesmo se passa, at em dias de sol,
nas cidades situadas em elevaes como Mxico, Denver ou
Genebra, onde as presses atmosfricas so sempre bai-xas
devido  altitude. A altura e o local ideais para esmagar um
restaurante inteiro com o nosso perfume novo seria o El Tovar
Lodge, empoleirado na impressionante borda do Grand Canyon, no
incio de uma tempestade.
   Helen Keller possua um talento extraordinrio para
decifrar o palimpsesto fragrante da vida, todas as camadas
que ns lemos apenas como uma mancha. Reconhecia uma casa de
campo antiga pelas vrias camadas de odores l deixados por
uma sucesso de famlias, plantas, perfumes, cortinados. Como
foi possvel uma pessoa cega e surda de nascena entender to
bem a textura e a :, aparncia da vida, para no falar da
forma como as nossas excentricidades se exprimem nos objectos
que tocamos,  um dos maiores mistrios do mundo. Helen Keller
achava que os bebs no tinham ainda personalidade
olfactiva, odores nicos que ela conseguia identificar nos
adultos. A sua sensualidade exprimia-se atravs do olfacto,
fornecendo esta explicao para uma atraco milenria: As
emanaes masculinas so, regra geral, mais fortes e vvidas,
mais largamente diferenciadas do que as da mulher. No odor de
um jovem, existe algo de elementar, como no fogo, na
tempestade, na gua salgada do mar. Algo que vibra com leveza
e desejo. Sugere tudo quanto h de forte, belo e alegre e
transmite-me uma sensao de felicidade fsica.


UM NARIZ FAMOSO


   As pessoas dotadas de um olfacto aguado acabam muitas
vezes por trabalhar em fbricas de perfumes; algumas, se ainda
por cima so imaginativas e ousadas, criam grandes perfumes.
Num mar de flores, razes, secrees animais, ervas, leos e
aromas artificiais, tm de ser capazes de se lembrar dos
milhares de ingredientes que esto ao dispor de um perfumista
e dos processos alqumicos de os misturar. Tm de ter o
sentido das propores de um arquitecto e a astcia de um
corretor de apostas. Hoje em dia, os laboratrios fa-zem
imitaes de essncias naturais, o que vem a dar no mesmo,
visto no dispormos de extractos naturais fiveis de flores
como li-lases, lrios ou violetas. Porm, produzir um leo de
rosas convin-cente pode significar ter de misturar quinhentos
ingredientes. Na Rua Cinquenta e Sete, transversal da Dcima
Avenida em Nova Iorque, a International Flavors and Fragrances
Inc. rene os melho-res narizes profissionais do mundo. No
sector  conhecida sim-plesmente por IFF e  uma meca
para qualquer empresa que pre-cise de uma fragrncia. Embora
sejam l criados quase todos os perfumes caros e profusamente
publicitados, lanados no incio de cada estao, e muitos dos
sabores e aromas que encontramos em produtos como sopa de lata
ou serradura para gatos, todo o trabalho  feito no mais
completo anonimato. Foram eles que forneceram o cheiro para o
anncio que surgiu numa popular revista de golfe (descole este
autocolante -- com a forma de uma bola de golfe -- e sinta o
cheiro da relva acabada de cortar), bem como o odor a gruta
de um famoso parque de diverses e os cheiros dos bos-ques da
Nova Inglaterra, das pradarias africanas, de Samoa e outras
paisagens em exposio no Museu Americano de Histria Natural.
:,
Para eles, transformar uma rvore de Natal artificial numa
floresta de pinheiros do Tirol no  problema. Na verdade,
esse  um dos truques mais fceis. So uma espcie de
escritores-fantasmas sen-soriais, inventores do arrebatamento,
criadores de aromas preciosos que nos fascinam e dominam sem
darmos por isso. Oitenta por cento das guas-de-colnia para
homem e quase a mesma quanti-dade das de senhora so criadas
nos laboratrios da IFF. Embora se recusem a citar nomes,
nos seus corredores vem-se, expostos em vitrinas de vidro,
perfumes *Gueralain, Chanel, Dior, Saint Laurent, Halston,
Lagerfeld, Este Lauder* e muitos outros por eles criados.
Alguns dos seus narizes debruam-se sobre consolas de
compu-tadores, outros trabalham em salas atravancadas de
papis e frascos. Sobre eles recai o cmulo dos paradoxos:
criar um perfume que seja, por um lado, inovador, fresco e
excitante e, por outro, no demasiado atrevido ou bizarro, mas
agradvel ao maior nmero de pessoas possvel. Tiras de papel
contendo perfume, ou tiras que se riscam para sentir um
cheiro, tornaram o trabalho deles mais fcil de partilhar.
Hoje, qualquer pessoa pode pegar numa revista e ser invadida
por pginas que cheiram aos estofos de um *Rolls-Royce*, a
lasanha, ou mesmo a um perfume novo. Inventadas na 3M
Corpo-ration h apenas dez anos, essas tiras contm esferas
microscpicas cheias de fragrncia. Quando algum as risca, ou
lhes retira a capa protectora, as esferas abrem-se e o perfume
 libertado. A Giorgio foi a primeira empresa a us-las na
publicidade aos seus perfumes. Hoje  difcil encontrar uma
revista que no cheire. Tenho neste momento sobre a minha
secretria uma coleco de mais de qua-renta tiras de
publicidade a perfumes com *slogans* escritos: para o
*Knowing* [saber] de Este Lauder, O saber  tudo; a frase
femi-nista de Liz Clairborne Basta ser voc prpria para o
perfume com a sua assinatura; para o *La passione di Roma*
dos perfumes da Fendi, uma jovem com rosto marmreo 
surpreendida a beijar apaixonadamente uma esttua; o *Opium*
de Yves Saint Laurent no tem qualquer *slogan* verbal, mas a
fotografia que o acompanha, onde se v uma bela mulher vestida
de *lam* doirado deitada sobre um leito de orqudeas num
delrio provocado pelo pio, constitui por si s uma perversa
mensagem. Existem trinta avaliadores de aromas na IFF,
dispostos a cheirar cerca de cem fragrncias por dia. Numa
tarde de Primavera, conheci o seu notvel nariz Sophia
Grojsman, uma mulher de origem russa e grande vivaci-dade. Usa
o cabelo curto e negro puxado para trs e preso com uma fita
s riscas azul-escuras e brancas. A sombra azul faz vibrar os
seus olhos escuros e alegres; as unhas esto pintadas de
verniz :, vermelho-vivo e veste um fato de ganga com fechos de
correr prateados. Para um nariz de fama mundial que trabalha
sob enorme presso, parece ao mesmo tempo tranquila e
enrgica, re-costando-se atrs da secretria atafulhada, no
meio da qual se v um pequeno trio daqueles macacos que
representam o no ver, no ouvir e no falar. No h nenhum
macaco para o no cheirar.
   -- Quando soube que tinha um nariz especial?
   -- Quando era criana, na Rssia, havia extensos campos de
flores em volta da pequena cidade onde vivia. -- Sorri
enquanto fala e os olhos vagueiam por momentos;  bvio que a
recordao f-la recuar quarenta anos. -- E havia por toda a
parte uma enorme quantidade de odores. O cu estava carregado
de cheiros. Eu passava a vida a apanhar flores...
   Batem inesperadamente  porta. Uma jovem entra com
ligeireza e estende os braos longos e nus.
   -- Importa-se de cheirar? -- pergunta a Sophia. Sophia
levanta-se e pega primeiro no brao esquerdo da jovem (o mais
quente, pois est mais perto do corao), aproxima o seu nariz
e cheira-lhe o pulso, em seguida o cotovelo. Depois cheira
duas vezes o outro brao.
   -- Que acha? -- pergunta-me Sophia.
   Cheiro os dois braos.
   -- ptimos.
   -- Mas qual prefere?
   Os perfumes so to leves e penetraram to suavemente no
meu nariz que  difcil pensar que se trata de quatro cheiros
distintos e com personalidades individuais a classificar. Numa
cena do filme *Paragem de Autocarro*, Marilyn Monroe est
sentada num restau-rante a brincar com duas ervilhas que tem
no prato, tentando eleger a sua preferida. Uma coisa tem
sempre algo melhor do que outra, diz ao seu companheiro; 
sempre possvel escolher. Na minha opi-nio, a vida
proporciona tantos momentos complexos e maravilho-sos que dois
objectos belos podem ser igualmente belos por razes
diferentes e em alturas diferentes. Como h-de uma pessoa
esco-lher? No entanto, ali, nos braos estendidos, no h
dvida quanto ao nmero um: um cheiro levemente almiscarado,
basicamente flo-ral, no. pulso esquerdo da jovem. O segundo? A
verso mais suave do mesmo, no cotovelo esquerdo. O cheiro do
brao direito parece mais adocicado, embora atraente. Respondo
e Sophia faz um gesto aprovativo com a cabea.
   -- Essas so as duas verses que temos de trabalhar -- diz.
A porta corredia de vidro, que a separa de um monte de
prateleiras com :, frascos cheios de essncias naturais e
sintticas, uma verdadeira despensa de feiticeiro, abre-se e
deixa aparecer um tcnico de laboratrio.
   -- Preciso da frmula H -- diz Sophia ao tcnico, que
regressa aos armrios. Sophia recosta-se na cadeira e faz com
as mos o gesto de atirar *confetti* para o ar. -- Isto hoje
parece mesmo um manic-mio.  que houve uma emergncia e
estou a tentar resolv-la.
   Uma emergncia de bom cheiro? Que raio teria acontecido?
Quando perguntei, Sophia permaneceu enigmtica. Naquele mundo
empresarial, as frmulas e tudo o que com elas se relaciona
esto trancadas a sete chaves. As pessoas que misturam as
fragrncias fi-nais no sabem o que esto a misturar; nos
ingredientes e nos lotes apenas se podem ler nmeros de
cdigo.
   -- Vivamos mesmo no extremo da pequena cidade -- diz
Sophia, regressando s suas memrias --, e havia renques de
lilases e cam-pos inteiramente cobertos de narcisos e
violetas. Um mundo de cheiros naturais por toda a parte, uma
parte da Rssia que no foi muito destruda. Como qualquer
criana, costumava passear pelos campos; eu era terrivelmente
curiosa, bisbilhotava tudo. Estava-se no ps-guerra e as
crianas eram poucas. Eu vivia rodeada de adultos e costumava
escapar-me sozinha para apanhar e cheirar musgo, tronquinhos,
folhas.
   -- Quando cria um aroma, que processo utiliza? --
perguntei, lembrando-me que um famoso perfumista revelara que
ia buscar as suas ideias a sonhos, e um outro que tomava nota
num caderno de tudo o que ia cheirando enquanto viajava.
   -- Temos sempre uma imagem na cabea.  de facto possvel
cheirar acordes como os musicais. A perfumaria est
intimamente ligada  msica. H as fragrncias simples,
acordes simples de dois ou trs elementos, que seriam como um
grupo musical composto de dois ou trs instrumentos. E depois
acrescenta-se-lhe um acorde mltiplo e obtemos uma grande
orquestra moderna. De certo modo, criar uma fragrncia  como
compor msica, pois tambm a procura dos acordes adequados 
semelhante. No queremos nenhum que esmague os outros.
Queremos um todo harmonioso. Uma das coisas mais importantes
na escolha das partes de uma criao  a harmonia. A
fragrncia pode libertar camadas de tons e mesmo assim ser
agrad-vel. Se as camadas no forem correctamente sobrepostas,
teremos uma sensao de fragmentos descoordenados que traz
desconforto, incomo-da. Uma fragrncia desequilibrada no 
bem aceite.
   -- Os cheiros esto agrupados na sua mente e na sua
memria, do mesmo modo que os instrumentos de sopro so um
elemento de uma orquestra e as cordas outro? :,
   -- Sim, mas quase tudo o que criei teve origem em acordes
florais inteiramente abstractos que surgiram de repente... E,
assim que os apanhei, procurei outras partes que ligassem bem
com eles. Primeiro h a inspirao, depois as vrias formas de
corrigi-la at finalmente obter aquilo de que ando  procura.
Prefiro acordes muito floridos, muito femininos. Sou melhor em
fragrncias femininas do que masculinas, embora j tenha feito
das duas. Criei tambm produtos
funcionais...
   -- Como perfume para sabonetes, produtos de limpeza, leos
para mveis, artigos de papel e por a fora?
   -- Exactamente. Mas fazer essas coisas  fcil e rpido.
Agora, se eu quiser criar o novo melhor perfume do mundo,
bem... isso demora mais tempo.
   -- Um funcionrio da empresa disse-me que a senhora tinha
criado alguns dos melhores perfumes que homens e animais
ja-mais conheceram, mas que no me vai dizer quais foram.
   -- No podemos dizer. -- Puxou de um longo cigarro castanho
de um mao onde estava escrito MORE e acendeu-o.
   -- Fumar no afecta o seu nariz?
   -- De certeza que h-de ter algum efeito, mas faz parte do
meu meio ambiente, de modo que estou habituada ao fumo. 
apenas mais um dos cheiros normais do meu mundo.
   -- O seu nariz exige cuidados especiais? Vive obcecada com
isso?
   -- De forma alguma. Na verdade sou muito descontrada.
Claro que no me interessa adoecer. E frustrante ter o nariz
entupido,  muito difcil um perfumista trabalhar nesse
estado.
   -- Quando anda pela cidade, sente os cheiros com uma
acuida-de maior do que as outras pessoas?
   -- Sabe,  engraado... Um fenmeno incrvel... Mas
acontece que, como trabalho muito, por vezes at tarde, quando
saio do edifcio  como se um botozinho no meu crebro me
desligasse e no cheiro absolutamente nada. De facto, pode
estar qualquer coisa a queimar-se no forno em minha casa que
eu no dou por nada. O meu marido costuma dizer: s uma
perfumista e no te cheira a queimado!  que o meu crebro
desliga-se completa-mente.
   Mas muitas vezes dou comigo a sentir uma atraco por
algum nas alturas mais inconvenientes. s vezes, uma pessoa
d-nos um beijo e reconhecemos o seu odor caracterstico. H
um cheiro espe-cial na pele de um beb, assim como na cabea.
H pessoas que tm um cheiro natural *sexy*.  mais vulgar
nas mulheres do que nos homens. Se eu tivesse de descrev-lo
-- continuou, soprando o :, fumo do cigarro como um
incensrio, enquanto tentava encontrar a melhor descrio --,
chamar-lhe-ia um acorde muito delicado de mbar e almscar.
Uso-o muito nas minhas fragrncias.
   H certos acordes que so usados por todos os perfumistas.
No entanto,  possvel identificar, digamos, a mo de
determi-nada pessoa ao cheirar uma fragrncia. Certos
perfumistas iden-tificam o meu trabalho e eu o deles. Cheiram
um perfume novo e dizem: /Ah, este  da Sophia, aquele  da
Jenny/, e assim por diante. Reconhecem as assinaturas.
   -- No outro dia estive no Saks -- expliquei --, num safari
aromtico, e reparei que existe uma tendncia para perfumes
com nomes que sugerem perigo, substncias proibidas, neuroses,
etc...
   Acrescentei que os comerciantes parece gostarem de perfumes
que evoquem conforto e segurana, amor e romance, mas do-lhes
nomes como Decadncia, Veneno, Pecado, Opio, Imprudncia,
Obsesso, Tabu. Para alm dos nomes dos *designers* que esto
na moda e da mstica dos *superstars* metida dentro de um
frasco, ofe-recem substncias e conselhos ilegais. Uma mulher
pode vestir-se com recato mas na mente e nos punhos criar
tanta dependncia como o pio, ser to perigosa como o veneno,
provocar uma obsesso, ser perita em prticas sexuais to
escravizantes que sejam tabu, estar aberta  hedonstica
decadncia, merecer que por ela se cometa a maior imprudncia,
e mesmo violar a lei de Deus, cometendo um pecado.
   -- Sim, mas se reparar bem, verificar que todos eles se
baseiam em certos aromas clssicos, no passam de novas
interpretaes desses clssicos. H muitos xitos passageiros,
mas os verdadeiros clssicos duram mais de uma dcada. O
*Chanel N.o 5* foi criado no incio dos anos 20 e ainda se
vende muito bem. O *Opium* no  ne-nhuma novidade. A me do
*Opium*  *Youth Dew*, que tem cerca de trinta anos.  uma
variao deste, nada mais, e tambm tem a ver com o
*Cinnabar*. Se cheirar os trs, ver.
   -- Ento, usando a sua metfora da msica, uma nova
fragrn-cia  muitas vezes uma variao sobre um tema
conhecido? -- per-gunto e Sophia concorda. -- Usa perfumes?
   -- No quando chego para trabalhar. Fao muitas
experincias. Como trabalho com perfumes, cheiro sempre a um
perfume. Gosto de ver como as pessoas reagem ao que estou a
usar. So bons juzes. Um dia, andava eu a trabalhar em
determinada fragrncia, ia pela Rua Cinquenta e Sete e fui
seguida por um bbedo. Fiquei assustada. Desatei a fugir e ele
disse: Minha senhora, no fuja. Tem um per-fume to
maravilhoso, eu estava a seguir o perfume. Por acaso, veio a
ser um xito. :,
   -- Desde o princpio dos tempos que as pessoas se perfumam.
No acha esquisito? Pr flores, frutos e secrees animais no
cor-po? Porque o fazemos?
   -- Ah -- respondeu ela, fazendo um gesto com os dedos, como
se estivesse a libertar um punhado de borboletas --, quando vi
pela primeira vez o *Guernica*, perturbou-me. Fiquei ao mesmo
tempo horrorizada e fascinada. Perturbou-me, mas tambm me
comoveu. Com os perfumes  a mesma coisa: chocam-nos e
fascinam-nos. As nossas vidas so montonas. Gostamos de ser
perturbados pelo encanto.
   Uma das experincias mais gratificantes para mim --
conti-nua, inesperadamente -- deu-se quando fiz um produto
funcional, o cheiro para um detergente. Ia pela rua, vi duas
mulheres a comprar o jornal e disse-lhes: /Minhas senhoras,
lavaram a roupa com o detergente X/. Elas perguntaram: /Mas
como  que adi-vinhou?/ E respondi: /Cheira./ Elas ficaram
todas contentes e eu tambm, porque aquelas mulheres nunca se
poderiam dar ao luxo de comprar perfumes de duzentos ou
trezentos dlares, mas podiam comprar um detergente e estavam
satisfeitas por ele cheirar bem. E eu fiquei contente por ter
beneficiado uma parte da populao que nunca ter dinheiro
para comprar um perfume como os que cheirou aqui.
   --  uma sorte poder passar assim a vida, criando aromas
que vo fazer as mulheres sentirem-se bem com elas prprias.
   -- Por vezes  esgotante. A vida de um perfumista no 
f-cil. J no  o que era. Nos bons velhos tempos, havia
perfu-mistas a trabalhar por conta prpria. Um perfumista
famoso criava uma fragrncia ao fim de trs ou quatro anos, e
sem restries: nem limite de preo, nem prazos a cumprir.
Fazia duas ou trs experincias por dia, durante, talvez, uma
semana, e depois *vivia* realmente com ele, usava-o durante
semanas sem sofrer pres-ses. O que se passa agora  que a
actividade est muito comer-cializada. Precisamos de fazer
coisas que nos dem nome e que dem dinheiro  empresa, e
temos de faz-las depressa. Um per-fume no se faz de um dia
para o outro. Todos os perfumistas tm pequenos acordes que,
durante os seus dez anos de prtica, vo pondo de lado e
guardando na memria. Dizem por exem-plo: Preciso de um
floral. Estou a lembrar-me daquele floral que guardei h
tantos anos. Mas tem de ser novidade. Seria um disparate
vender uma cpia. No se pode plagiar.  preciso par-tir do
zero. Mas h acordes a que podemos recorrer como se fos-sem
temas, uma espcie de atalho. Eu fao cerca de quinhentas a :,
setecentas frmulas por ano. Da talvez saiam dois grandes
xi-tos, o que no significa que as setecentas frmulas no
selam todas boas.
   -- No lhe custa imenso criar uma frmula que lhe enche as
medidas e depois verificar que o consumidor no lhe ligou
nenhuma importncia?
   Sophia revira os olhos e o seu rosto entristece.
   -- Claro, e no h dvida de que isso acontece. Tento
sem-pre ver se ela funciona num outro local qualquer, ver se
algum acaba por gostar dela. Temos de ter f na fragrncia,
acreditar que ela acabar por triunfar, que l chegar um dia,
de alguma maneira. Sou muito persistente. Estou sempre a
rev-las, re-pens-las.
   H uma coisa que fiz h pouco tempo e cujo nome no lhe
posso revelar, mas a fragrncia  uma *experincia*. Us-la 
uma experincia. Adoro-a. O acorde principal da fragrncia
comeou h uns tempos com um acorde a que chamei
/clivagem/... /Sem cabea/, /sem fundo/... Tenho todos
esses nomes particulares loucos que dou s coisas... E a mim a
/clivagem/ cheira-me  pele da mulher aqui. -- Ergue as mos
para indicar a zona entre o queixo e o busto. -- H algo de
muito sen-sual e sensacional nesse acorde.
   Sophia pega numa longa tira de papel, mergulha-a num frasco
de cor mbar cheio de leo e estende-ma. Quando deixo o cheiro
entrar-me pelo nariz, sinto flores frescas a percorrer-me os
sentidos.  um odor muito fresco, juvenil e inocente, que
lembra saias aos folhos e peles levemente cobertas de talco.
   --  muito simples, mas cheir-lo  complicado. Parece
pedir: Abraa-me.  uma nota *sexy* que os homens adoram.
Quando o criei, percebi que tinha em mos um vencedor. --
Entrega-me outro papel com perfume, desta vez mais fresco e um
pouco mais vivo. -- Foi neste perfume que se transformou. O
primeiro leo constitui o esqueleto. Este  o resultado.
Percorreu um longo caminho, do primeiro frasco at ao perfume
final. Basicamente  um aroma flo-ral, mas quanto mais o
cheiramos mais delicado se torna.
   -- Qual foi o perfume mais sensual que criou?
   -- Essa  uma pergunta interessante, porque o que  *sexy*
e sen-sual para uma pessoa pode no o ser para outra. Para
mim, este  sensorial, *sexy* no, mas sensorial. 
   -- E um que seja provocante? 
   -- Experimente este. 
   Entrega-me uma nova amostra; seguro-a debaixo do nariz e
te-nho uma forte reaco. Sinto um posto espesso a mbar como
o do :, caramelo, no fundo da lngua. Tem uma cobertura de
vinil e parece desprender uma espuma de almscar que o rodeia
como um halo. Um cheiro profundamente delicioso.
   -- Que ? -- pergunto, esticando o pescoo num gesto
automtico de prazer.
   -- Basicamente  uma frmula do tipo *Shalimar*. Ainda no
foi lanado.
   -- Ao contrrio do que sucedeu com o outro que
experimentei, o clivagem, quando cheiro este tenho uma forte
reaco fsica. Sinto-lhe o gosto.
   Sophia ri.
   -- Exacto,  isso que as pessoas dizem dos meus perfumes,
que lhes sentem o gosto. Apaixono-me por tudo o que fao.
Quero que as minhas criaes mexam com o paladar, o olfacto e
as emo-es das pessoas, tudo ao mesmo tempo.     
   -- Consegue imaginar um perfume impossvel de criar? Existe
alguma forma ideal pela qual anseie?
   -- Oh, gostaria um dia de fazer um perfume feminino to
se-dutor que nenhum homem lhe resistisse. Era a coisa mais
extraor-dinria que eu podia fazer na vida. No se trata de um
anseio pro-fissional.  um anseio estritamente feminino.
   -- O mundo passaria a ser um lugar muito perigoso.
   -- Exacto! -- exclama, com satisfao.
   -- Se o conseguir, diga-me. Serei a sua primeira cobaia.
   -- Eu  que vou ser a minha primeira cobaia!


:uma oferta aos deuses


   Quando saio da IFF, com a sua orgia de cheiros novos, o
seu estatuto Fortune 500, e corredores secretos que se
fundem, alte-ram e cruzam como o prprio cheiro, encontro l
fora um ambiente pesado e taciturno. O vapor eleva-se das
tampas de rede dos esgotos, como se existisse uma glndula
sudorpara gigantesca debaixo da cidade. Como  possvel um
nariz profissional manter-se aguado numa cidade de cheiros
incompatveis, alguns dos quais custicos? Os perfumistas no
so os nicos narizes profissionais que tm de sobreviver
nesta lixeira urbana. Os mdicos sempre contaram com o
olfacto, alm da viso, do tacto e da audio, para
diagnosti-car doenas, em especial nos dias anteriores 
tecnologia sofisticada. Dizem que a febre tifide cheira a
ratos; a diabetes a acar; a peste bubnica a mas maduras;
o sarampo a penas acabadas de :, arrancar: a febre amarela a
talho; a nevrose a amnio. (*) No s precisamos  

(*) Entre vrias doenas curiosas reconhecveis atravs do
cheiro, conta-se um problema das vias urinrias que afecta as
crianas. Os mdicos no sabem o que causa o seu odor a acar
de cer. O cheiro a acetona no hlito de um doente muitas
vezes  um sinal de diabetes. Certas mulheres tem um hlito
desagradvel a cebola, provocado por alteraes nos compostos
sulfricos do corpo durante o ciclo
menstrual. (N. da A.)

de todos os nossos sentidos, como precisamos de mais, de novos
sentidos. E, se for necessrio, estamos dispostos a cri-los e
empreg-los fora dos nossos corpos, como microscpios
electrni-cos radiotelescpios, balanas atmicas. Se o
olfacto  uma relquia, ele representa tambm uma poca de
grande intensidade, um tempo em que nos movamos pelos ciclos
da Natureza, como um dos seus protegidos mais prometedores.
Excepto para saborear e re-conhecer, na verdade j no
precisamos do olfacto, mas no quere-mos p-lo de parte. No
queremos ignor-lo. A evoluo tenta tir-lo devagar das
nossas mos, arranc-lo enquanto estamos a dormir, como se
fosse um boneco de pelcia ou uma mantinha. Mas agar-ramo-lo
ainda com mais fora. No queremos deixar de fazer parte dos
reinos da Natureza onde o olfacto  um meio de sobrevivncia.
De facto, a maioria do que cheiramos  acidental. Os perfumes
e cores brilhantes das flores tm como finalidade a atraco
sexual; as folhas tm defesas aromticas contra os predadores.
A maior parte das especiarias, cujos aromas inebriantes nos
atraem, repele insectos e animais. Aquilo que tanto apreciamos
 a mquina de guerra das plantas. Como facilmente se
depreende na floresta tropi-cal do Amazonas, no h nada de
efeminado numa planta. Como no podem movimentar-se para fazer
a corte umas s outras ou para se defenderem, as rvores
tornaram-se engenhosas e agressivas quanto  sua
sobrevivncia. Algumas desenvolvem camadas de es-tricnina ou
outras substncias venenosas imediatamente por baixo da casca;
outras so carnvoras; ou maquinaram umas flores provi-das de
complicados espanadores de penas, que tocam o plen dos
insectos, aves ou morcegos que elas atraem por meio de cheiros
e cores tentadoras. Algumas orqudeas imitam os rgos
reprodutores de uma fmea de abelha ou escaravelho para
enganar o macho que, desejoso de copular, fica coberto de
plen. Uma vez por ano, nas Baamas, o cacto *Selenicereus*
enche-se de flores que desempenham toda a sua vida sexual numa
s noite e desaparecem pela manh. Com muitos dias de
antecedncia, os cactos desenvolvem grandes vagens frteis.
At que, uma noite, somos acordados por um forte aroma de
baunilha e percebemos o que aconteceu. Todo o quintal
iluminado pelo luar  invadido Dor uma quantidade de flores :,
enor-mes, com uns trinta centmetros de largura. Centenas de
traas voam de flor em flor. O ar est carregado do latido dos
ces, do so-noro bater de asas das traas, semelhante ao
barulho que se faz ao folhear um livro novo, e do inebriante
nctar baunilhado das flores que desaparecem de madrugada,
deixando os cactos saciados por mais um ano.
   Antigamente, quando os perfumes eram quase to msticos
quanto preciosos, os exploradores partiam em busca dos seus
pode-res curativos ou afrodisacos. O nosso sentido do olfacto
contribuiu para espalhar a linguagem, a qual se expandiu nas
encruzilhadas das antigas rotas comerciais. vidos de
especiarias, perfumes, er-vas medicinais e talisms exticos,
as pessoas lanavam-se por ma-res e continentes e quando
chegavam ao seu destino tinham de sa-ber regatear e fazer
contas. Que me lembre, no se fez nenhuma homenagem ao olfacto
nem ao paladar por ocasio do nosso bicentenrio, em 1976. Mas
no devemos esquecer que a demanda de Colombo foi motivada
tanto pelos sentidos como pelo dinheiro, pelo esprito de
aventura ou pela vaidade. Em parte, foi a obsessiva procura de
especiarias e perfumes que o levou a fazer-se ao mar.
   O perfume surgiu pela primeira vez na Mesopotmia sob a
for-ma de incenso oferecido aos deuses para adoar o cheiro da
carne dos animais queimados nas oferendas, sendo ainda
empregado em exorcismos, para curar doenas e aps o acto
sexual. A eti-mologia latina da palavra indica-nos como era
usado: *per* = por meio de + *fumar* = fumar. Lanado para
dentro do fogo, o incenso enchia o cu de um fumo sobrenatural
e mgico, que invadia as narinas como se fosse um esprito
clamoroso a penetrar no corpo. O fumo aromtico comeou com as
coisas do mundo mas em breve subiu ao reino dos deuses. No
topo da famosa torre de Babel que, com a sua forma de
zigurate, estava mais prxima dos deuses do que qualquer
mortal, os sacerdotes acendiam piras de incenso. Tendo em
vista a tendncia para a democratizao, que de uma maneira
geral caracteriza a histria da moda e do luxo, provavelmente
os perfumes comearam por ser reservados aos deuses, passando
a ser permitidos aos padres, depois aos chefes divinizados,
aos lderes, aos assessores e por a abaixo na escala social.
Na Pr-Histria, as pessoas aplicavam perfumes nos seus
corpos, como os povos pri-mitivos (e os mais sofisticados)
fazem hoje. Um amigo meu antroplogo, que trabalha com tribos
ndias do Amazonas, contou-me- que numa delas as mulheres
enrolam  cintura uma espcie de saia feita de salva e os
homens esfregam uma raiz aromtica debaixo dos braos como
desodorizante. A primeira civilizao a usar :, per-fumes com
regularidade, extravagncia e variedade, de que se tem
notcia, foi a egpcia. As suas elaboradas prticas fnebres e
de em-balsamamento requeriam blsamos e unguentos.
Queimavam-se to-neladas de incenso nos complicados rituais
religiosos. O perfume viria a ser uma obsesso nacional no
reinado da rainha Hatsepsut, durante o Imprio Novo (1558-1085
a. C.), que plantou vastos jar-dins botnicos e mandava
queimar incenso nos degraus que condu-ziam aos seus templos.
Os Egpcios usavam uma profuso de per-fumes e incenso nos
cultos religiosos, acabando por apreci-los tambm para uso
pessoal, em especial durante a idade de ouro egpcia. Ungiam
os corpos com perfumes para afastar feitios, com intuitos
medicinais ou como loes de beleza, pois prezavam as peles
sedosas e perfumadas. Os Egpcios descobriram a *enfleurage*
(arte de introduzir aromas em leos gordos) e criaram belos
vasos de vidro para as suas poes, incluindo o *millefiori* e
outros estilos que os vidreiros de Veneza viriam a usar
sculos mais tarde; entre-gavam-se a elaborados rituais de
beleza e sentiam um fascnio quase moderno pela maquilhagem.
Se nos fosse possvel observar uma mulher do antigo Egipto a
pintar a cara e a arranjar o cabelo para ir a uma festa,
v-la-amos sentada ao toucador, sobre o qual se en-contraria
uma variedade de elegantssimas colherinhas para perfume de
*design* muito criativo, recipientes para unguentos, vasos,
frascos e caixas de sombra para os olhos. Talvez houvesse um
escaravelho ou uma flor tatuada no seu ombro: as mulheres
egpcias gostavam de tatuagens. (Nos anos vinte, quando se
abriu um tmulo egpcio onde se descobriu uma mmia com
delicadas tatuagens, *Lady* Ran-dolph Churchill e outras
senhoras da sociedade resolveram tambm tatuar escaravelhos no
corpo.) Para uma festa, uma dama da alta so-ciedade do Egipto
antigo usaria um cone de cera de unguento no alto da cabea,
que derreteria devagar, deixando-lhe o rosto e os ombros
cobertos de pingos de xarope perfumado. Provavelmente
provocaria uma sensao semelhante  de pequenos besouros a
ga-tinhar e empurrar bolinhas de fragrncia. Os Egpcios eram
um povo limpo, engenhosamente sibarita e obcecado com a
higiene, inventaram a sumptuosa arte do banho -- que pode ser
retempera-dor, sensual, religioso ou tranquilizante, conforme
o estado de esp-rito de quem o toma. Em geral, era seguido de
uma massagem de leos aromticos para relaxar os msculos e
acalmar os nervos -- a aromaterapia, uma tcnica que comeou
por ser usada no embalsa-mamento de mmias. No Centro de
Psicofisiologia da Universidade de Yale est agora a ser
estudada a forma pela qual o cheiro pode reduzir o *stress* e
aumentar a energia. Os investigadores alegam que :, o cheiro
de mas condimentadas pode baixar a tenso arterial nas
pessoas que sofrem de *stress*, alm de prevenir acessos de
pnico, e que a alfazema pode acelerar o metabolismo tornando
a pessoa mais enrgica. *The Chronicle of High Education*
refere que estudos comparados levados a cabo na Universidade
de Cincinnati, revela-ram que a introduo de fragrncias na
atmosfera de uma sala pode aumentar a eficincia das
dactilgrafas e do trabalho em geral.

   Nas termas de Sonesta Beach, nas Bermudas, estendo-me numa
marquesa em frente a uma janela, atravs da qual vejo e ouo o
re-bentar das ondas e o clamor do mar. Uma bela jovem de
grandes olhos azuis entra na pequena sala usando uma bata
branca de esteti-cista. Acabada de chegar de Yorkshire, os
doze fins-de-semana que j teve de folga na ilha no chegaram
para se bronzear. O namorado est colocado no departamento
martimo da Polcia das Bermudas e ontem ela acompanhou-o a um
jogo do campeonato de crquete. Tem joanetes nos ps, herana
da famlia do lado do pai, tal como o pequeno e simtrico
nariz, que ela considera grande de mais, e o cabelo liso e
louro que acha muito fraco. Hoje, manda-me deitar de costas e
cobre-me discretamente com toalhas de turco azul que vai
compondo durante a sesso de uma hora. Nos ltimos dias, viu o
meu corpo vezes suficientes para lhe conhecer os defeitos e as
qua-lidades. S um amante o teria tocado com maior frequncia,
ou melhor. Estamos j to  vontade em relao  minha nudez
como velhos esposos. Explica-me o tratamento seguinte:
aromaterapia. Esta antiga tcnica egpcia caiu em desuso
durante centenas de anos, reaparecendo no sculo XVIII,
quando os produtos aromticos e herbanrios voltaram a estar
na moda. Visto que o que eu procuro  o relaxamento e no a
mumificao, a minha massagista vai mis-turar alfazema, neroli
e sndalo a uma base de leo de amndoas doces e massajar o
meu corpo da cabea aos ps, em movimentos oblquos que se
concentram no sistema linftico. No devo tomar um duche a
seguir, pois para entrar no sistema circulatrio e fazer
efeito, os leos precisam de tempo. Comeando pelas barrigas
das pernas, faz massagens em leque, depois as mos dela rolam,
des-crevem crculos e vagueiam, regressando sempre ao ponto de
partida, para depois mudarem de direco em arcos simtricos
ou pequenas ondas. A fragrncia -- almiscarada, forte,
evocando o Mdio Oriente -- parece subir-me pelo corpo. Depois
das pernas, massaja as ndegas; em seguida as costas, fazendo
pausas para a-plicar presso em certos pontos de um e outro
lado da parte inferior da coluna. Faz deslizar as mos pelas
omoplatas, sondando e depois :, acalmando. Em parte, o efeito
do tratamento resulta do fluxo de energia estabelecido entre
os dois corpos, explica ela. Um vu de aromas chega-me ao
pescoo, envolve-me numa bruma estimu-lante; as mos dela
continuam em movimento, espevitando os leos. Inesperadamente,
o meu esprito principia a divagar at  minha infncia e ao
tempo em que o meu pai nos levava de auto-mvel desde o
Illinois at  Florida, para umas curtas frias de Vero. Dos
arredores de Chicago  Florida, a viagem era longa e a minha
me preparava uma mala trmica com sanduches e ponche de
frutas, enchia um cesto de verga com os nossos brinquedos
pre-feridos e algumas revistas aos quadradinhos ou de jogos e
passa-tempos. Revejo o passeio com impressionante nitidez: as
folhas *yup-yup* que as fadas de uma das histrias colhiam, o
musgo que revestia as rvores do caminho, a minha me, que
adorava cantar no carro, com um alegre vestido s rosas
grandes e lilases. Usava o ca-belo castanho penteado  Ava
Gardner. Por vezes, quando estava calada, o seu dedo indicador
esquerdo movia-se de repente de um modo que me intrigava. Eu
era muito criana para compreender que ela estaria
provavelmente a falar com os seus botes. Porque recor-dei
esse tempo? Eu tinha oito anos. A minha me teve-me aos
trinta. Tenho hoje a idade que ela tinha nessa altura, e ela
era j me de dois filhos. Esta recordao muito viva no me
larga e enche-me de um atordoamento espesso e quente. Depois,
a massagista embrulha-me num cobertor azul-plido. As paredes
azul-claras da sala tm um pequeno motivo geomtrico: milhares
de sinais castanhos. Por cima de cada um deles flutua um par
de aspas cinzentas dispostas como as que esto no fim de uma
fala.


os herdeiros de clepetra


   Mestres em aromatizao, os Egpcios utilizavam a madeira
de cedro para muitos fins: na mumificao, como incenso e para
pro-teger os papiros das investidas dos insectos. O barco
feito de ma-deira de cedro onde Clepatra recebeu Marco
Antnio tinha velas perfumadas; o seu trono estava rodeado de
incensrios e ela prpria perfumava-se dos ps  cabea. Volto
a Clepatra porque ela foi uma tpica devota do perfume. Ungia
as mos com *kyphi*, que con-tinha leo de rosas, croco e
violetas; perfumava os ps com *aegyp-tium*, uma loo de leo
de amndoa, mel, canela, flor de laranjeira e hena. As paredes
eram um mostrurio de rosas presas por redes, e a sua presena
sumptuosamente perfumada fazia-se sentir antes de ela prpria
chegar, uma espcie de carto-de-visita na brisa :, carre-gada
de aromas. Shakespeare imagina assim a cena: Da barcaa / Vem
um estranho perfume invisvel que invade os sentidos / Dos
ancoradouros adjacentes. Os Romanos ficaram conhecidos pela
opulncia dos seus banhos, mas a verdade  que foram busc-los
aos sibaritas egpcios.
   No mundo antigo, a prpria arquitectura real era muitas
vezes aromtica. Houve monarcas que construram palcios
inteiros de madeira de cedro, tanto pelo seu doce aroma a
cnfora, como por ser um repelente natural de insectos. No
Salo Nanmu, no palcio de Vero dos imperadores manchus em
Chengtu, as vigas e os pai-nis, todos de madeira de cedro,
no eram lacados nem pintados, para que a fragrncia da
madeira pudesse passar para o ar. Os construtores de mesquitas
costumavam misturar gua de rosas e almscar na ar-gamassa; o
sol do meio-dia aquecia-a e libertava os perfumes. As portas
do palcio de Sargo II, no sculo VIII a. C., no que 
hoje Khorsabad, eram to perfumadas que a fragrncia se
despren-dia cada vez que algum visitante entrava ou saa. Os
barcos e cai-xes dos faras eram feitos de madeira de cedro.
O templo de Dia-na em feso, uma das sete maravilhas do mundo
antigo, que tinha colunas de quase 18 metros de altura,
sobreviveu durante du-zentos anos e foi destrudo por um
incndio em 356 a. C., ardendo aromaticamente. Diz a lenda que
o incndio, que teve lugar no dia em que Alexandre Magno
nasceu, foi ateado em sinal de vergonha ou como sacrifcio. Os
gals da Antiguidade andavam profusa-mente perfumados. Os
odores fortes anunciavam a sua presena, alargavam o seu
territrio. Na civilizao cretense, que precedeu a grega, os
atletas ungiam-se de determinados leos aromticos antes dos
jogos. Por volta de 400 a. C., os escritores gregos
recomenda-vam menta para os braos, tomilho para os joelhos,
canela, rosas ou leo de palma para os maxilares e tronco,
leo de amndoas para as mos e ps e manjerona para o cabelo
e as sobrancelhas. Numa festa, os homens egpcios recebiam, 
entrada, grinaldas de flores e podiam escolher a fragrncia
que quisessem. Espalhavam-se ptalas de flores pelo cho para
que se soltassem perfumes quando os con-vidados as pisassem.
Nesses eventos, era frequente ver jorrar gua de cheiro dos
vrios orifcios existentes nas esttuas. Antes de se
deitarem, esmagavam perfumes slidos at os transformarem num
p aromtico que espalhavam na cama, a fim de lhe absorver o
aroma enquanto dormiam. Homero refere que a boa educao
man-dava que se oferecesse aos convidados um banho e leos
aromti-cos. Alexandre Magno utilizava com abundncia perfumes
e in-censo e apreciava tanto o aafro que mandava mergulhar
as suas :, tnicas na respectiva essncia. Na Babilnia e na
Sria, os homens usavam muita maquilhagem e joalharia, bem
como laboriosos pen-teados, em que o cabelo era arranjado em
minsculos caracis fixa-dos com loes perfumadas. Na Roma
antiga, a paixo atingiu tais propores que tanto homens como
mulheres tomavam banhos de perfume, mergulhavam neles as suas
roupas e perfumavam os seus cavalos e animais de estimao.
Antes de lutar, os gladiadores en-charcavam-se em loes, um
perfume diferente para cada parte do corpo. E, tal como outros
romanos e romanas, usavam excremento de pombo para aclarar o
cabelo. No equivalente ao nosso camarim, antes de um sangrento
combate com um leo, podiam ter uma lin-guagem bruta, mas as
suas mos emanavam doces aromas. As mu-lheres romanas
aplicavam perfumes em diferentes partes do corpo, tal como os
homens, e calculo que passassem algum tempo a deci-dir se ps
de sndalo e seios de jasmim iam bem com um pescoo de neroli
e coxas de alfazema. O cristianismo trouxe uma devoo
espartana pela moderao, o medo de parecer vaidoso e, assim,
du-rante algum tempo, os homens deixaram de usar perfumes.
(No obstante, h um simbolismo religioso associado a flores e
aromas preferidos. Por exemplo, privilegiava-se o cravo, pois
o seu cheiro lembrava o dos cravos-da-ndia, que por sua vez
se assemelhavam aos pregos que crucificaram Cristo.) Como diz
John Trueman em *The Romantic Story of Scent*: Os homens
antigos eram limpos e perfumados. Os homens da Idade Mdia
eram sujos e no usavam perfume. A partir da e at ao final
do sculo XVII, os homens eram sujos e perfumados... Os
homens do sculo XIX eram limpos e no usavam perfume. Mas
os homens raramente se afastaram dos chei-ros desejveis. Os
cruzados regressavam das viagens encharca-dos em gua de
rosas. Lus XIV mantinha um exrcito de cria-dos s para lhe
perfumar os quartos com gua de rosas e manjerona, para lavar
as camisas e outros atavios numa infuso de cravo-da-ndia,
noz-moscada, alo, jasmim, gua de flor de laran-jeira e
almscar; todos os dias lhe tinham que inventar um perfume
novo. Na corte perfumada de Lus XV, os criados
mergulhavam pombos em diversos perfumes e largavam-nos durante
os banque-tes, soltando-se uma profuso de aromas quando eles
voavam em torno dos convidados. Os puritanos acabaram com os
perfumes, mas em breve os homens voltariam a adopt-los.
   Vestir uma mulher do sculo XVIII exigia um ritual
complicado e um nariz apurado: ela usava p com cheiro no
cabelo e maqui-lhagem aromtica; as suas roupas perfumadas
eram guardadas num armrio perfumado; perfumava abundantemente
o corpo e em :, seguida mergulhava bolas de algodo em
gua-de-colnia e en-fiava-as no corpete. Sobre as mesas
colocava recipientes de porce-lana com *pot-pourris* que
aromatizavam o quarto. (Porcelana  uma palavra com uma
histria fascinante que nos leva, passando pelas conchas, aos
rgos genitais da porca, que , sem dvida, aquilo que a sua
textura sedosa nos evoca.) Ao meio-dia, mudava para uma fresca
mistura de aromas igualmente fortes. E voltava a mudar ao cair
da noite. A paixo de Napoleo pelo luxo inclua a sua
gua-de--colnia preferida, feita de neroli e outros
ingredientes, da qual en-comendou 162 frascos ao seu
perfumista Chardin, em 1810. Depois de se lavar, gostava de
deitar gua-de-colnia no pescoo, tronco e ombros. Mesmo nas
suas campanhas mais rduas, dentro da sua tenda elaboradamente
decorada, encontrava tempo para escolher loes com aroma de
rosa ou violeta, luvas e outros ornamentos. Durante as guerras
napolenicas, os comandantes dos navios ingle-ses enviaram 
imperatriz Josefina rosas que se destinavam ao seu jardim em
Malmaison (onde cultivava 250 variedades); os mensa-geiros que
transportassem novas variedades de rosas gozavam de imunidade
na fronteira entre Inglaterra e Frana. Isabel I adorava
cravo-da-ndia perfumado com mbar-cinzento; ela no s usava
capas perfumadas como exigia aos seus cortesos que andassem
tambm abundantemente perfumados, a fim de espalharem  sua
volta aromas agradveis. Mecenas das artes, Isabel foi a nica
res-ponsvel pela glria do teatro isabelino e pelo bem-estar
de muitos escritores, Shakespeare includo, e prezava muito a
sua posio no mundo da arte e da sensibilidade. Apreciava
muito particularmente *Sir* Walter Raleigh e tambm, podemos
concluir, a gua-de-colnia de morango que ele usava. Isabel
mantinha os seus animais de es-timao inebriados de perfume e
usava uma ma cravejada de cra-vos-da-ndia e coberta de
canela para afastar a peste bubnica.
   Esta obsesso pelo perfume j vem de longe. O primeiro
pre-sente oferecido ao Menino Jesus foi incenso e no sculo
XI Eduardo, *o Confessor*, presenteou a Abadia de
Westminster com uma rel-quia sagrada e surpreendentemente
imperecvel: algum do incenso originalmente transportado pelos
Reis Magos. Na ndia, a arte do *abhyanga*, uma frico
almiscarada com que as fmeas do elefante pretendem atrair
sexualmente os machos, ainda existe. Nas antigas cortes
japonesas, os relgios queimavam um incenso diferente to-dos
os quinze minutos e as gueixas eram pagas conforme o nmero de
paus de incenso consumidos. Os perfumes fascinaram todas as
culturas e religies, mas a sua expresso mxima talvez esteja
no Coro: aqueles que forem suficientemente religiosos para ir
para o :, Cu encontraro a companheiras sumptuosas chamadas
huris (do rabe *haur., mulher de olhos negros), que lhes
satisfaro todos os caprichos e inventaro para eles novos
desejos que depois saciaro. Alm de proporcionarem delcias
inigualveis, as huris no se li-mitam a ser perfumadas...
Segundo o Coro, so mesmo inteira-mente feitas de madeira de
sndalo. De certo modo, elas levam-nos de volta quele tempo,
anterior ao pensamento, anterior  viso, quando s
dispnhamos do olfacto para nos guiar atravs dos obs-curos
corredores da evoluo.


O Tacto

So mos muito quentes
que desejariam continuamente refrescar-se
e se pousam involuntariamente
sobre os objectos frios,
espalmadas e abertas,
com o ar quente entre todos os dedos.
A estas mos podia acorrer o sangue
disparado, como nos aflui
 cabea, e quando se cerravam
em punho eram verdadeiramente
como cabeas de loucos,
furiosos de delrios.

Rainer Maria Rilke,
*os Cadernos de Malte Laurids Brigge




A redoma sensvel


   A nossa pele  como um fato espacial dentro do qual nos
movimentamos numa atmosfera de gases nocivos, raios csmicos,
radiaes solares e todo o tipo de obstculos. H uns anos, um
ra-paz foi obrigado a viver dentro de uma redoma (concebida
pela NASA) devido  fragilidade do seu sistema imunolgico e
 sua susceptibilidade s doenas. Todos somos esse rapaz. A
redoma  a nossa pele. Mas a pele est viva, respira ar e
excreta suor, defende-nos dos raios perigosos e do ataque dos
micrbios, metaboliza a vita-mina D, isola-nos do calor e do
frio, repara-se a si prpria quando necessrio, regula o fluxo
sanguneo, serve de estrutura ao sentido do tacto, ajuda 
atraco sexual, define a nossa individualidade, conserva no
seu lugar todas as geleias e gelatinas vermelhas e es-pessas
que existem dentro de ns. No s temos impresses digitais
nicas, como tambm uma disposio nica dos poros. Segundo
uma crena catlica, algures, protegida num cofre secreto,
est a rel-quia do prepcio de Cristo. Desde que subiu aos
Cus,  essa a ni-ca parte mortal que resta Dele. Sempre que
temos um pretexto, gostamos de enfeitar a nossa pele, o que se
torna fcil por ela ser porttil, lavvel e renovvel. A
descrio feita pelo psiquiatra Da-vid Hellerstein na edio
de Setembro de 1985 da revista *Science Digest* d-nos uma
ideia simples e acessvel da composio da nos-sa pele:

---------------------------
   Basicamente, a pele  uma membrana composta por duas
ca-madas. A inferior, a espessa e esponjosa derme, com 1 a 2
mil-metros de espessura,  essencialmente um tecido
conjuntivo rico em colagnio, uma protena; protege o corpo
tornando-o :, almofadado e contm folculos capilares,
terminaes nervosas, glndulas sudorparas e vasos sanguneos
e linfticos. A camada superior, a epiderme, tem a espessura
de 0,07 a 0,12 milmetros.  essencial-mente composta por
clulas epiteliais escamosas, que nascem re-dondas e carnudas
na fronteira da derme e ao longo de um perodo de quinze a
trinta dias so empurradas para a superfcie por novas clulas
produzidas por baixo delas. Ao subirem, tornam-se achata-das,
com a forma de lminas, fantasmas sem vida cheios de uma
protena chamada queratina, e quando atingem a superfcie so
in-gloriamente lanadas no esquecimento.
---------------------------

   A pele  o que nos separa do mundo. Se pensarmos bem, no
h em ns outra parte que entre em contacto com algo que no
seja nosso. A pele aprisiona-nos, mas tambm nos d forma
individual, protege-nos dos invasores, refresca-nos ou
aquece-nos conforme a necessidade, produz vitamina D, contm
os fluidos que h no nosso corpo. O mais espantoso, talvez, 
que a pele  capaz de se reparar a si prpria quando  preciso
e renova-se constantemente. Pesando entre trs e cinco quilos,
 o maior rgo do nosso corpo e o rgo-chave da atraco
sexual. A pele pode assumir uma espantosa variedade de formas:
garras, espinhos, cascos, penas, escamas, plos. 
imper-mevel, lavvel e elstica. Embora possa tornar-se
flcida e alterar-se  medida que envelhecemos, 
surpreendentemente durvel. Para a maioria das culturas  o
suporte ideal para aplicar tintas, tatuagens e jias. Porm, o
mais importante  que  ela que abriga o sentido do tacto.
   A ponta dos dedos e a lngua so muito mais sensveis do
que as costas. Algumas partes do corpo sentem ccegas, outras
reagem quando sentimos comiches, arrepios ou pele de galinha.
As zonas mais peludas do corpo so geralmente as mais
sensveis a presses, pois existem muitos receptores
sensoriais na base de cada plo. Nos animais, dos ratos aos
lees, os bigodes em volta da boca so extremamente sensveis;
os plos do nosso corpo tambm o so, mas a um nvel muito
inferior. A pele , tambm, mais fina onde existe cabelo. No
sentimos com a camada exterior da pele, mas sim com a
seguinte. A camada superior da pele est morta, cai
facilmente,  a responsvel por aquela marca escura que fica
na banheira depois do banho.  por isso que os arrombadores
de cofres esfregam as pontas dos dedos com lixa, para tornar a
camada superior mais del-gada e os receptores tcteis mais
prximos da superfcie. Um carpin-teiro passa o polegar pela
tbua que acabou de aplainar,  procura de imperfeies. Um
cozinheiro aperta um pouco de massa entre o :, polegar e o
indicador para verificar a sua consistncia. Sem termos de
olhar para l, sabemos imediatamente onde fizemos um corte
quando estvamos a barbear-nos ou onde temos uma malha na
meia.  absolutamente possvel sentirmo-nos molhados mesmo
quando no estamos molhados (ao lavar a loua usando luvas de
borracha, por exemplo), o que mostra a complexidade de
sensaes abrangidas pelo tacto. Quando a gua do mar est
gelada, o que custa menos  molhar os ps porque no existem
neles tantos receptores trmicos como, por exemplo, no nariz.
   Na Idade Mdia, tanto as chamadas bruxas como todos os que
viviam  margem da lei, da piedade ou das convenes, eram
queimados num poste. Uma imitao do fogo e do enxofre do
inferno, a expresso mxima do horror. A morte ocorria clula
a c-lula, receptor a receptor; cada uma das mais minsculas
sensaes da vida ardia. Hoje, as pessoas que conseguem
sobreviver a queimaduras acorrem s unidades hospitalares
especializadas, a fim de serem tratadas. Se as queimaduras so
demasiado profundas para que o corpo as repare sozinho,
recebem coberturas provisrias (pele de cadveres, de porco,
gaze lubrificada), at os
mdicos conseguirem transplantar pele de outras zonas do
corpo. A nossa pele representa um total de 16 por cento do
nosso peso (cerca de 3 quilos) e ocupa uma superfcie de cerca
de 2,5 metros quadrados, mas, se a rea queimada  grande,
pode no haver pele suficiente para transplantar.
   Em 1983, uma equipa da Escola Mdica de Harvard, chefiada
pelo Dr. Howard Green, desenvolveu uma tcnica revolucionria
para reparar pele queimada. Dois rapazinhos, Jamie e Glen
Selby estavam a retirar tinta dos seus corpos nus quando o
solvente se incendiou sem querer. Com apenas cinco e seis
anos, os rapazes ficaram horrivelmente queimados, um em cerca
de 97 por cento do corpo e o outro em 98 por cento. No
Instituto Shriners, em Bston, os mdicos cobriram as crianas
com pele de cadver e
uma membrana artificial, retiraram-lhes pequenos quadrados de
pele dos sovacos, e fizeram a sua cultura, obtendo largas
quantidades de pele que foram transplantando ao longo de um
perodo de cinco meses. Conseguiram reparar metade da rea
queimada no corpo de cada rapaz e, ao fim de um pouco mais de
um ano, os rapazes voltaram para as suas casas em Casper, no
Wyoming. Embora nessa pele os rapazes no tivessem glndulas
sudorparas nem plos, ela era flexvel e protectora, e as
crianas puderam regressar  escola. Os mdicos haviam
conseguido produzir grandes quantidades de pele nova. :,
   Vejamos como se faz: num laboratrio de Harvard, os mdicos
cortam um pequeno remendo de pele doada por um paciente,
tra-tam-na com enzimas, depois espalham-na cuidadosamente
sobre um meio de cultura. Ao fim de apenas dez dias, colnias
de clulas cutneas comeam a unir-se formando folhas que
podem ento ser subdivididas e usadas para fazer ainda mais
folhas. Em vinte e quatro dias, obtm-se uma quantidade de
pele suficiente para cobrir todo um corpo humano. A nova pele
 aplicada sobre gaze embe-bida em vaselina e, em seguida, com
a gaze voltada para cima, su-turada ao corpo. Cerca de dez
dias mais tarde, a gaze  retirada e a pele no tarda a
transformar-se numa superfcie mais macia e de aspecto mais
natural do que o geralmente deixado por um trans-plante normal
de pele. Existem outros mtodos to revolucionrios como a
cultura de pele e igualmente intrigantes. Os mdicos do Centro
Mdico Cornell, do Hospital de Nova Iorque, tm vindo a fazer
experincias com pele de cadveres, da qual fazem culturas
extensivas que guardam em bancos de pele. Investigadores do
MIT (*) desenvolveram 

(*) Iniciais de Massachussets Institute of Technology. (*N.
da T.*)

uma tcnica extremamente rpida que permite, a partir de uns
vinte e cinco centmetros quadrados de pele queimada, fabricar
uma grande quantidade de pele em menos de duas horas. Pode
fazer-se imediatamente um transplante, sem ser preciso
espe-rar trs semanas. Em quinze dias, a zona queimada ficar
coberta de pele nova. Mais uma vez a pele no ter plos,
glndulas sudorpa-ras nem pigmentao, mas proteger e
funcionar como a pele normal. Tais tcnicas no se destinam a
pequenas queimaduras nem sequer a queimaduras mdias; so
teis apenas nos indivduos com queimaduras muito grandes e
graves, os quais, por essa razo, no dispem da quantidade de
pele necessria ao transplante. Nenhuma das tcnicas se faz
sem risco: demora, rejeio, possveis infeces, etc. No
entanto, o simples facto de ser possvel produzir um rgo,
sem dvida o maior do nosso corpo, faz-nos pensar na criao
de outros rgos ou pelo menos partes deles -- olhos, ouvidos,
cora-es -- numa quinta com provetas em vez de searas e tubos
de en-saio em vez de celeiros.


:por falar e tacto


   A linguagem est imbuda de metforas sobre o tacto.
Chamamos s nossas emoes sentimentos, e se algum nos
comove sentimo-nos tocados. Os problemas podem ser
espinhosos, :, palpveis, bicudos ou precisarem de ser
tratados com luvas de pelica. As pessoas speras conseguem
mesmo irritar-nos. *Noli me tangere*, locuo latina que
significa no te intrometas nem interfiras, traduzida 
letra d no me toques e foi o que Cristo disse a Maria
Madalena aps a Ressurreio. Mas serve tam-bm para designar
o lpus, presume-se que devido  desfigurao pro-vocada pelas
lceras da pele, caractersticas da doena. Em msica, uma
tocata  uma composio para rgo ou outro instrumento de
teclas num estilo livre. Foi originalmente uma pea que
pretendia mostrar a tcnica do toque e a palavra vem do
particpio passado feminino de *toccare*, tocar. Os
professores de msica muitas vezes repreendem os seus alunos
por no terem sensibilidade no toque, querendo com isso
referir uma indefinvel delicadeza de execuo. Na esgrima,
diz-se *touch* quando se  atingido pela lamina,
reco-nhecendo-se o valor do adversrio, embora tambm se use a
ex-presso para dizer que nos sentimos atingidos por uma boa
argumentao. Uma pedra-de-toque  uma medida. Originalmente,
eram pedras duras e negras, como o jaspe ou o basalto, que se
usa-vam para verificar a qualidade do ouro ou da prata
comparando o risco que deixavam na pedra com o deixado por uma
liga metlica. A pedra-de-toque da arte  a sua preciso,
disse um dia Ezra Pound. O significado que D. H. Lawrence d 
palavra tocar no  epidrmico, mas sim o de uma profunda
penetrao no mago de algum. No sculo XX, a dana
tornou-se de tal modo um rodopiar a solo que quando h uns
anos as pessoas voltaram a danar agarradas a um parceiro, foi
preciso arranjar um nome diferente: *touch dan-cing*. A uma
situao arriscada os Ingleses chamam *touch-and-go*, sem se
darem conta de que a expresso remonta aos tempos dos ca-valos
e dos coches, quando as rodas de duas carruagens em anda-mento
tocavam uma na outra sem ficarem presas; a verso moderna
seria dois automveis numa curva apertada, roando o
guarda-lamas um do outro. O que nos parece real apelidamos de
tangvel, como se fosse um fruto cuja pele consegussemos
tocar. Quando morre-mos, os que amamos deitam-nos em caixes
acolchoados, fazendo de ns outra vez crianas, anichados no
colo da me antes de re-gressar ao tero da terra, ritualmente
por nascer. Como escreve Frederick Sachs em *The Sciences*.
O primeiro sentido a funcionar, o tacto,  muitas vezes o
ltimo a desaparecer: muito depois de os nossos olhos nos
trarem, as nossas mos ainda so fiis ao mun-do... ao
descrevermos uma perda definitiva, muitas vezes falamos em
/perder contacto/. :, 



PRIMEIROS TOQUES


   Embora eu no seja um senhor de meia-idade sem nenhuma
ocupao, estou a fazer massagens a um beb num hospital de
Miami.  frequente os reformados oferecerem-se como
voluntrios para trabalhar nos servios de prematuros durante
a noite, pois as outras pessoas tm famlias para cuidar ou
seis horas de trabalho  espera delas no dia seguinte. Os
bebs no se importam com o sexo dos que lhes do carinhos e
mimos. Absorvem-nos como um man, na vastido da sua
insegurana. Os braos deste beb parecem lassos, como vinilo.
Ainda demasiado fraco para se voltar sozinho, j con-segue
esbracejar e remexer-se to bem que as enfermeiras coloca-ram
umas proteces macias na cama, para impedir que ele rebole
para um canto. O tronco dele  do tamanho de um baralho de
car-tas. Que este rapazinho deitado de barriga para baixo
venha um dia a jogar basquete nos Jogos Olmpicos de Vero, a
criar os seus pr-prios filhos, a ser soldador de elianite ou
a reservar uma passagem de avio para o Japo, parece
inacreditvel! Esta pequena forma de vida com uma cabea
grande, onde as veias sobressaem como uma rede hidrolgica,
parece to frgil, transmite uma tal sensao de efemeridade.
Deitado na sua incubadora, ou Isolette, como  co-nhecida,
que acentua o isolamento da sua vida, usa uma plumagem de fios
-- elctrodos que registam os seus progressos e fazem soar um
alarme se necessrio for. Introduzindo umas mos
cuidadosa-mente lavadas, desinfectadas e aquecidas pelas
vigias da incubado-ra, e movida por fortes impulsos
protectores, toco-lhe;  como tocar o interior de uma
crislida. Primeiro, afago-lhe a cabea e o rosto muito
devagar, seis vezes, dez segundos de cada vez, e depois o
pescoo e os ombros outras seis vezes. Fao deslizar as minhas
mos pelas costas dele e massajo-as na vertical, em seis
movimen-tos lentos e circulares e depois acaricio-lhe os
braos e pernas seis vezes. No devo tocar-lhe com demasiada
leveza, pois ele sentiria ccegas, nem com fora, o que o
agitaria, mas de um modo firme e constante, como se estivesse
a alisar uma prega num tecido pesado. Num monitor prximo, as
ondas turquesas de um electrocardio-grama e de um grfico de
respirao flutuam num ecr luminoso, uma delas baixa e
semelhante aos dentes de uma serra, a outra sal-tando para
cima e para baixo numa dana improvisada. A sua pul-sao  de
153, para mim representaria um pico aerbio durante um
exerccio puxado, mas nele indica calma, pois os bebs tm um
ritmo de pulsao cardaca mais elevado do que os adultos. :,
Voltmo-lo de barriga para cima e, embora adormecido, faz uma
ca-reta de desagrado. Em pouco menos de um minuto, o rosto
dele as-sume uma variedade de expresses, todas elas
perfeitamente legveis graas aos semforos que so as
sobrancelhas, ao cdigo das pregas na testa,  borracha da
boca e do queixo: irritado, calmo, intrigado, feliz,
zangado... Depois, o rosto torna-se neutro e as plpebras
estre-mecem enquanto ele entra no sono paradoxal, o quadro
preto dos so-nhos. Algumas enfermeiras comparam os minsculos
prematuros que dormem o seu sono uterino a fetos no exterior.
Com que sonha um feto? Com cuidado, movo-lhe os membros numa
rotina de mi-ni-exerccios, esticando um brao e dobrando o
cotovelo, abrindo as pernas e dobrando os joelhos  altura do
peito. Silencioso mas alerta, parece gostar. Voltamos a
deit-lo de barriga para baixo e mais uma vez lhe fao festas
na cabea e nos ombros. Esta  a pri-meira das suas trs
sesses dirias de palpao: podem achar uma pena interromper
o seu sono profundo e hipntico, mas ao acarici-lo estou a
desempenhar uma tarefa vivificante.
   Os bebs que recebem massagens aumentam de peso a um ritmo
50 por cento maior do que os outros. So mais activos,
aler-tas, receptivos, apercebem-se melhor do que os rodeia,
toleram melhor o rudo, aprendem mais depressa a orientar-se e
controlam melhor as suas emoes. Tm menos tendncia para
chorar agora e um minuto depois adormecer, como explicou um
psiclogo, ao relatar os resultados de uma experincia na
*Science News*, em 1985, so mais capazes de se acalmarem e
confortarem a si prprios. Num exame feito oito meses mais
tarde, verificou-se que os prematu-ros massajados eram, em
geral, maiores, com a cabea tambm maior e menos problemas
fsicos. Alguns mdicos da Califrnia at experimentaram
colocar os prematuros em pequenas camas de gua que balouavam
suavemente, e da experincia saram bebs menos irritveis,
que dormiam melhor e tinham menos apneias. As crianas
massajadas, tanto nesse estudo como noutros, choravam menos,
tinham temperamentos mais dceis e eram, portanto, mais
agrad-veis de tratar para os pais, o que  importante, pois 7
por cento dos bebs nascidos prematuramente figuram entre as
vtimas de maus tratos. As crianas difceis de criar so mais
frequentemente maltrata-das. E as pessoas que, em crianas,
no foram bastante tocadas, acari-nhadas, no se tornam
adultos muito carinhosos, criando-se um ciclo vicioso.
   Um artigo surgido no *New York Times* em 1988 sobre o
papel fundamental do tacto no desenvolvimento das crianas,
referia atrofia fsica e psicolgica nos bebs privados de
contacto fsico, :, embora alimentados e acarinhados de outras
formas..., o que foi comprovado por um investigador que
estudava os primatas e por outros que trabalhavam com rfos
da Segunda Guerra Mundial. Os bebs prematuros que eram
massajados trs vezes por dia du-rante quinze minutos
aumentavam de peso a um ritmo 47 por cento mais rpido do que
os que eram deixados sozinhos nas incubadoras... Os bebs
massajados mostravam tambm sinais de que o sis-tema nervoso
se desenvolvia mais rapidamente: tornavam-se mais activos e
reagiam melhor a estmulos como um rosto ou uma roca... Os
recm-nascidos que recebiam massagens tinham alta do hospital
seis dias mais cedo do que os outros, em mdia. Ao fim de
oito meses, os bebs massajados ficavam mais bem classificados
do que os outros, em testes de capacidade motora e mental.
   Na Faculdade de Medicina da Universidade de Miami, a
psic-loga infantil Dr.a Tiffany Field observou um grupo de
bebs inter-nados na unidade de cuidados intensivos por
diversas razes. Com 13 000 a 15 000 nascimentos por ano no
hospital, nunca lhe falta matria de estudo. Alguns esto a
ser tratados com cafena, por te-rem problemas de bradicardia
e apneia, um deles  hidroenceflico, outros so filhos de
mes diabticas, que tm de ser cuidadosamente vigiados. Junto
a uma incubadora, uma jovem me est sentada numa cadeira de
cozinha preta ao lado do seu beb, murmurando-lhe sons doces
ao ouvido. Dentro de outra incubadora, uma menina de fatinho
branco com coraes cor-de-rosa rompe num choro que faz
disparar a luz avisadora do seu monitor. Do outro lado da
sala, um mdico est calmamente sentado ao lado de um
prematuro, segu-rando um instrumento de plstico com duas
pontas junto s narinas do beb, tentando ensinar-lhe a
respirar. Perto dele, uma enfermeira deita uma menina de
barriga para baixo e d incio a uma massa-gem a que chamam
*stim*, abreviatura de estimulao. Usam a pala-vra
alternadamente como verbo e como substantivo. Que rostos de
velho tm os prematuros! Mudam vrias vezes de expresso
enquanto dormem, como se estivessem a ensaiar emoes
dife-rentes. A enfermeira cumpre o programa de massagens, cada
zona do corpo seis vezes durante dez segundos. O estmulo no
alterou os sonos do beb, mas ele aumentou trinta gramas por
dia e pode-r em breve ir para casa, quase uma semana mais
cedo do que se esperava. No acontece nada de extraordinrio
aos bebs, explica Field, no entanto, aumentam de peso mais
depressa e tornam-se mais activos e eficientes.  espantoso a
quantidade de informao transmitida pelo tacto. Todos os
outros sentidos esto concentrados num rgo, mas o tacto est
em toda a parte. :,
   Saul Schanberg, um neurologista que faz experincias com
ratazanas na Universidade Duke, descobriu que as mes
ratazanas provocam alteraes qumicas nas crias quando as
lambem e lavam; quando estas so levadas para longe das mes,
as suas hormonas de crescimento diminuem. A ODC (a enzima
que avisa que est na altura de se iniciarem certas alteraes
qumicas) baixou em todas
as clulas do corpo e a sntese proteica caiu. O crescimento
s foi retomado quando as crias voltaram para junto das mes.
Quando os investigadores tentaram colmatar os efeitos
negativos sem a ajuda da me, descobriram que as carcias
suaves no resultavam, mas sim afagos bruscos com um pincel
que se assemelhava  lngua da me; depois disso, as crias
desenvolveram-se naturalmente. Tanto    as que voltaram para
junto das mes como as que foram afagadas com os pincis
estavam perturbadas e foi preciso serem muito
mais acariciadas do que o costume para passarem a reagir
normal-
   Schanberg comeou a fazer experincias com ratazanas em
resultado do seu trabalho em pediatria; estava particularmente
interessado no nanismo psicossocial. Certas crianas que vivem
em lares emocionalmente nocivos param pura e simplesmente de
crescer. Schanberg verificou que injeces de hormonas de
crescimento no faziam os corpos atrofiados dessas crianas
voltarem a desenvolver-se, mas muito amor e carinho
conseguia-o. O afecto que recebiam das enfermeiras, quando
eram internadas em hospitais, era o
suficiente para retomarem um crescimento normal. O mais
espantoso  que o processo  absolutamente irreversvel.
Quando as experincias que fez com ratazanas produziram
resultados idnticos, Schanberg comeou a pensar nos
prematuros humanos, que so tipicamente isolados e passam
grande parte dos seus primeiros dias privados de contacto
humano. Os animais precisam de estar junto das mes para
sobreviverem. Se o contacto com a me lhes  retirado
(no caso das ratazanas, basta que o seja durante quarenta e
cinco minutos), a cria reduz a sua necessidade de ser
alimentada, a fim de se manter viva at ao regresso da me.
Tudo corre bem se a me se ausenta durante pouco tempo, mas se
ela no voltar, esse metabolismo lento d origem a um
crescimento atrofiado. A palpao transmite  criana
tranquilidade e segurana;  como se desse ao corpo a
indicao de que est tudo bem, de que pode desenvolver-se
normalmente. Em experincias efectuadas por todo o pas, as
crianas que passavam mais tempo ao colo tornavam-se mais
vivas e, posteriormente, desenvolviam melhores capacidades
cognitivas.  um pouco como a estratgia que adoptamos num
navio prestes a :, afundar-se: primeiro saltamos para um
salva-vidas e gritamos por socorro. Os animais bebs chamam as
mes com um choro lancinante. Em seguida, munem-se de um
fornecimento de gua e ali-mentos e tentam poupar as energias
reduzindo as actividades que mais as consomem -- o
crescimento, por exemplo.
   Na Universidade da Escola de Medicina do Colorado foi feita
uma experincia com macacos que consistia em separ-los das
mes. A cria mostrava sinais de desespero, confuso e
depresso, e s o regresso da me e alguns dias de colo a
ajudava a voltar ao normal. Durante a se-parao,
registavam-se alteraes no ritmo cardaco, temperatura do
cor-po, ondas cerebrais, sono, e no funcionamento do sistema
imunolgico. A monitorizao electrnica das crias separadas
da me mostrou que a ausncia do contacto fsico causa
perturbaes fsicas e psicolgicas. Porm, com o regresso
materno, apenas os problemas psicolgicos pareceram
desaparecer;  verdade que o comportamento da cria voltou ao
normal, mas os danos fsicos -- susceptibilidade  doena,
entre outros -- persistiram. Entre as concluses desta
expe-rincia est a de que os problemas no so reversveis e
de que a falta do contacto com a me pode provocar danos
irreparveis.
   Numa outra experincia com macacos, efectuada na
Universi-dade de Wisconsin, separou-se uma cria da me por
meio de uma divisria de vidro. Os macacos conseguiam ver-se,
ouvir-se e chei-rar-se um ao outro, encontrando-se apenas
privados do contacto f-sico, mas essa falta criou um vazio
to grave que a cria chorava e no parava de andar
freneticamente de um lado para o outro. Num outro grupo, a
divisria tinha buracos, de modo que me e filho po-diam
tocar-se atravs deles, o que aparentemente bastava, pois as
crias no desenvolviam problemas graves de comportamento. As
crias isoladas durante um curto espao de tempo tornaram-se
adolescentes obsessivamente dependentes umas das outras, e no
indi-vduos independentes e confiantes. As que ficaram
isoladas durante muito tempo evitavam-se e tornavam-se
agressivas quando entravam em contacto: seres solitrios e
violentos que no estabeleciam boas relaes.
   Em experincias com primatas, feitas na Universidade de
Illinois, descobriu-se que a ausncia de contacto fsico
provocava leses cerebrais. Os animais eram colocados em trs
situaes diferen-tes: (1) o contacto fsico no era possvel,
mas todo o outro tipo de contacto era; (2) durante quatro
horas por dia, a divisria de vidro era retirada para que os
macacos pudessem interagir; (3) isolamento total. As autpsias
dos cerebelos revelaram que nos macacos total-mente isolados
havia leses cerebrais, o mesmo se verificando nos
parcialmente isolados. S a colnia natural, em que no se :,
interferira, no apresentava quaisquer danos. Embora parea
chocante, mesmo uma ausncia de contacto fsico relativamente
pequena  suficiente para provocar leses cerebrais que, nos
macacos, muitas vezes davam origem a um comportamento
aberrante.
   Volto a colocar o prematuro na sua casa de vidro e reparo
que numa parede est pendurado o desenho alegre de um circo
com palhaos, um carrossel, tendas, bales, e uma faixa onde
se l Roda da Fortuna. Lembro-me de ouvir Saul Schanberg
afirmar: O tacto , sem dvida, o mais fundamental dos
sentidos, numa conversa que tivemos sobre Key Biscayne, na
extraordinria con-ferncia sobre o tacto promovida pela
Johnson  Johnson na Pri-mavera de 1989, uma troca de ideias
que reuniu durante trs dias neurofisilogos, pediatras,
antroplogos, socilogos, psiclogos e outras pessoas
interessadas na forma como o tacto e a falta dele afectam o
corpo e a mente. Por muitas razes,  difcil fazer
in-vestigao sobre o tacto. Para os outros sentidos h um
rgo--chave que se pode estudar; no que diz respeito ao
tacto, esse r-go  a pele que se estende por todo o corpo.
Todos os sentidos tm pelo menos um centro bsico de
investigaes, excepto o tacto. O tacto  um sistema
sensorial, cuja influncia  difcil de isolar ou eliminar. Os
cientistas podem estudar pessoas cegas para saberem mais sobre
a viso, surdos ou anosmticos para aprenderem mais so-bre a
audio ou o olfacto, mas  virtualmente impossvel fazer o
mesmo em relao ao tacto. Tambm no podem fazer experincias
com pessoas que nasceram sem esse sentido, como fazem muitas
ve-zes com os surdos ou cegos. O tacto  um sentido com
funes e qualidades nicas, mas tambm aparece frequentemente
associado a outros sentidos. O tacto afecta todo o organismo,
bem como a sua cultura e os indivduos com quem entra em
contacto.
   --  dez vezes mais forte do que o contacto verbal ou
emocio-nal -- explicou Schanberg --, e certamente afecta tudo
o que fa-zemos. Nenhum outro sentido nos excita como o tacto;
sempre o soubmos, mas no nos tnhamos ainda dado conta de
que isso ti-nha uma base biolgica.
   -- Est a dizer que  agradvel?
   -- Sim, se o toque no fosse agradvel, no haveria
reproduo de espcies, descendncia nem sobrevivncia. Uma
me nunca to-caria um filho da forma adequada se no sentisse
prazer em faz-lo. Se no gostssemos da sensao de tocar e
acariciar os outros, no faramos sexo. Os animais que
instintivamente mais se tocaram ti-veram filhos que
sobreviveram, os seus genes passaram de gerao em gerao, e
a tendncia para tocar tornou-se cada vez mais forte. :,
Esquecemos que, na nossa espcie, o tacto no  apenas bsico
mas sim a sua prpria chave.
   Quando um feto se desenvolve no tero, cercado de lquido
amni-tico, sente um calor lquido, o bater do corao, a
ondulao interior da me, e flutua numa maravilhosa cama de
rede que baloua suavemente quando ela caminha. O nascimento
deve ser um grande choque aps tanta serenidade, e a me
recria o conforto do tero de diversas formas (aconchegando,
embalando, encostando o beb contra o seu lado es-querdo,
junto ao corao). Logo depois do parto, as mes humanas (e as
macacas) apertam os seus filhos contra si. Nas culturas
primitivas, as mes no largam os bebs nem de dia nem de
noite. Um beb dos pigmeus do Zaire est em contacto fsico
com algum durante, pelo menos, 50 por cento do tempo, e os
outros membros da tribo esto constantemente a fazer-lhe
festas ou a brincar com ele. Uma me *Kung*! transporta o
filho num *curass*, uma faixa que o mantm na ver-tical junto
ao corpo materno, de modo a que o beb possa alimentar-se,
brincar com as contas do colar dela ou interagir com outras
pessoas. As crianas *Kung*! esto em contacto com pessoas
cerca de 90 por cento do tempo, enquanto a nossa cultura isola
os bebs em beros, carrinhos ou cadeirinhas, mantendo-os 
mo mas fora do caminho.
   Um aspecto bizarro do papel do tacto  que nem sempre
precisa de ser desempenhado por outra pessoa, nem sequer por
um ser vi-vo. No Maternity Hospital em Cambridge, na
Inglaterra, descobriu--se que se um prematuro fosse
simplesmente deitado sobre uma manta de pele de carneiro, o
seu peso aumentava mais quinze gra-mas por dia do que o
habitual. Isso no se devia ao calor proporcionado pela manta,
visto que a enfermaria estava sempre aquecida, mas antes se
relacionava com a tradio de enfaixar os bebs, o que
aumenta a estimulao tctil, diminui o *stress* e f-los
sentir-se aconchegados. Noutras experincias, mantas ou roupas
bem ajusta-das reduziam o ritmo cardaco, relaxavam-nos;
dormiam mais no seu aconchego uterino.
   Todos os animais reagem ao serem tocados, afagados, mexidos
de alguma maneira e, alis, a prpria vida nunca teria
evoludo sem palpa-o -- ou seja, sem substncias qumicas
tocando umas nas outras e formando combinaes. S por no
tocar nem ser tocada, uma pessoa pode adoecer, seja qual for a
sua idade. (*) 

(*) Que vida curiosa e de privao, a dos gmeos quntuplos de
Dionne. Nascidos em Ontrio, no Canad, o Governo tomou-os a
seu cargo e colocou-os numa espcie de jardim zoolgico.
Viviam, pois, numa sala esterilizada atrs de grades. Quando
queria v-los, a me, que no estava autorizada a tocar-lhes,
punha-se na fila juntamente com os outros visitantes que
pagavam bilhete. S por meio de um processo judicial conseguiu
recuperar as crianas. Nenhum deles teve um desenvolvimento
normal. (*N. da A.*)

Nos fetos, o tacto  o primeiro :, sentido a desenvolver-se e
nos recm-nascidos  automtico antes de os olhos se abrirem
ou de o beb principiar a entender o mundo. Pouco depois de
nascermos, embora sem vermos nem falarmos, instintiva-mente
comeamos a palpar. Os corpsculos do tacto que existem na
lngua tornam a amamentao possvel, os mecanismos que nos
levam a agarrar, existentes nas mos, comeam a procurar tocar
o que  quente. Entre outras coisas, o tacto ensina-nos a
diferena entre o *eu* e o *outro*, que pode haver outra
pessoa para alm de ns prprios, a me. Mes e filhos
tocam-se intensamente. O primeiro consolo emo-cional, tocar e
ser tocado pela me, permanece como a recordao m-xima de
amor desinteressado, que nos acompanha durante toda a vida.
   O pequeno universo de dois quilos de peso chamado Geoffrey,
que acaricio com gestos lentos e ternos, enrugou
displicentemente a boca e desenrugou-a com igual rapidez.
Noutras incubadoras espa-lhadas pela sala, outras vidas se
agitam e outros voluntrios tentam ajudar os bebs a
compreender o mundo. A investigadora principal desta
enfermaria, formada em cuidados neonatais, faz o teste
sensorial Brazelton a um rapazinho que responde a uma roca
vermelho-viva. Pega no beb ao colo e baloua-o
cuidadosamente, fazendo-o rodo-piar, e o olhar dele percorre o
crculo descrito, como  suposto, re-gressando depois ao
centro. Em seguida, faz soar uma campainha dez segundos de
cada lado, o que repete quatro vezes.  uma cena quase
budista. Num bero prximo, um prematuro  submetido a um
teste de audio, usando uns auscultadores que o fazem
pare-cer uma telefonista. A poltica em relao aos
recm-nascidos costumava ser no perturb-los mais do que o
indispensvel, e eles viviam dentro de uma espcie de cabina
isolada, mas hoje os conhecimentos que temos sobre o tacto so
tantos e to eloquen-tes que muitos hospitais encorajam o
contacto fsico. J abraou o seu filho hoje?, l-se num
conhecido autocolante.  mais do que uma pergunta retrica. O
tacto parece ser to essencial  vida
como a luz do Sol.


:o que  uma percepo tctil?


   O tacto  o nosso sentido mais antigo e tambm o mais
imedia-to. Se um tigre-de-dentes-de-sabre nos puser uma pata
no ombro, convm darmos por isso quanto antes. Qualquer
primeiro toque, ou mudana de toque (de suave para doloroso,
digamos), pe o crebro num frenesim de actividade. Todas as
outras percepes tcteis contnuas e de nvel inferior
tornam-se apagadas. Quando tocamos :,
em algo propositadamente -- um namorado, o guarda-lamas de um
carro, a lngua de um pinguim -- pomos em funcionamento a
nossa complexa teia de receptores tcteis, disparamo-los
quando os expomos a uma sensao, modificamos esta, expmo-los
a outra. O crebro l esses disparos e os intervalos entre
eles como se fos-sem alfabeto morse e regista: *macio,
grosseiro, frio*.
   Os receptores tcteis podem deixar de funcionar devido
sim-plesmente ao tdio. Quando vestimos uma camisola grossa,
aperce-bemo-nos com nitidez da sua textura, do seu peso e da
sensao que nos provoca na pele, mas ao fim de algum tempo
deixamos de pensar nisso. Uma presso constante e consistente
 registada no incio, j que acciona os receptores tcteis;
em seguida, estes deixam de trabalhar. Assim, usar uma pea de
l, um relgio de pulso ou um colar no nos afecta muito, a
no ser que a temperatura suba ou que o colar se parta. Quando
ocorre qualquer mudana, os recep-tores disparam e damo-nos
conta dela de repente. As investigaes feitas indicam que,
embora sejam quatro os principais tipos de re-ceptores,
existem muitos outros, cobrindo um vasto leque de reac-es.
Afinal de contas, a nossa gama de percepes tcteis 
complexa e no inclui apenas quente, frio, dor, presso. So
muitos os receptores tcteis que se combinam para produzir
aquilo a que chamamos uma pontada. Consideremos todas as
variedades da dor, irritao, sensao abrasiva; todas as
cambiantes do lamber, afagar, limpar, acariciar, amassar; as
diferentes picadelas, contu-ses, formigueiros, roadelas,
arranhes, encontres, palpaes, beijos, cotoveles. Passar
as mos por giz antes de um exerccio nas barras assimtricas.
Um mergulho num lago de guas glidas num dia de Vero, em que
a temperatura do corpo  igual  tempe-ratura do ar. Uma mosca
a lamber cuidadosamente as gotas de suor sobre o nosso
tornozelo. Tactear, de olhos vendados, numa tigela cheia de
bolas de esferovite, como ritual de iniciao num clube
qualquer. Retirar um p de uma poa de lama. A terra molhada a
a-brir caminho nos intervalos dos nossos dedos dos ps. Fazer
fora com a mo em cima de um po-de-l. O quase orgstico
misto de prazer, arrepio, dor e alvio que nos traz uma
coadela de costas. (*) 

(*) A minha me contou-me que um dia tinha feito um tapete,
usando, em vez de linha, longas tiras de camisas velhas,
cuecas rasgadas e meias rotas do meu pai, enfiadas com a
agulha de croch numa serapilheira Ela devia referir-se quele
quadrado preto e florido que cobria, como uma jangada, o cho
da cave, gelado e feio, e que cheirava a amonaco nos stios
que o co abandonado que tnhamos resol-vido adoptar naquele
Inverno enchera de lombrigas. No  o tapete de trapos em si
que conservo na minha memria, mas a sua textura esponjosa.
Trinta anos depois, ainda consigo reviver essa sensao fofa e
acrlica. (*N. da A*.)

Num rancho de gado onde estive h alguns anos, quando chegou a
:, altura de os animais parirem fui dar uma ajuda aos
vaqueiros. Sem-pre que vamos uma vaca em dificuldades, algum
tinha de enfiar a mo na vagina dela para verificar o estado
do animal. Es mulher diziam-me invariavelmente, faz tu.
Queriam dizer que eu devia conhecer, pelo tacto, o interior de
outra fmea, apesar de s muito vagamente se relacionar comigo
e de ter os rgos na horizontal. V l se descobres duas
protuberncias por cima de uma eleva-o..., disse-me certa
vez um vaqueiro hispano-americano, tentando ajudar. Com o
brao enfiado at ao ombro dentro de uma vaca, sentimos o seu
calor a apertar-nos com fora, mas nunca esquecerei como
fiquei espantada e maravilhada na primeira vez que retirei a
mo devagar e senti os msculos da vaca contrarem-se e
relaxarem um a um, como uma fila de pessoas a apertar-me a mo
uma de ca-da vez, numa recepo. Pergunto-me se ser isso que
sentimos ao nascer. Os cientistas descobriram, ainda, que os
receptores nervo-sos reagem  presso, ou quilo em que se
especializaram. Durante muito tempo, pensou-se que a cada
sensao correspondia um re-ceptor prprio e que esse receptor
tinha um caminho s seu at ao crebro, mas hoje parece que os
campos de neurnios do corpo in-terpretam qualquer sensao,
de acordo com um sistema de sinais elctricos. A dor produz
balidos irregulares dos nervos a intervalos regulares. A
comicho d origem a um esquema rpido e constante. O calor
produz um crescendo  medida que a temperatura da zona
atingida sobe. Uma pequena presso provoca um frmito de
excita-o, que depois esmorece, e uma presso mais forte
limita-se a ex-pandir o surto de actividade. Ao fim de algum
tempo, como foi j sugerido, um receptor tctil adapta-se ao
estmulo, deixando de responder, e ainda bem, seno podamos
dar em doidos ao sentir uma camisola leve em cima da pele numa
noite fresca de Vero, ou perder a cabea com uma brisa que
nunca mais parasse. Essa esp-cie de fadiga no se verifica
nos profundos corpsculos de Pacini nem nos rgos de Ruffini
(articulaes), ou nos de Golgi (tendes), que nos do
informaes sobre o nosso clima interior, pois se eles
vacilassem ns cairamos a meio do caminho. Mas os outros
receptores, de incio to atentos, to vidos de novidade, ao
fim de um certo tempo exclamam o equivalente a Oh, no, outra
vez, no! e pem-se a dormitar, de modo a podermos prosseguir
a nossa vida. Talvez nos sintamos constrangidos quase sempre,
mas raramente temos conscincia do que valemos fisicamente, ou
sen-tir-nos-amos exaustos com tal furaco de emoes.
   Algumas percepes tcteis irritam-nos e encantam-nos
simul-taneamente. As ccegas podero ser uma combinao dos
sinais de :, presso e dor. O molhado talvez seja um misto de
temperatura e presso. Mas quando perdemos a capacidade de
senti-las (o dentista d-nos uma injeco de novocana, uma
perna ou brao fica dor-mente em resultado de fraca irrigao
sangunea), sentimo-nos es-quisitos e fora do normal. A perda
do tacto pode ser tremendamente especfica: perdemos a
capacidade de sentir a temperatura ou a dor. Quando o meu
dentista me deu uma injeco de carbocana, o meu maxilar
descaiu como um fragmento de loua. Continuei a sentir a
presso e a temperatura, embora inversamente quanto 
temperatura (a gua gelada sabia a gua, mas quente); s que
deixei de sentir qualquer dor no maxilar. A ausncia de
minsculos sinais de dor -- um arranho, um belisco, uma
ferroada -- faziam com que a carne me parecesse cadavrica. H
alguns anos atrs, fui a uma palestra em St. Louis, no
Missuri, com o romancista Stanley Elkin, que h muito tempo
sofre de esclerose mltipla. Stanley ainda era capaz de
conduzir e decidimos ir no carro dele. Porm, antes de
entrarmos ele dirigiu-se  porta do condutor e demorou o que
me pareceram sculos a procurar qualquer coisa na algibeira.
Por fim, retirou tudo o que l estava dentro e espalhou os
objectos em cima do autom-vel, de modo a *ver* as suas
chaves. Muitas pessoas com esclerose mltipla conseguem sentir
um objecto dentro do bolso (as chaves do carro) mas no
conseguem identific-lo pelo tacto. O crebro no descodifica
correctamente as formas. As pessoas simultanea-mente surdas e
cegas so a prova de que  possvel viver predominantemente
atravs do tacto, mas no poder dispor dele  como atravessar
um mundo indistinto, ensurdecido, onde podemos ficar sem uma
perna e no dar por isso, queimar a mo sem sentir, ou perder
a noo de onde acaba a nossa pessoa e comea o resto.


:os emissores de sinais


    preciso um exrcito de receptores para se criar a iguaria
sin-fnica a que chamamos uma carcia. Entre a epiderme e a
derme existem pequenos corpsculos de Meissner, ovais, que so
nervos contidos em cpsulas. Parece que se especializaram nas
zonas sem plos do nosso corpo -- as solas dos ps, as pontas
dos dedos (onde existem 3 mil por centmetro quadrado), o
cltoris, o pnis, os ma-milos, as palmas das mos e a lngua,
as zonas ergenas e outros portos de escala ultra-sensveis --
e respondem com rapidez ao mais pequeno estmulo. No interior
de um corpsculo de Meissner, :, terminaes nervosas
ramificadas e curvas, tal como os filamentos dentro de uma
lmpada, esto dispostas paralelamente  superfcie da pele,
reagindo a uma quantidade de sensaes. O facto de serem
paralelas torna-as particularmente sensveis a algo que as
toque na perpendicular. Alm disso, so extremamente
especficas, pois cada seco do corpsculo reage
independentemente. Como descreveu certo investigador:  como
se o receptor fosse composto de molas separadas, como um
colcho; podemos premir uma sem incomodar as outras. Registam
vibraes de baixa frequncia, como o que sente um dedo ao
percorrer um sari de um tecido maravilhoso, por exemplo, ou a
pele macia da curva do brao.
   Os corpsculos de Pacini respondem com grande rapidez s
mudanas de presso e tm tendncia a surgir junto s
articulaes, em alguns tecidos profundos, nos rgos genitais
e nas glndulas mamrias. Sendo sensores espessos, da forma de
uma cebola, indi-cam ao crebro o que est a pression-los,
qual o movimento das articulaes, ou de que forma os rgos
alteram a sua posio quando nos movemos. No  necessria
muita fora para que eles respondam depressa e enviem sem
demora as suas mensagens ao crebro. Mas tambm so versados
em sensaes vibrteis e vari-veis, em especial as de alta
frequncia (uma corda de violino, por exemplo); com efeito, 
provvel que sejam as camadas do corps-culo, semelhantes s
das cebolas, a decifrar to bem as diferentes vibraes. A
funo dos corpsculos de Pacini  a de converter energia
mecnica em energia elctrica, como mostrou em 1950 Bernhard
Katz, da University College, em Londres, atravs das
ex-perincias elctricas que efectuou com msculos.
Investigaes posteriores levaram a um melhor entendimento
deste processo, co-mo refere Donald Carr em *The Forgotten
Senses*:

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   Hoje, os neurologistas crem que se pode comparar o
receptor tctil a uma membrana, na qual existe uma srie de
buraquinhos, ou pelo menos potenciais buracos, como um pedao
de queijo sui-o coberto de papel celofane. Quando em repouso,
os buracos so demasiado pequenos e o celofane est demasiado
esticado para deixar passar certos ies. A deformao mecnica
alarga esses bu-racos. Quando... se formam... correntes,
devido a uma forte pres-so, como numa alfinetada, essas
correntes so suficientemente fortes para dar origem a
impulsos nervosos, e a picadela  assina-lada pela frequncia
dos impulsos, visto ser essa a nica forma de as fibras
nervosas codificarem a intensidade.
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   A nossa coleco de receptores tcteis inclui ainda os
discos de Merkel, com a forma de pires, que se encontram
imediatamente :, abaixo da superfcie cutnea e respondem a
presses constantes (transmitem uma mensagem sustentada, uma
verificao contnua); vrias terminaes nervosas livres, que
no esto fechadas em cpsulas e respondem com maior lentido
ao toque e  presso; as terminaes de Ruffini, localizadas
muito abaixo da superfcie da pele, que registam presses
constantes; receptores trmicos; sensores cilndricos de calor
e o receptor tctil que melhor conhecemos mas tambm o mais
estranho: o cabelo. 


O CABELO


cabelo afecta profundamente as pessoas, pode glorific-las ou
torn-las repelentes. Smbolo de vida, o cabelo brota da nossa
cabea. Como uma seara, se for ceifado voltar a crescer.
Podemos modif-icar a sua cor ou textura a nosso bel-prazer,
mas a seu tempo ele re-tomar a forma original, tal como a
Natureza acabar por cobrir de ervas daninhas as cidades que
planemos com preciso. Oferecer ao ente querido um pequeno
anel (*) 

(*) Um anel de cabelo, *lock* em ingls,  algo ondulante e
retorcido de acordo com a origem da palavra: do indo-europeu
*leug*  a fascinante raiz da palavra inglesa *locket* (ingls
arcaico para dobrar juntamente, fechar); das ideias latinas
de *exuberncia, extravagncia e excesso* -- que originalmente
se referiam a um crescimento profuso e desordenado de plantas;
da palavra latina para *lutar* -- em que as pessoas se
dobravam umas sobre as outras -- e tambm *discutir* --em que
as pessoas tentavam distorcer e reunir factos; da palavra
alem para *alho francs* -- por causa da forma das suas
folhas, e mesmo do termo alemo para *sorte* --o destino a
torcer-se obliquamente. (*n da A*.)



de cabelo, para ele usar num meda-lho em volta do pescoo,
era um gesto comovente e terno, mas tambm perigoso, visto
que, para feiticeiros, mgicos, adeptos do *voodoo* e todo o
tipo de necromantes, um tufo de cabelo podia ser usado para
enfeitiar o respectivo dono. Numa variao sobre o mesmo
tema, um cavaleiro levava um tufo de plos pbicos da sua
amada para a guerra. Como uma das caractersticas principais
do amor corteso era ser secreto, a escolha dessa pequena
lembrana em vez de uma madeixa de cabelo talvez fosse uma
questo de sentido prtico e no filosfico, mas continuava a
simbolizar que ele transportava consigo um pouco da vida dela.
Os antigos lderes masculinos usavam longos cabelos ondulados
como sinal de virili-dade (com efeito, tanto *kaiser* como
*tsar* significam com cabelo comprido). Na Bblia, a queda
do cabelo traz a Sanso fraqueza e decadncia, tal como tinha
anteriormente trazido a Gilgamesh (**). 

(**) Lendrio rei da cidade-estado sumria de Uruk, que viveu
na primeira metade do terceiro milnio a.
C. e  o heri de uma das mais conhecidas obras picas da
literatura da Antiguidade. (*N da T*.)

Mais recentemente, na Europa, s mulheres que colaboravam com
o inimigo durante a Segunda Guerra Mundial, rapava-se o
cabelo, :, em sinal de humilhao. Nalguns meios judeus
ortodoxos, a jovem tem de cortar o cabelo antes de casar, no
v o marido ach-la de-masiado atraente e querer ter relaes
sexuais com ela movido pelo desejo e no pelo instinto de
procriao. Os rastas consideram o seu cabelo aos canudos
cabos de alta tenso que conduzem ao cu. Hoje, para chocar
a burguesia e estabelecer uma identidade prpria, aspirao de
todas as geraes, muitos jovens fazem com o cabelo uma
escultura livre, com bicos espetados, cortes que se
as-semelham a labirintos de relva e todas as cores do
arco-ris. A pri-meira vez que um aluno entrou numa aula minha
usando uma crista azul, tenho de confessar que fiquei
impressionada. Dos la-dos, madeixas de cabelo pintadas de azul
estavam todas em p, fi-xas com laca, um longo rolo de cabelo
branco tapava a testa at s sobrancelhas e a parte de trs
era preta e brilhante, alisada e quase colada  cabea. No
desgostei, mas achei que era preciso uma pa-cincia infinita
para fazer aquilo todos os dias. Tenho a certeza de que era o
que a minha av sentia acerca do cabelo ripado da minha me, e
a minha me deve pensar o mesmo da juba encaracolada que
constitui a minha prpria interpretao de belo cabelo
comprido. O penteado pode ser o emblema de um grupo de
pessoas, como sempre aconteceu: reparem no corte  escovinha
dos militares, ou dos penteados usados por freiras e monges.
Nos anos 60, usar o ca-belo comprido sobretudo nos homens,
muitas vezes provocava nos pais uma exploso custica; por
isso, o espectculo musical *Hair* retratava to bem uma
gerao. Aos polcias da altura, que tinham um aspecto to
composto e escanhoado, sucedeu uma gerao de barbas e
bigodes. Mas recordo-me de ouvir, durante o Love-in de
Bston em 1967, o meu primeiro ano de faculdade, um jovem
di-zer a um casal de transeuntes que criticara o seu
rabo-de-cavalo: Vo-se lixar, vocs e os vossos
cabeleireiros! Tambm me lembro de, nos anos 50, sair da casa
de banho com o cabelo todo esticado e enrolado para dentro,
cheio de laca: Que fizeste ao teu cabe-lo?, perguntou-me o
meu pai. Nada, desfrisei-o, respondi. Desfrisaste-o? Deste
foi cabo dele! Hoje em dia, uso o meu ca-belo ao natural, com
um corte que os Franceses chamam *la coupe sauvage* (corte
selvagem), mas o seu volume e a sua desordem ligeiramente
ertica so incmodos para o sentido de decoro da mi-nha me.
Para a gerao dela, as mulheres srias usam penteados
formais, cobertos de laca, para que os cabelos no saiam do
seu lu-gar. H umas semanas, telefonou-me a avisar que as
mulheres que exercem uma profisso no so levadas a srio
enquanto no fize-rem uma *mise* (rolos, secador, ampolas,
laca). Cabelo livre  sinal :, de vida livre. Obedecendo a
essa ideia, em vigor h muitos anos, as mulheres podem deixar
crescer o cabelo, mas devem us-lo apanhado, escondido num
chapu ou leno de cabea, soltando-o apenas em privado e de
noite. 
   A maioria das pessoas tem cerca de 100 000 folculos de
cabelo na cabea e perdem aproximadamente cinquenta a cem
cabelos por dia, s por os pentear, escovar e mexer
normalmente. Cada cabelo dura apenas dois a seis anos e cresce
dez a doze centmetros por ano, aps o que o respectivo
folculo descansa durante uns meses e o cabelo cai, sendo
substitudo por um cabelo novo. Assim, quando olharem para uma
bela cabeleira, tm  vossa frente cabelos de idades muito
diferentes, que fazem parte de um sistema complexo de
crescimento, morte e renovao, 15 por cento deles esto
alternada-mente em descanso enquanto os restantes 85 por
centro crescem; muitas dzias de cabelos esto condenadas a
morrer no dia seguinte, mas no fundo dos folculos novos
cabelos preparam-se para nascer.
   O cabelo tem um revestimento exterior duro chamado cutculo
e um interior mole chamado crtex. Nas pessoas com cabelo
forte, os folculos so maiores, com revestimento exterior
mais fino (10 por cento do cabelo) e o crtex interior maior
(90 por cento). As pessoas com cabelo fino tm folculos mais
pequenos e quase tanto cutculo (40 por cento) como crtex (60
por cento). Se as clulas do folculo crescerem uniformemente,
o cabelo ser liso; se crescerem de forma irregular, o cabelo
ser ondulado. Os piolhos tm dificuldade em se agarrarem a
cabelos espessos, sendo por isso que entre as crian-as negras
no h tantas epidemias de piolhos como entre as suas colegas
brancas. Alm de ser considerado *sexy* por muitas pessoas, o
cabelo protege o crebro do calor do Sol e dos raios
ultravioletas, ajuda a isolar o crnio, amortece os impactes e
controla em perma-nncia o mundo que fica a uma distncia
mnima do nosso corpo, esse crculo de perigo e romance em que
s deixamos entrar algumas pessoas.
   Claro que os cabelos crescem em muitas zonas do corpo, at
mesmo nos dedos do p e no interior do nariz e dos ouvidos. Os
Chineses, os ndios e outros povos tm muito poucos plos no
rosto e no corpo; os povos mediterrnicos so, por vezes, to
peludos e cabeludos que parecem muito prximos dos smios
nossos antepas-sados. Os calvos so homens *sexy*; ficam
carecas devido a um nvel elevado de testosterona no sangue,
sendo por isso que no se conhe-cem castrados ou eunucos
calvos. Os homens com espessas camadas de plos nos ombros e
nas costas metem-me medo. Na minha mente surgem palavras como
carnvoro, quando passo por um deles na :, praia. As
mulheres tendem a ter uma pele menos peluda do que os homens;
por isso, compreende-se que tirem os plos das pernas e
apli-quem loes, para acentuar essa diferena. Contudo,
apesar de todos os esforos para extrair os plos do corpo,
fica ainda, nos braos, rosto e cabea das mulheres, e no
peito, braos e pernas dos homens, um n-mero suficiente para
cumprir as suas funes.
   Os plos so uma caracterstica dos mamferos, embora nos
rpteis se formem escamas, que lhes so aparentadas. Cada plo
nasce de uma papila, uma formao da epiderme dentro da qual
se encontra o folculo e a terminao nervosa, podendo existir
perto um feixe de outras terminaes nervosas. Em mdia, o
corpo hu-mano tem cerca de cinco milhes de plos. Visto a
pele com plos ser mais fina,  mais sensvel do que a pele
lisa. Um plo reage fa-cilmente a um estmulo: se alguma
presso  exercida sobre ele, se  puxado, se tocam na sua
ponta ou na pele em volta dele, o plo vibra e acciona um
nervo. A penugem  o mais sensvel dos tipos de plos e
basta-lhe mover-se 0,000008 centmetros para pr um nervo em
aco. Mas este no pode estar sempre em actividade, se-no, o
corpo entraria em sobrecarga sensorial. H uma regio
infi-nitamente pequena onde parece no se passar nada, um
deserto de sensaes. Ento, uma brisa quase imperceptvel
sopra, nada que se parea com verdadeira agitao. Assim que
aumenta o suficiente para franquear determinado limiar
elctrico, transmite um impulso ao sistema nervoso. Os plos
so rgos do tacto maravilhosos. Brisa, diz o nosso crebro
sem fazer grande alarido, enquanto al-guns plos se erguem
discretamente nos nossos antebraos. Se uma partcula de
poeira ou um insecto toca uma das nossas pestanas, damos logo
por isso e piscamos o olho em defesa. Embora os plos possam
assumir formas to variadas como penugem ou antenas, al-guns
so de grande utilidade, como as vibrissas -- os plos duros
dos gatos a que chamamos bigodes --, que se encontram em
mui-tos mamferos, incluindo baleias e toninhas. Sem os seus
bigodes, o gato vai contra as coisas de noite e pode ficar com
a cabea entala-da em espaos apertados. Como ns. Se alguma
vez pudermos ter voto na matria da evoluo, uma das coisas
que eu reivindicaria seria um par de sensores que, tal como os
bigodes do gato, nos im-pedisse de chocar com mveis, amigos,
ou guaxinins no escuro.


O CLIMA INTERIOR


   Algumas pessoas fazem meditao ou praticam a filosofia
zen. Eu comeo cada manh passeando pelos canteiros do meu
jardim, :, onde florescem vinte e cinco roseiras do gnero
rosa-ch e floribunda, vinte e oito hemerocales cor de
alfazema e amarelos, mais ou menos uma dzia de plantas que se
do bem  sombra, como hostas e acnitos, e uma colorida
bordadura de plantas perenes e anuais.  vulgar levar meia
hora a escolher um p de gipsofila, uma ervilha-de-cheiro
cor-de-rosa, um p de campainhas azuis (do qual brota uma
seiva branca, quase sempre um sinal de veneno), uma ro-sa
vermelho-alaranjada denominada Bing Crosby, um p de
co-raes-de-maria vermelhos e brancos, um corepsis
amarelo-vivo, uma enorme dlia fcsia, uma dlia miniatura
vermelha e branca com a forma de uma margarida e uma vistosa
*Pavonia tigridia* salpicada de vermelho e amarelo, que
parece uma ris que casou com um hemero-cale e foi a uma festa
(o nome significa pavo com cara de tigre, que j 
suficientemente espantoso, mas eu prefiro chamar-lhe dana
me-xicana dos chapus). Como nunca sei o que desabrochou
durante a noite ou de madrugada, h dias em que  um pouco
como descobrir uma esmeralda dentro da sopa. Em seguida, passo
mais ou menos meia hora dentro de casa, a dispor as minhas
ptalas do dia numa taa de vi-dro cheia de berlindes
transparentes, sem dvida movida pelas leis do equilbrio, da
forma e da cor, mas trabalhando daquela forma serena e
obsessiva que no admite a presena de algo to grosseiro como
o pen-samento.
   Certa manh, ao preparar um ramo, reparei numa coisa
estranha relacionada com a nossa percepo das temperaturas.
Junto a uns talheres de molho em gua quente no lava-louas
estava uma tigela com gua fria e outra com gua morna. Pus
uma mo na fria, a outra na quente. Depois mergulhei as duas
na gua morna e, para minha surpresa, transmitiram-me
mensagens contraditrias. Esta-vam apenas a registar a
*mudana* de temperatura, no o quente ou frio em si. Reparei
tambm que, no sei porqu, objectos de igual peso parecem
mais pesados se estiverem frios do que se estiverem mornos.
No h uma explicao simples para esse fenmeno. Talvez os
receptores do calor sejam mais especializados, visto que os do
frio registam, tambm, calor.
   A maioria dos receptores do frio encontra-se no rosto, em
espe-cial na ponta do nariz, nas plpebras, nos lbios e na
testa, e os r-gos genitais so igualmente sensveis ao frio.
 a nossa camada exterior que parece temer mais o frio, agindo
como uma sentinela sempre alerta. Os receptores do calor
localizam-se na zona mais profunda da pele e so em menor
nmero. A lngua  mais sensvel ao calor do que muitas outras
partes do corpo, o que no admira. Se a sopa quente passa o
teste da lngua, podemos ter a certeza de que :, no vai
queimar a garganta nem o estmago. Ao contrrio de outras
percepes tcteis, as informaes sobre temperatura
transmitidas ao crebro abrangem as mudanas e no apenas a
intensidade, e so frequentemente actualizadas. A minha me
costumava mandar-me colocar um cubo de gelo sobre o pulso
quando eu estava com muito calor. Desse modo, os receptores do
frio so levados a exagerar, disparando furiosamente. Quando
se retira o cubo, o pulso perma-nece frio durante bastante
tempo. No parece grande cataplasma, mas a nossa pele precisa
apenas de aquecer trs ou quatro graus pa-ra nos sentirmos
verdadeiramente quentes e de arrefecer um ou dois graus para
nos sentirmos decididamente frios. Ento, o nosso corpo faz as
suas correces e esfregamos as mos uma na outra, treme-mos,
enfiamos as mos debaixo dos braos para aquec-las. To-mamos
bebidas geladas ou um duche frio ou damos um mergulho para
refrescar. Num dia de Vero trrido e hmido, daqueles em que
o Sol parece ter sido mergulhado em lixvia, em que o ar est
to denso que parece possvel beb-lo e o nosso corpo parece
chumbo acabado de derreter, basta-me entrar numa piscina e
mer-gulhar em gua at ao pescoo, deixando o frio percorrer a
espinal medula, para me sentir rejuvenescida. Porque ser que
a aspirina baixa a febre mas no afecta uma temperatura
normal? Porque inibe a libertao pelo corpo da substncia
piretogentica, que causa a febre. Existem ainda muitos
mistrios acerca da capacidade do cor-po para regular a sua
prpria temperatura. Acordamos mais frescos do que quando nos
deitamos, mas por que razo atingimos a nossa temperatura mais
baixa s 4 da manh?
   Suponhamos que o corpo era arrefecido de dentro para fora.
Na cirurgia hipotrmica, o sangue  arrefecido, voltando
depois a cir-cular, o que reduz a temperatura do corpo em
cerca de vinte e cinco graus. Nas histrias de fico
cientfica aparece muitas vezes um as-tronauta a quem se
reduziu a temperatura do corpo, dormindo em animao suspensa
como um urso nu num jardim. A famlia de Walt Disney jura que
no  verdade, mas h muito tempo que se diz que Walt tratou
de tudo para ser congelado quando morresse e hoje jaz num
reino mgico de gelo, aguardando que o descongelem. A Trans
Time, Inc., do grupo American Cryogenics Society, congela
efectivamente as pessoas depois de morrerem, prometendo
traz-las de volta  vida mais tarde, quando os mistrios da
morte forem conhe-cidos e os sintomas das suas doenas
reversveis. Filmes como *Ice Man* jogam com a ideia de uma
pessoa congelada durante dcadas, ou mesmo sculos, que um dia
acorda num mundo novo. O que torna a ideia to plausvel  ela
ter tantos equivalentes religiosos: algum :, que morre nesta
vida e emerge na prxima. No julgo que esteja
su-ficientemente provado que um crebro e um corpo possam ser
con-gelados e descongelados sem sofrer quaisquer danos, mas
aqueles que o propem garantem que no h nada a perder.
Poder proceder-se a uma extrema reduo metablica em vez da
congelao? A animao suspensa das histrias de fico
cientfica? Tecidos diferentes comportam-se de maneira
diferente perante a congelao, no ? No querer isso dizer
que uns podem ficar frios de mais e outros de menos? Como
reagiriam os apologistas do direito  vida (que j se opem
veementemente  congelao de esperma, vulos e embries) e os
religiosos fanticos ao descongelamento de pessoas? Que
problemas ticos e sociais se colocariam?
   Criaturas de sangue quente, facilmente sentimos calor em
ex-cesso e somos ento assaltados por um terror ancestral.
Queixa-mo-nos de que nos est a acontecer o mesmo que aos
animais que cozinhamos: Estou frito; Estou a assar; Esta
casa est um forno. Tendo perdido a espessa camada de plos
que revestia o nosso corpo, facilmente sentimos frio; por
isso, precisamos de usar muitos agasalhos quando a temperatura
desce. J vi pessoas a pas-sear no Inverno usando vrias
camadas de roupa, camisolas de l, volumosos sobretudos;
parecem camas feitas de fresco a andar de um lado para o
outro. A evoluo dos animais de sangue quente constituiu um
progresso extraordinrio. Mostrou que eles eram capazes de
manter a temperatura do corpo, apesar dos caprichos do meio
ambiente, e que podiam migrar. Os animais de sangue frio
(excepto as borboletas, enguias e tartarugas-marinhas) no so
grandes migradores e alguns, como as cascavis e a
generalidade das vboras, so peritos em detectar calor. Como
tambm o so os mosquitos, as traas e outros insectos (facto
que levou alguns investigadores a concluir que certas pessoas
so mais atreitas a picadelas de insectos do que outras,
porque irradiam mais calor, o que as torna alvos
preferenciais). Embora o nosso corpo no seja dotado de
dispositivos para detectar calor, crimo-los para uso militar
-- msseis de orientao trmica que mordem como cobras. Em
mo-dernos filmes de fico cientfica, como *Wolfen* ou *O
Predador*, monstros sanguinrios com lminas nas garras vivem
num mundo que fica fora do alcance da nossa vista; mas eles
localizam-nos com facilidade, pois tm uma viso de raios
infravermelhos. O monstro aparece sem pr-aviso, eviscera uma
pessoa e desaparece. Algo na sua capacidade de detectar calor
torna-o duplamente assustador. Serve-se de uma das nossas
caractersticas mais belas para nos des-truir. Durante
sculos, considermos o nosso sangue quente uma :, espcie de
fora de vida; referimo-nos  ternura e compaixo como calor
humano. E de repente um monstro  atrado para esse calor. A
nossa essncia  a nossa runa,  a mensagem desses pesadelos
sensoriais.
   Sem uma espessa camada de pelos a proteger-nos, temos de
nos precaver contra o frio. Embora as mos, ps e outras
partes do cor-po paream preciosos pela sua fina sensibilidade
tctil, quando atingidos pelo frio tornam-se secundrios. Mos
e ps podem ficar gelados que o corpo sobrevive  mesma, mas,
se a temperatura do sangue desce, estamos perdidos. Assim, o
tronco responde imedia-tamente s variaes de temperatura e
sentimos o frio em mais re-gies do corpo do que o calor. As
mulheres queixam-se de que tm as mos e os ps frios com
maior frequncia do que os homens, o que no  para admirar.
Quando o corpo arrefece, protege primeiro os rgos vitais
(razo pela qual as frieiras surgem nas extremida-des do nosso
corpo); nas mulheres, protege antes de mais os rgos
reprodutores. Quando ficamos com os lbios roxos ou frieiras
nos dedos dos ps  porque os vasos sanguneos esto
comprimidos, e o nosso organismo resolve sacrificar as
extremidades e enviar o san-gue para regies essenciais
internas.
   Os animais adoram deitar-se ao sol, a aquecer. No h
melhor imagem de felicidade do que um *cocker spaniel* preto e
branco deitado no tapete da sala, banhado pelo sol que entra
pela janela num dia de Inverno. Algumas criaturas, como os
rpteis e as moscas, fazem-no habitualmente, como forma de
regular a temperatura do seu corpo, e  frequente ver-se, nos
pntanos da Florida, um crocodilo--americano preparando-se
para tomar um banho de sol com um cuidado extremo e
voluptuoso: uma pata e a cauda dentro de gua, a parte
inferior das costas e a outra pata  sombra de um arbusto, a
cabea, o tronco e as patas dianteiras completamente ao sol...
Os crocodilos parecem demasiado exigentes quanto  sua
exposi-o ao sol, mas a verdade  que esto a acertar os seus
termstatos exactamente como ns fazemos numa tarde de Outono,
quando no despimos a camisola mas tiramos as luvas e o
barrete. A indstria do turismo baseia-se no facto de as
pessoas adorarem apanhar sol e h sempre um lugar onde 
possvel faz-lo. Embora muitas pessoas gostem de frias mais
aventurosas, a maioria prefere assar ao sol, como nacos de
entrecosto, regando-se com um molho adequado, e mudando
regularmente de posio para ficar bem passada dos dois
lados. A razo pela qual gostamos de nos deitar ao sol no 
difcil de adivinhar. A evoluo, grande estilista de modelos
re-quintados, deve ter criado essa sensao para que os
animais 
:, procurassem climas favorveis  sade. Mas quando h
exagero e um animal aquece demasiado, os capilares mais
pequenos da pele di-latam a fim de libertar calor. A cara das
pessoas fica afogueada. As orelhas dos coelhos ficam
avermelhadas. Todos os animais transpiram de uma maneira ou
doutra e o suor evapora-se, refres-cando o corpo. No  o
calor,  a humidade, queixamo-nos na-queles dias abafados
quando at uma camisa de algodo se cola s nossas costas.
Quando a temperatura do ar se aproxima dos 38 graus, o corpo
comea a descontrolar-se e sofre. Mas se o tempo ainda por
cima est hmido, o que significa que o ar est saturado de
gua, suamos  mesma para nos refrescar, s que nada acontece.
O ar est demasiado encharcado e no permite que o suor se
evapore. Assim, sentamo-nos na cadeira de balouo de um
alpendre no Alabarna, apticos e pegajosos, abanando-nos com
um folheto publicitrio de uma empresa de construo civil que
diz ter como objectivo resolver os nossos problemas,
enquanto beberricamos um ch gelado com uma folhinha de
hortel-pimenta ou uma lasca de ana-ns. Por outro lado, se um
animal arrefece demasiado,  frequente ficar com pele de
galinha e tremer -- os msculos da pele con-traem-se (para
reduzir a rea exposta), causando um estremeci-mento que ajuda
a aquecer o corpo. Embora no sejamos capazes de inchar, como
fazem outros animais, quer para parecermos maio-res, quer para
nos mantermos quentes, temos pequenssimos ms-culos *erector
pili* que pem os nossos plos em p quando sentimos frio ou
medo. Certos animais desenvolveram estratgias fascinantes
para se manterem quentes. Von Buddenbrock fala de um apicultor
que descobriu que as colmeias nunca arrefecem:

--------------------------
   A explicao  notvel. As dezenas de milhares de abelhas
de uma colmeia passam o Inverno encostadas umas s outras, em
monte. As abelhas que ficam no centro mantm-se quentes quando
a temperatura desce, mas as das camadas exteriores arrefecem;
comeam, ento, a bater as patas e a dar s asas muito
depressa -- por outras palavras, fazem o mesmo que ns, quando
trememos de frio. O importante parece ser, contudo, que a
agita-o delas propaga-se s mais de dez mil abelhas do
grupo. Os es-foros concertados do grupo acabam por gerar uma
quantidade de calor considervel. Em consequncia, a
temperatura sobe at as abelhas acalmarem, principiando,
ento, a descer, o que faz com que todo o processo se repita.
:,
---------------------------

   Volto a recordar aquele passeio pela costa californiana no
ms de Dezembro, na companhia de Chris Nagano do Los Angeles
Museum.s Monarch Project, quando encontrmos e classificmos
milhares de borboletas que hibernam durante o Inverno.
Pendendo em luminosas grinaldas cor de laranja dos eucaliptos,
as borbole-tas de vez em quando abriam as asas como se fossem
painis sola-res ou batiam-nas rapidamente para aquecerem,
antes de partir em busca de nctar. Era fcil apanh-las com
uma rede pendurada na ponta de uma vara telescpica e na maior
parte dos casos elas en-travam devagar, fazendo um barulho de
seda amarrotada, en-quanto nos sentvamos no cho do
eucaliptal silencioso e sem insectos. Retirvamo-las da rede
uma de cada vez, para verificar o seu estado de sade e sexo e
para ver se estavam grvidas, depois colvamos uma etiqueta
semelhante a um selo na parte superior de uma das asas. Mas
nalgumas manhs chegaram a estar apenas dez graus e uma
borboleta precisa de, pelo menos, doze graus pa-ra conseguir
mexer os msculos das asas. Quando eu acabava de etiquetar uma
borboleta e a lanava no ar da forma habitual -- como se
estivesse a agitar um leno -- ela s vezes caa logo ao cho,
um delicioso petisco para um predador veloz. Sempre que tal
acontecia, eu apanhava a borboleta e segurava-a pelas asas
fe-chadas em frente  minha boca, soprando ar quente para cima
dos seus msculos. Em poucos segundos, aquecia o suficiente
para voar. Voltava a lan-la, e a borboleta retomava as suas
delicadas tarefas no eucaliptal.


:a pele tambm v

   Ao clarificar e complementar a tarefa desempenhada pelos
olhos, o tacto revela-nos que vivemos num mundo a trs
dimen-ses. Olhamos uma fotografia que tirmos na companhia de
um amigo no modesto circo de uma cidade rural e recordamos o
calor hmido daquele dia de Vero, o que sentimos quando o
lama nos enfiou o seu focinho aveludado no bolso da camisa, na
mo, debaixo do brao ou em volta do peito, sem magoar, mas
nitidamente  pro-cura de comida. Nesse instante, a palavra
lama parece-nos antes uma forma verbal, pois de vez em
quando temos de procurar da mesma maneira a nossa
sobrevivncia. Recordamos o que sentimos ao tocar a mo de uma
pessoa que amamos, as curvas do seu corpo, a textura do seu
cabelo. O tacto permite-nos encontrar o caminho na escurido
ou noutras circunstncias em que os demais sentidos


:a pele tambm v


   Ao clarificar e complementar a tarefa desempenhada pelos
olhos, o tacto revela-nos que vivemos num mundo a trs
dimen-ses. Olhamos uma fotografia que tirmos na companhia de
um amigo no modesto circo de uma cidade rural e recordamos o
calor hmido daquele dia de Vero, o que sentimos quando o
lama nos enfiou o seu focinho aveludado no bolso da camisa, na
mo, debaixo do brao ou em volta do peito, sem magoar, mas
nitidamente  pro-cura de comida. Nesse instante, a palavra
lama parece-nos antes uma forma verbal, pois de vez em
quando temos de procurar da mesma maneira a nossa
sobrevivncia. Recordamos o que sentimos ao tocar a mo de uma
pessoa que amamos, as curvas do seu corpo, a textura do seu
cabelo. O tacto permite-nos encontrar o caminho na escurido
ou noutras circunstncias em que os demais sentidos :, no nos
podem ser de grande utilidade. (*) 

(*) O tacto est a ser utilizado com xito como substituto da
audio. Liga-se um nmero varivel de elctrodos com um banho
de ouro a um cinto estimulador, usado geralmente em volta da
barriga, do brao, da testa ou da perna. A criana surda
aprende que determinados sons tm determinados pa-dres
cutneos, e o professor pede  criana para criar sons que
produzam o mesmo padro cutneo. O mtodo  particularmente
til no caso de palavras difceis de ler nos lbios, como
som, tom, bom. Esses descodificadores tcteis, como
so chamados, ainda no esto preparados para transmitir o
cdigo da fala na totalidade, mas podem ser usados com
eficcia em complemento da leitura dos lbios. As crianas que
os usam atingem nveis de leitura superiores aos das outras.
No programa de descodificao tctil do Dr. Kimbough Oller,
posto em prtica na Universidade de Miami, o objectivo final 
substituir o sentido da audio pelo do tacto. (*N. da A*.)

Porque usam a vista com-binada com o tacto, os primatas so
exmios em localizar objectos no espao. Embora no exista um
termo para essa capacidade, ao tocarmos uma coisa sabemos se 
pesada, leve, gasosa, macia, dura, lquida;, slida. Svetlana
Alper, na sua obra de 1988 *Rembrandt.s Enterprise: The
Studio and the Mariek*, diz, a propsito de Rem-brandt ter
usado na sua obra o tema da cegueira (*O Regresso do Filho
Prdigo*, Jacob cego e outros):

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   A cegueira no  invocada para fazer referncia a qualquer
capacidade espiritual elevada, mas para sublinhar a
importncia do tacto na nossa vida. Rembrandt apresenta o
tacto como uma mate-rializao da vista... e talvez seja
importante recordar que essa analogia entre vista e tacto teve
o seu equivalente tcnico na forma como Rembrandt utilizava a
tinta: a sua explorao da reflexo da luz natural no relevo,
para intensificar certos aspectos e obter sombras, faz a unio
entre o visvel e o substancial.
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   Um dos aspectos que considero extraordinrio nos retratos
pin-tados por Rembrandt  tudo o que ele deixa por pintar, de
modo a que seja o olho a ver, mas seja o esprito a registar a
totalidade. No  preciso pintar mais do que a aba do chapu
de um rapazinho; as primeiras vezes que olhamos o quadro, no
nos apercebemos de que Rembrandt apenas pintou um indcio, uma
simples sugesto de chapu, que a mente do espectador depois
completa recorrendo  sua experincia. Tocmos em algo
*redondo*. Sabemos o que  re-dondo quando o vemos. Olha,
*redondo* outra vez, diz mais uma vez o esprito e depois
parte para outra experincia.
   Como tomamos conscincia da nossa prpria pessoa? Em larga
medida, isso tem a ver com o tacto, com as nossas percepes
tc-teis. Os nossos proprioceptores (do latim para
receptores pr-prios) mantm-nos informados sobre a nossa
localizao no espao, dizem-nos se os nossos estmagos esto
ocupados, se :, estamos ou no a defecar, onde esto os nossos
braos, pernas, cabea, que movimentos estamos a fazer, como
nos sentimos a cada mo-mento. No significa que tenhamos uma
conscincia de ns que corresponda  realidade. Todos temos
uma imagem mental exage-rada do nosso corpo, em que as mos,
cabea, boca, rgos genitais so grandes e o tronco pequeno;
as crianas costumam desenhar pessoas com cabeas e mos
enormes porque  assim que sentem o seu corpo. H sempre tanto
para aprender. Como est?, pergunta, educado, um personagem
do romance de Kafka *O Processo*, e o he-ri entra em pnico,
paralisado com o choque de lhe terem feito uma pergunta  qual
no sabe responder. A vida quotidiana contm uma horda de
perguntas como essa, que no so para levar a srio, apenas
para inserir numa conversa como uma moeda numa ranhura.
Sinto-me muitas vezes tentada a dar-lhes uma resposta longa e
tra-vessa. Quando algum me pergunta: Como ests?,
apetece-me descrever, recorrendo aos meus proprioceptores, o
estado dos meus rins, mucosa nasal, presso arterial, cclea,
vagina, digesto e funcionamento normal da glndula
supra-renal.  o tacto que for-nece  nossa memria o mapa
detalhado das nossas formas. Um es-pelho no serviria de nada
sem o tacto. Inconscientemente, passamos a vida a tomar
medidas a ns prprios: quando, sem dar por isso, passamos a
mo pelo brao; quando fazemos, com o indi-cador e o polegar,
uma argola em volta do pulso; quando tentamos tocar com a
lngua a ponta do nariz; quando experimentamos do-brar o
polegar para trs; quando verificamos o comprimento das pernas
ao vestir uma meia de vidro, esticando-a do calcanhar  anca;
ou, ainda, quando torcemos nervosamente uma madeixa de cabelo
Mas, acima de tudo, o tacto ensina-nos que a vida tem
profundidade e contornos; d-nos uma noo tridimensional do
mundo e de ns prprios. Sem essa forma intricada de sentir a
vida no existiriam ar-tistas, cuja habilidade consiste em
elaborar mapas sensoriais e emo-cionais, nem cirurgies, que
mergulham os dedos nos corpos.



:aventuras na redoma do tacto


   Ao partir para So Francisco, desembrulhei o presente que
um amigo me dera, recomendando-me que o abrisse s depois de
le-vantar voo -- uma caixa de brocado de seda azul e dourada,
dentro da qual se encontravam duas bolas de crmio, de
superfcies per-feitamente espelhadas, cada uma no seu prprio
encaixe. Veio-me  :, ideia o louco capito Queeg (*), 

(*) Comandante de um draga-minas americano durante a Segunda
Guerra Mundial, retratado no ro-mance *The Caine Mutiny*, de
Herman Wouk (1951), e interpretado por Humphrey Bogart no
filme *Os Revoltados do Caine*, de Edward Dmytryk (1954).
(*N da T*.)


que estava sempre a brincar com dois rolamentos de esferas,
enquanto falava de morangos surripiados. Na face interior da
tampa, um bilhete dobrado explicava:

---------------------------
   H cerca de 800 anos, os antigos mandarins acreditavam que
estas /bolas de exerccio chinesas/ traziam bem-estar fsico
e paz de esprito. O presidente Reagan e a esposa receberam
este pre-sente raro quando visitaram a Repblica Popular da
China. Os Chineses dizem que rolar estas esferas nas palmas
das mos esti-mula os dedos e os pontos de acupunctura, alm
de aumentar a cir-culao da energia vital no corpo. Por todo
o mundo, desportistas, msicos, pessoas que trabalham com
computadores ou que se preocupam com a sade consideram-nas
excelentes tonificadores musculares. Quem sofre de artrite
sente incontestveis melhoras com este exerccio suave mas
enrgico. Muito eficazes para o rela-xamento e a meditao, as
/bolas chinesas/ emitem um som miste-rioso ao rolar.
Delicadamente feitas  mo, estas esferas ocas de crmio
polido com 45mm de dimetro tm o peso e as dimenses ideais
para se adequarem  mo do homem ou mulher mdios.
----------------------------

   Peguei nelas uma de cada vez e fiquei maravilhada com a sua
macieza e a facilidade com que deslizavam, o rudo que faziam
ao chocar uma na outra, a sensao de calma que se apoderou de
mim depois de manuse-las, dois mundos cintilantes rolando na
minha mo. Na verdade, eram muito semelhantes s *rin no tan*,
umas bo-las orientais com um peso determinado, que as mulheres
inserem na vagina para, balouando-se de um lado para o outro,
sentirem o mesmo que durante o acto sexual.
   Embora um pouco misterioso,  um presente adequado para
quem vai visitar a Touch Dome (*) 

(*) Traduzido  letra, Redoma do Tacto. (*N. da T*.)


de So Francisco,  qual cheguei umas horas mais tarde. Ao
fundo do Exploratorium, um extraordi-nrio museu de cincia ao
vivo, encontra-se um labirinto a trs di-menses pelo qual se
pode caminhar, trepar, gatinhar e escorregar numa escurido de
mrmore. As paredes dobrveis abrem-se  nossa passagem,
transformam-se num cho escorregadio, guiam-nos atravs do que
nos parece um mar de feijo branco, ou convidam-nos a
des-cobrir a sada tacteando em camas de rede. De vez em
quando, a nossa mo toca acidentalmente numa forma familiar --
uma :, esco-va, uma sandlia -- e ficamos to alarmados como
perante uma inundao repentina, regressando depois 
indecifrvel escurido. H pessoas que, dominadas por um
violento acesso de claustrofo-bia, desatam a gritar e, nesse
caso, um guarda vem tir-las dali, mas mesmo quem no costuma
sentir claustrofobia entra em pnico, temendo no encontrar o
caminho de regresso ao mundo da luz. O escuro  opaco como uma
rocha slida e o labirinto desmoro-na-se em paredes to
ngremes que nem conseguimos sentar-nos nelas. Apercebemo-nos
do plano inclinado e das suas dimenses aproximadas, mas no
do seu comprimento, nem da forma que as-sume mais adiante.
Para onde se precipita? E se ficarmos presos a meio do
caminho, sem poder levantar a cabea nem mexer os bra-os? Se
descermos de braos esticados, para irmos tacteando em frente,
e de repente o espao se tornar mais estreito e nem
conseguirmos dar meia volta? E se embatermos de frente numa
superfcie macia? Nesse caso, deixamo-nos escorregar, as mos
protegendo a cabea, e damos uma cambalhota em direco 
liberdade. Raste-jando para uma diviso que parece no ter
sada, esticamos os bra-os para cima e descobrimos uns apoios
para as mos. Ento, trepamos s cegas e alcanamos um outro
nvel do labirinto. Uma coisa leve e pegajosa toca o nosso
rosto, a escurido volta a ser um mistrio slido, sem pontos
de referncia e cheio de becos sem sa-da; o escuro cobre de
aterradoras esferas o cho sob os nossos ps, onde tropeamos
a toda a velocidade, e vamos dar a um lamaal seco e movedio
onde ficamos enterrados at aos joelhos; depois, com o corao
aos pulos, caminhamos sobre espessas franjas de borracha,
conseguimos manter o equilbrio e depois deslizamos por uma
rampa que nos conduz  claridade, tendo sobrevivido a uma
pequena prova de tacto.


animais


   Os seres humanos podem ser voluptuosos tacteadores, mas os
animais  que so os grandes mestres do tacto. A esponja tem
um sentido do tacto muito apurado; sente o mais pequeno
estremeci-mento da gua. Pensa-se que as tnias tomam
conhecimento do mundo unicamente atravs do tacto. As plantas
que comem insec-tos vivem exclusivamente do tacto. Na base do
abdmen, as baratas possuem uns apndices seccionados chamados
*cerci*, to sensveis  vibrao que elas so frequentemente
usadas nos laboratrios em experincias relacionadas com o
tacto. O caracol tem um p extre-mamente sensvel. Os jacars
e crocodilos usam os diversos :, receptores tcteis que tm em
volta da cabea para elaboradas prticas e carcias durante o
namoro. Embora se pense que a carapaa da tar-taruga 
insensvel, as grandes tartarugas-marinhas sentem, com prazer,
arranhes e coisas to delicadas como o roar de um peque-no
galho. Tanto os animais que costumam escavar o solo, como o
co-da-pradaria ou o papa-formigas, como os que vivem de
noite, tm um tacto muito apurado. O rgo de Eimer (um
corpsculo semelhante ao de Pacini que existe no focinho da
toupeira) detecta as mais imperceptveis ocorrncias no solo
capazes de assinalar a presena de uma minhoca nas
proximidades. O bico do pato  muito sensvel s vibraes na
gua, pois a sua pele contm corps-culos de Herbst, idnticos
aos corpsculos de Pacini. O pica-pau serve-se da lngua, onde
tambm existe um corpsculo de Herbst, para procurar insectos
no bosque. Os pinguins precisam do tacto para sobreviver --
colocam-se sobre as patas dos seus progenitores e permanecem
bem encostados s respectivas barrigas quentes -- e por isso
desenvolveram uma verdadeira paixo por palpar e serem
palpados. As ratazanas so tacteadoras compulsivas. Certos
animais aquticos sentem vibraes que ocorreram na gua a
grandes dis-tncias e detectam com enorme preciso todos os
movimentos das redondezas. O tacto  um sentido muito
importante para os animais, nos quais qualquer pequeno toque
num objecto ou noutro animal d origem a uma resposta. Basta
observar os caprichosos movimentos corporais de um vulgar
gato, quando se enrosca e roa na perna do dono, ou duas
girafas a namorar de pescoos entrelaados. E muitos animais
ficam horas entretidos com actividades em que tm de
to-car-se, sejam dois ces atrs um de outro ou a rebolar na
relva, seja um grupo de rapazes a jogar  bola num terreno
vazio.
   A sabedoria popular diz que os animais conseguem adivinhar
terramotos. H notcia de gado que rebentou cercas e fugiu,
animais de estimao que pularam para fora de casa e ficaram
horas a correr de um lado para o outro num frenesim, ou
simplesmente adoptaram um comportamento estranho antes de um
sismo, o que pode dever-se  electricidade esttica no ar.
Helmut Tributsch, da Universidade Li-vre de Berlim, concluiu
que a pele dos animais  muito mais seca do que a dos seres
humanos. Antes de um tremor de terra, h uma grande
perturbao na atmosfera, produzindo-se electricidade
est-tica, o que faz o plo dos animais eriar-se e tremer.
Lembro-me de ter assistido ao lanamento da nave *Viking
II* no cabo Canaveral, em 1975, e de como o ar estava
elctrico e pesado durante a partida. Sentia-me fresca e
desperta, visto que era a primeira vez na histria do nosso
planeta que se lanava uma nave no espao para procurar :,
vida noutro local, e essa expectativa comovia-me muito. O
lana-mento propriamente dito causou uma perturbao
electromagntica semelhante  de um sismo, fazendo aumentar a
electricidade estti-ca no ar, o que fez a minha pele ficar
arrepiada. Nem os observado-res mais cpticos puderam ficar
indiferentes, porque tinham os plos em p, as ondas de choque
atingiam-lhes o peito como pu-nhos gigantescos, as suas mentes
sofriam o efeito estimulante da dana dos ies negativos
enquanto, ao longe, a nave espacial subia deixando um rasto de
fumo cor de pssego.





TATUAGENS


   De todas as formas de arte que usam como suporte a pele, a
ta-tuagem  uma das mais interessantes e antigas, tendo-se
propagado, como os boatos, por rotas comerciais e continentes.
Os agricultores neolticos tatuavam o rosto com desenhos de
tridentes azuis; no an-tigo Egipto, as cantoras, bailarinas e
prostitutas usavam tatuagens. Em 1769, o capito Cook contava
no seu dirio que tanto nos ho-mens como nas mulheres do Taiti
se viam tatuagens (palavra que provavelmente vem do taitiano
*tatau*, bater). O rei Jorge V, Ni-colau II e *Lady*
Randolph Churchill tinham tatuagens, assim como alguns
americanos loucos por *souvenirs* e, na era vitoriana, as
elegan-tes que desejavam ter os lbios permanentemente
cor-de-rosa. A tribo maori da Nova Zelndia fazia as suas
tatuagens segundo uma intri-cada tcnica que Terry Landau
descreve em *About Faces*.

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[Eles tm] uma tcnica elaborada para fazer tatuagens
chama-da *moko*... Um viajante referiu um chefe tribal que se
orgulhava de no ter poupado nenhuma zona visvel da sua pele:
at os lbios, a lngua, as gengivas e o cu da boca estavam
totalmente tatuados.
----------------------------

   A tatuagem japonesa, conhecida por *irezumi*, constitui uma
forma sria de arte popular, como a pintura de paisagens ou o
arranjo de flores, e os grandes mestres de tatuagens ainda
hoje executam o seu trabalho, que lembra as obras de Chagall,
cobrindo integralmente o corpo com tatuagens que so
simultaneamente subtis, repelentes, mgicas, sedutoras,
tridimensionais, sugestivas e macabras.
   Em ltima anlise, a tatuagem individualiza a superfcie de
um corpo, d expresso aos sonhos secretos de cada um, adorna
com smbolos mgicos a Altamira da carne humana. , tambm,
uma forma de autodestruio; as pessoas integralmente cobertas
de tatua-gens tm uma vida mais curta, pois a sua pele no
consegue :, respirar devidamente e algumas tintas so
venenosas. Aqueles que exibem tatuagens no rosto, nas mos ou
na cabea escolheram, de certo modo, ficar para sempre 
margem da normalidade, no sendo, pois, de admirar que, no
Japo, a maior parte das pessoas tatuadas pertena ao
submundo.  frequente os mestres de tatuagens ajudarem a
Polcia a identificar um corpo. Uma pessoa totalmente tatuada
com uma cena nica e coerente, respeitando os contornos do
corpo e a imagem que ela tem de si prpria, faz-nos pensar em
simbolismo, decorao e identidade. Em *The Japanese Tatoo*,
um livro que contm quarenta e seis polarides praticamente de
corpo inteiro, a fotgrafa Sandi Fellman considera a sua
atraco pelas tatua-gens uma paixo pelo paradoxo: Beleza
criada atravs de meios bru-tais, poder concedido em troca
de submisso, glorificao da carne como via para a
espiritualidade.
   Tal como os Ocidentais doam os seus rgos aps a morte, um
japons tatuado por um grande mestre pode doar a sua pele a um
mu-seu ou universidade. A Universidade de Tquio possui
trezentas dessas obras-primas, emolduradas. Entrar nessa
cmara de peles deve ser chocante mas espantoso: que maravilha
ver tantas vidas em toda a sua extenso, definidas a agulha e
tinta, tantas pessoa que quiseram ser o seu prprio texto.


A DOR


   Na paisagem desrtica do filme *Lawrence da Arbia*, h
uma cena de puro machismo: T. E. Lawrence coloca a mo sobre a
chama de uma vela at a carne ficar chamuscada. Quando o seu
companheiro tenta fazer o mesmo, no suporta a dor e
pergunta-lhe: No te di?, enquanto acaricia a mo queimada.
Di, sim, responde Lawrence, tranquilo. Ento, qual  o
truque?, per-gunta o companheiro. O truque, responde
Lawrence,  no nos importarmos.
   Um dos grandes enigmas da biologia  a razo pela qual a
dor  uma experincia to subjectiva. Ser capaz de suportar a
dor depen-de em grande medida da cultura e da tradio. Embora
exibissem feridas lancinantes, muitos soldados negaram sentir
dor e nunca pe-diram que lhes ministrassem morfina, como
fariam em tempo de paz. Muitas pessoas que entram num hospital
para serem operadas concentram-se totalmente na sua dor e no
seu sofrimento, enquanto os soldados, santos e outros mrtires
pensam em algo mais nobre e importante, que se sobreponha 
sensao de dor. Todas as religies tm encorajado os seus
mrtires a ter experincias dolorosas com o :, objectivo de
purificarem o esprito. Quando vimos a este mundo dispomos
apenas da parca palavra eu e sacrific-la num delrio
religioso  o xtase que as religies nos exigem. Quando um
faquir caminha sobre carvo em brasa, a sua pele comea
efectivamente a ficar chamuscada -- cheira a carne queimada;
s que ele no o sente. No Bali, h umas semanas atrs, a
minha me viu homens entrar em transe e pegar em balas de
canho ao rubro, que retira-vam de uma fogueira e carregavam
depois pela rua abaixo. Como as tcnicas da meditao e a
regenerao biolgica demonstram, a mente pode aprender a
dominar a dor. Isto  particularmente verda-deiro em momentos
de crise ou exaltao, quando a concentrao em algo exterior
a ns parece desviar a mente do corpo, e o corpo da dor e do
tempo. Claro, h tambm os que acolhem com prazer a dor, a fim
de ultrapass-la. No ano de 1989, li que uma nova moda chegara
 Califrnia: muitos prsperos homens de negcios dedica-vam
os seus fins-de-semana a cursos de como caminhar sobre
bra-sas. Fazer o corpo atingir ou ultrapassar os seus limites
sempre atraiu os seres humanos. H uma parte da nossa psique
que  um verdadeiro cronometrista-meteorologista. Gostamos de
saber a que velocidade corremos, que altura saltamos, quanto
tempo consegui-mos suster a respirao debaixo de gua, mas
tambm de verificar regularmente os nossos limites, ansiosos
por saber se mudaram. Porqu? Que diferena faz? O corpo
humano  prodigioso e admi-rvel, seja ou no capaz de
levantar duzentos quilos, atravessar o canal da Mancha a
nado ou sobreviver um ano fechado no metro-politano. Em termos
antropolgicos, chegamos a ser quem somos desenvolvendo
estratgias de adaptao ao meio ambiente, desde o incio
movidos por um elaborado sistema de recompensas. Ainda h quem
ache estranho sermos viciados em concursos televisivos e
apostas mtuas, ordenados e bnus. Pois se sempre explormos
as nossas capacidades mentais at ao limite, sem piedade! No
incio da dcada de 80, segui durante um ano, como jornalista,
o espantoso jogo de pernas de Pel, Franz Beckenbauer e
todos os outros len-drios ases do futebol que o New York
Cosmos tinha contratado por quantias igualmente lendrias.
Escolha o seu desporto preferido; agora imagine uma equipa
composta pelos melhores jogadores do mundo. Eu estava
interessada na violncia ritual do desporto, na psicologia dos
jogos, no crculo mgico do campo, na veloz ret-rica das
pernas, no espectculo antropolgico constitudo por vinte e
dois homens parcamente vestidos perseguindo barbaramente uma
vtima, a bola, num relvado exposto ao sol, at conseguirem
met-la numa baliza. A fluncia e graa do futebol agradam por
uma srie :, de razes, e eu queria compreend-las por causa
de um romance que andava a escrever. Fiquei espantada quando
descobri que muitos jogadores s reparavam que estavam
gravemente magoados e tinham dores terrveis no intervalo ou
no fim do jogo. Durante o encontro, nem sequer pensavam nisso;
quando o desafio terminava e eles se podiam dar ao luxo de
sentir dores, berravam que nem o apito de uma fbrica ao
meio-dia.
   Em muitos casos, a explicao est no medo que temos da
dor. Para a nossa cultura, o parto  uma experincia
profundamente dolorosa; portanto  assim que o consideramos.
As mulheres de outras culturas interrompem o seu trabalho no
campo para dar  luz, re-tomando-o imediatamente a seguir. Por
todo o mundo, os ritos de iniciao e de adolescncia so
acompanhados de muita dor, que os iniciados tm de ultrapassar
para se mostrarem merecedores. Na dana, do Sol dos Sioux,
por exemplo, um jovem guerreiro deixava que lhe furassem a
pele com uma vara de ferro; depois era pendurado num pilar.
Quando estive em Istambul nos anos 70, vi :, adolescentes que
usavam na cabea um fez de seda brilhante e vestiam fatos de
seda com adornos dourados. Preparavam-se para a circunciso,
uma ocasio festiva na vida de um turco, celebrada por volta
dos quinze anos. No se usa anestesia; em sua substituio, o
rapaz recebe um rebuado para chupar. Os livros de *Sir*
Richard Burton esto repletos de descries de mutilao
tribal e rituais de tortura, incluindo aquele em que um xam
retira uma espcie de avental de carne do corpo de um rapaz,
cortando impunemente do estmago s ancas e deixando uma
enorme cicatriz. 
   Em diversas culturas, as mulheres passam por ritos de
iniciao dolorosos que muitas vezes incluem a circunciso, a
qual remove ou destri o cltoris. Espera-se de uma mulher que
suporte a dor do parto, mas tambm h rituais de dor
disfarados, dores que so su-portadas em nome da sade ou da
beleza. As mulheres depilam as pernas com cera por uma questo
de moda e tm-no feito atravs dos sculos. Quando
recentemente fiz o mesmo num salo de beleza de Manhattan, a
dor foi insuportvel, parecia que dez mil abelhas estavam a
picar-me as pernas ao mesmo tempo. Em vez de uma es-teticista
romena imaginemos uma agente alem da Gestapo. Em vez do
gabinete de um salo de beleza imaginemos a cela de uma
pri-so. Sendo o nvel de dor exactamente igual, facilmente
verificare-mos que se trata de tortura. Temos tendncia para
pensar que o sofrimento em nome da beleza  uma aberrao dos
antigos, mas existem cmaras de tortura modernas. As pessoas
sempre mutiladas a sua pele, suportando horrores para ficarem
belas, como se a :, dor tornasse a beleza casta, lhe
conferisse o cariz especial do sacri-fcio. H mulheres que
sofrem dores terrveis todos os meses, du-rante o perodo, mas
aceitam-nas porque compreendem que no lhes  infligida por
ningum, no significa perigo, nem constitui surpresa, e isso
faz toda a diferena.
   Tambm existem iluses de dor to ntidas como iluses de
p-tica, ocasies em que quem sofre imagina estar a sentir uma
dor que no pode de maneira nenhuma ser real. Nalgumas
culturas, o pai so-fre uma gravidez falsa -- *couvade*, como
lhe chamam -- e fica de cama com dores de parto, passando pela
sua prpria experincia r-dua de dar  luz. Os rgos
internos no possuem muitos receptores de dor (a pele 
suposta ser o posto de vigia), por isso muitas pes-soas sentem
dores reflexas quando tm um problema num dos rgos. Os
ataques cardacos podem provocar uma dor no estma-go, no
brao esquerdo ou no ombro. Quando tal acontece, o crebro no
consegue descobrir a origem exacta da mensagem. No fen-meno
clssico que muitas vezes acompanha as amputaes, o cre-bro
recebe sinais deficientes e continua a sentir dor no membro
que foi amputado;  uma dor tortuosa, perversa e cruel, visto
no haver nada que doa verdadeiramente.
   A dor tem-nos martirizado ao longo da histria da nossa
esp-cie. Passamos a vida a tentar evit-la e, at certo
ponto, aquilo a que chamamos felicidade talvez no seja mais
do que ausncia de dor. Contudo,  difcil definir a dor, que
pode ser aguda, contnua, penetrante, latejante, imaginria ou
reflexa. Temos muitas dores f-sicas, como cibras e clicas.
Mas tambm chamamos dor a uma perturbao emocional. Por
vezes, as dores so uma combinao do emocional com o fsico
ou do fsico com o fsico. Quando nos queimamos, a pele
dilata, cobre-se de bolhas e di, e quando uma bolha rebenta,
a pele di ainda de outra maneira. Uma ferida pode ficar
infectada. A histamina e a serotonina so libertadas, o que
di-lata os vasos sanguneos e d origem a uma resposta de dor.
Nem todos os ferimentos internos so dolorosos ( possvel
fazer cirurgia ao crebro com anestesia local), mas so-no as
doenas que redu-zem o fluxo sanguneo: a angina de peito, por
exemplo, que ocorre quando as artrias coronrias esto
demasiado estreitas para que o sangue circule com facilidade.
 difcil descrever com exactido uma dor, ainda que intensa,
como nos recorda Virginia Woolf no seu ensaio *On Being Ill:
O ingls, que sabe dar expresso aos pen-samentos de Hamlet e
 tragdia de Lear, no tem palavras para o tremor e a
enxaqueca... Peam a um doente que descreva ao mdico a dor
que tem na cabea e imediatamente a lngua se torna estril.
:,







ALIVIAR A DOR

  
   Tal como existem muitas formas de dor, existem muitos
rem-dios para a dor. Os anestsicos, como a novocana ou a
cocana, bloqueiam a capacidade do corpo de enviar mensagens
de alta fre-quncia ao crebro ou impedem que o sdio entre na
clula nervo-sa. Algumas substncias conseguem confundir os
sinais enviados nas diversas fases da dor. Opiatos que existem
naturalmente, cha-mados endorfinas, ocupam a rea dos
receptores, de modo a que estes no recebam a mensagem de dor
enviada pelo transmissor neural. (*) 

(*) O papiro Ebers, um manual de medicina egpcio do sculo
XVI a. C. fala do pio como sendo um
analgsico. Os antigos sabiam que o pio anulava a dor, mas s
h pouco tempo se descobriu como. No sculo V a. C.,
Hipcrates usava a casca de salgueiro, de que a aspirina  um
derivado. (*N. da A*.)

A cocana age sobre os transmissores neurais precisamente
dessa forma. Em parte, a razo pela qual os viciados em
herona necessitam de uma quantidade cada vez maior da droga
para sentir efeito  o facto de ela reduzir a produo de
endorfinas do orga-nismo, o qual passa a depender da herona
para o desempenho des-sa tarefa. O mesmo acontece nas pessoas
que sobrem de artrite ou outros doentes que utilizam um
simples analgsico durante longos perodos de tempo. A
aspirina age inibindo o fluxo de substncias estimuladoras dos
receptores de dor sempre que surge algum pro-blema, de modo
que recebemos muito menos impulsos dolorosos. O uso prolongado
de qualquer analgsico pode neutralizar o seu efeito benfico,
mas bastam vinte minutos de exerccio fsico para que o corpo
produza mais endorfinas, os analgsicos naturais. Des-viar a
ateno de uma pessoa para outra coisa distrai-a da dor; a dor
requer toda a nossa ateno. Uma forma simples e eficaz de
aliviar a dor  a inibio lateral: se muitos neurnios
tentarem responder todos ao mesmo tempo, ficam imediatamente
bloqueados. Se ba-termos com o dedo grande do p em qualquer
lado e depois o friccionarmos, a dor perde-se na confuso de
mensagens. Se apli-carmos um cubo de gelo sobre uma ndoa
negra, no s reduzire-mos o inchao como tambm sero
enviadas mensagens de frio em vez de dor. Durante o sexo,
temos tendncia a no ligar a uma certa quantidade de dor
(alis, h pessoas para quem a dor parece intensi-ficar o
prazer), e isso pode dever-se  estimulao lateral: o crebro
recebe tantas mensagens de prazer que no presta grande
ateno s que transmitem uma dor moderada. As tcnicas de
relaxamento, a hipnose, a acupunctura e os placebos iludem o
organismo, fazendo-o produzir endorfinas, e impedem que a
mensagem de dor seja en-viada.  bvio que no tocamos a
electricidade, temos apenas :, sensaes; porm, se o cdigo
elctrico da dor no for distribudo, no sentimos a dor. Os
seres humanos conseguem suportar grandes quantidades de dor
(as mulheres tm limiares de dor mais elevados do que os
homens), mas no sem o auxlio da qumica ou a destreza do
esprito. Durante a gravidez, os nveis de endorfina sobem 
me-dida que a data do parto se aproxima. Um investigador
chegou mesmo a sugerir que as grvidas tm apetites por
determinados alimentos porque so ricos em substncias que
produzem seroto-nina, necessria para suportar as dores do
parto.
   Conheci uma compositora, dotada de uma voz maravilhosa e
re-frescante, que tocava viola e cantava em clubes nocturnos
da Pen-silvnia. Com vinte e oito anos, a sua artrite era to
forte que tinha de descontrair as mos antes de cada actuao,
aquecendo-as numas grandes luvas de cera quente. A determinada
altura, a dor tornou-se to persistente que ela trocou os
espectculos pelo ensino. Para os sofredores a longo prazo, a
dor  gananciosa, grosseira, cruel-mente debilitante, como
afirma o neurologista Russell Martin em *Matters Groy and
White*.  cruel e calamitosa e muitas vezes constante e,
como indica a raiz latina *poena* (*) 

(*) A palavra inglesa para dor  *pain*. (*N da T*.)

, em ltima anlise, um castigo corporal que cada um de ns
recebe por estar vivo. Nos vrios centros especializados no
combate  dor que existem espalhados pelos EUA, a dor 
considerada um problema tanto emocional e psi-colgico como
fsico. Equipas de neurologistas, psiclogos,
fisiote-rapeutas, e outras pessoas que se dedicam ao estudo da
dor, trabalham com doentes atingidos por dores crnicas e
tentam entender a fria que assalta os organismos dos seus
pacientes.


:a finalidade da dor


   H sculos que a finalidade do sofrimento humano  tema de
debates teolgicos, teorias filosficas, interpretaes
psicanalticas e muita mistificao. No Jardim do Paraso, a
dor era uma punio para quem errava. A dor era o preo a
pagar por quem no fosse moralmente perfeito. A dor era o
autocastigo decorrente da repres-so sexual. A dor era a
expresso da vingana dos deuses ou a con-sequncia de no se
viver de harmonia com a Natureza. Com efeito, a palavra
inglesa *holy* [santo] deriva do ingls antigo *haelan*, que
quer dizer sarar, e do indo-europeu *kailo*, que significava
so ou sem mcula. A finalidade da dor  chamar a ateno
do orga-nismo para eventuais danos. Milhes de terminaes
livres :, nervosas previnem-nos; sempre que so atingidas,
sentimos dor. Experi-mentem bater com o cotovelo numa estante
e vero que, como des-creve Russell Martin:

---------------------------
   ... uma srie de substncias qumicas, como
prostoglandinas, his-tamina, bradiquinina e outras, junto das
terminaes nervosas ou mesmo dentro delas, so subitamente
libertadas. As prostaglandinas depressa aumentam o fluxo de
sangue para a zona afectada, intensifi-cando o combate s
infeces e as propriedades curativas dos glbulos brancos do
sangue, dos anticorpos e do oxignio. Associadas 
bradi-quinina e outras substncias presentes em pequenssimas
doses, as prostaglandinas tambm estimulam as terminaes
nervosas, fazen-do-as transmitir impulsos elctricos a todo o
comprimento do nervo afectado, at ao ponto de unio deste com
a corda de massa cinzenta existente no interior da espinal
medula, a qual recebe mensagens sen-soriais de todas as partes
do corpo, retransmitindo-as ao crebro -- primeiro ao tlamo,
onde a dor  /sentida/ pela primeira vez, depois  /zona
sensorial/ do crtex cerebral, onde a dor se torna consciente
e a sua localizao e intensidade so registadas.
---------------------------

   Segundo a teoria dos *padres*, os impulsos nervosos
combinam-se para telegrafar as mensagens numa espcie de
cdigo morse. Certas dores acorrem de imediato  espinal
medula, por isso nos retramos ao tocar num fogo quente;
chamamos a isso um reflexo, o que significa que  possvel,
como sempre suspeitmos, agirmos sem pensar e que o fazemos
com frequncia. Uma dor aguda - a rotura de um ligamento, uma
queimadura -- di tanto que imobilizamos uma parte do corpo o
tempo suficiente para que ela se cure.
Uma picadela na pele pode no doer muito, mas sentimo-la de
ime-diato, pois a mensagem viaja em direco ao crebro 
velocidade de trinta metros por segundo. As queimaduras e
dores contnuas viajam mais devagar (cerca de dois metros por
segundo). As do-res nas pernas chegam a atingir quinhentos
quilmetros  hora. No costumamos prestar a mnima ateno ao
nosso funcionamento interior, a no ser quando surge algum
problema e sentimos espasmos de fome, enxaquecas ou sede. De
qualquer forma, os cientistas no esto de acordo quanto ao
que  exactamente a dor. Muitos dizem que  uma resposta dada
por receptores especficos a perigos especficos --qumicos
nocivos, fogo, esfaqueamento, cortes, tempera-turas glidas --
e outros crem que se trata de algo muito mais
ambguo, tipos diferentes de uma estimulao sensorial
extrema, visto bastar um excesso seja do que for para
desequilibrar o delicado :, ecossistema que  o nosso
organismo. Assim, nessa ordem de ideias, a dor  de facto um
sinal de que no estamos em harmonia com a Natureza. Quando
temos uma dor em determinada rea,  es-sa rea que di, mas 
o corpo todo que responde. Suamos, as pupi-las dilatam, a
tenso arterial dispara. Estranhamente, o mesmo sucede quando
estamos com fome ou com medo. Existe uma com-ponente emocional
muito profunda na dor. Se nos magoamos gravemente, podemos
ficar assustados. E que dizer dos indivduos
sa-do-masoquistas, para quem o prazer est associado  dor?
   Nas suas famosas experincias com ces, Ivan Pavlov comeou
por submet-los a um forte choque elctrico que lhes provocava
uma dor violenta. Em seguida, depois de um choque doloroso,
dava-lhes a dose diria de comida, condicionando-os a associar
o choque com uma coisa positiva. Mesmo quando aumentou a
inten-sidade do choque, os ces continuavam a dar ao rabo e a
salivar na expectativa da refeio. Noutras experincias que
fez com gatos, deixava-os tocar num interruptor que lhes
provocava um choque ao mesmo tempo que lhes dava de comer,
concluindo que os animais estavam dispostos a sofrer o choque
para obter a comida.
   Kafka escreveu contos em que as pessoas suportam a dor
pro-fissionalmente, como os artistas da fome ou outro tipo
de auto-mutiladores; o pblico chega a pagar para ver algum a
sofrer. Sempre existiram profissionais do sofrimento, artistas
da auto mutilao para quem a dor tem um significado diferente
do habi-tual. Edward Gibson, actor de *vaudeville* do virar do
sculo, que fazia um nmero intitulado a alfineteira humana,
pedia aos espectadores que espetassem alfinetes no seu corpo,
e uma vez representou em palco uma crucificao, com pregos
enfiados nas mos e nos ps. As autori-dades proibiram-no de
actuar s porque algumas pessoas do pblico comearam a
desmaiar. Houve tambm o clebre automutilador ale-mo, Rudolf
Schwarzkogler, que espetava em si prprio lminas de barbear e
facas, oferecendo a um pblico vido de sadismo um
espectculo de horror sem precedentes. Ser que essas
pessoas no sentem de facto dor? Estaro os seus centros de
prazer e sofrimento trocados por engano? Ou ser que, como T.
E. Lawrence, sentem a dor em toda a sua terrvel amplitude e
no se importam?


O BEIJO


   O sexo  a expresso mxima da intimidade, do tacto,
quando, como duas paramcias, nos tragamos uns aos outros.
Fingimos que nos devoramos, nos digerimos, bebemos os fluidos
um do outro, :, que nos metemos literalmente na pele um do
outro. Ao beijar, par-tilhamos a respirao, abrimos ao nosso
amante a fortaleza selada do nosso corpo. Abrigamo-nos sob uma
teia quente de beijos. Bebemos da boca um do outro.
Percorrendo com beijos o corpo do outro, reconhecemos o novo
terreno com os nossos dedos e lbios, detendo-nos no osis de
um mamilo, na elevao de uma anca, no
talvegue ondulante de umas costas.  uma espcie de
peregrinao tctil que nos conduz ao templo do nosso desejo.
   Muitas vezes tocamos nos rgos genitais do nosso amante
antes de os ver. Quase sempre, o resto de puritanismo que h
em ns no v com bons olhos que apareamos nus  frente um do
outro, sem que primeiro nos beijemos e acariciemos. H uma
etiqueta, um protocolo, mesmo no sexo mais impetuoso e
descontrolado. Mas um beijo pode ser dado em qualquer altura
e, quando duas pessoas gostam uma da outra, no  um preldio
ao acasalamento, mas o sinal de um sen-timento profundo. H
beijos ardentes, sfregos, ou beijos folgazes, e tambm h
beijos vibrantes e suaves como as penas da catatua.  como
se, na linguagem complexa do amor, houvesse uma palavra que s
pu-desse ser pronunciada quando os lbios se tocam, um
contrato silen-cioso selado com um beijo. O sexo pode ser
rido, elementar, no ter nada de romntico, mas um beijo  o
cmulo da voluptuosidade,  per-der tempo e expandir o
esprito no doce ofcio do romance,  quando os ossos tremem,
a expectativa aumenta, e a recompensa  adiada de propsito,
num saboroso tormento, para que se v criando um delicioso
crescendo de emoo e paixo.
   Quando eu andava no liceu, no princpio dos anos 60, as
meni-nas bem comportadas no iam para a cama... nem
saberamos como! Mas, meu Deus, se sabamos beijar! Beijvamos
horas a fio no assento do carro emprestado que chocalhava como
um monte de loua a partir-se; beijvamos criativamente,
escarranchadas em ci-ma das motos, agarradas aos namorados que
apertvamos e cujas vibraes transformavam as nossas ancas em
gelatina; beijvamos com extravagncia, junto a um lago, no
roseiral do parque ou em pleno jardim zoolgico; beijvamos
delicadamente, ora abrindo a boca, ora franzindo-a; beijvamos
com fogosidade, com lnguas que pareciam atiadores de fogo;
beijvamo-nos eternamente, por-que os amantes de todos os
tempos conheciam a nossa ansiedade; beijvamos violentamente,
quase dolorosamente, com uma preciso rigorosa, quase
racional; beijvamos elaboradamente, como se esti-vssemos a
inventar o beijo pela primeira vez; beijvamos furtiva-mente
pelos corredores, nos intervalos das aulas; beijvamos com
alma, na sombra de um concerto, imitando o que cavaleiros da
:, paixo, como os Righteous Brothers, faziam com as suas
damas; bei-jvamos peas de roupa e objectos pertencentes aos
nossos namo-rados; beijvamos as nossas mos e soprvamos o
beijo ao rapaz que ia do outro lado da rua; beijvamos o
travesseiro,  noite, fin-gindo que era o nosso par;
beijvamos sem vergonha, com toda a inexperincia prpria da
juventude; beijvamos como se beijar pu-desse salvar-nos de
ns prprios.
   Pouco antes de eu ir para o campo de frias de Vero, que
era um marco no tempo para as raparigas de catorze anos da
Pensilv-nia, o meu namorado, de quem os meus pais no
gostavam (tinha a religio errada) e que me tinham proibido de
ver, costumava atra-vessar a cidade de noite e entrar pela
janela do meu quarto s para me beijar. No eram beijos 
francesa, de boca aberta, de que alis nunca tnhamos ouvido
falar, nem eram acompanhados por apal-pes. Eram apenas beijos
adolescentes, durante os quais o mundo parava, beijos cheios
de sentimento, que dvamos de lbios to cerrados e com tanta
nsia que quase desmaivamos. Escrevemos cartas um ao outro
enquanto estive fora, mas quando as aulas re-comearam no
Outono, o romance desvaneceu-se por si prprio. Ainda me
lembro daqueles fins de tarde de Vero, em que o meu namorado
se escondia no armrio, se os meus pais ou o meu irmo se
lembravam de entrar, e me beijava depois durante uma hora,
voltando para casa antes de escurecer e deixando-me extasiada
pe-rante a sua determinao e a fora do beijo.
   Um beijo parece ser apenas um pequeno movimento dos lbios;
no entanto,  capaz de encerrar emoes ardentes como brasas,
de selar contratos ou de desvendar mistrios. Em certas
culturas no se beija o suficiente. Em *The Kiss and Its
History*, o Dr. Christopher Nyrop refere certas tribos
finlandesas que tomam banho juntas num estado de nudez total
mas consideram que beijar  uma coisa indecente. Algumas
tribos africanas que decoram, mutilam, esticam ou deformam de
outras maneiras os lbios, no beijam. Mas so raras. A
maioria dos povos do nosso planeta cumprimen-ta-se atravs do
rosto; a saudao pode revestir diversas formas, mas em geral
inclui o beijo, ou o beijar ou encostar de narizes. Existem
muitas teorias sobre o aparecimento do beijo. Alguns
especialistas sustentam que  uma evoluo do acto de cheirar
o rosto de uma pessoa, por amizade ou amor, a fim de avaliar o
seu estado de esp-rito e bem-estar. Hoje, em certas culturas,
as pessoas cumprimen-tam-se encostando as cabeas e inspirando
o aroma de cada uma. Noutras, cheiram as mos umas das outras.
As membranas mucosas dos lbios so de uma sensibilidade
requintada, e  habitual :, usarmos a boca para avaliar uma
textura, enquanto o nariz lhe cheira o aroma. Os animais
costumam lamber os donos ou os filhos com sa-tisfao,
saboreando o gosto de uma identidade preferida. (*) 

(*) No so s os seres humanos que beijam. Os macacos beijos
e abraos como forma de reconciliao. (*N. da A*.)

Assim,  muito possvel que tenhamos comeado a beijar para
sentir o gosto e o cheiro de algum. De acordo com a Bblia,
quando envelheceu e perdeu a vista, Isaac chamou o seu filho
Esa para o beijar e lhe dar a bno, mas Jacob vestiu as
roupas de Esa e, tendo ficado com o cheiro do irmo, foi ele
quem recebeu o beijo do pai ce-go. Na Monglia, um pai no
beija o filho, cheira-lhe a cabea. Al-gumas culturas preferem
limitar-se a esfregar os narizes (Inuites, Maoris, Polinsios
e outros) enquanto nalgumas tribos malaias o termo para
cheiro e saudao  o mesmo. Vejam como Charles Darwin
descreve o esfregar de narizes dos Malaios: As mulheres
pu-seram-se de ccoras com a cara virada para cima; de p, os
meus as-sistentes inclinaram-se para elas e o esfregar de
narizes comeou. Demorou pouco mais do que um dos nossos
calorosos apertos de mo e elas foram emitindo murmrios de
satisfao.
   Algumas culturas beijam castamente, outras beijam com
extra-vagncia e outras de forma violenta, dando dentadas e
chupando os lbios uns dos outros. Segundo a obra *The
Customs of the Swahili People*, compilada por J. W. T. Allen,
os maridos e mulheres sualis beijam-se na boca se esto
dentro de casa e beijam livremente as crianas. Contudo, no 
habitual um rapaz de sete anos ser beijado pela me, tia,
cunhada ou irm. O pai pode beijar um filho, mas nem pai nem
irmo devem beijar uma filha ou irm. Alm disso:

---------------------------
   Quando a sua av, uma tia ou outra mulher, vai l a casa,
um rapazinho de um ou dois anos tem de lhe demonstrar o seu
amor e ir ter com ela. Ento, a tia pede-lhe que a beije e a
criana assim faz. Em seguida, a me manda a criana
mostrar-lhe o seu tabaco e a criana levanta a roupa e
mostra-lhe o pnis. Ela puxa-o. Cheira, funga e diz /Oh,
tabaco muito forte./ Em seguida, acrescenta /Esconde o teu
tabaco./ Se estiverem presentes umas quatro ou cinco
mulheres, todas cheiram e riem, muito divertidas.
---------------------------

   Como comeou o beijo na boca? Aos povos primitivos, o ar
quente que soprava das suas bocas pode ter parecido uma
materiali-zao mgica da alma, sendo o beijo a forma de
fundir duas almas. Desmond Morris, que h muito tempo observa
as pessoas com olho :, de zologo,  uma das autoridades que
atribui esta origem fascinante e, para mim, plausvel, ao
beijo na boca:


----------------------------
   Nas sociedades humanas primitivas, antes de se terem
inven-tado as papas para beb hoje comercializadas, as mes
desmama-vam as crianas mastigando a comida at obterem uma
papa que passavam para a boca do filho, encostando os lbios
aos dele -- o que obviamente exigia algum trabalho das suas
lnguas e bocas. Hoje, este tipo de cuidado maternal, comum
entre os pssaros, pa-rece-nos estranho e alheio, mas
provavelmente a nossa espcie usou-o durante um milho de anos
ou mais, e o beijar ertico dos adultos dos nossos dias talvez
no passe de uma relquia desse an-tigo hbito... Se foi
transmitido de gerao em gerao, ou se existe em ns uma
predisposio para ele, isso no podemos afir-mar. Mas seja
qual for o caso, quer-nos parecer que, atendendo aos beijos
dos namorados modernos, com a boca e a lngua, volt-mos a
essa poca remota em que os bebs eram alimentados boca a
boca... Se os jovens que exploram a boca um do outro com a
lngua sentirem um prazer idntico, talvez isso ajude a
aumentar a confiana mtua e, consequentemente, a fortalecer a
sua unio.
---------------------------

   Os nossos lbios so maravilhosamente suaves e sensveis.
As suas percepes tcteis so sentidas por uma grande parte
do c-rebro, e que privilgio  beijar! No damos apenas
beijos romnticos, claro; tambm beijamos os dados antes de
lan-los, o dedo que magoamos, smbolos e imagens religiosas,
a bandeira, ou mesmo o solo da nossa terra natal, amuletos,
fotografias, o anel do rei ou do bispo, os nossos prprios
dedos para fazer a algum um gesto de despedida.
   Na Antiguidade, os Romanos davam o ltimo beijo, de
acordo com um costume segundo o qual desse modo se
aprisio-nava a alma de um moribundo. (*) 

(*) Existem cenas deste ltimo beijo nas obras
*Metamorfoses* de Ovdio (VIII, 860-61), no *Hercules
Oetaeus* de Seneca e na *Eneida* de Virglio (IV, 684-85),
entre outras, e de uma forma mais ertica nas obras de
Ariosto. (*N. da A*.)


Na lngua inglesa, o verbo bei-jar  usado em expresses
insultuosas, como: kiss my ass. As jovens comprimem os
lbios carregados de *bton* sobre os envelopes que enviam aos
namorados, enfeitados com uma espcie de impres-so digital de
um beijo. Nos EUA,  mesmo costume dizer que as bolas de
bilhar se beijam quando tocam uma na outra e depois se
desviam. A marca *Hershey* comercializa pequenos rebuados :,
em-brulhados em papel prateado chamados *kisses* [beijos],
para quando queremos oferecer guloseimas com um pouco de amor
a algum, ou mesmo a ns prprios. O culto cristo inclui o
beijo da paz dado a um objecto sagrado, como uma relquia ou
um crucifixo, ou a um companheiro da mesma religio,
substitudo pelos cristos por um sbrio aperto de mo. O
livro de William S. Walsh *Curiosities of Popular Customs*,
datado de 1897, cita um tal Dean Stanley que, em *Christian
Institutions* fala de viajantes cujos rostos foram
acari-ciados e beijados pelo sacerdote copto na catedral do
Cairo ao mes-mo tempo que toda a gente se beijava dentro da
igreja. Nos antigos Egipto, Oriente, Roma e Grcia, mandava o
respeito que se beijasse a bainha, os ps ou as mos das
pessoas importantes. Maria Mada-lena beijou os ps de Jesus.
Era frequente os sultes requererem a sbditos de diversas
categorias que beijassem vrias partes dos seus corpos reais.
Aqueles que possuam uma posio mais elevada po-diam ter que
lhe beijar o dedo do p, outros apenas a franja da real
*charpe*. A plebe apenas se dobrava at ao cho numa vnia.
Desde a Idade Mdia que existe o hbito de desenhar uma fila
de xxxxx no final de uma carta para enviar beijos, pois
nessa poca a maioria das pessoas era analfabeta e nos
documentos legais aceitava-se uma cruz como assinatura. A cruz
no era uma referncia  crucificao, nem se tratava de um
gatafunho arbitrrio; representava a marca de Santo Andr,
em nome de quem as pessoas juravam dizer a verda-de. Como
testemunho de sinceridade, as pessoas beijavam a sua
as-sinatura. Com o tempo, o X passou a estar associado apenas
ao beijo. (*) 

(*) Em Espanha, era considerado elegante terminar uma carta
formal com a sigla QBSP (*Que Besa Sus Pies*, Que beija
seus ps) ou QBSM (*Que Besa Su Mano*, Que beija sua
mo). (*N. da A*.)

O beijo mais famoso do mundo talvez seja a escultura de Rodin
com o mesmo nome, em que dois amantes, sentados sobre o
afloramento de uma rocha, se beijam ternamente e com uma
ener-gia radiante, num beijo eterno. Com a mo esquerda em
volta do pescoo do homem, a mulher parece desfalecer ou
cantar para den-tro da boca dele. Este tem a mo direita
aberta sobre a coxa dela, uma coxa que conhece e venera,
pronto a tocar aquela perna como se fosse um instrumento
musical. Envolvidos um no outro, os cor-pos unidos pelas mos
no ombro, na mo, na perna, na anca e pela boca, selam o seu
destino, fechando-o com as bocas como se estas formassem um
tampo. Ele tem belos msculos gmeos e joelhos, ela
tornozelos fortes e firmemente femininos, e as suas ndegas,
cintura e seios so extremamente sensuais e curvilneos.
Destilam xtase por todos os poros. Tocam-se apenas aqui e
ali, mas parece :,
tocarem todas as clulas do corpo um do outro. Acima de tudo,
igno-ram-nos a ns, ao escultor, esquecem tudo o que exista
para alm deles dois.  como se cada um tivesse cado ao poo
do outro; no esto apenas absorvidos no que esto a fazer,
mas absorvem-se um ao outro. Rodin, que costumava tomar nota
dos movimentos irrele-vantes feitos pelos seus modelos sem que
eles dessem por isso, dotou esses amantes de uma vitalidade e
sentimento que raramente o bronze consegue captar na sua
serenidade fundamental. S as carcias e os beijos eloquentes
e distrados de amantes de carne e osso seriam ca-pazes de
transmiti-los. Rilke salienta como Rodin conseguiu dotar as
suas esculturas desta profunda vitalidade interior, da rica e
espantosa inquietao da vida. Mesmo a serenidade, sempre que
havia sereni-dade, era composta de centenas e centenas de
fragmentos de movimento mantendo-se uns aos outros em
equilbrio...
A era o desejo incomensurvel, uma sede to grande que todas
as guas do mundo l chegando secariam, como se fossem apenas
uma s gota.
   Segundo alguns antroplogos, os lbios recordam as
formaes labiais da vagina, pois tambm se tornam vermelhos e
dilatam quando excitados, sendo esse o motivo, consciente ou
inconsciente, pelo qual as mulheres sempre quiseram tornar os
lbios ainda mais vermelhos usando *bton*. Hoje, os lbios
carnudos esto na moda, as modelos pintam os lbios de modo a
tornarem-nos ainda mais salientes e convidativos, quase sempre
em tons de rosa e vermelho, e depois ainda aplicam *gloss*
para lhes darem um aspecto hmido e brilhante. Assim, e pelo
menos do ponto de vista antropolgico, um beijo na boca, em
particular devido ao contacto das lnguas e  tro-ca de
saliva, constitui uma outra forma de penetrao e no admira
que traga  mente e ao corpo sensaes magnficas.


A MO


   1988: a norte do estado de Nova Iorque, o Vero prossegue
com a sua atmosfera lenta e hmida. O grande acontecimento
desta se-mana  uma conveno de adivinhos que se renem na
Ramada Inn para lerem sinas e trocarem histrias. Em
instalaes vizinhas de-correm aulas e eventos especiais, mas
por uma pequena quantia o pblico pode entrar no salo
principal e escolher, entre os vrios ga-binetes dispostos em
ferradura, aquele que deseja visitar, ou folhear os livros de
parapsicologia espalhados sobre as mesas de jogo colo-cadas no
centro. Vem-se quiromantes, numerlogos, telecinesis-tas e
especialistas em OVNIs, bem como homens e mulheres
debruados sobre bolas de cristal e cartas de *tarot*. Uma
mulher :, alta e magra usando um *batik* est ocupada com um
grande cavalete e tintas. No s realiza regresses ao
passado como tambm de-senha as encarnaes, com guia do
passado e tudo, enquanto vai discursando sobre elas.
Devidamente afastada, observo tudo durante algum tempo e
reparo que muitas daquelas pessoas se fazem acom-panhar de
guias indianos com nomes cheios de consoantes.
   Por fim, escolho uma quiromante com uma cara sria e um
penteado volumoso, cujo folheto enumera a sua cruzada de
crimes resolvidos e previses cumpridas. Entrego ao seu marido
e agente vinte e cinco dlares, o preo de uma leitura
concisa, e sento-me  frente dela, a uma pequena mesa de caf
encostada  parede.  uma mulher de meia-idade, de colete de
pele de coelho e saia rodada. S no percebo porque  que foi
preciso colar cartazes e enviar convites: tratando-se de uma
conveno de adivinhos, no seria l-gico que toda a gente
adivinhasse onde ir e quando?
   A quiromante pega-me na mo e percorre-a com os seus dedos
abertos, depois levanta-a  altura do seu rosto, como se fosse
extrair dela algum estilhao.
   -- Tem um automvel vermelho... -- diz num tom solene.
   -- No,  azul... -- digo, detestando ter de contrari-la.
   -- Bem, *vai* ter um carro vermelho um dia destes, no
futuro -- previne. -- Vejo muito dinheiro na sua direco, em
Dezembro, mas uma pessoa com quem trabalha vai tra-la, tem de
ter cuidado... Tem algum ntimo chamado Mary?
   Digo que no com a cabea.
   -- Margaret? Melissa? Monica?
   -- Tenho uma Marcia, a minha me -- concedo.
   -- Ah, ento  isso, e a senhora est muito preocupada com
ela, mas vai correr tudo bem, no se preocupe.
   Nesta altura, faz presso sobre a parte mais carnuda da
palma da minha mo, dobra para trs o polegar, afasta os dedos
e examina-os minuciosamente. A mo  a parte visvel do
crebro, disse um dia Immanuel Kant. Procura as *linhas de
flexo* (rugas que se for-mam ao mover a mo), as *linhas de
tenso* (rugas que aparecem com a idade, tal como as do rosto)
e os *veios papilares* (impresses digitais), aponta as minhas
linhas da cabea, do corao, da vida e do destino. Nos nossos
parentes macacos, as linhas do corao e da cabea so as
mesmas, mas os nossos dedos so to mveis e fortes que tendem
a separar as linhas na maioria das pessoas. Tenho as mos
frescas e secas. As palmas suam quando estamos agitados, um
tributo a uma poca do nosso passado em que o *stress* era
sin-nimo de perigo fsico e o nosso corpo queria-nos
preparados para :, lutar ou fugir. Uma pequena descolorao na
base do meu segundo dedo provoca na quiromante um movimento de
cabea.  apenas uma cicatriz deixada pelo espinho de uma
rosa, nada que se parea com estigmas, as marcas que os
catlicos romanos afirmam que surgem espontaneamente nos seus
ps e mos, sangrando numa evocao das feridas infligidas a
Cristo na cruz.
   -- Uma pessoa sua conhecida fez um aborto? -- pergunta a
qui-romante.

   Atravs da Histria, as quiromantes escolheram a mo como a
sua ligao simblica  psique e  alma, como a jangada onde
per-correm o tempo. Afinal de contas, a mo representa aco,
abre es-tradas e ergue cidades, arremessa lanas e muda
fraldas. Mesmo os seus gestos mais pequenos -- marcar um
nmero de telefone, car-regar num boto --podem mudar o
destino de uma nao ou fazer explodir uma bomba atmica.
Quando estamos aflitos, deixamos que as nossas mos se
consolem uma  outra, torcendo-as, esfre-gando-as uma na
outra, mexendo os dedos e acariciando-as como se fossem seres
individuais. Nos romances de amor, o primeiro contacto  quase
sempre atravs das mos, enquanto por todo o mundo as pessoas
h muito acasaladas do os seus passeio de mos dadas, um
gesto de ternura. Segurar a mo de um doente ou idoso tem
sobre ele um efeito calmante, como uma bia salva-vidas
emocional.
As experincias comprovam que basta tocar a mo ou o brao de
uma pessoa para a sua tenso arterial descer. Em muitas
culturas, as pessoas manuseiam obsessivamente contas, pedras
polidas ou outros objectos, e as ondas cerebrais que essa
actividade produz so as de
uma mente sossegada pela repetida estimulao tctil.
   Nesta poca de objectos produzidos em srie, valorizamos
tudo o que  feito  mo. Achamos que o trabalho manual 
mais r-duo do que o dos operadores de mquinas, por exemplo,
embora nem sempre assim seja. Por vezes, as mos parece
trabalharem com uma argcia e sensibilidade que desafiam
qualquer explicao. Lor-raine Miller, apesar de totalmente
cega, trabalha como cabeleireira num estabelecimento em
Lancaster, na Pensilvnia. Me de cinco filhos, sempre quis
trabalhar num salo de beleza, mas as obriga-es de uma me
de famlia nunca lho permitiram. Mais tarde, uma doena
deixou-a cega e ela decidiu dedicar-se ao sonho da sua vida.
Num salo de cabeleireiro em Lancaster, na Pensilvnia,
aprendeu a cortar cabelos pelo tacto, apalpando atentamente a
forma da cabea e as camadas de cabelo,  medida que ia
cortando. Com o tempo, comeou a cortar cabelos to bem que
foi contratada. :,
   Os pequenos veios que temos nas pontas dos dedos, cuja
rugo-sidade nos permite agarrar objectos, formam-se ao acaso,
resultando nos sistemas de linhas curvas a que chamamos
impresses digi-tais. As linhas descrevem uma pequena srie
de padres bsicos de espirais, voltas e arcos, s que
combinados de infinitas maneiras diferentes. Nem sequer os
gmeos univitelinos tm as mesmas im-presses digitais, o que
torna mais fcil descobrir, quando  neces-srio, um culpado.
A ideia de que as impresses digitais de uma pessoa so a sua
melhor assinatura pessoal no  nova. H milhares de anos, os
Chineses usavam a marca de um dedo como forma de assinar um
contrato. Quando o FBI vai investigar um assalto e pro-cura
impresses digitais, serve-se de um *laser*. Os resduos
gordurosos absorvem os raios *laser* e voltam a emiti-los num
comprimento de onda mais longo. Depois, os peritos em medicina
legal, com os seus culos de mbar, filtram os raios *laser* e
vem as impresses digitais -- uma assinatura sempre
inimitvel.
   A mo mexe-se com uma preciso complexa e insubstituvel,
palpa com uma intuio fina e indefinvel, como descobriram os
criadores de mos para robs. Visto usarmos as nossas mos com
tanta frequncia e para tantos fins, flectindo, dobrando,
agarrando, apontando, esticando-as milhes de vezes, os
tcnicos do Instituto de Investigao da Universidade do Utah
inventaram uma luva para usar numa mo que tenha perdido o
sentido do tacto: graas  electrnica e a ondas sonoras,
permite a quem a usar sentir a presso, o que  fun-damental
para conseguir agarrar coisas. Um fio faz a ligao entre a
lu-va e um pequeno pisto que, por sua vez, est ligado a uma
parte do corpo que conserva o sentido do tacto, e o utilizador
tem as percepes tcteis da mo (no pulso ou no antebrao,
por exemplo) e aprende a convert-las nas respostas que a mo
normalmente daria.
   A sensibilidade das pontas dos dedos manifesta-se na
utilizao do braille, que hoje surge em toda a parte, dos
botes dos elevado-res s moedas italianas. O braille l-se
muito rapidamente, por isso se procuram formas de tirar melhor
partido dele. Um estudo recen-te, referido em *Education of
the Visually Handicapped*, sugere que o braille pode ser lido
com maior preciso e eficcia se as pessoas passarem os dedos
pelos pontos na vertical e no na horizontal, porque os
receptores tcteis existentes nas pontas dos dedos so mais
sensveis quando usados desse modo.
   Agarrar uma mo ou dar um aperto de mo  um gesto usado
atravs dos tempos para provar que no se est armado, e para
mostrar boa-f, embora o aperto de mo como saudao vulgar s
tenha comeado a utilizar-se durante a Revoluo Industrial,
em :, Inglaterra, poca em que os homens de negcios fechavam
tantos contratos selados com apertos de mo que o gesto perdeu
o seu sig-nificado especial e passou a fazer parte das
relaes sociais quoti-dianas. Mas um aperto de mo continua a
ser um contrato supervalorizado, que diz: Pelo menos finjamos
que vamos ser ho-nestos um com o outro. H algum tempo que a
mo serve para simbolizar o corpo todo como na expresso dar
uma mo ou na referncia a um trabalhador como mo-de-obra.
   Consideremos todas as ocasies em que tocamos em ns
prprios (no estou a falar apenas da masturbao -- de
*manustaprare*, profanar com a mo), mas de quando pomos as
mos em volta dos nossos ombros, como se nos embalssemos a
ns prprios; de quando uma me consola o seu filho; de quando
tapamos a cara com as mos para rezar ou para esconder as
nossas lgrimas; de quando passamos
levemente as mos pelos braos, num gesto de impacincia; de
quan-do, com os olhos muito abertos, levamos as mos  cara,
para exprimir surpresa. O tacto  to importante nos estados
emocionais que instinti-vamente tocamos em ns prprios do
modo que gostaramos que al-gum o fizesse. As mos so
mensageiras de emoes. E poucos compreenderam essa sua
intricada funo to bem como Rodin. Vejamos como Rilke
descreve a mestria de Rodin:

---------------------------
   Rodin criou mos, mos pequenas e independentes, que no
fazem parte de nenhum corpo mas, mesmo assim, esto vivas.
Mos que se erguem, iradas e irritadas, mos cujos cinco dedos
encrespados parecem ladrar como as cinco cabeas de Crbero.
Mos em movimento, mos adormecidas e mos que despertam, mos
criminosas que carregam o fardo da hereditariedade, mos que
se cansaram e perderam todo o desejo, que jazem como um animal
doente acocorado a uma esquina, sabendo que ningum as pode
ajudar. Mas as mos so um organismo complicado, um delta para
onde afluem muitas vidas que correm de nascentes remotas, que
a se encontram e precipitam para o grande rio da aco. As
mos tm uma histria prpria, no h dvida que a tm, a sua
prpria civilizao, a sua beleza especial; concedemos-lhes o
di-reito de terem o seu prprio desenvolvimento, os seus
prprios desejos, sentimentos, estados de esprito e ocupaes
preferidas.

profissionais do tacto


   Entre a multido dos chamados curandeiros a quem recorrem
os desesperados, h os praticantes do toque teraputico, que
:, afirmam curar os que sofrem de doenas fsicas sem lhes
mexer, pas-sando os dedos pelo campo de energia sem chegar a
toc-lo. A ve-lha tcnica de pr as mos pode ser vista
todas as semanas nos televisores dos Estados Unidos. Um
pregador convida a subir ao palco um espectador doente ou com
problemas, aparentemente adi-vinha o que o preocupa (o
desmascarador de charlates Randi re-velou que so utilizados
truques elementares de magia) e depois toca-o na testa com
tanta fora que o deita ao cho. Ele cai num xtase religioso,
depois levanta-se e afirma que est curado. Por todo o mundo,
xams e feiticeiros procedem a rituais desse tipo, simulando
extrair o diabo do corpo das pessoas, curando-as com um
bruxedo e um toque.
   O tacto e um curandeiro to poderoso que recorremos a
palpadores profissionais (mdicos, cabeleireiros,
massagistas, mestres de dana, esteticistas, barbeiros,
ginecologistas, calistas, al-faiates, endireitas e manicuras)
e frequentamos emprios do tacto: discotecas, a banca do
engraxador, banhos de lama. Em geral,  a doena que nos leva
ao mdico, mas muitas vezes vamos l s para sentirmos que
algum nos est a tratar, a mexer. Um mdico no pode fazer
muito quando uma pessoa tem uma pequena alergia, uma gripe ou
qualquer outro problema ligeiro, mas vamos onde for preciso
para nos fazerem festinhas, ouvirem, examinarem, tratarem. Os
macacos e outros animais passam muito tempo a cuidar de si
prprios, em especial da cabea. Os Romanos, os Gregos e os
Egpcios usavam coifas complicadas, que exigiam a assistncia
permanente de cabeleireiros, mas essa moda voluptuosa acabou
por cair em desuso e s reapareceu depois da Idade Mdia; o
salo de beleza profissional s passou a estar em voga na era
vitoriana.
   So os ginecologistas que efectuam o toque mais ntimo de
to-dos, e no h situao mais desagradvel para uma mulher do
que ver um mdico que ela mal conhece aproximar-se da marquesa
on-de est deitada, levantar o lenol e meter mos  obra. Mas
o gine-cologista no foi sempre to descontrado. Trezentos
anos atrs chegava mesmo a ter de entrar de gatas no quarto da
grvida quan-do ia efectuar o exame, observa Desmond Morris,
de modo a que ela no visse a pessoa a quem pertenciam os
dedos que iriam tocar numa parte to reservada do seu corpo.
Mais tarde, o mdico era obrigado a trabalhar num quarto
escuro e a fazer os partos enfiando as mos por baixo dos
lenis e cobertores. Numa gravura do s-culo XVII, o
ginecologista est sentado aos ps da cama da partu-riente com
o lenol entalado no colarinho, como se fosse um guardanapo,
para no ver o que as suas mos esto a fazer, um :,
dispositivo anti-intimidade que fazia do corte do cordo
umbilical uma operao particularmente perigosa.
   A forma mais bvia de utilizao profissional do tacto  a
mas-sagem, destinada a activar a circulao, dilatar os vasos
sanguneos, relaxar os msculos tensos e desintoxicar o corpo,
facilitando a cir-culao linftica. A bem conhecida massagem
sueca privilegia mo-vimentos longos e amplos em direco ao
corao. O *shiatsu* japons  uma espcie de acupunctura em
que a presso no  exer-cida por agulhas, mas sim pelos dedos
(*shi* em japons).  elabora-da uma carta do corpo, onde se
traam os meridianos pelos quais passa a vitalidade ou fora
vital da pessoa, e a massagem facilita o caminho a essa
passagem. Na massagem neo-reichiana, frequen-temente usada
em combinao com a psicoterapia, os movimentos so feitos a
partir do corao, a fim de libertar energia nervosa. A
reflexologia concentra-se nos ps. Contudo, tal como o
*shiatsu*, tam-bm atende a pontos de presso que existem na
pele e representam os
diversos rgos. Quando massajamos esses pontos, ajudamos os
respectivos rgos a funcionar melhor. Na massagem *rolfing*,
os movi-mentos transformam-se numa manipulao violenta e por
vezes dolorosa. Embora existam muitas tcnicas diferentes de
massagem, v-rias escolas formais e muita especulao, os
estudos realizados demonstram que um simples e meigo contacto
fsico, seja de que espcie for,  suficiente para melhorar
qualquer estado de sade.
   Na Universidade de Ohio, um investigador levou a cabo uma
experincia em que dava uma alimentao rica em colesterol a
um grupo de coelhos e depois acariciava s alguns; estes
apresentavam uma taxa de arterosclerose 50 por cento inferior
aos outros, embora fossem alimentados da mesma maneira.
   Em Filadlfia, fez-se outra experincia para estudar as
hipteses de sobrevivncia dos doentes que tinham sofrido
ataques cardacos. Depois de examinada uma vasta amostra de
variveis e os seus efeitos na sobrevivncia, ficou
demonstrado que a varivel causa-dora de maiores efeitos eram
os animais de companhia. No inte-ressava se a pessoa era
casada ou solteira -- as que tinham animais de companhia
viviam mais tempo. Fazer festas a um animal que-rido, uma
actividade to calmante e que podemos praticar quase
inconscientemente, enquanto fazemos outra coisa qualquer ou
con-versamos com um amigo, tem um efeito curativo. Como disse
um dos responsveis pela experincia: Criamos os nossos
filhos numa sociedade no tctil e temos de os compensar com
criaturas no humanas. Primeiro, com ursinhos de pelcia e
mantinhas, depois com animais de companhia. Quando no existe
contacto fsico, o :, verdadeiro isolamento avana. Tocar 
quase to teraputico como ser tocado; aquele que toca cura e
 simultaneamente curado.


TABUS


   Apesar de gostarmos tanto, e de sentirmos necessidade, de
tocar e ser tocados, muitas partes do corpo so tabus nas
diferentes cultu-ras. Nos Estados Unidos, no  aceitvel que
um homem toque os seios, ndegas ou sexo de uma mulher sem que
ela o convide a fa-z-lo. Visto uma mulher ser, em geral, mais
baixa do que um ho-mem, quando ele coloca o brao em volta do
ombro dela, o brao dela cai naturalmente em volta da cintura
dele. Em consequncia,  frequente uma mulher acabar por tocar
a cintura e a pelve de um homem sem que se trate
necessariamente de um acto sexual. No en-tanto, quando um
homem toca a pelve da mulher, esse gesto  ime-diatamente
considerado sexual. As mulheres tocam no cabelo e rosto de
outras mulheres mais vezes do que um homem toca no cabelo e
rosto de outro homem. De um modo geral, o cabelo das mulheres
 mais frequentemente tocado por todo o tipo de pessoas --
mes, pais, namorados, namoradas -- do que o dos homens. Na
Tailndia,  tabu tocar na parte de cima da cabea de uma
rapa-riga. Nas Fiji, mexer no cabelo de uma pessoa  um tabu
to grande como o acto de tocar nos rgos genitais de um
desconhecido seria, digamos, no Iowa. Mesmo nas tribos
primitivas, em que homens e mulheres andam normalmente nus,
existem tabus sobre tocar em certas partes do corpo. Na
verdade, s em duas situaes os tabus desaparecem: os amantes
tm todo o acesso ao corpo um do outro e o mesmo se passa
entre uma me e o seu filho. Muitas das reunies de grupo
que proliferaram nos anos 60 no passavam de sesses
organizadas para as pessoas se tocarem, muitas vezes com o
auxlio de drogas, na tentativa de quebrarem alguns dos
tabus e restries sociais que os tornavam tensos, inibidos e
alheios.
   Tambm h tabus relativos ao estatuto social. Todos os dias
vemos, ouvimos e falamos com os mais diversos tipos de
pessoas, mas tocar  diferente. Tocar numa pessoa  como usar
o seu primeiro nome. Imaginem duas pessoas a conversar durante
uma reunio de negcios. Uma delas toca levemente na mo da
outra, ou pe-lhe o brao em volta do ombro, para acentuar o
que est a dizer. Qual delas  o patro? A que estabelece o
contacto fsico  quase sempre a de posio mais elevada.
Alguns investigadores fizeram estudos comparativos em
ambientes pblicos, numa pequena cidade de In-diana e numa
grande cidade da costa leste dos EUA, chegando  :,
concluso de que so os homens a tomar a iniciativa e no as
mu-lheres e de que  mais frequente estas tocarem outras
mulheres do que os homens tocarem outros homens e, ainda, de
que, em geral, so as pessoas com um estatuto mais elevado a
tomar a iniciativa. As pessoas com uma posio inferior
esperam at se sentirem enco-rajadas a arriscar uma maior
intimidade, mesmo que inconsciente, com os seus presumveis
superiores.


TACTO SUBLIMINAL


   Na biblioteca da Universidade de Purdue, uma bibliotecria
faz o seu trabalho, entregando s pessoas os livros
requisitados. Est integrada numa experincia sobre toque
subliminal e sabe que no tem de fazer nada de especial a no
ser tocar, de vez em quando e da forma mais discreta possvel,
em algumas pessoas. Ao devolver o carto da biblioteca a um
estudante, toca ao de leve com a sua mo na dele. Depois, o
estudante  convidado a preencher um questionrio sobre o
funcionamento da biblioteca naquele mesmo dia. Entre outras
questes, pergunta-se ao estudante se a bibliotecria sorriu
ou lhe tocou. Na verdade, ela no lhe sorriu mas o estudante
responde que sim, mas que no lhe tocou. A experincia decorre
durante todo o dia e em breve algo se torna claro: os
estudantes subconscientemente tocados parecem muito mais
satisfeitos com a biblioteca e a vida em geral.
   Numa experincia relacionada, levada a cabo em dois
restau-rantes de Oxford, no Mississpi, as empregadas de mesa
tocam, leve e discretamente, na mo ou no ombro de alguns
clientes. Em-bora estes nem sempre considerem a comida ou o
restaurante ex-celentes, so os que do melhores gorjetas s
empregadas. Numa outra experincia realizada em Bston, uma
investigadora sai de uma cabina telefnica deixando l algum
dinheiro e regressa quando v o cliente seguinte meter o
dinheiro ao bolso; como quem no quer a coisa, pergunta-lhe se
encontrou o que ela perdeu. Sempre que a investigadora toca no
cliente, pedindo-lhe ajuda, e toca-o sempre de forma a que ele
no d por isso, as probabilidades de o dinheiro ser devolvido
sobem de 63 a 96 por cento. Apesar de sermos criaturas
territoriais que andamos pelo mundo como pequenos prncipes, o
contacto conforta-nos sem o sabermos. Provavelmente,
recorda-nos o tempo em que, muito antes de atingirmos a idade
dos prazos e dos bancos, a nossa me nos embalava e ns
sentamo-nos encanta-dos e cheios de amor. Mesmo um toque
subtil, quase imperceptvel, no passa despercebido aos
subterrneos da mente.



O gosto


Aqueles... a quem a Natureza recusou
o legado do gosto, tm o rosto
comprido, longos olhos e nariz,
seja qual for a sua altura
h algo de deformado nas suas
propores. De cabelo
escuro e sem brilho, nunca so
gordos; foram eles
que inventaram as calas.

Anthelme Brillat-Savarin,
*Physiologie du Gout*


O sentido social


   Podemos apreciar os outros sentidos em toda a sua beleza
quando estamos sozinhos, mas o gosto  eminentemente social.
Raras ve-zes, os seres humanos escolhem comer sozinhos, e a
comida tem uma forte componente social. Os Bantos consideram
que a troca de alimentos estabelece um contrato entre duas
pessoas que passam a estar unidas pela comida. Em geral,
comemos na companhia dos nossos familiares; por isso,  fcil
compreender que um estranho passe a estar ligado  famlia com
quem divida o po. Por todo o mundo se fecham negcios ao
almoo ou ao jantar; os casamentos terminam com a realizao
de um banquete; os amigos renem-se em almoos comemorativos;
as crianas festejam o seu aniversrio comendo doces e bolos;
nas cerimnias religiosas, oferecem-se alimentos para
manifestar temor, em homenagem ou em sacrifcio; recebemos os
viajantes oferecendo-lhes de comer. Como afirma
Brillat-Savarin:  roda da mesa encontramos todas as formas
de sociabilidade: amor, amizade, comrcio, especulao, poder,
im-portunao, auxlio, ambio, intriga... Quando desejamos
assi-nalar a importncia emocional, simblica ou mstica de um
acontecimento, a comida l est para o santificar e legitimar.
Todas as culturas empregam a comida em sinal de aprovao ou
comemorao, havendo alimentos aos quais se atribuem poderes
sobrenatu-rais, outros que so ingeridos simbolicamente ou em
rituais, e uma mar de azar aguarda os distrados ou cpticos
que se esquece-rem da receita ou no observarem a ordem dos
procedimentos. Numa cerimnia judaica  servido um prato de
rbano que simboliza as lgrimas vertidas pelos antepassados
quando eram escravos no Egipto. Os Malaios festejam os
acontecimentos :, im-portantes com arroz, o centro inspirador
das suas vidas. Catlicos e anglicanos recebem  comunho
vinho e hstias. Para os antigos Egpcios, a cebola
simbolizava o Universo, com as suas vrias ca-madas, e
faziam-se juramentos sobre uma cebola, tal como os
Nor-te-Americanos hoje juram sobre a Bblia. A maioria das
culturas embeleza as suas refeies com finas louas e copos,
fazendo-as seguir de festas, msica, espectculos ou outras
7formas de folgue-dos. O gosto  um sentido intrnseco. No
podemos saborear coisas  distncia. E a forma de as
saborearmos, bem como a composio exacta da nossa saliva,
pode ser to diferente de indivduo para in-divduo como as
impresses digitais.
   Divindades representando alimentos tm influenciado o
corao e a vida de muitos povos. Os ndios hopis, que veneram
o milho, comem-no porque ele lhes d fora, mas todos os
americanos se tornariam adoradores do milho se soubessem o
quanto dele depen-dem as suas vidas. Na sua obra *Much
Depends on Dinner*, Margaret Visser faz uma descrio
primorosa da histria do milho e do seu emprego: o gado e aves
domsticas comem milho; o lquido em que se conservam os
alimentos enlatados contm milho; usa-se milho em grande parte
dos derivados do papel, do plstico e nos produtos adesivos;
os rebuados, gelados e outras guloseimas contm xarope de
milho; os alimentos desidratados e em p contm fcula de
mi-lho; muitos objectos que todos conhecemos podem ser feitos
de milho, como vassouras e cachimbos, para citar apenas dois.
Para os Hopis, comer milho  por si s uma forma de
reverncia. Tenho na mo uma boneca de milho *kachina*, (*) 

(*) Palavra que designa genericamente o esprito dos
antepassados presente na cultura dos ndios norte-americanos.
(*N. da T*.)

maravilhosamente esculpida num pedao de madeira de choupo;
simboliza uma das muitas es-sncias espirituais do mundo hopi.
O seu corpo em forma de maa-roca est pintado de ocre,
amarelo, preto e branco, com dzias de quadrados desenhados
num motivo representando o corte de um gro de milho, por
baixo do qual brotam folhas verdes estili-zadas. O rosto
apresenta um nariz comprido, negro e com a for-ma de uma raiz.
Tem olhos negros e rectangulares, uma gola tufada feita de
pele de coelho, orelhas compridas e brancas, se-melhantes a
barbas de milho, duas farripas castanhas feitas de penas de
pssaro cadas sobre a testa e dois cornos s riscas de cor
verde, amarelo e ocre, donde pendem borlas de couro cru.
Representado por uma bela e expressiva *kachina*, o velho deus
Mas observa-me tambm, deliciosamente imaginado. :,
   Atravs dos tempos e em muitas culturas, a palavra gosto
teve sempre um duplo significado. O seu correspondente
britnico *taste* vem do ingls mdio (*) 

(*)  Chama-se ingls mdio ao ingls falado entre 1100 e
1500. (*N. da T*.)

*tasten* e recua at ao termo latino *taxa-re*, que significa
tocar com fora. Assim, um gosto significava sempre uma
prova ou um teste. As pessoas com gosto so aque-las que
avaliaram a vida de uma forma intensamente pessoal e
con-cluram que parte dela  sublime e o resto medocre.
Existe algo no mau gosto que  obsceno ou ordinrio.
Submetem-nos  opinio dos crticos profissionais de vinhos,
comida, arte e outros, a quem confiamos a tarefa de provar as
coisas por ns, porque achamos que eles tm um gosto mais
requintado e educado do que o nosso. Um companheiro  aquele
que come o po com outro, e as pes-soas que partilham
alimentos num gesto de paz ou hospitalidade gostam desse
pretexto para se reunirem e conversarem.
   A primeira coisa cujo sabor sentimos  o leite da nossa
me, (*) 

(*) Este leite, chamado colostro,  rico em anticorpos, devido
 histria epidemiolgica da me. (*N. da A*.)

acompanhado com amor e ternura, carcias, uma sensao de
segu-rana, conforto e bem-estar, os nossos primeiros
sentimentos inten-sos de prazer. Mais tarde, a me d-nos
alimentos slidos  mo, e em certos casos mastiga-os
primeiro, introduzindo-os depois na nossa boca, parcialmente
digeridos. Essas ligaes to fortes no desaparecem
facilmente, se  que chegam a desaparecer. Dizemos comida
como se ela fosse uma coisa simples, um absoluto como uma
rocha ou a chuva, um dado adquirido. Mas , para a maioria das
pessoas, uma enorme fonte de prazer, uma esfera complexa de
satisfao, tanto fisiolgica como emocional, muita da qual
envolve recordaes da infncia. A comida tem de saber bem,
tem de nos satisfazer, ou no alimentaramos a fornalha que
existe em cada uma das nossas clulas. Para viver, precisamos
de comer, tal como precisamos de respirar. Mas a respirao 
involuntria, enquanto procurar comida no o ; exige energia
e planeamento; portanto, tem de conseguir convencer-nos a sair
do nosso torpor natural. Tem de fazer-nos levantar da cama de
manh e incitar-nos a vestir rou-pas formais, ir trabalhar,
desempenhar tarefas que talvez no nos a-gradem durante oito
horas por dia, cinco dias por semana, s para ganharmos o po
de cada dia ou valermos o sal que comemos, venha ou no de
sal a palavra salrio. Como somos omnvoros, so muitos os
sabores que nos agradam e de boa vontade experimen-tamos
alimentos novos. Durante o perodo do seu desenvolvimento, as
crianas renem-se regularmente, a diferentes horas do dia s
:,
refeies, com adultos, ouvem-nos conversar, fazem-lhes
perguntas e aprendem coisas sobre os costumes, a linguagem, o
mundo. Se  verdade que a linguagem no surgiu  mesa da
refeio, foi certa-mente a que evoluiu e se tornou mais
fluente, logo no tempo em que ramos caadores.
   Temos tendncia para ver o nosso passado distante atravs
de um telescpio virado ao contrrio, o que o comprime: um
curto perodo de tempo como caadores-recolectores e um longo
perodo de tempo co-mo pessoas civilizadas. No entanto, a
civilizao  uma fase recente da vida humana e, pelo que nos
 dado ver, talvez no tenha significa-do uma grande
conquista. Pode nem sequer ser uma ltima fase. Vi-vemos neste
planeta como seres humanos devidamente identificveis h cerca
de dois milhes de anos e, exceptuando os ltimos dois ou trs
mil anos, sempre fomos caadores-recolectores. Podemos cantar
num coro e espartilhar a nossa raiva atrs de uma secretria,
mas continua-mos a percorrer o mundo levados por muitos dos
instintos, motivos e atributos dos caadores-recolectores. No
reconhecemos facilmente estas verdades. Se uma civilizao
extraterrestre alguma vez contactar connosco, o maior presente
que poder dar-nos ser uma coleco de filmes amadores: cenas
da nossa espcie nas diversas fases da nossa evoluo. A
consciencializao, esse grande poema de matria, pare-ce to
pouco plausvel, to impossvel, e no entanto aqui estamos com
a nossa solido e os nossos gigantescos sonhos. Quando falamos
para as perfuraes do auscultador de um telefone como se
estivsse-mos atrs da parede de um confessionrio,
partilhamos as nossas emo-es com um amigo, mas normalmente
de forma muito dispersa, demasiado parecida com um grito no
deserto. Preferimos falar pes-soalmente, como se fosse
possvel, por momentos, entrar nos senti-mentos dos outros. Um
amigo oferece-nos de comer, de beber. Trata-se de um acto
simblico, um gesto que diz: Isto alimentar-te- o corpo tal
como eu te alimentarei o esprito. Na dificuldade ou na
escassez, significa tambm Por ti ponho a minha vida em
risco, pois ofereo-te aquilo de que depende a minha
sobrevivncia. Talvez esses tempos difceis pertenam j ao
passado, mas aquela parte de ns que foi for-jada nessas
provaes aceita o copo e o queijo que nos so oferecidos e
sente-se profundamente agradecida.


COMIDA E SEXO


   Como seria o alvoroo do namoro sem uma refeio? Como nos
mostra a deliciosa, sensual e irreverente cena da taberna no
*Tom Jones* de Fielding, uma refeio pode constituir o
cenrio ideal para :, jogos de amor. Porque  a comida *sexy*?
Porque  que as mulheres se referem a um homem atraente como
sendo um po? E porque ser que uma francesa chama ao seu
amante *mon petit chou* (minha pequena couve)? Ou um americano
 sua namorada *cookie* (bolachinha)? E porque ser que os
Ingleses chamam s mulheres *sexy a bit of a crumpet* (uma
fatia de bolo torrada e barrada de manteiga)? Ou mesmo
*tart* (pastelinho)? A fome de sexo e a fo-me de alimentos
sempre foram aliadas. Sendo ambas necessidades vorazes, desde
os primrdios da Histria sempre nos aliciaram e in-citaram,
atravs de fomes e guerras, tanto ao derramamento de san-gue
como  serenidade. Vista sob o devido prisma, toda a comida
pode ser considerada afrodisaca: os alimentos com uma forma
fli-ca, como cenoura, alho francs, pepino, pepininhos de
conserva, holotria (animal marinho que incha quando est
coberto de gua), enguias, bananas e espargos, foram j
classificados como afrodisa-cos, tal como as ostras e os
figos, cuja forma recorda o sexo das mulheres; o caviar, por
se tratar de ovos femininos; o chifre do rino-ceronte, os
olhos da hiena, o focinho do hipoptamo, a cauda do jaca-r, a
bossa do camelo, os rgos genitais do cisne, os miolos do
pombo e a lngua do ganso, com base no princpio de que uma
coi-sa to rara e extica tem forosamente de ser dotada de
poderes mgicos; as ameixas secas (que eram oferecidas
gratuitamente nos bordis isabelinhos); os pssegos (ser
devido ao seu mesocarpo carnudo?); os tomates, tambm chamados
mas do amor e que se pensa terem sido a tentao de Eva no
jardim do Paraso; as ce-bolas e as batatas, com o seu
aspecto testicular, bem como os ovos crus, ou os testculos do
boi que se comem depois de cozinhados; a raiz de mandrgora
que lembra as coxas e pnis do homem. O afrodi-saco preferido
do marqus de Sade, que ele misturava nos bombons que
distribua pelas prostitutas e amigas, obtinha-se esmagando a
cantrida, um insecto da Europa meridional. Continha um
produto que irritava o aparelho digestivo e melhorava o fluxo
sanguneo, combinao essa que provocava uma forte ereco
tanto do pnis como do cltoris, embora fosse prejudicial aos
rins; podia mesmo ser fatal. O almscar, o chocolate e as
trufas tambm foram conside-rados afrodisacos e, pelo que
sabemos,  possvel que seja verdade. Porm, e como h muito
afirmam os sbios, a parte mais *sexy* do corpo, e o melhor
afrodisaco do mundo,  a imaginao.
   Os povos primitivos viam a criao como um processo tanto
pessoal como universal, o alimento que povoa o mundo, com os
se-res humanos (moldados em barro ou terra) rodeados de
criancinhas. A chuva vem do cu e impregna o solo, fazendo
brotar o fruto e o :, gro das fulvas entranhas da terra --
uma terra cujas montanhas pa-recem mulheres reclinadas, onde
as nascentes jorram como homens saudveis. Os rituais de
fertilidade, vividos com suficiente empe-nho e arrebatamento,
destinavam-se a encorajar a abundncia da Natureza. Os
cozinheiros assavam peas de carne e pes com a forma de
rgos genitais, em especial pnis, e esttuas de homens e
mulheres com sexos exagerados presidiam a orgias em que os
ca-sais sagrados copulavam em pblico. Uma Gaia mtica verteu
leite dos seus seios e eles transformaram-se em galxias. As
antigas fi-guras que representavam Vnus, com os seus seios
opulentos, ven-tres inchados e volumosas ndegas, simbolizavam
a fora de vida que h nas mulheres, mes de colheitas e seres
humanos. A prpria Terra era uma deusa, curvilnea e madura,
radiosa de fertilidade, abundante de riquezas. Sempre se
consideraram essas figuras de Vnus um exagero da imaginao,
mas  bem possvel que as mulheres desse tempo fossem iguais a
ela, com grandes seios, bar-rigas e curvas. Quando grvidas,
deviam assumir uma variedade de formas.
   A comida  criada pelo sexo de plantas ou animais; e
acha-mo-la *sexy*. Quando comemos uma ma ou um pssego,
estamos a comer a placenta do fruto. Mas mesmo que assim no
fosse, e no nosso subsconciente no associamos a comida ao
sexo, conti-nuaramos a consider-la *sexy* por razes
estritamente fsicas Usamos a boca para muitos fins --falar e
beijar, alm de comer. Os lbios, a lngua e os rgos
genitais tm os mesmos receptores neurais, os corpsculos de
Krause, que lhes conferem uma extre-ma sensibilidade e
capacidade de reaco. H uma similaridade de respostas.
   Um homem e uma mulher esto sentados frente a frente  mesa
de um restaurante mal iluminado. Um pequeno ramo de lrios
vermelhos e brancos impregna o ar de um aroma doce com um
travo de canela. Passa um criado com uma travessa de coelho em
molho *mol*. Na mesa ao lado, um *souffl* de mirtilos exala
a sua fragrncia. Arrumadas sobre gelo picado, numa grande
tra-vessa, as ostras ao natural deixam uma a uma o seu
requintado sabor a mar na lngua da mulher. Um aroma a funcho
desprende-se dos espessos fritos de caranguejo no prato do
homem. Os pe-quenos pes acabados de cozer emanam um cheiro
adocicado. As mos tocam-se quando ambos tentam chegar ao po.
Ele olha-a nos olhos, como se os enchesse de chumbo derretido.
Ambos sabem ao que este delicioso preldio ir conduzir.
Tenho tanta fome, murmura ela. :,


:o piquenique do omnvoro


   Imaginem que foram convidados para jantar em casa de uns
extraterrestres que vos pediram para levar alguns amigos. Os
vossos atenciosos anfitries perguntam-vos antes de mais se
tm algumas alergias ou restries alimentares e que tipo de
comida vos apetece. Que comem os seres humanos?, perguntam.
As imagens atrope-lam-se diante dos vossos olhos, uma
cornucpia de plantas, animais, minerais, lquidos, slidos,
numa enorme variedade gastronmica. O povo massai gosta de
beber sangue de vaca. Os Orientais co-mem cachorrinhos
guisados. Os Alemes apreciam couve ranosa (*Sauerkraut*),
os Americanos, pepinos em decomposio (*pickles*), os
Italianos comem passarinhos inteiros fritos, os Vietnamitas
peixe fermentado misturado com pimento picante, os Japoneses,
entre outros, comem fungos (cogumelos), os Franceses caracis
ensopa-dos em alho. Os astecas das classes superiores comiam
co assado (uma raa sem plo chamada *xquintli*, ainda hoje
criada no Mxico). Os chineses da dinastia Chou apreciavam
ratazanas, s quais cha-mavam veados domsticos (*) e 

(*) Foram os Chineses, com a sua obsesso pela comida, os
primeiros a ter verdadeiros restaurantes, ao tempo da dinastia
T.ang (618-907 a. C.). Quando a dinastia Song substituiu a
dinastia T.ang, os restaurantes eram edifcios polivalentes,
com muitas salas de jantar privadas, onde se ia para comer,
frequentar os bordis ou tagarelar nos bares. (*N da A*.)

muitos ainda hoje comem roedores alm de gafanhotos, cobras,
aves no voadoras, cangurus, lagostas, caracis e morcegos. Ao
contrrio da maioria dos outros animais que preenchem um nicho
pequeno mas diversificado na grande teia de vida que existe
sobre o planeta, os seres humanos so omnvo-ros. S plantas
comestveis, a Terra oferece-nos cerca de vinte mil. Um mau
ano de eucalipto por fim a toda uma populao de ursos
coalas, que no tm outra fonte de alimentao. Mas os seres
hu-manos so os grandes improvisadores e correctores da
Natureza. A diversidade delicia-nos. Em tempo de seca,
partimos para outra regio, abrimos um cacto ou cavamos um
poo. Quando as pragas de gafanhotos destroem as nossas
colheitas, procuramos alimentos entre as plantas selvagens e
razes. Se os nossos rebanhos morrem, encontramos protenas
nos insectos, leguminosas e frutos secos. No que seja fcil
ser omnvoro. Um urso coala no precisa de se preocupar em
saber se o seu prximo alimento ser ou no txico. Com
efeito, o eucalipto  altamente venenoso, mas o coala tem um
intestino extremamente protector, portanto come apenas
eucalipto, tal como os seus pais sempre fizeram. As vacas
pastam, confiantes, erva e cereais. Mas os omnvoros so
comedores ansiosos. Tm de :, provar constantemente novos
alimentos, para saberem se so sabo-rosos e nutritivos,
correndo o risco de se envenenarem inadverti-damente. No
resistem a experimentar um novo sabor e, ao faz-lo, adquirem
muitas vezes uma preferncia por algo fora do comum que,
embora nutritivo, no  o gnero de coisa que em princpio
lhes agradaria: pimento picante (que Colombo introduziu na
Europa), tabaco, lcool, caf, alcachofras ou mostarda, por
exem-plo. Quando ramos caadores-recolectores comamos uma
grande variedade de alimentos. Alguns ainda so ingeridos por
ns, mas o mais habitual  acrescentarmos temperos novos
quilo que j co-nhecemos ou est ao nosso alcance, *para
variar*, como costumamos dizer. Monotonia no  connosco. Em
certos aspectos  mais segu-ra, mas noutros  perigosa. Quase
todos preferimos os nossos ali-mentos cozinhados e o mais
frescos possvel. No temos dentes superaguados, como os
carnvoros, mas eles tambm no nos fa-zem falta. Inventmos
ferramentas afiadas. Temos efectivamente dentes incisivos para
cortar frutos, molares para esmagar sementes ou frutos secos e
caninos para despedaar carne. H alturas em que comemos
plantas trepadeiras e vagens e at os eflvios das gln-dulas
mamrias da vaca, revolvidos at coalharem ou congelados at
ficarem slidos e espetados num pauzinho de madeira.
   Nas traseiras da casa h um prado iluminado por dois sis;
por-tanto, os nossos anfitries propem-nos um piquenique e
do-nos as boas-vindas, a ns e aos amigos que trouxemos. O
nosso amigo japons escolhe as entradas: *sushi*, incluindo
camaro ainda vivo e saltitante. O amigo francs sugere uma
*baguette* ou, melhor ainda, *croissants*, cuja histria ele
insiste em contar: para festejar a vitria da ustria sobre
os invasores turcos otomanos, os padeiros cozeram uns pes com
a forma do quarto crescente da bandeira turca, para que os
Austracos pudessem devorar os inimigos  mesa, como ti-nham
feito no campo de batalha. Em breve os *croissants* chegariam
a Frana e durante a dcada de 20 viajaram, juntamente com
ou-tros produtos franceses, at aos Estados Unidos. O nosso
amigo da Amaznia escolhe o prato principal: casais de reis e
rainhas de formigas vegetarianas, que sabem a manteiga de
avel, seguidas de tartaruga assada e piranhas de carne doce.
O nosso amigo ale-mo insiste em incluir um pouco de
*Spaetzle* e um bem escuro po de centeio integral,
*Pumpernickel*, cujo nome vem de *pumpern*, deitar gases, e
*Nickel*, o diabo, pois era to difcil de digerir que at
o diabo ficaria com gases se o comesse. O nosso amigo dos
Tassadais quer uma pasta farinhenta chamada *natek* que o seu
povo faz das entranhas das palmeiras cariofilceas. O seu
primo ingls
:, pede uma pequena travessa de lnguas de vaca em conserva,
queijo azul muito passado e, para sobremesa, um *trifle*, uma
sobremesa feita de palitos *la reine* embebidos em xerez,
cobertos de creme de *custard* e gelatina e enfeitados com
natas batidas e amndoas falhadas.
   Para terminar a nossa refeio ao ar livre, o amigo turco
prope caf  turca -- esmagando os gros com um pilo num
almofariz em vez de os moer.  ele quem o prepara com
solicitude, vertendo, com o auxlio de um coador de prata,
gua a ferver sobre o caf que est dentro da cafeteira.
Deixa-o levantar fervura, volta a co-lo e oferece-nos o
melhor caf que jamais provamos. Segundo a lenda,
explica-nos, o caf foi descoberto por um pastor do sculo
IX que um dia reparou que as suas cabras ficavam muito
agitadas sempre que pastavam as bagas de certos arbustos.
Durante quatrocentos anos, as pessoas limitaram-se a mastigar
as bagas. O caf cru no produz nenhuma infuso especial, mas
no sculo XIII algum resolveu torrar os gros, o que
liberta um leo acre e o aroma amargo
que to bem conhecemos. O nosso companheiro indiano distribui
cubos de acar, ensinando-nos que devemos deix-los derreter
na lngua enquanto beberricamos o caf, e os nossos espritos
viajam at ao primeiro registo de existncia do acar no
*Atharva-Veda*, um texto sagrado hindu do ano 800 a. C. que
refere uma coroa real
feita de cintilantes cristais de acar. Depois faz circular
um peque-no prato de sementes de coentro e retiramos uma
pitada com os dedos, colocamo-la sobre a lngua e sentimos a
boca refrescar graas quele travo aromtico. Um piquenique
perfeito. Agradecemos aos nossos anfitries to esplndido
banquete e convidamo-los a jantar em nossa casa para a
prxima. Que comero eles?, perguntamo-nos.


:canibalismo e vacas sagradas


   Muito embora a sopa de ervas fosse o prato principal nos
*gulags* russos, de acordo com *Um Dia na Vida de Ivan
Denisovich*, de Soljenitsine, os seres humanos no apreciam
madeira, folhas ou er-vas -- a celulose  impossvel de
digerir. Tambm no nos damos bem com a ingesto de
excremento, embora alguns animais o ado-rem, giz ou petrleo.
Por outro lado, tabus culturais fazem-nos des-denhar alimentos
muito completos e nutritivos. O povo judeu no come carne de
porco, os Hindus no comem carne de vaca e a gene-ralidade dos
americanos recusa-se a comer carne de co, ratazana, cavalo,
gafanhoto, lagarto e muitos outros alimentos saborosos e
a-preciados por povos de outras regies do mundo. O
antroplogo Claude Lvi-Strauss descobriu que as tribos
primitivas dividiam os :, alimentos em bons para pensar e
maus para pensar. A necessi-dade, que agua o engenho,  a
responsvel por muitos cdigos de conduta. Tomemos como
exemplo a vaca sagrada, uma ideia to chocante que passou
para o nosso vocabulrio com o significado de coisa,
acontecimento ou pessoa considerados sacrossantos. Embora a
ndia tenha uma populao de cerca de setecentos mi-lhes de
habitantes e uma necessidade constante de fontes de
pro-tenas, mais de duzentos milhes de cabeas de gado
deambulam pelas ruas como se fossem divindades, enquanto
tantos passam fo-me. A vaca tem um papel central no hindusmo.
Como explica Marvin Harris em *The Sacred Cow and the
Abominable Pig*:

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   A proteco e o culto da vaca simbolizam tambm a
proteco e o culto da maternidade humana. Tenho uma coleco
de colori-dos calendrios indianos com fotos de vacas
enfeitadas com jias, de beres inchados e caras humanas de
*madonnas*. Os adoradores de vacas hindus afirmam: /A vaca 
a nossa me. D-nos leite e manteiga. Os seus filhos machos
trabalham a terra, fornecendo-nos alimentos./ Quando so
criticados por alimentar vacas demasiado velhas para darem
bezerros ou leite, os hindus respondem: /Tambm vai mandar a
sua me para um matadouro quando ela fi-car velha?/
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   Na ndia, no s a vaca  sagrada como tambm o p dos
seus cascos  sagrado. De acordo com a teologia hindu, dentro
de cada vaca vivem trezentos e trinta milhes de deuses.
Existem muitas explicaes para este culto nacional; um factor
importante talvez seja que uma regio to superpovoada como a
ndia no suportaria a criao de gado para alimentao, um
sistema extremamente ine-ficaz. Quando as pessoas comem
animais que se alimentaram de cereais, h uma perda de nove
em cada dez calorias e quatro em cada cinco gramas de
protena. A maioria dos nutrientes  consu-mida pelos
animais. Assim, talvez o vegetarianismo tenha surgido como uma
soluo, mais tarde ritualizada pela religio. Estou certo de
que a ascenso do budismo est relacionada com o sofri-mento
em massa e o esgotamento dos recursos naturais, escreve
Harris porque vrias religies semelhantes, todas elas
condenando o abate de animais, surgem ao mesmo tempo na
ndia. Incluindo o jainismo, cujos sacerdotes no s
recolhem gatos e ces abandona-dos como tm nos seus abrigos
uma diviso inteiramente destinada aos insectos. Quando saem 
rua, um deles vai  frente para afastar os insectos, no vo
os outros pisar algum, e usam mscaras de :, gaze para no
inalarem algum mosquito ou outro insecto mais tei-moso.
   H um tabu que se destaca como o mais fantstico e proibido
de todos: Ests metido nalgum assado?, perguntamos a um
amigo com ar aflito. Mesmo que ele tenha sido despedido por um
patro tirnico e estpido, nunca nos passaria pela cabea
perguntar-lhe: Quem  que te assou? A noo de canibalismo
est to longe das nossas vidas dirias que  possvel usar o
eufemismo *comer* num contexto sexual sem que ningum fique a
pensar que estamos a us-lo no sentido literal. Todavia, os
omnvoros comem de tudo, inclusi-vamente os seus iguais, (*) 

(*) Na lngua alem, h um verbo comer para os seres humanos
(*essen*) e outro para os animais (*fressen*). Os canibais so
os *menschfresser* -- seres humanos que, ao comer, se tomam
animais. (*N. da A*.)

e a carne humana  uma das melhores fontes de protenas. Por
todo o mundo houve povos primitivos que se entregaram ao
canibalismo, sempre como um ritual, mas muitas vezes tambm
como uma fonte onde iam buscar as protenas de que a sua
alimentao carecia. Para muitos,  uma questo de caa, de
exibir a cabea do inimigo com toda a pompa, passando depois,
para no desperdiar, a comer-lhe o corpo. Em Inglaterra, na
Idade do Ferro, os Celtas consumiam carne humana em grandes
quantidades. Algumas tribos de ndios americanos torturavam e
comiam os seus prisioneiros com pormenores horripilantes
(relatados pelos missio-nrios cristos que assistiam aos
ritos). Em 1487, durante uma fes-tividade que se prolongou por
quatro noites, os Astecas tero sacrificado cerca de oitenta
mil prisioneiros, cuja carne, apesar de tambm partilhada com
os deuses, foi quase toda comida por uma vasta populao
esfomeada. Em *The Power of Myth*, o falecido Jo-seph
Campbell, astuto observador das crenas e dos costumes de
muitas culturas, refere um ritual canibal da Nova Guin que
sanciona o mito, presente nas sociedades agrcolas, da morte,
ressurreio e consumo *canibal*. A tribo rene-se num campo
sagrado, onde entoa cnticos e toca tambor durante quatro ou
cin-co dias, e entrega-se a uma orgia sexual que desrespeita
todas as regras. Nesse rito, que celebra a virilidade, os
rapazes so inicia-dos no sexo:

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   H uma enorme cabana de grandes troncos suportados por
duas escoras. Uma mulher jovem, enfeitada como uma divindade,
 con-vidada a deitar-se no cho debaixo do grande telhado. Ao
som de cnticos e tambores, os rapazes, cerca de seis, tm, um
a um, a sua primeira experincia sexual com a rapariga. E
quando o ltimo se :, encontra em pleno acto, as escoras so
retiradas, os troncos caem e o casal morre. Temos a unio do
macho e da fmea... tal como eram no princpio... Temos a
unio entre procriao e morte. Am-bas so a mesma coisa.
   Em seguida, o casal  arrastado para fora, assado e comido
nes-sa mesma noite. O ritual  a recriao do acto original da
morte de um deus, seguida do aparecimento de comida por aco
do salva-dor morto.
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   Quando o explorador Dr. Livingstone faleceu em frica,
parece que os seus rgos foram comidos por dois nativos,
desejosos de absorverem a sua fora e coragem. Tomar a
comunho, na Igreja Catlica, representa comer simbolicamente
o corpo e o sangue de Cristo. Algumas formas de canibalismo
eram mais sanguin-rias do que outras. Segundo Philippa
Pullar, os sacerdotes druidas apunhalavam um homem acima do
seu diafragma para ler o futuro nas convulses dos seus
membros e no sangue que jorrava... Em seguida... comiam-no. O
canibalismo no nos horroriza por consi-derarmos as nossas
vidas sagradas, mas por os nossos tabus sociais o proibirem
ou, tal como diz Harris: O verdadeiro enigma  por-que  que
ns, que vivemos numa sociedade que est constante-mente a
aperfeioar a arte de aniquilar em massa corpos humanos, os
achamos bons para matar mas maus para comer. (*)

(*) Para uma excelente anlise do canibalismo e das razes
nutricionais que levaram um grande n-mero de culturas a
adopt-lo (Astecas, Fiji, Nova Guin, ndios americanos e
muitos outros), in-cluindo descries impressionantes feitas
por testemunhas oculares, ver o captulo de Harris sobre Os
Povos a Comer. (*N. da A*.)


:o desabrochar de uma papila gustativa


   Vistas ao microscpio electrnico, as nossas papilas
gustativas assemelham-se aos enormes vulces do planeta Marte,
enquanto as do tubaro parecem lindas colinas em papel de seda
de cores pastel, at pensarmos para que  que servem. Na
verdade, as papilas gus-tativas so extremamente pequenas. Os
adultos dispem de cerca de dez mil, agrupadas por temas
(salgado, cido, doce, amargo) em determinados pontos da boca.
Dentro de cada uma delas, cerca de cinquenta clulas
sensoriais gustativas ocupam-se a transmitir in-formaes a um
neurnio que as passa ao crebro. No centro da lngua no
ocorrem muitas percepes, mas existem ocasionais pa-pilas
gustativas agarradas ao palato,  faringe e s amgdalas, como
morcegos pendendo das paredes hmidas e escorregadias de uma
:, gruta. Os coelhos tm dezassete mil papilas gustativas, os
papa-gaios apenas  roda de quatrocentas e as vacas vinte e
cinco mil. Que saboreiam eles? Talvez uma vaca precise de uma
tal quantidade para apreciar a sua inexorvel dieta de ervas.
   Na ponta da lngua, sentimos os sabores doces; os amargos
ao fundo; os cidos dos lados; e os salgados por toda a
superfcie da lngua, mas sobretudo  frente. A lngua  como
um reino dividido em principados, de acordo com o talento
sensorial.  como se todos os que vem vivessem a leste, os
que ouvem a oeste, os que tm gosto a sul e os que palpam a
norte. Um sabor que viajasse atravs de um tal reino no seria
identificado da mesma maneira em dois stios. Quando lambemos
um gelado, um chupa-chupa ou um dedo molhado em massa de bolo,
fazemo-lo com a ponta da lngua, onde se encontram as papilas
gustativas para o doce, e o alimento pro-porciona-nos um surto
redobrado de prazer. Um cubo de acar de-baixo da lngua no
parecer to doce como se o colocarmos sobre a lngua. O nosso
patamar para o amargo  o mais baixo de todos. Porque as
respectivas papilas gustativas esto ao fundo da lngua, para
nos defenderem contra o perigo podem mesmo, em ltimo ca-so,
fazer-nos engasgar a fim de evitar que determinada substncia
desa pela garganta. Certas pessoas engasgam-se, de facto,
quando ingerem quinina, bebem caf pela primeira vez ou provam
uma azeitona. As nossas papilas gustativas detectam o doce em
tudo, mesmo que ele apenas exista na proporo de um para
duzentos. s borboletas e moscas-varejeiras, que tm a
maioria dos rgos do gosto nas patas da frente, basta-lhes
tropear numa soluo doce para lhe sentirem o sabor. Os ces,
cavalos e muitos outros animais so gulosos como ns.
Detectamos o salgado  razo de um para quatrocentos, o cido
numa parte em mil e trezentas, mas o amargo apenas numa de
duas mil partes. No  necessrio conhecermos o sabor
especfico das substncias venenosas, pois todas so amargas.
A distino entre o doce e o amargo  to essencial para ns
que esta presente na nossa linguagem. As crianas, uma
alegria, um bom amigo, um amante, a todos nos referimos como
sendo doces. O remorso, um inimigo, uma dor, uma desiluso,
uma dis-cusso violenta so amargos. Com a expresso
amargos de bo-ca referimo-nos a grandes dissabores,
desgostos, inquietaes.
   As papilas gustativas devem o seu nome a Georg Meissner e
Rudolf Wagner, cientistas alemes do sculo XIX que
descobriram salincias constituidas por clulas do gosto
sobrepostas como p-talas. As papilas gustativas gastam-se ao
fim de uma semana a dez dias, mas so substituidas, embora com
menor frequncia a partir :, dos quarenta e cinco anos: os
nossos palatos ficam de facto cansa-dos  medida que
envelhecemos. Nessa altura,  preciso possuir um paladar mais
intenso para ter o mesmo nvel de sensao, sendo nas crianas
que o sentido do gosto  mais aguado. A boca de um beb tem
muito mais papilas gustativas do que a de um adulto, e algumas
espalham-se mesmo pelas bochechas. Os midos adoram
rebu-ados, porque a ponta das suas lnguas, mais sensvel ao
doce, ainda no perdeu qualidades com muitos anos de
guloseimas e sopa demasiado quente. Uma pessoa que nasa sem
lngua, ou cuja ln-gua tenha sido cortada, pode mesmo assim
ter percepes de sabor. Brillat-Savarin conta o caso de um
francs que tentou fugir de uma priso argelina e o castigo
que recebeu foi cortarem-lhe a parte da frente da lngua...
at ao freio. Engolir passou a ser-lhe difcil e penoso, no
entanto, continuava a distinguir perfeitamente os sabo-res,
mas tudo o que fosse muito cido ou amargo provocava-lhe uma
dor insuportvel.
   Tal como s cheiramos as coisas quando comeam a
evapo-rar-se, s saboreamos as coisas quando comeam a
dissolver-se, e isso seria impossvel sem a saliva. Todos os
sabores imaginveis, desde mangas a ovos centenrios, vm da
combinao dos quatro sabores bsicos com mais um ou dois. No
entanto, conseguimos distinguir sabores com grande exactido,
como fazem os provado-res profissionais de vinhos, chs,
queijos e outros. Os Gregos e os Romanos, que tinham um
paladar muito sofisticado em relao aos peixes, conseguiam
provar um e dizer de que guas era proveniente. Por mais
apurado que seja o nosso paladar, as iluses no deixam de
surpreender-nos. Por exemplo, o glutamato monossdico no 
mais salgado do que o sal de mesa, embora contenha muito mais
sdio. Um dos seus ingredientes, o glutamato, bloqueia a nossa
capaci-dade de sentir o seu gosto salgado. Um neurologista da
Universidade de Medicina Albert Einstein resolveu determinar o
teor de glutamato monossdico existente numa tigela de sopa
*won-ton* num restaurante chins de Manhattan, e encontrou 7,5
gramas, a quantidade de sdio que um indivduo deve ingerir em
vinte e quatro horas.
   Depois de lavarmos os dentes de manh, o sumo de laranja
pa-rece-nos amargo. Porqu? Porque nas nossas papilas
gustativas h membranas que contm fosfolpidos gordurosos e
as pastas de dentes contm um detergente que isola a gordura e
o leo. Assim, a pasta dentfrica comea por atacar as
membranas com o seu detergente, deixando-as sem sabor; em
seguida, as substncias qumicas do den-tfrico, como
formaldedo, giz e sacarina, misturadas com os cidos
ascrbico e ctrico do sumo de laranja, provocam um sabor
arnargo. :, Mastigar folhas de asclpia (uma planta da famlia
da hera) faz desa-parecer a nossa capacidade de sentir o doce.
O acar teria um sabor muito levemente doce e arenoso. Quando
os Africanos mascam umas bagas a que chamam fruto milagroso
ficam incapazes de sentir o amargo: os limes parecem-lhes
doces, o vinho azedo e o ruibarbo tambm. Tudo o que seja
francamente cido torna-se de repente delicioso. Achamos doce
uma soluo fraca de sal e h pessoas que temperam melo com
sal para acentuar o seu gosto doce. Os sais de chumbo e
berlio so traioeiramente doces, embora sejam venenosos e
devessem ter um sabor desagradvel.
   No h duas pessoas iguais no que toca ao paladar. A
heredita-riedade explica que certas pessoas, depois de comerem
espargos, fiquem com um cheiro muito intenso na urina (como
Proust des-creve na obra *Em Busca do Tempo Perdido*) ou que,
depois de co-merem alcachofras, passem a achar todas as
bebidas doces, mesmo a gua. H pessoas mais sensveis aos
sabores amargos do que ou-tras, e umas acham a sacarina
horrvel, enquanto outras devoram bebidas *diet*. Os
apreciadores de sal tm uma saliva mais saudvel. As suas
cavidades orais esto habituadas a um nvel de sdio mais
elevado, e os alimentos tm de estar muito salgados para serem
re-gistados como tal. Claro que cada pessoa tem uma saliva
diferente e distinta, temperada pela respectiva alimentao,
pelo facto de serem ou no fumadores, pela hereditariedade e,
quem sabe, pelo estado de esprito.
   Que estranho  adquirirmos preferncias  medida que vamos
crescendo! Os bebs no apreciam azeitonas, mostarda, pimenta,
cerveja, frutos com um sabor cido ou caf. Afinal, o caf 
amargo, um aroma que pertence ao reino proibido e perigoso. Ao
comer um pepino de conserva, uma pessoa pe em risco o seu bom
senso, sobrepe aos avisos do organismo o puro raciocnio.
Acalma-te, no  perigoso, diz o crebro,  uma novidade
inte-ressante, diferente, divertida.
   O cheiro contribui fortemente para o gosto. Sem cheiro, o
vinho continuaria a inebriar-nos e a acalmar-nos mas muito do
seu en-canto desapareceria.  frequente cheirarmos as coisas
antes de pro-v-las e s vezes  o bastante para salivarmos. O
cheiro e o gosto partilham a mesma conduta de ar, so como os
moradores de um mesmo prdio que percebem logo se os vizinhos
vo ter um jantar de caril, lasanha ou cozinha francesa.
Quando um alimento perma-nece algum tempo na nossa boca,
sentimos o seu cheiro e quando inalamos uma substncia amarga
-- um descongestionante nasal, por exemplo --, ficamos com um
gosto metlico ao fundo da garganta. :, O cheiro desloca-se
mais rapidamente. So precisas vinte e cinco mil vezes mais
molculas de uma tarte de cerejas para sabore-la do que para
cheir-la. Uma constipao, ao inibir o sentido do cheiro,
restringe o do gosto.
   Em geral, mastigamos umas cem vezes por minuto. Mas se
dei-xarmos um alimento durante algum tempo na nossa boca, se
lhe sen-tirmos a textura, o aroma, se o rolarmos na lngua,
mastigando-o depois lentamente de modo a ouvirmos os seus
movimentos, ento es-taremos a sabore-lo verdadeiramente, a
usar vrios sentidos numa festa gustativa aberta a todos. O
gosto de um alimento inclui textura, cheiro, temperatura, cor
e inocuidade (como nas especiarias), entre ou-tras
caractersticas. Apreciadores do som, gostamos que certas
comidas deleitem mais os nossos ouvidos do que outras. Trincar
uma cenoura bem fresca produz um rudo agradvel, cortar um
bife bem grelhado um apetitoso assobio, uma panela de sopa a
ferver um bulcio fragoroso, comer uma tigela de cereais
estaladios ao pequeno almoo faz um barulho fresco e
vigoroso. Os engenheiros alimentares, magos da subtil
persuaso, criam produtos que agradem ao maior nmero de
sentidos possvel. H comisses que estudam exaustivamente o
aspecto a dar  comida rpida. David Bodanis observa com
humor em *The Secret House* que as batatas fritas de pacote
so:

----------------------------
   Um exemplo de alimentos da era da /destruio total/. O
ata-que desenfreado ao saco de plstico, o esforo que fazemos
para o rasgar e abrir, corresponde ao desejo dos fabricantes.
Pois o segre-do dos alimentos estaladios  que fazem mais
barulho do que os outros... Destruir embalagens pe-nos
bem-dispostos... Os ali-mentos estaladios tm de ouvir-se num
registo elevado. Tm de produzir um rudo de alta frequncia;
os sons de baixa frequncia podem dar-nos vontade de mastigar
ou sorver, mas nada que se compare com os estaladios... 
---------------------------

   As empresas vendem batatas fritas grandes de mais para
cabe-rem nas nossas bocas, pois para ouvirmos o crepitar de
alta fre-quncia precisamos de ter a boca bem aberta. Uma
percentagem de 80 por cento de uma batata frita de pacote 
constituda por ar e ca-da vez que trincamos uma rebentamos as
clulas cheias de ar da batata, produzindo o tal rudo
estaladio. Bodanis pergunta:

---------------------------
   Como fazer um nmero suficiente dessas clulas produzir
esses guinchos melodiosos? Encham-nas de amido. Os grnulos de
amido das batatas so idnticos aos da goma dos colarinhos....
caiar... :,  quase a mesma coisa quanto  composio
qumica... Todas as batatas so mergulhadas em gordura...
Assim,  uma granada de amido e gordura que produz uma onda
cnica de presso de ar quando o nosso decidido comedor de
batatas fritas acaba final-mente a sua mastigao.
---------------------------

   Essas sero batatas fritas de alta tecnologia, claro. A
batata frita de pacote foi inventada em 1853 por George Crum,
que era cozi-nheiro-chefe no Moon Lake Lodge em Saratoga
Springs, no estado de Nova Iorque, e ficava to furioso quando
os clientes exigiam as batatas fritas cortadas cada vez mais
finas que um dia decidiu cort-las ridiculamente (pensava ele)
delgadas e deix-las fritar at parece-rem envernizadas. Os
clientes adoraram, e Crum veio a abrir o seu prprio
restaurante, especializado em batatas fritas.
    a boca que mantm firmemente selada a priso que  o
nosso corpo. Seja para ajud-lo ou prejudic-lo, nada entra
sem passar pela boca; por isso, ela foi das primeiras coisas a
desenvolver-se. Qualquer lesma, insecto ou animal tem uma
boca. Mesmo os ani-mais unicelulares, como as paramcias, tm
bocas e a boca apare-ce muito cedo no embrio humano. A boca 
mais do que o incio do longo canal que segue at ao anus:  a
porta do corpo, o lugar de onde saudamos o mundo, a antecmara
de muitos perigos. Usamos a boca para outros fins: a
linguagem, se formos seres humanos; furar a casca das rvores,
se formos um pica-pau; sugar sangue, se formos um mosquito.
Mas, antes de mais, a boca aloja a lngua, um pedao de
msculo mucoso que usa os seus minsculos *pitons* com a
destreza de um futebolista.


O BANQUETE SUPREMO


   Os Romanos adoravam a sensao de volpia que a comida
transmite: o ferro da pimenta, o misto de prazer e dor dos
pratos agridoces, a sensualidade latente no caril, o sabor
picante e proibido de animais delicados e raros cujas vidas
exticas costumavam ob-servar enquanto os devoravam, molhos
que lhes recordavam a fra-grncia e o aroma do amor. Era uma
poca to fabulosamente rica e farta como terrivelmente pobre
e esfomeada. Os pobres serviam os ricos e bastava uma palavra
desajeitada para serem espancados, abatidos por desporto. O
tdio visitava os ricos como um parente insuportvel que eles
se esforavam por receber bem. As orgias e os banquetes eram
os passatempos predilectos, e os Romanos di-vertiam-se com a
prodigalidade de um povo totalmente livre dos aborrecidos
complexos de culpa. Na sua cultura, o prazer cintilava como um
bem em si mesmo, um feito positivo, nada de que fosse preciso
arrependerem-se. Epicuro falou em nome de toda uma sociedade
quando perguntou:   

---------------------------
   Dever o homem desprezar, ento, as ofertas da Natureza?
Se-r que ele s nasceu para colher os frutos mais amargos?
Para quem nascem estas flores que os deuses fazem brotar aos
ps dos meros mortais?...  uma forma de agradar 
Providncia entregar-mo-nos s vrias delcias que ela nos
sugere; as nossas prprias necessidades nascem das suas leis e
os nossos desejos das suas inspiraes.
---------------------------

   Para lutar contra o seu maior inimigo, o tdio, os Romanos
or-ganizavam banquetes que duravam toda a noite e rivalizavam
entre si na criao de pratos originais e imaginativos. Houve
um jantar em que o anfitrio serviu elementos da cadeia
alimentar enfiados uns nos outros, por ordem decrescente de
tamanho: dentro de um vitelo, um porco, dentro do porco um
carneiro, dentro do carneiro uma galinha, dentro da galinha um
coelho, dentro do coelho um ar-ganaz e assim por diante. Outro
anfitrio serviu uma variedade de pratos que pareciam
diferentes mas eram todos feitos do mesmo in-grediente. As
festas temticas eram muito populares e algumas in-cluam uma
espcie de caa ao tesouro, em que os convidados que
encontrassem os miolos do pavo ou as lnguas do flamingo
receberiam um prmio. Durante o segundo prato, um dispositivo
mecnico podia, por exemplo, descer acrobatas do tecto, ou
fazer surgir uma travessa de vesculas seminais de lampreia
numa mesinha de rodas em forma de enguia. Os escravos traziam
grinaldas de flores com as quais enfeitavam os convivas, cujos
corpos massajavam com unguentos perfumados, para relaxar. O
cho podia estar coberto de ptalas de rosas at  altura dos
joelhos. Os pratos sucediam-se, alguns com molhos apimentados
para estimular as papilas gustativas, outros com molhos
aveludados para saci-las. Escravos fumavam cachimbos exalando
aromas exticos para dentro da sala e borrifavam os convidados
com perfumes animais fortes e almis-carados, como civeta e
mbar-cinzento. Por vezes, era da prpria comida que jorrava
um jacto de gua de rosas, aafro ou qualquer outra iguaria,
para o rosto do convidado, ou saltavam de l pssaros, ou
descobria-se que afinal aquilo no se podia comer (porque era
de ouro puro). Os Romanos eram devotos daquilo a que os
Alemes chamam *Schadenfreude*, sentir um prazer requintado
com :, o sofrimento dos outros. Adoravam rodear-se de anes,
deficien-tes, pessoas com deformidades, que obrigavam a
desempenhar o acto sexual ou nmeros de *cabaret* durante as
festas. Calgula cos-tumava ter gladiadores a lutar mesmo em
cima da mesa do ban-quete, salpicando sangue e cogulos para
cima dos convidados. Nem todos os romanos eram sdicos, mas na
classe abastada e entre os imperadores existiam muitos e
possuam, torturavam, maltrata-vam ou matavam os escravos como
bem entendiam. Conta-se que um romano da alta sociedade
engordava as suas enguias com carne de escravo. No admira que
o cristianismo tenha surgido como um movimento de escravos,
proclamando a abnegao, a moderao, o di-reito dos pobres 
terra, uma vida de abundncia e liberdade, depois da morte, e
o castigo mximo das eternas torturas do inferno para os
ricos, amantes do luxo. Como observa Philippa Pullar em
*Consuming Pas-sions* foi desta conscincia de classe e
deste orgulho pela pobreza e pela simplicidade que nasceu o
dio pelo corpo... Todas as sensa-es agradveis eram
condenadas, todas as harmonias do gosto e do cheiro, do som,
da viso e do tacto, o candidato ao reino dos cus teria que
resistir a todas elas. O prazer era sinnimo de culpa, era
sinnimo de inferno... /As vossas companheiras devem ser
plidas e magras de tanto jejuarem/, instruiu Jernimo. Ou,
como explicou Gibbon: Todas as sensaes ofensivas para o
homem eram consi-deradas aceitveis por Deus. Assim, a recusa
dos sentidos passou a fazer parte da ideia crist de salvao.
Mais tarde, os Quakers (ou Shakers) construiriam os seus rudes
bancos, cadeiras e caixas de madeira dentro do mesmo esprito,
mas que diriam hoje da volup-tuosidade com que as pessoas
apreciam a moda *shaker*, no em fru-gais artigos de
mobilirio, mas em objectos suprfluos, obras de arte,
extravagncias caras para pr no vestbulo ou na casa de
cam-po? A palavra vicariato, que significa por procurao,
vem de vigrio, o representante de Deus na Terra, que vivia
como uma ilha no mar indecente da vida, sereno, isento e
imperturbvel. En-quanto nasciam crianas bastardas e morriam
bois, colheitas intei-ras murchavam ou eram inundadas,
governantas locais realizavam saraus musicais para vigrios,
matronas e jovens provocantes (to viosas que nem os mais
santos aguentavam). No admira que vi-vessem a vida por
procurao, dando oportunidade, favorecendo e por vezes
cedendo eles prprios a embolias, paixes alimentares e ao
pecado. O puritanismo denunciou as especiarias como sendo
demasiado excitantes sexualmente; em seguida, os Quakers
en-traram em cena considerando quaisquer luxos tabu e em breve
surgiam revoltas contra essas revoltas. A comida andou sempre
:, associada a ciclos de sexualidade, dissoluo, represso
moral e mais uma vez o regresso  sexualidade, mas ningum o
fez com um entu-siasmo to flagrante como os antigos Romanos. 
   Muito provavelmente, o Imprio Romano caiu devido ao
enve-nenamento por sais de chumbo, que pode provocar abortos,
esteri-lidade, uma srie de doenas e mesmo a loucura. O
chumbo inundou a vida dos Romanos: no s existia nos canos
que faziam o abastecimento de gua, nas panelas e frascos,
como tambm nos produtos de cosmtica. Mas antes de serem
envenenados por ele, os Romanos organizaram as festas mais
loucas e extravagantes de que h memria, em que as pessoas
comiam deitadas, duas, trs ou mais, num sof. Enquanto poetas
satricos romanos como Catulo escreviam poemas rigorosamente
sexuais sobre romances entre pessoas de sexos opostos ou do
mesmo sexo, Ovdio escrevia uma poesia encantadora sobre o seu
grande amor pelas mulheres, como elas lhe atormentavam a alma,
e sobre os excitantes namoros a que assistia durante os
jantares. Se me oferecessem um paraso sem sexo, escreveu
ele, eu diria que no, obrigado, as mulheres so um inferno
to doce. Num poema, previne a amante de que, visto terem
sido ambos convidados para o mesmo banquete, ele ir
en-contr-la na companhia do marido. No deixes que ele te
beije o pescoo, diz-lhe Ovdio, seno, eu perco a cabea. 


REFEIES MACABRAS


   Quando os evoludos e sofisticados Romanos conquistaram
terras britnicas, tambm a sua culinria as conquistou. Como
salientou Pullar, as palavras anglo-saxnicas *cook*
cozinhar e *kitchen* cozinha derivam do latim; por isso,
no h dvida de que os Ro-manos elevaram o nvel de
sofisticao nas duas esferas. As prefe-rncias medievais
ainda seguiram o gosto romano (molhos agridoces, pratos muito
temperados, caril). Foram os cruzados que desenvolve-ram o
gosto pelas especiarias do Oriente -- canela, noz-moscada,
anis-estrelado, macis, cravo-da-ndia e essncia de flor de
laranjeira -- tal como fizeram com os perfumes, sedas,
tinturaria, prticas se-xuais invulgares e outras iguarias. Os
britnicos pobres viviam na misria, enquanto os ricos viviam
na maior ostentao, organizando festas magnficas para
celebrar casamentos e outras datas festivas. Muitas pessoas
crem que os cozinheiros medievais usavam muitas especiarias a
fim de disfarar o cheiro da carne deteriorada que co-miam,
mas os pratos exageradamente condimentados foram uma herana
deixada pela gente romana e pelos cruzados. :,
   Os mais estranhos hbitos culinrios surgiram em Inglaterra
du-rante o sculo XVIII, quando o tdio levou os habitantes
das cidades a adquirir um grande fascnio pelo sadismo e pela
bruxaria e um sentido de humor macabro. Surgiu a ideia de que
torturar um ani-mal tornava a sua carne mais saudvel e
saborosa e, muito embora Pope e Lamb, entre outros, tenham
condenado a prtica nas suas o-bras, as pessoas entregavam-se
a preparativos horripilantes que transformavam as suas
cozinhas em capelas morturias. Cortavam s postas o peixe
ainda vivo, dizendo que tornava a carne mais firme; torturavam
os bois antes de mat-los porque, explicavam, de ou-tro modo a
carne no seria saudvel; tornavam mais tenra a carne de
vitelos e porcos chicoteando-os at  morte com cordas cheias
de ns; penduravam as aves de cabea para baixo deixando-as
san-grar at morrer; esfolavam animais vivos. As receitas
culinrias da poca comeavam muitas vezes assim: Pegue num
galo vermelho que no seja demasiado velho e espanque-o at o
matar... Tudo isto se fazia  luz da noo peculiar de que a
carne do animal melhorava muito se o desgraado fosse primeiro
submetido s mais terrveis torturas. O Dr. William Kitchiner,
em *The Cook.s Oracle*, transcreve uma receita grotesca de um
cozinheiro chamado Mizald, que ensina a preparar e comer um
ganso *enquanto ele ainda est vivo*:

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   Peguem num ganso ou num pato, ou qualquer criatura
seme-lhante, e arranquem-lhe todas as penas, poupando apenas a
cabea e o pescoo: depois faam uma fogueira em volta, no
muito pr-xima para que ele no sufoque e o lume no o asse
muito depressa; nem muito afastada para que ele no consiga
fugir: dentro do cr-culo rodeado pela fogueira, coloquem umas
pequenas vasilhas e taas com gua onde estejam misturados sal
e mel; e coloquem l tambm umas travessas cheias de mas
demolhadas e cortadas aos bocados. O ganso deve ser primeiro
todo lardeado e untado com manteiga: depois  que se acende o
lume em volta dele, mas no tenham muita pressa quando o virem
comear a assar; o ganso deve ir andando de um lado para o
outro, esvoaando aqui e ali, encurralado pelo fogo, at se
cansar, pois no conseguir fugir por causa da fogueira; ir
bebendo gua para matar a sede e refrescar o corao e o
corpo, e o molho de ma h-de faz-lo evacuar e pur-gar,
limpando-o. E quando ele estiver assado por fora e comear a
consumir-se por dentro, vo-no sempre molhando com uma
es-ponja hmida; e quando o virem ficar tonto de tanto correr
e aos tropees, com o corao cheio de sede,  porque ele j
est sufi-cientemente assado. Retirem-no e coloquem-no em
frente dos:, convidados e ele chorar  medida que dele se
forem cortando bo-cados e estar quase todo comido antes de
morrer:  muito agrad-vel de ver!
--------------------------

:porque temos apetites incontrolveis


   Eu c no gosto, dizemos, referindo-nos a uma preferncia
ou um desejo alimentar manifestado por algum, e  espantoso
at que ponto os gostos so individuais, mas s quando a
sobrevivncia no est em jogo. Quando trabalhei num rancho no
Novo Mxico, cos-tumava comer na cozinha com os outros
trabalhadores, quase todos mexicanos-americanos com pouca
instruo e sem a mnima edu-cao alimentar. Os dias de
trabalho eram to rduos que os seus corpos  que davam as
ordens, ditando-lhes de que precisavam para sobreviver ao
esforo fsico e ao calor ofuscante do Sol. Todas as manhs,
ao pequeno-almoo, comiam protenas puras: seis ovos de cada
vez, acompanhados de dois copos de leite gordo e bacon. Bebiam
muita gua e limonada mas recusavam caf, ch e outras bebidas
com cafena. Praticamente no comiam sobremesas e inge-riam
muito pouco acar, mas todas as refeies incluam pimentos
dos mais picantes. Muitas vezes, comiam-nos no po numa
escal-dante sanduche de *jalapeio* e pimento.  noite comiam
pouco e a refeio consistia quase exclusivamente de hidratos
de carbono. Se lhes perguntassem porqu, responderiam
simplesmente que co-miam o que lhes apetecia, o que gostavam
de comer, mas era bvio que as suas preferncias alimentares
tinham evoludo de acordo com os rigores das suas vidas.
   Este apetite autoprotector existe tambm em grande escala:
h pases que preferem uma culinria que os refresque (no
Mdio Oriente), acalme (nos trpicos) ou proteja contra
doenas locais, como dizem Pete Farb e George Armelagos na
obra com um ttulo igual  de Pullar, *Consuming Passions*:
Est provado que o *chow* etope, que consiste basicamente em
*chili*, mas que contm umas quinze outras especiarias, inibe
quase completamente o estafilococo, as salmonelas e outros
microrganismos. Os pimentos picantes contm enormes
quantidades de beta-caroteno (que o organismo converte em
vitamina A), que possui propriedades antioxidantes e
anticancergenas, alm de capsaicina, que faz suar, baixando a
tem-peratura do corpo. Vejamos o velho hbito ingls de beber
leite com o ch: o ch contm muito tanino, uma substncia
txica que pode provocar o cancro, mas a protena do leite em
contacto com o tanino tem uma reaco de proteco, impedindo
que o organismo :, a absorva. O cancro do esfago  muito mais
elevado em pases como o Japo, onde o ch  bebido puro, do
que em Inglaterra, on-de as pessoas lhe juntam leite. Farb e
Armelagos descrevem inte-ressantes combinaes praticadas em
certos pases:

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   Os camponeses mexicanos preparam o milho amarelo com que
fazem as *tortillas* demolhando-o em gua, na qual dissolveram
previamente partculas de calcrio, um costume que decerto nos
parece estranho. Porm... essa preparao multiplica pelo
menos vinte vezes o contedo de clcio do milho, podendo ainda
aumen-tar a disponibilidade de certos aminocidos, o que 
importante, j que os camponeses vivem num meio ambiente em
que os alimen-tos escasseiam.... Em regies como frica,
cozinha-se o peixe em-brulhado numa folha de bananeira, cuja
acidez dissolve as espinhas tornando-as digerveis e
proporcionando o clcio em que so ricas; o hbito francs de
cozinhar peixe com azedas tem o mesmo efeito. A comida
putrefacta... consumida em muitas socie-dades... tem grande
valor nutritivo... visto que a bactria respons-vel pela
putrefaco fabrica vitaminas, entre as quais a B...
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   No h dvida de que, pelo menos no caso de certos
ingredien-tes, quando uma pessoa precisa muito de algum, 
comandada por determinado apetite ou pela sabedoria do
organismo. As pessoas com a doena de Addison adoecem devido a
uma deficincia das glndulas supra-renais. Normalmente, so
doidas por sal, medican-do-se a si prprias inconscientemente.
Fazem-no, por exemplo, in-gerindo grandes quantidades de
alcauz, o qual contm uma substncia que faz a reteno do
clcio e, embora os mdicos no o receitem, verificam que
esses doentes melhoram muito quando comem bastante alcauz.
   Alguns ndios quchuas do Peru alimentam-se quase
exclusi-vamente de batatas, mas o perodo de tempo em que
estas esto maduras  to curto que eles vem-se obrigados a
comer por vezes batatas meio verdes. As batatas contm
solanina, um alcalide txico e cido, mas os Quchuas
descobriram que, barrando-as com caulino, a acidez desaparece
e as batatas no lhes fazem mal ao estmago.
Alm disso, o caulino anula a toxicidade dos alcalides das
batatas, tornando-as mais saborosas e nutritivas.
   Parece estranho que algumas pessoas comam terra. Em
princ-pio, o sal  o nico mineral que apreciamos, por sermos
pequenos meios aquticos em movimento, com sal no sangue, na
urina, na carne, nas lgrimas. Contudo, ainda hoje se pode ver
argila  venda :, nalguns mercados ao ar livre do Sul dos
Estados Unidos. As grvi-das so as suas maiores clientes. Em
frica, h grvidas que co-mem formigueiros. Pensa-se que
procuram o clcio e outros minerais de que a sua alimentao
carece. No Gana, muitas aldeias vivem do comrcio de bolas
ovais de argila, ricas em potssio, magnsio, zinco, cobre,
clcio, ferro e outros minerais. O desejo in-controlvel que
uma grvida tem por lacticnios  razovel do ponto de vista
alimentar, pois se o feto no receber bastante clcio ir
busc-lo aos ossos e dentes da me. Algumas culturas tm tabus
pa-ra as grvidas, acham que elas no devem comer certos
peixes, fun-gos ou especiarias, mas isso no tem nada a ver
com os desejos incontrolveis da gravidez. O aumento do volume
de sangue numa mulher grvida faz descer o seu nvel de sdio,
por isso ela no sente o sal como acontecia antes de
engravidar; pode ter desejos de comida muito salgada, como os
lendrios *pickles*. Existem muitas explicaes para o apetite
das grvidas por ge-lados e outras guloseimas, mas uma das
teorias modernas mais interessantes  que apetece-lhes comer
alimentos produtores de serotonina, uma substncia
neurotransmissora indispensvel pa-ra suportar as dores do
parto.
   Certos alimentos podem estimular as endorfinas, substncias
analgsicas do tipo da morfina produzidas pelo crebro,
dando-nos uma sensao de conforto e calma.  por isso que,
apesar de sa-bermos que os alimentos salgados e gordurosos, os
rebuados e do-ces no nos fazem bem, continuamos a gostar
deles. Os neurobilogos suspeitam que so as endorfinas e
outras substncias neuroqumicas que controlam o nosso apetite
por certos tipos de comida. Nessa ordem de ideias, quando
comemos doces enchemos o nosso orga-nismo de endorfinas e
sentimo-nos tranquilos. Quando as pessoas vivem sob grande
tenso e precisam que o seu nvel de endorfinas suba, podem
sentir vontade de comer uma caixa de bolachas. Sendo a nossa
fome de gorduras, protenas e hidratos de carbono con-trolada
por neurobransmissores especficos que facilmente entram em
desequilbrio, basta-nos comer ou beber qualquer coisa em
ex-cesso para que eles fiquem completamente descontrolados, o
que leva a novos excessos, novos desequilbrios e assim
sucessiva-mente. Numa experincia, privaram-se algumas
ratazanas do pe-queno-almoo, o que desactivou os seus
neurotransmissores, e elas empanturraram-se ao fim do dia.
   Estar o estado de esprito das pessoas associado 
alimentao? A bioqumica Judith Wurtman fez descobertas
extremamente controversas acerca da forma como a comida afecta
a nossa disposio. :, Concluiu que aqueles que tm fome de
hidratos de carbono esto na verdade a tentar elevar o seu
nvel de serotonina. Quando esses nveis so elevados por meio
de drogas ministradas, os esfomeados por hidratos de carbono
perdem a fome. Alguns cientistas, tanto do Instituto Monell
Chemical Senses como doutras instituies, acu-sam-na de
apresentar concluses demasiado elementares, uma verso
demasiado simples do modo de funcionamento do nosso
or-ganismo, mas eu creio que h nelas muito de convincente.
Nunca bebo caf depois do jantar, mas descobri por acaso que
adormeo mais facilmente se tambm no comer protenas 
noite, substituin-do-as por umas torradas com doce ou
quaisquer outros hidratos de carbono. Por outro lado, por
volta das trs e meia da tarde, quando as minhas energias
comeam a estar em baixo mas ainda tenho muito que fazer, um
pouco de protena, em geral queijo, espevita-me. O meu modelo
no condiz com as experincias de Wurtman. O ver-dadeiro
almoo energtico, sugere ela, passa por uma dose inicial de
protenas, depois uma entrada simples contendo protenas,
le-gumes pouco cozinhados, uma sobremesa que no seja mais
rica do que uma pea de fruta e nada de lcool. Os hidratos de
car-bono so tranquilizantes. Quando algum me convida para
al-moar e eu quero permanecer activa e bem-disposta, peo uma
entrada rica em protenas, como um *cockktail* de camaro,
ostras ao natural ou fatias de queijo *mozzarella* com
manjerico e to-mate, e no toco no po. Um grande prato de
massa italiana se-guido de *mousse* de chocolate  o que me
apetece quase sempre, mas descobri que me deixa demasiado
aptica para ir trabalhar a seguir. No concordo com as razes
que Wurtman apresenta para gostarmos de chocolate, porque no
creio que se trate apenas de um desejo de hidratos de carbono
em geral, mas sim de qualquer coisa mais especfica que o
chocolate nos fornece.
   Outro investigador, desta vez do Instituto Nacional de
Sade Mental, descobriu que os doentes com SAD, (*) 

(*) Iniciais de Seasonal Affective Disorder, cuja traduo 
Problemas Afectivos Sazonais. (*N. da T*.)

que ficam muito deprimidos no Inverno, tm todos, nessa
altura, um apetite incontrolvel por hidratos de carbono, que
ajudam a melhorar o seu estado de esprito. Num outro estudo,
descobriu-se que os ex-fumadores so doidos por hidratos de
carbono. A relao entre a fome de hidratos de carbono, a
serotonina e a nossa capacidade de recuperar o equilbrio
emocional parece indesmentvel. O crebro  uma indstria
qumica, e os alimentos substncias qumicas altamente
complexas. O que est em causa , de facto, saber at que
ponto este ou aquele alimento afecta o nosso estado de
esprito. :,
   A maioria das pessoas precisa que 15 por cento da sua
alimen-tao seja composta por protenas e automaticamente
escolhem alimentos que as forneam, mas os cientistas da
Faculdade de Me-dicina da Universidade de Toronto, depois de
experincias feitas em gmeos univitelinos e bivitelinos,
descobriram que tal necessi-dade depende muito da gentica. Os
gmeos univitelinos, embora criados separadamente desde a
nascena, comiam as mesmas pro-pores de protenas e hidratos
de carbono, mas os bivitelinos no. Assim, os apetites podem,
pelo menos at certo ponto, ser determi-nados geneticamente.
De um modo geral, as crianas hiperactivas reagem bem a
mudanas na sua alimentao, assim como as que so-frem de
doenas como a de Addison ou diabetes. Mas  difcil dizer
onde acaba a memria e comeam as necessidades nutritivas ou a
hereditariedade. Talvez nos apetea comer rebuados por os
asso-ciarmos com a infncia, ou com os lquidos doces que nos
davam a beber quando ramos bebs de colo. Ou talvez seja pela
tranquili-dade que a serotonina nos traz. Ou pelas duas
razes.
   Muitos nutricionistas conservadores alegam que no existe
uma receita mgica e que devamos tentar fazer uma alimentao
to va-riada e equilibrada quanto possvel. (*) 

(*) Todavia, e preciso no esquecer que nos animais que comem
menos a esperana de vida  maior. Os cientistas no sabem bem
porqu, talvez devido aos efeitos sobre o sistema imunolgico,
aos efeitos sobre o metabolismo, ou a outra coisa totalmente
diferente. E  importante que no sejam muito subalimentados,
devem apenas comer bastante menos do que o normal e tomar
suplementos vitamnicos. Comearam agora a efectuar-se estudos
em primatas, os nossos parentes mais prxi-mos, mas quase
todos os animais estudados mostraram que quanto mais magros,
maior a sua esperana de vida. (*N. da A*.) 

Em determinadas circunstn-cias, a comida pode fazer mais do
que alterar o nosso estado de esprito: pode matar.
Antigamente receitava-se fgado cru s grvi-das ou s pessoas
que sofriam de anemia causada por falta de ferro, mas hoje
sabemos que o fgado recebe as impurezas do organismo e o
melhor ser no com-lo nunca. O fgado do urso-polar  to
ri-co em vitamina A que  txico para os seres humanos. Diz-se
que tanto Alexander Pope como Henrique I de Inglaterra
morreram por terem comido enguias, cujos filamentos venenosos
os cozinheiros muitas vezes se esquecem de retirar. Balzac
bebia mais de cin-quenta chvenas de caf por dia e morreu de
envenenamento pro-vocado pela cafena. Os apanhadores de
cogumelos correm o srio risco de colher os fungos errados. A
salmonela, com um nome to fresco e que nos faz pensar em
charcutaria, faz vtimas todos os anos. Tambm alguns produtos
supostamente afrodisacos j mata-ram muita gente. No
consideramos as plantas agressivas mas, no podendo fugir dos
predadores, elas inventam extraordinrios sistemas e armas de
defesa, como a estricnina que as protege da vida ao ar livre e
por vezes aparece nos nossos pratos.


:psicofarmacologia do chocolate


   Qual o alimento que o faz sentir apetites incontrolveis?
Faam esta pergunta acentuando bem a ltima palavra e a
resposta no poder deixar de ser o chocolate. Foi utilizado
pela primeira vez pelos ndios das Amricas do Sul e Central.
Os Astecas chamavam-lhe *xocoatl* (chocolate),
consideravam-no um presente de Quetzalcoatl, o seu deus da
sabedoria e do conhecimento, de longas barbas brancas, e
serviam-no como bebida aos membros da corte: s chefes e
soldados eram dignos do poder por ele conferido. Os Toltecas
homenageavam a bebida divina organizando rituais onde
sacrificavam ces da cor do chocolate. No Itz, um sacrifcio
humano, era dada a beber s vtimas uma caneca de chocolate
para santificar a sua jornada. O que Hernn Corts descobriu
em volta de Montezuma foi uma sociedade de adoradores de
chocolate que gostavam de aromatizar a sua bebida com pimento
picante, pimentos, vagens de baunilha ou especiarias e de
servi-la em taas de ouro, com
bastante espuma e a consistncia do mel. Para curar a
disenteria, acrescentavam-lhe um p que obtinham moendo os
ossos dos antepassados. Na corte de Montezuma, bebiam-se
duzentos jarros de chocolate por dia e ele prprio apreciava
um gelado de chocolate, que se fazia vertendo a bebida sobre
neve, que lhe traziam das montanhas. Impressionado com a
opulncia e os poderes revigo-rantes do chocolate, Corts
introduziu-o em Espanha no sculo XVI.
Viciou a Europa como se fosse uma droga. Carlos V resolveu
mistu-r-lo com acar e todos os que podiam dar-se a esse
luxo bebiam-no espesso e frio; tambm lhe juntavam de vez em
quando laranja, baunilha ou outros condimentos.
Brillat-Savarin refere: As damas es-panholas do Novo Mundo
esto de tal modo loucamente viciadas no chocolate que, no
satisfeitas em beb-lo vrias vezes ao dia, at
querem que ele lhes seja servido na igreja. Hoje, h manacos
de chocolate nas ruas de todas as cidades, sonhando o dia
inteiro com aquele pequeno prmio em chocolate que os espera
em casa, quando voltarem do trabalho. Em Viena, os mais
requintados bolos de cho-colate so decorados com folha de
ouro comestvel. Mais de uma
vez me senti tentada a apanhar um avio e ir passar a tarde a
Paris, s para ir ao Angelina, um restaurante na Rue de Rivoli
onde derretem uma barra de chocolate em cada chvena de
chocolate quente. Quantas guloseimas de chocolate existem que
*no* contm chocolate? :, O chocolate, que comeou por ser
uma bebida da alta sociedade, de-mocratizou-se, modernizou-se,
e hoje vive rodeado de uma pirosice que no merece. Por
exemplo, num anncio na revista *Chocolatier Magazine* faz-se
publicidade a uma tablete de chocolate de 100 gra-mas com a
forma de uma disquete 5 ,d. Com efeito, a mesma em-presa
oferece terminais de computador, com visor, teclado, *chip* e
*byte*, tudo feito de chocolate. O slogan deles : Para
introduzir na sua boca e no na sua *drive*. Num
fim-de-semana de Setembro, em 1984, o Hotel Fontainebleau em
Miami organizou um Festival de Chocolate com preos, ementas e
acontecimentos especiais. As pessoas podiam fazer digitinta
com os dedos molhados em cho-colate, assistir a palestras
sobre o chocolate, receber amostras de uma vasta gama de
marcas, aprender tcnicas de cozinhar o chocolate e ver um
artista da TV mergulhar em trs mil litros de xarope de
cho-colate. Compareceram cinco mil pessoas. Os festivais de
chocolate esto na moda em muitas cidades americanas e
organizam-se ex-curses  Europa sob a gide do chocolate. No
ms passado, em Manhattan, ouvi uma mulher dizer a outra,
utilizando o calo dos drogados: Embora meter uns
chocolates?
   Visto o chocolate ser um alimento muito emocional, que
come-mos quando nos sentimos tristes, rejeitados, no perodo
pr-menstrual e quando estamos a precisar de amor e mimos em
geral, os cientistas resolveram estudar a sua composio
qumica. Em 1982, dois psico-farmacologistas, o Dr. Michael
Liebowitz e o Dr. Donald Klein, tenta-ram explicar porque 
que as pessoas carentes se enchem de chocolates. No decurso
das suas experincias com mulheres que gostavam de emoes
fortes, aps as quais caam em grandes de-presses,
descobriram que todas elas tinham uma coisa notvel em comum:
na fase depressiva, comiam enormes quantidades de cho-colate.
Especularam sobre a possibilidade de o fenmeno estar
rela-cionado com a PEA (feniletilamina) do crebro, que nos
faz sentir todo o empolgamento da paixo, uma subida de
anfetaminas. Po-rm, quando o mpeto chega ao fim e o crebro
deixa de produzir a PEA, continuamos a ansiar pelas mesmas
sensaes, pela mesma vertigem emocional. Onde ir buscar essa
exuberante PEA que nos recorda a paixo? Ao chocolate.
Assim,  possvel que certas pes-soas comam chocolate porque
ele reproduz a sensao de bem-estar que nos invade quando nos
apaixonamos. Um gal muito esperto veio um dia a minha casa
e ofereceu-me trs mas de chocolate *Droste*. Durante as
duas semanas seguintes, cada pedacinho delas que deixei
derreter, deleitada, na minha boca, fez-me pensar nele com
amor. :,
   Nem toda a gente concorda com a hiptese PEA. Uma
associao, a Chocolate Manufacturer.s Association, sustenta
que:

---------------------------
   O teor de PEA do chocolate  extremamente baixo quando
comparado com o de outros alimentos vulgarmente consumidos.
Uma fatia normal de salame fumado, com cerca de 100 gramas,
contm 6,7 mg de feniletilamina; a mesma poro de queijo
*ched-dar* contm 5,8 mg de feniletilamina. Uma tablete mdia
de chocolate pesa 50 gramas e contm muito menos do que 1 mg
(0,21 mg).  bvio que se a teoria do Dr. Leibowitz fosse
verdadeira, as pessoas comeriam uma quantidade de salame e
queijo superior  que consomem normalmente.
-------------------------

   E o prprio Dr. Liebowitz, em *The Chemistry of Love*,
pergun-taria mais tarde, acerca da necessidade de comer
chocolate:

---------------------------
   Tratar-se- de uma tentativa de elevar os nveis de
PEA? O pro-blema  que a PEA presente na comida depressa
 decomposta pelo nosso organismo, no chegando sequer a
atingir o sangue, quanto mais o crebro. Para testar o efeito
da ingesto de PEA, alguns in-vestigadores do Instituto
Nacional de Sade Mental comeram quilos de chocolate e depois
mediram, durante alguns dias, os n-veis de PEA na urina,
no se registaram alteraes.
---------------------------

   Apesar de ser uma grande apreciadora de chocolate, devo
dizer que consumo, de facto, muito queijo. O salame fumado 
to peri-goso para a sade que eu pu-lo de parte; a Cancer
Society reco-menda que no se devem comer alimentos fumados ou
que contenham nitratos. Portanto,  muito possvel que o
queijo satisfa-a pelo menos parte da minha necessidade de
PEA. Que mais co-mem os amantes do chocolate? Por outras
palavras, qual o seu consumo total de PEA considerando
todas as fontes? O chocolate talvez seja uma fonte mais pobre
mas mais atraente, devido s suas associaes com luxo e
recompensa. O Instituto Nacional de Sade Mental fez um
inqurito a uma amostra mdia de pessoas, mas as pessoas que
tm desejos de chocolate podem no fazer parte dessa mdia.
No ser essa a questo? Liebowitz vem agora afirmar que a
PEA se decompe demasiado depressa para afectar o crebro.
Ain-da sabemos muito pouco sobre o modo misterioso como certas
substncias se decompem, e no sabemos o suficiente para
aban-donar completamente a hiptese de uma relao entre o
chocolate e a PEA. :,
   Wurtman, entre outros, sustenta que comemos chocolate por
se tratar de um hidrato de carbono que, como tal, estimula o
pncreas a produzir insulina, o que, em ltima anlise, leva a
um aumento do tal neurotransmissor de calma, a serotonina. A
ser verdade, um prato de espaguete, batatas ou po seria
igualmente satisfatrio. O cho-colate contm, ainda,
teobromina (a comida dos deuses), uma substncia suave e
semelhante  cafena. Podemos, pois, e para chegar a alguma
concluso, afirmar que  apenas pela serotonina e por esse
parente da cafena que ansiamos, uma estimulao tran-quila,
uma combinao culinria que poucos alimentos fornecem. (*) 

(*) Numa tablete de chocolate de leite com cerca de 50 gramas,
existem aproximadamente 9 miligramas de cafena (usada pela
planta provavelmente como insecticida); numa chvena de caf
com 1,5 decilitros, cer-ca de 115 miligramas e em 3 decilitros
de uma bebida tipo cola entre 32 a 65 miligramas. (*N. da
A*.)


Talvez isso explique tambm porque muitas de ns temos desejos
de chocolate quando a menstruao est para chegar, visto as
mu-lheres que sofrem de sndroma pr-menstrual acusarem nveis
mais baixos de serotonina, e as mulheres em geral comem mais
30 por cento de hidratos de carbono no perodo que antecede a
menstrua-o do que nos restantes dias do ms. Porm, se fosse
assim to simples, um *doughnut* e uma chvena de caf
serviriam perfeita-mente. Alm disso, h uma diferena abismal
entre pessoas que gostam de chocolate, mulheres que atravessam
fases em que sentem um desejo incontrolvel de comer
chocolates e os adoradores do chocolate. Estes nunca lhes
apetece batatas fritas ou massa italiana; sonham com
chocolate. Nenhum substituto lhes servir. Quando chegam a
casa e vem que se acabaram os chocolates, que a noite est
gelada e a neve deixou as ruas intransitveis, s eles sabem
como sofrem. No sei bem porque  que certas pessoas tm
desejos de chocolate, mas estou certa de que se trata de uma
necessidade especfica, que constitui a chave para resolver
qualquer enigma qumico especfico para o qual se descobrir
um dia uma soluo.
Restaurante Four Seasons em Manhattan serve uma bombe (*) 

(*) Nome utilizado em culinria para referir uma sobremesa em
forma de cpula e normalmente ge-lada. (*N. da T*.)


de chocolate que  uma verdadeira bomba entre as sobremesas de
chocolate. Uma dose normal  constituda por duas fatias que
as pessoas facilmente comem at ao fim por ser to leve e
apetitosa. Em St. Louis, perto do cais, comi uma vez uma
*mousse* chamada suicdio de chocolate, que era quase uma
droga de chocolate. Senti-me como se o meu crebro estivesse
pendurado num fumei-ro. Ainda me lembro da primeira vez que
comi chocolates *Godiva* em casa de uma amiga; eram
*Godivas* vindos da fbrica original :, em Bruxelas, com um
brilho perfeito, um aroma estonteante, forte mas no
enjoativo, e derretiam-se delicadamente na boca. Uma das
razes pelas quais os chocolates so excepcionais na Blgica,
em Viena, Paris e algumas cidades norte-americanas  que as
tabletes
de chocolate so, at certo ponto, consideradas um lacticnio.
O sa-bor do chocolate pode vir da planta, mas o facto de serem
sedosas e de se derreterem na boca deve-se ao leite, s natas
e  manteiga, que devem ser fresqussimos. Os *designers* de
chocolate sabem que as suas criaes tm de derreter-se de
determinada maneira, ser ex-traordinariamente cremosas e
lustrosas, que no podem ser areno-sas nem deixar na boca um
gosto secundrio, se quiserem que os consumidores se deixem
conquistar inteiramente por elas. Na obra de George Orwell
*1984*, o sexo  proibido e o chocolate  uma coisa
castanho-escura que se esboroava e sabia... ao fumo do lixo
queimado. Pouco antes de ousarem fazer amor, Julia e Winston
comem chocolate autntico, da melhor qualidade, escuro e
lus-troso. O seu banquete amoroso teve o seu preldio.
Montezuma bebia uma chvena de chocolate adicional antes de ir
visitar os apo-sentos das mulheres. Estrelas de cinema como
Jean Harlow foram vistas a devorar caixas inteiras de bombons.
M. F. K. Fisher, a diva da gastronomia, confessou certo dia
que o mdico da sua me lhe receitara chocolates para curar um
debilitante desgosto de amor. Por outro lado, as mulheres
astecas estavam proibidas de provar chocolate; que terror
secreto libertaria nelas?


:em louvor da baunilha


   Como adoro baunilha, quando ponho o banho a correr retiro a
tampa de um pesado boio de vidro cheio de creme para banho
*Ann Steeger of Paris, senteur vanille*. Um forte golpe de
baunilha atin-ge-me o nariz quando me sirvo da loo, deixo-a
penetrar nos meus dedos e aproximo um punhado da torneira.
Bolhas cheirosas inva-dem a banheira. Na sua saboneteira de
porcelana antiga, um volu-moso sabonete de baunilha lembra uma
bia aromtica. Enquanto mergulho nas ondas de baunilha, uma
amiga traz-me um refresco de creme de baunilha, seguido de um
creme de *custard* feito com vagens de baunilha trazidos
directamente de Madagscar. Pintas castanhas salpicam os
coalhos amarelos e cremosos. Embora pu-desse ter escolhido
vagens das Seicheles, Taiti, Polinsia, Uganda, Mxico, ilhas
de Tonga, Java, Indonsia, das ilhas Comores ou qualquer outro
stio, gosto da forma alongada e sensual da vagem de baunilha
de Madagscar e do seu invlucro escuro, rico, :, malevel,
que lembra um par de tranas bem penteadas ou a pele de um
pequeno animal marinho. Alguns entendidos preferem a vagem do
Taiti, mais pequena, redonda e hmida (apesar de conter menos
va-nilina e de a humidade consistir apenas em gua e no leos
aro-mticos), o aroma a fumo das vagens de Java (em parte
curadas em fogueiras), ou o sabor a malte das que vm das
Comores.
   A maior parte da baunilha consumida em todo o mundo vem das
ilhas do oceano ndico (Madagscar, Reunio, Comores) que
produzem largas toneladas de baunilha por ano. Mas raramente
provamos a baunilha pura. O aroma a baunilha que compramos na
seco de especiarias dos supermercados, a baunilha que
encontra-mos nos gelados, bolos, iogurtes e outros alimentos,
bem como em champs e perfumes,  um aroma artificial criado
em laboratrio e misturado com lcool ou outros ingredientes.
Marshall McLuhan chamou um dia a ateno para o facto de nos
estarmos a afastar tanto do verdadeiro sabor da vida que j
quase nos contentamos em ler a ementa e dispensamos comer os
pratos. A maioria das pessoas usa h tanto tempo um extracto
de aroma artificial de baunilha que no faz ideia de qual  o
sabor ou cheiro do verdadeiro. Ao p da baunilha autntica,
com os seus complexos matizes aromticos e misturas de
sabores, a artificial  uma imitao barata. A vanilina no 
o nico elemento responsvel pelo sabor da baunilha genuna,
mas  o nico que se pode produzir sinteticamente
(originalmente, e por mais incrvel que parea, a partir de
leo de cravo-da-ndia, alcatro de hulha e outras
substncias, mas hoje  quase sempre obtida a partir de
sulfitos derivados da produo de papel). Com efeito, a maior
produtora mundial de vanilina sinttica  a Ontario Paper
Company! A baunilha genuna tem muitas variedades que vo da
doce, em p,  hmida e argilosa, dependendo do tipo de vagem,
da sua frescura e origem, do modo e durao da cura e da
exposio ao sol.
   Quando uma vagem de baunilha repousa como uma corda hindu
sobre um balco ou  mergulhada numa chvena de caf, o seu
aroma confere  sala uma espcie de estatura, o cheiro de um
cru-zamento de ruas exticas onde os alimentos estrangeiros
no so os nicos mistrios. Em Istambul, nos anos 70, comi
uma vez uns pastis turcos que rescendiam a baunilha,
embrulhados em acar caramelizado e cobertos de delicados
filamentos de xarope. S ao fim desse dia, quando passevamos
pelo bazar acompanhadas por dois atraentes universitrios com
que a minha me travara conhe-cimento,  que percebemos o que
tanto nos havia deleitado. Numa travessa comprida de lato
vimos pastis iguais aos que tnhamos :, comido, em cima dos
quais voavam centenas de gulosas abelhas com os ps enfiados
no xarope; desesperadas, partiam uma a uma deixando l ficar
as patas. Patas de abelha!, gritou a minha me, fazendo uma
careta.Comemos *patas de abelha*! Os nossos com-panheiros
falavam mal ingls e ns no falvamos turco, portanto devem
ter achado peculiar que duas americanas se excitassem tanto
com uns pastis. Ofereceram-se para comprar alguns, o que
ainda transtornou mais a minha me.
   Entrem numa cozinha onde se esteja a cozinhar vagens de
bau-nilha, emanando uma profuso de aromas, e vero que, sem
dar por isso, sentiro a gua a crescer na boca. A verdade 
que a baunilha  tanto um cheiro como um sabor. Saturem o
nariz com a resplan-decente e inspiradora baunilha e vero que
lhe sentem o *sabor*. No  como entrar numa loja de
rebuados,  algo mais profundo e ex-travagante. Pensaro que
a baunilha no seu estado puro  um au-tntico animal selvagem,
a cravar as garras nos vossos sentidos. Mas no. As vagens de
baunilha que tanto apreciamos no so to deleitveis quando
as encontramos na selva. De todos os alimentos de produo
domstica que h no mundo, a baunilha  o que exige mais
mo-de-obra: so precisas longas e esforadas horas de
traba-lho manual para as flores da baunilha se tornarem frutos
e depois para os frutos se tornarem doces. A baunilha vem da
vagem filamentosa de uma planta orquidcea trepadeira, cujas
flores amarelo-esverdeadas se conservam durante muito pouco
tempo e no tm cheiro. Visto os botes durarem apenas um dia,
tm de ser apanhados  mo e na altura certa. As vagens
amadurecem seis semanas aps a fertiliza-o, mas s podem ser
colhidas ao fim de alguns meses. Quando uma vagem fica
perfeitamente madura tem de ser logo mergulhada em gua a
ferver, para deter o processo de maturao; depois  seca e
submetida a um tratamento especial, em que se usam cobertores,
fornos, prateleiras e umas caixas onde se deixa a suar; e 
lenta-mente curada ao sol durante seis a nove meses. A planta
no nasce dotada do seu aroma e sabor prodigiosos.  medida
que as vagens fermentam e se tornam enrugadas e quebradias 
que as pintas brancas de vanilina cristalizam e amadurecem por
fora e aquele aroma famoso e forte comea a impregnar a
atmosfera.
   Foi em 1518 que Corts notou que os Astecas aromatizavam o
seu chocolate com vagens modas de baunilha, s quais chamavam
*tlilxochitl* (flor negra), to apreciadas que Montezuma
bebia uma infuso delas como blsamo real e exigia dos seus
sbditos um tri-buto em vagens de baunilha. Os Espanhis
chamaram-lhe *vainilla* (pequeno invlucro), termo que vem
do latim *vagina*: com a sua :, forma alongada e uma inciso
na parte superior, a vagem deve ter recordado aos solitrios
espanhis algo de que sentiam falta. Ter-se-o contado muitas
anedotas picantes acerca de Montezuma a mexer o seu chocolate
com uma pequena vagina. (*) 

(*) Muita etimologia interessante  da responsabilidade da
linguagem libertina dos trabalhadores bra-ais e exploradores.
A palavra *gosket* (junta de vedao), por exemplo, vem do
francs antigo *garcette*, que designa uma menina com o hmen
ainda intacto. (*N. da A*.)

Corts apre-ciava tanto a baunilha que quando regressou 
Europa levou sacos carregados dela, juntamente com ouro,
prata, joalharia asteca e chocolate. A paixo da baunilha, em
especial quando combinada com chocolate, invadiu a Europa,
onde foi considerada um afrodi-saco. Numa carta, Thomas
Jefferson pede a um amigo parisiense para lhe enviar algumas
vagens de baunilha, que aprendera a a-preciar durante a sua
permanncia em Frana como ministro dos Estados Unidos, mas
que no conseguia encontrar nos boticrios americanos.
   Considerada preciosa e muito procurada, ningum conseguia
cultivar baunilha fora do Mxico. Um problema tpico do
delicado ecossistema da floresta tropical e um bom exemplo de
como todo aquele verde luxuriante  de facto frgil, apesar de
ningum se aperceber disso. Embora os insectos, aves e
morcegos polinizem a maioria das plantas nos trpicos, a flor
da baunilha s  fertilizada por um nico tipo de abelha, a
minscula *Melipona*. Em 1836, um belga descobriu como se
desenrolava a vida sexual secreta da flor da baunilha ao
observar a *Melipona* no desempenho da sua tarefa. Os
Franceses desenvolveram, ento, um mtodo de polinizao
manual e comearam a fazer plantaes nas suas ilhas do oceano
ndico, bem como nas das ndias Orientais e Ocidentais. Os
Holan-deses levaram a baunilha para a Indonsia e os Ingleses
para a n-dia. O aroma de baunilha sinttico surgiu nos
Estados Unidos apenas nos finais do sculo XIX, mas desde
logo agradou aos impa-cientes e prticos americanos, cujo modo
de vida  caracterizado pela rapidez e pela comodidade. Os
Europeus adoptaram a va-gem de baunilha, deliciando-se com as
suas mltiplas texturas, sa-bores e aromas, mas nos EUA
preferem-na condensada e j embalada. No sculo XIX, a
procura cresceu, surgiu a baunilha sinttica e o mundo flutuou
num aroma consolador e barato. Hoje, a baunilha aparece como
ingrediente na maioria dos pes e bolos e em muitos perfumes,
produtos de limpeza e at brinquedos, alm de se ter insinuado
na culinria de inmeras populaes, conquis-tando os seus
palatos. O aafro  a nica especiaria mais cara do que a
baunilha. :,
   Quando finalmente saio da banheira onde entrei no incio
desta dissertao, aplico o leite hidratante *Ann Steeger*,
cujo cheiro ape-tece comer e  espesso como fumo. Depois, o
perfume *Jean La-porte.s Vanilla*, de baunilha com um travo
amargo. O interior de uma vagem de baunilha contm uma polpa
que parece um figo e, se eu tivesse a possibilidade de extrair
um pouco, poderia preparar um saboroso caldo para o jantar,
seguido de galinha coberta com uma camada fina de baunilha,
salada com molho de *vinaigrette* e bau-nilha, gelado de
baunilha com molho de castanhas marinadas em baunilha, um
brande aquecido e aromatizado com pequenas falhas de vagem de
baunilha e, em seguida, num divino torpor de bauni-lha,
enfiar-me na cama e dormir um profundo sono de orqudea. (*)

(*) Como fazer extracto de baunilha: cortem uma vagem de
baunilha ao meio, no sentido do compri-mento, coloquem-na num
frasco de vidro e cubram com #:d de um clice de vodca. Tapem
e dei-xem em infuso pelo menos seis semanas. Sempre que
utilizarem o extracto, acrescentem mais vodca; desse modo a
vagem continuar a libertar o seu aroma durante mais algum
tempo. Juntem uma colher de ch a um pouco de massa de po
francs e obtero o que em Nova Orlees se chama *lost bread*.
O acar baunilhado  maravilhoso para temperar o caf: cortem
uma vagem de bauni-lha ao meio, de alto a baixo, e depois em
pedaos; misturem com duas chvenas de acar; cubram; deixem
em repouso durante seis semanas. Quanto mais tempo deixarem
passar, mais intenso ser o aroma (*N. da A*.)


:a verdade sobre as trufas


   Conhecida como o vegetal mais feio do mundo,  tambm
considerada divinamente sensual e possuidora do sabor mais
decadente do mundo. To caras como o caviar, em Manhattan, as
trufas compram-se hoje a mais de mil dlares o quilo, o que
significa que so o vegetal mais caro que existe  face da
Terra. Ou melhor, no interior da Terra. Uma trufa pode ser
negra (*Melanosporum*) ou branca (*Magnata*) e pode ser
cozinhada inteira, embora seja habitualmente consumida crua e
cortada em lascas fi-nas, a acompanhar massas, ovos ou outros
preparos culinrios. H dois mil anos que  usada como um
afrodisaco, enaltecida por Bal-zac, Huysmans, Colette e
outros voluptuosos nomes da literatura, pela capacidade que
ter de nos descontrair e transformar em lees libidinosos. Ao
descrever os hbitos alimentares do duque de Or-lees,
Brillat-Savarin entusiasma-se de tal modo com as trufas que
emprega trs pontos de exclamao:

---------------------------
   Perus trufados!!! A sua fama cresce quase tanto como o seu
preo! So estrelas da sorte e basta v-las para que toda a
espcie de gulosos se agite, vibre e d pulos de prazer! :,
---------------------------

   Certo escritor define o aroma das trufas como o cheiro que
fica na cama aps uma tarde de amor nos trpicos. Os Gregos
julga-vam que as trufas tinham origem nos raios das trovoadas,
que de algum modo se transformavam em razes ao atingir o
cho. Em P-rigord, no Sudoeste da Frana, criam-se umas
trufas negras que exalam um perfume intenso e so consideradas
a quinta-essncia das trufas, lantejoulas negras essenciais 
famosa pasta de fgado de ganso de Prigord. As melhores
trufas brancas vm da regio do Piemonte, perto de Alba, na
Itlia. Diz-se que Napoleo conce-beu o seu nico filho
legtimo depois de ter devorado um peru trufado, e ao longo
da Histria muitas mulheres deram a comer aos seus
companheiros trufas brancas para lhes excitar o desejo. Alguns
negociantes usavam ces treinados para localizar as trufas,
que tendem a crescer junto s razes de algumas tlias,
carvalhos e avelaneiras; porm, as porcas so h sculos os
melhores caadores de trufas. Basta largar uma porca num campo
em que haja trufas que ela comear a farejar como um sabujo e
depois a escavar num frenesim louco. Porqu esta obsesso das
porcas pelas tru-fas? Os investigadores alemes da
Universidade Tcnica de Munique e da Escola Lbeck de Medicina
descobriram que as trufas contm o dobro de androsterona, uma
hormona masculina, de um porco normal. Alm disso, a feromona
do javali  quimicamente muito semelhante  da hormona dos
homens, podendo ser por isso que tambm ns achamos as trufas
excitantes. Experincias efec-tuadas mostraram que, depois de
deitar um pouco de androsterona em *spray* numa sala cheia de
mulheres, se lhes mostrarmos algumas fotografias de homens,
elas ach-los-o mais atraentes do que nou-tras condies.
   Para o cultivador de trufas e a sua porca, percorrer uma
planta-o subterrnea de trufas deve ser extremamente
divertido e triste ao mesmo tempo.  l que uma porca bela e
saudvel julga encon-trar o javali mais *sexy* que alguma vez
cheirou na vida, que por al-guma razo parece preferir viver
debaixo da terra. Esse facto pe-na doida e ela cava
freneticamente acabando por desenterrar apenas um cogumelo
estranho, encrespado e sujo. Em seguida, cheira outro
supermacho a poucos metros de distncia, tambm enterrado
debaixo de terra, e mergulha, tentando desesperadamente
apanh-lo. Fica doida de desejo e frustrao. Finalmente, o
cultiva-dor de trufas apanha os cogumelos, mete-os no saco e
arrasta a por-ca de volta para casa, deixando uma plantao
inteira a vibrar com o cheiro rico e aromtico de belos
javalis, todos a suspirar por ela, mas invisveis! :,


:o gengibre e outras 
substncias medicinais



   Numa viagem por mar  Antrctida, fico enjoada devido 
agi-tao da gua e rastejo at ao meu camarote para
descansar. O meu camarote fica  popa do navio, junto ao lais,
e baloua, salta com cada vaga, para em seguida cair, rolar e
voltar a saltar, recebendo uns borrifos ocasionais para maior
realismo. Abro a tampa de um pequeno frasco cheio de uns
tronquinhos castanhos e nodosos, retiro um, coloco-o dentro da
boca e vou chupando e mascando metodica-mente, ficando com uma
agradvel sensao de secura na lngua. O gengibre  h muito
utilizado para fins medicinais na China, onde se curam as
constipaes, gripes e outros males com ch de gengi-bre. Os
pescadores chineses mascam razes de gengibre contra o enjoo.
   Nos ltimos anos, as qualidades que diversos povos atribuem
ao gengibre tm sido testadas por investigadores de todo o
mundo, que chegaram  concluso de que essa raiz retorcida
merece toda a sua fama. Investigadores japoneses descobriram
que o gengibre  de facto excelente no combate  tosse; alm
disso, tem uma aco analgsica, faz descer a febre, estimula
o sistema imunolgico e, de uma maneira geral, acalma o
corao e fortalece o bater do trio, agindo exactamente como
a dedaleira. Cientistas nigerianos desco-briram que ele tem
uma aco antioxidante e pode matar as salmo-nelas. Na
Califrnia, outros cientistas concluram que o gengibre torna
a carne mais tenra e  um bom conservante. Num estudo
efectuado conjuntamente por duas universidades, a Brigham
Young University do Utah e o Mount Union College de Ohio,
ficou prova-do que o gengibre  melhor do que o *Dramamine*
contra o enjoo. Experincias levadas a cabo na Dinamarca
revelaram que o gengi-bre impede a formao de cogulos no
sangue. Na ndia, desco-briu-se que o gengibre reduz o
colesterol.
   Existindo hoje tantas recomendaes sobre o que podemos
co-mer ou devemos evitar, por vezes parece que estamos a fazer
um tratamento e no uma refeio. As panelas de alumnio esto
bani-das, visto as partculas microscpicas do metal poderem
penetrar nos alimentos e o alumnio estar associado  doena
de Alzheimer. A manteiga, as natas e as gorduras saturadas so
proibidas, dado que podem provocar doenas cardacas. As
fibras esto na moda porque ajudam a prevenir o cancro do
recto, mas no devemos exa-gerar, pois em excesso podem tambm
ser-nos prejudiciais. Os ve-getais verdes so de recomendar
devido ao seu efeito antioxidante,
:, mas no para quem estiver a tomar um vasodilatador, pois
contm vitamina K, que coagula o sangue. Aconselha-se o leo
de peixe porque  benfico para o corao; no entanto, o peixe
pode conter poluentes. A fruta fresca  importante devido 
vitamina C, s fi-bras e a outros elementos nela contidos,
embora seja muitas vezes tratada com insecticidas
cancergenos. A carne de vaca  desacon-selhada porque tem um
elevado teor de gordura, a qual se encontra associada a tudo,
dos plipos ao cancro da mama e, alis, a carne grelhada
produz carcinomas. As aves so por vezes alimentadas com
hormonas nocivas ao homem e podem conter salmonelas. O
ma-risco, sendo uma fonte de protenas com baixo teor de
gorduras, pa-rece no nos prejudicar, mas  preciso ter
cuidado e no comer ostras criadas em guas poludas; e ser
seguro comer lagosta e camaro, sendo ambos ricos em
colesterol, alm de se alimentarem dos cadveres putrefactos
de outros animais?
   Vivemos obcecados com a qualidade medicinal da nossa
co-mida e depositamos toda a confiana no iogurte, pasta de
feijo, sumo de cenoura, raiz de *ginseng*, mel puro e muitos
outros ali-mentos, consoante esto ou no na moda. Esquecemos
que, num passado no muito distante, a nossa farmcia era a
paisagem; e ainda o  para muitos povos, ou para a maioria das
empresas farmacuticas mais sofisticadas, que continuam a ir
colher fo-lhas para os mais variados medicamentos s florestas
tropicais. Diz-me o que comes, dir-te-ei quem s, disse uma
vez Brillat--Savarin, mas interpretamos essa mxima num
sentido mais lato do que ele, pois pensamos nas vitaminas que
curam, nas protenas que fortalecem, nas fibras que limpam e
protegem, nos hidratos de carbono que acalmam, nos acares
que do energia. Verda-deiras crianas da Era Industrial,
ainda consideramos a comida o combustvel do nosso organismo,
que alimenta a fornalha de ca-da clula. Imaginamos o nosso
corpo como uma fbrica e che-gamos mesmo a usar essa palavra
quando nos referimos ao seu funcionamento. Muitas das nossas
criaes parecem-se connos-co. Durante algum tempo, os
neurologistas protestaram contra quem comparava o crebro a um
computador, que lhes parecia terrivelmente automtico, amoral,
mecnico. Hoje, o exemplo do computador voltou a estar em
voga, porque as semelhanas so demasiado bvias para serem
ignoradas. O crebro  o computador; a religio, o
preconceito, a propenso e por a fora so o *software*. No
que os neurologistas se tenham tornado de um momento para o
outro mais insensveis; os computadores  que passaram a ser
umas entidades mais familiares e menos :, assustadoras. Pois
sim, dizemos: alguns crebros precisavam de arma-zenar uma
quantidade de informao que excedia as suas capa-cidades;
ento, inventaram uns crebros artificiais que apenas
reproduzem o sistema de arquivo que conhecem. No  para
admirar. Quando quisemos criar energia fora dos nossos corpos,
tambm copimos o nico modelo que conhecamos. Introduzimos
combustvel numa coisa qualquer e ela fica, durante algum
tem-po, cheia de energia, expele os desperdcios, mas depois
neces-sita de ser novamente alimentada para continuar a
trabalhar. Que grandes analogistas nos samos! Faz parte do
encanto da nossa espcie sermos capazes de olhar para a pegada
de um elefante gravada na lama perto de um poo, ver como a
sua forma cnca-va consegue segurar gua, e dizer: aquilo 
uma boa ideia para transportar lquidos. No *Henrique IV*,
na segunda parte, Shakes-peare pe Falstaff a dizer que o
nosso corpo nos serve de mo-delo para a sociedade, que tambm
ele possui uma poltica e classes prprias. Mas as analogias
so reversveis, como a cor-rente alterna. No s crimos
centrais de energia baseadas no princpio de funcionamento do
nosso corpo, como comemos pores energticas de chocolate
para levar energia ao nosso corpo. E, seja qual for a nossa
idade, comemos coisas que se-cretamente detestamos, s porque
achamos que podem ser tera-puticas. Recomendamos certos
alimentos: Come os brcolos, insistimos, pensando que so
ricos em vitaminas e fibras, e no que parecem um pequeno
bosque a boiar na panela. Fazem-te bem  sade.


:como fazer sopa de alce
dentro de um buraco no cho
ou jantar no espao


   Numa pequena estante que tenho  cabeceira da cama, guardo
alguns livros srios sobre a sobrevivncia, como o *Manual de
So-brevivncia do Piloto*, onde se ensina por qual dos lados
da tenda de um nmada devemos entrar depois de nos
despenharmos no de-serto do Gobi, ou *Como Permanecer Vivo na
Floresta*, de Bradford Augier, que d a seguinte receita de
sopa de alce feita num buraco no cho:

---------------------------
   Acabaram de matar um alce. Esfomeados, no h nada que
mais vos apetea do que uma sopa quente, talvez enriquecida
com uns alhos-franceses silvestres que ondulam ao vento ali
perto. Por-que :, no pegar na extremidade de uma pata do
animal morto e com ela escavar um buraco no solo? Porque no
forrar essa concavida-de com uma poro de pele esticada? Em
seguida, aps acrescen-tar gua e os outros ingredientes,
porque no deixar umas pedras limpas e quentes tratar do
cozinhado enquanto acabam de preparar o animal?
---------------------------

   Com certeza, porque no? Gosto particularmente do comeo da
receita: Acabaram de matar um alce. Faz-me lembrar uma
receita de co salteado que li um dia e comeava assim:
Primeiro, limpem e eviscerem um cachorro saudvel. Se, como
eu, no costumam comer mamferos, a no ser quando so
pressionados por um anfi-trio que no o sabe ou por
necessidade (um anfitrio que o sabe), nenhum dos pratos vos
far crescer gua na boca. Mas agrada-me a ideia de cozinhar
lentamente uma sopa de alce numa cova cheia de musgo. O livro
pe a hiptese de, embora vestidos, armados e mu-nidos de
bssola, nos termos esquecido dos fsforos. Cozinhar, apesar
de no ser essencial  sobrevivncia, pode sem dvida
faci-lit-la, de modo que h muitas sugestes para acender um
fogo com gua (usada como lente), relgios (peguem nos vidros
de dois re-lgios ou bssolas com o mesmo tamanho e
esfreguem-nos um no outro...), com uma broca feita a partir
de um arco, esfregando uma faca de mato numa pedra de isqueiro
e com muitas outras coisas, incluindo uma espingarda. (*)

(*) Retirem a bala do cartucho, que podem alargar colocando-o
sobre um tronco e batendo em volta com o cabo de uma faca...
Preparem uma fogueira com uma boa camada de mecha por baixo.
Des-pejem sobre a mecha uma boa poro de plvora. Enfiem um
pedao pequeno de pano seco no que resta da carga. Disparem a
arma para o ar. O trapo, mesmo que ainda no esteja a arder
quando cair por perto, j deve pelo menos estar
suficientemente em brasa para, pressionado contra a mecha,
fi-car imediatamente em chamas. (*N. da A*.)

   Como sero os manuais de sobrevivncia para os viajantes no
espao? Muito do prazer do gosto vem do cheiro; s cheira-mos
uma substncia quando ela se evapora. Assim, calculo que
existam menos cheiros na ausncia de gravidade. O que
signifi-ca que a comida no saber to bem. Mesmo assim,
existe uma concorrncia feroz entre os fornecedores que querem
abastecer as naves espaciais russas e americanas. Um dos mais
provveis fornecedores da prxima nave russa  a Belme, uma
empresa cujos proprietrios so um astronauta francs, um
bilogo que es-tuda a ausncia de peso e o cozinheiro-chefe e
dono do L-Esp-rance, um restaurante que mereceu trs
estrelas no *Guia Michelin*. A ementa orbital incluiria
iguarias como palitos de alcachofra e :, frango * la
Dijonnaise*, em bisnagas e latas. A Belme j fornece comida a
expedies aos plos e ao deserto, alpinistas, pilotos de
carros de corrida e outros aventureiros gastrnomos, para os
quais prepara pratos de alta culinria adaptados aos
respectivos meios. Quando falamos em diferentes tipos de
cozinha, diante dos nossos olhos surgem fumegantes travessas
de caril, lagostins, sopa de amendoim, *chili, fettuccine* ou
qualquer outro dialecto culinrio. Mas tambm existe, ainda
que na sua primeira infncia, uma cozinha espacial. J comi
pssegos secos congelados da NASA, que sabem a ninhos de
vespa docemente acidulados, e li descries feitas por
astronautas de outros dos seus alimentos; parece-me que a
cozinha espacial  para esquecer. Mas o xtase  o melhor dos
condimentos, portanto os secos e congelados, para j, vo
servindo, at as viagens no espao passarem a ser to vulgares
como um passeio pelo Rialto, em Veneza, e nos apetea jantar
ao ar livre num restaurantezinho muito agradvel cujas
especialidades sejam lua ao natural acompanhada
de estrelas.

:et fugu, brutus?
a comida como fonte de emoes


   Uma nao inteira de viciados em sensaes pode
alimentar-se, como os elegantes das cidades, de tortas de
ruibarbo e framboesa, lagosta fumada e tamboril embrulhado em
folhas de hibisco, barrado com manteiga de framboesa, assado
em forno de barro, levemente embriagado pelo fumo de
alfarrobeira. Quando eu andava na faculdade, no comia
peixinhos dourados, no me enfiava em *Volkswagens*, nem
engolia garrafas inteiras de vodca, mas havia quem o fizesse,
movido por um tdio neo-anos-vinte. Chocar a burguesia foi
sempre a encclica no declarada dos universitrios e
artistas, e muitas vezes isso inclua provocar a sociedade
atravs de hbitos alimentares bizarros. Num dos *sketches* do
clssico *Monthy Python.s Flying Circus*, um fabricante de
chocolates  interrogado por alguns polcias por vender rs
bebs cobertas de chocolate, com ossos e tudo (Sem os ossos
no seriam estaladias, queixa-se o homem), bem como insectos
e outros animais considerados tabu pelas papilas gustativas
ocidentais. Conheci muitos cientistas que durante trabalhos de
campo comeram o mesmo que os nativos: gafanhotos, sanguessugas
ou morcegos estufados em leite de coco, em parte por boa
educao, em parte por
curiosidade, mas penso que tambm para terem uma histria :,
engraada para contar no regresso aos Estados Unidos. Todavia,
so to-dos alimentos nutritivos que saem da nossa esfera
habitual de h-bitos e costumes.
   Nem sempre escolhemos os alimentos pelo sabor, mas sim pela
sensao que provocam. Uma vez comi um prato muito popular no
Brasil, pato em tucupi (sumo extrado da mandioca) cuja
principal atraco  ser anestsico: ficamos com a boca
dormente como quando tomamos *Benzedrine*. O ingrediente
entorpecedor  o jambu (em latim, *spilanthes*), um malmequer
amarelo que cresce por todo o Brasil e  muitas vezes usado
para tratar constipaes. O efeito foi surpreendente: era como
se os meus lbios e toda a minha boca vi-brassem. Mas muitas
culturas tm alimentos fisicamente activos. Adoro pimento e
outros alimentos picantes, daqueles que nos dei-xam a boca a
arder. Falamos em gosto quando descrevemos um tal alimento a
algum, mas na verdade estamos a falar de uma combinao do
tacto com o gosto e do bem-estar que nos invade quando
finalmente a dormncia ou o ardor passam. Uma barreira muito
tnue impede que o molho chins de pimento nos faa vi-brar
(e nos ponha os lbios num formigueiro mesmo antes de
ter-minada a refeio), sendo suficientemente picante para nos
obrigar a comer de boca aberta. (*) 

(*) Beber gua no serve de nada, pois ela no se mistura com
o leo, o elemento de ligao da cozi-nha chinesa; arroz
cozido  o melhor remdio. (*N. da A*.)

Um exemplo menos radical  a nossa pre-ferncia por alimentos
friveis e estaladios como a cenoura, que no tm um sabor
forte mas fazem muito barulho e obrigam a boca a uma grande
actividade. Um dos maiores sucessos alimentares do mundo  a
*Coca-Cola*, que combina um sabor muito doce com ca-fena e
um pico no nariz que achamos refrescante. Comeou por ser
comercializada como elixir para a boca em 1888 e nessa altura
continha cocana, um poderoso refrescante oral, ingrediente
que deixou de ser usado em 1903. Ainda  aromatizada com
essncia de folhas de coca, mas depois de lhes ser extrada a
cocana. O caf, o ch, o tabaco e outros estimulantes
comearam todos a ser utiliza-dos no mundo ocidental nos
sculos XVI e XVII, e em breve eram consumidos por toda a
Europa. Como hbito elegante e que criava habituao,
proporcionavam aos convivas um abano no sistema nervoso,
produzindo quer uma calma narctica, quer um fluxo de cafena
e, ao contrrio dos outros alimentos, podiam ser tomados em
doses, conforme o efeito que se queria obter ou o grau de
vicia-o que j se alcanara. :,
   No Japo, cozinheiros com uma licena especial, preparam a
mais rara iguaria *sashimi*: a carne branca do peixe-bola,
crua e dis-posta em elaborados motivos florais sobre a
travessa. Pagam-se rios de dinheiro por esse prato
cuidadosamente preparado, que tem um sabor leve e ligeiramente
doce, como o pampo cru. E tem mesmo de ser cuidadosamente
preparado porque, ao contrrio do pampo, o peixe-bola 
ferozmente venenoso. No nos passaria pela cabea que tal
espcie precisasse de tal blindagem qumica, visto que a sua
principal forma de defesa  engolir grandes quantidades de
gua, fi-cando to inchado que se torna demasiado volumoso
para que os predadores o consigam engolir. E no entanto a sua
pele, os ovrios, o fgado e os intestinos contm
tetrodotoxina, uma das substncias qumicas mais venenosas do
mundo, mil vezes mais mortal do que a estricnina ou o cianeto.
Uma lasquinha do tamanho da ponta de uma unha  suficiente
para matar uma famlia inteira. A no ser que o veneno seja
totalmente extrado por um cozinheiro experiente e
especialista, quem o ingerir pode morrer a meio da refeio. 
esse o fascnio do prato: comer a proximidade da morte, um
pavor que os lbios expressam enquanto vo comendo. No
entanto, prepar-lo  uma forma de arte tradicional no Japo,
com muitos aficionados. Os cozinheiros *fugu* mais
prestigiados so aqueles que conseguem deixar um toque do
veneno, apenas o bastante para que os lbios se entorpeam ao
roar a morte, mas que no chegue para matar. Claro que todos
os anos morrem de facto algumas pessoas por comerem *fugu*,
mas isso no demove os seus intrpidos adeptos. Os grandes
apreciadores de *fugu* pedem *chiri*, carne de peixe-bola
levemente cozinhada num caldo preparado com os fgados e
intestinos vene-nosos do peixe. Tanto Egpcios, Chineses,
Japoneses como outras culturas da Antiguidade, descrevem o
envenenamento pelo *fugu* com impressionante pormenor:
comea-se por sentir tonturas, a bo-ca e os lbios dormentes,
dificuldades respiratrias, cibras, depois os lbios
tornam-se azulados e surge uma comicho desesperada, como se o
corpo se cobrisse de insectos, as pupilas dilatam, sen-tem-se
nuseas e depois um sono tremendo de mortos-vivos, uma espcie
de paralisia neurolgica, durante a qual as vtimas tm muitas
vezes conscincia do que se passa  volta delas, e da qual vm
a morrer. Mas muitas vezes despertam. Se um japons, homem ou
mulher, morre de envenenamento causado pelo *fugu*, a famlia
aguarda alguns dias antes de enterr-lo, no v ele acordar.
De vez em quando, uma vtima do *fugu*  quase enterrada viva,
recobrando os sentidos no ltimo momento, para descrever com
horrendo pormenor o seu enterro durante o qual, apesar de ter
desesperadamente :, tentado gritar ou fazer sinal de que
estava viva, pura e simples-mente no conseguia mexer-se.
   Embora tenha algo de roleta russa, comer *fugu* 
considerado uma experincia altamente esttica. O que nos faz
pensar na condi-o que ns, chauvinistamente, chamamos
humana. Sendo ns criaturas destinadas a desaparecer da face
da Terra naquela derra-deira subtraco de sensualidade a que
chamamos morte, passamos a vida a namorar essa morte,
fomentando guerras, vendo horripi-lantes filmes de terror nos
quais manacos esquartejam e torturam vtimas, antecipando a
nossa prpria morte com carros velozes, ta-baco, suicdio. A
morte obceca-nos, como se compreende, mas a forma como lhe
reagimos no podia ser mais estranha. Perante tor-nados que
devoram lares, tempestades que nos arrumam as colhei-tas,
cheias e terramotos que engolem cidades inteiras, doenas
tenebrosas que nos consomem a medula ssea, mutilam ou
enlou-quecem (problemas devastadores que aparecem sem ser
convida-dos, quando bem lhes apetece, distribuindo horrores
como quem distribui esmolas), seria de imaginar que os seres
humanos fizes-sem os possveis por resistir s foras da
Natureza, que combinas-sem esforos como bons aliados, em vez
de criar por sua vez mais devastao, em vez de aumentar o
sofrimento humano. A morte no precisa da nossa ajuda para
desempenhar a sua tarefa.  estranho que as pessoas, muitas
vezes pases inteiros, desejem ser seus cm-plices.
   Os filmes de terror dizem muito acerca de ns prprios e
das nossas obsesses alimentares. No falo daqueles com
tarados que usam serras elctricas e navalhas para se vingarem
de mulheres que vivem sozinhas ou tm empregos. No falo das
histrias de fantasmas que nos fazem suspirar de alvio quando
do caos sur-ge a ordem, nas cenas finais. Nem to-pouco me
refiro aos mis-teriosos filmes de *suspense*, no fim dos quais
o Universo parece provisoriamente mais ordenado, menos
violento e inexplicvel. A nossa grande paixo , de longe, os
filmes de terror mais tene-brosos em que monstros cruis e
odiosos, dotados de fora e astcia brbaras, perseguem e
comem seres humanos. No importa se a besta  um efmero
Killer Shrew, uma taciturna Felina, um abstracto Wolfen ou um
annimo Oitavo Passageiro a salivar cido. O es-quema  sempre
o mesmo. Eles dominam o gnero. Ansiamos por esse tipo de
terror.
   A verdade  que parece que no nos habitumos ainda  nossa
posio cimeira na cadeia alimentar. Deve incomodar-nos
bastante, ou no continuaramos de gerao em gerao a fazer
filmes :, sempre com as mesmas tcticas de terror: as posies
invertem-se e somos ns o alimento. Est bem, gostamos de
estar no topo da cadeia alimentar quando nos passeamos por
Manhattan, mas su-ponham -- oh!, horror mximo! -- que estamos
no fim da cadeia alimentar de outros planetas? Nesse caso,
temos os diablicos seres aliengenas, que capturam seres
humanos, oferecendo-os depois, como bons anfitries, aos seus
jovens insectiformes, enforcando-os, literalmente, num
patbulo de visgo na despensa.
   Obcecados, aflumos s salas de cinema, sentamo-nos na
caver-nosa escurido e enfrentamos o horror. Entramos em
contacto com os monstros e prosseguimos. Na semana seguinte,
ou no Vero se-guinte, voltaremos a fazer o mesmo. E, de
regresso a casa, tememos ouvir nas nossas costas o rudo de
garras a pisar o cho, uma respi-rao sobrenatural, um
resfolegar vampiresco. Passamos os anos da nossa formao como
se fssemos membros de uma espcie sem tecnologias, com um
compreensvel medo de lees, ursos, cobras, tubares e lobos
que podem, e tm-no feito, perseguir-nos. Seria de imaginar
que por esta altura j teramos ultrapassado esse pavor. Os
pedaos de vaca todos arrumadinhos nas embalagens do
supermer-cado, bem cortados, etiquetados e acondicionados
deveriam bastar para nos descontrair. Mas a civilizao  um
fenmeno mais recente do que pensamos. Sero os filmes de
terror a nossa verso das gra-vuras mgicas com que os nossos
antepassados se confrontavam nas cavernas? Ser que ainda nos
confrontamos com elas?
   O *fugu* pode no ter muito a ver com o desarmamento
nuclear ou a paz mundial, mas  um pequeno indicador de como
funcionam as nossas mentes. Achamos a ameaa da morte
estimulante. Nem todos, e nem sempre. Mas em nmero suficiente
e com a frequncia suficiente para no dar descanso aos
restantes seres humanos, que prefeririam estar descontrados a
saborear um bom petisco com os amigos.


:a bela e os monstros


   Na extraordinria verso de Jean Cocteau do clssico
infantil *A Bela e o Monstro*, um monstro cheio de
sensibilidade vive num castelo mgico, cujas paredes e
mobilirio so psicossensveis. Nas costas da cadeira do
monstro, est escrita, em latim, a mxima: Os homens
tornam-se monstros quando no tm amor. Todas as
noites, o monstro humano e culto tem de sair para procurar
comida, apanhar um veado e comer a sua carne quente, seno
morre  fome. Em seguida  assaltado pela mais amarga
angstia, e todo o seu :, corpo comea involuntariamente a
fumegar. O horror inerente  nossa espcie  revelado nesse
momento. Como o sensvel monstro, somos obrigados a matar
outras formas de vida para sobreviver. Temos de lhes roubar a
vida, causando-lhes por vezes muita dor. Todos ns fazemos
diariamente pequenas concesses  tortura,  morte,  chacina,
ou lhes damos o nosso consentimento tcito. As pinturas
rupestres reflectiam a reverncia e a admirao que o caador
sentia pela sua presa. No nosso ntimo, sabemos que a vida ama
a vida. No entanto, banqueteamo-nos com outros seres que
connosco partilham a vida no nosso planeta; matamos para
viver. O gosto transporta-nos atravs desse terreno rochoso,
torna o horror agradvel ao paladar, e o paradoxo, que no
conseguimos explicar pela razo, dilui-se numa selva de
deliciosas tentaes.






A AUDO


Eu ouvi tudo
e conheci problemas que poderiam
criar uma alma
nas entranhas da Morte.

          John Milton. 
            *Comus*







:o corao que escuta


   Em rabe, absurdo designa incapacidade de ouvir. Em ingls
um *surd*  um nmero irracional, uma impossibilidade
matemtica, a raiz da palavra *absurdity* absurdo, derivada
do latim *surdus*, surdo ou mudo, traduo do termo rabe
*jadr asamm*, uma raiz surda, que por sua vez  a traduo
da palavra grega *alogos*, sem fala ou irracional. O
conceito escondido nesta teia de aranha eti-molgica  que o
mundo no desaba por causa de uma pessoa cega, ou que no
tenha um brao, ou a quem falte o nariz. Porm, se per-dermos
o sentido da audio h um elo fundamental que desapare-ce, e
perdemos de vista a lgica da vida. Somos excludos do trfego
mundial dirio, como se fssemos uma raiz enterrada no cho.
Apesar de Keats ter observado: As melodias que ouvimos so
doces, mas as que no ouvimos/ So mais doces ainda,
prefe-rimos poder ouvir o mundo de canes, rudo, fala. Os
sons tornam mais espesso o cozinhado sensorial da nossa vida e
deles depende-mos, tanto para interpretar e exprimir o mundo 
nossa volta como para comunicar com ele. O espao 
silencioso, porm quase tudo o que existe sobre a Terra 
capaz de emitir sons. Cada casal tem a sua cano preferida,
que lhes traz recordaes ternas do primeiro en-contro na
avenida marginal de Atlantic City, ou das escaldantes
noites de Vero numa aldeia do Midwest onde, quando eram
ado-lescentes, se sentavam dentro do automvel junto  barraca
das be-bidas, a queimar o tempo como tantas folhas secas. As
mes embalam os bebs com canes que adormecem e acalmam, no
apenas canes de bero mas bero de canes. A msica incita
as pessoas  aco, como tantas vezes vimos em manifestaes,
concertos de *rock* com fins humanitrios, comcios polticos,
:, Woodstock e tantas outras reunies de massas. As canes de
trabalho e as cantilenas militares (*) 

(*) Carol Burke, uma folclorista que se dedica ao estudo das
cantilenas militares, enviou-me esta, muito ca-racterstica
Segundo o que me contou, quase todas so igualmente
grosseiras, repetitivas e insultuosas:
   As ricas usam vaselina/As pobres usam banha
Mas a Lulu usa leo/E fica com mais fora

Fora, fora Lulu/Com quem vais tu hoje?

As ricas usam tampes/As pobres usam trapos
Mas a da Lulu  to grande/Que ela tem de usar sacos

Fora, fora Lulu/Fora todo o dia, etc.
(*N. da A*.)


tornam as longas marchas e os traba-lhos repetitivos menos
montonos. Os solitrios adeptos de *jogging*, marcha ou
*schuss*, os astronautas que pedalam em bicicletas fixas no
espao e os praticantes de aerbica metidos nas suas malhas de
leo-pardo, todos se sentem estimulados quando o exerccio 
acompa-nhado pelo som de msica ruidosa, com um ritmo regular
e forte. Nos acampamentos, as reunies  volta da fogueira no
seriam to divertidas se decorressem em silncio. E quando, ao
poente, os cam-pistas acendem velas e as pem a flutuar no
lago, costumam acom-panhar esse ritual cantando uma espcie de
hino ao acampamento e aos companheiros. As pessoas gostam que
certos alimentos (batatas fritas, aperitivos, cereais para
pequeno-almoo, etc.) faam barulho: o som  um ingrediente da
maior importncia na comercializao desses produtos. Os
casamentos, funerais, cerimnias oficiais, fe-riados
religiosos, encontros desportivos e mesmo os noticirios da
televiso so todos acompanhados de msica. Contratam-se coros
para entoar hinos pungentes a seguros domsticos, detergentes
e papel higinico. Numa rua movimentada  hora de ponta, mesmo
com o rugido do trfico e o turbilho de milhares de
forasteiros a-pressados, conseguimos reconhecer a voz de um
amigo que nos cumprimenta nas nossas costas. Enquanto
passeamos pelas ruas reinventadas de Williamsburg, na
Virgnia, ouvimos um clangor metlico e reconhecemos
imediatamente o som de um ferreiro a martelar na bigorna.
Preguiar no sof da sala, acariciando indolente-mente o gato
enquanto os raios de Sol desenham riscos numa janela embaciada
de gelo, pode ser relaxante, mas se ouvirmos o gato ron-ronar
sentimo-nos ainda mais satisfeitos. A maioria dos
restauran-tes serve msica com cada prato; alguns chegam a
contratar violinistas ou guitarristas que se colocam perto da
nossa mesa e nos oferecem enormes doses de msica enquanto
mastigamos. Nos trios dos hotis da ndia e nos ptios de
ardsia de Houston, o vento faz soar pequenas campainhas.
Durante o chamado tempo de silncio, os :, reclusos do
Alcatraz conseguiam segredar para dentro do cano de gua vazio
que ia de lavatrio em lavatrio e depois encostavam o ouvido
ao tubo e escutavam. Tanto os excursionistas que passeiam
montados em lamas, ao longo de Point Reyes National Seashore
da Califrnia, como os que escalam a grande rocha Mount Camel
na Pensilvnia, deliciam-se com o barulho das aves, dos
rpidos dos rios, do vento rodopiante, das sementes secas que
batem nas rvores como minsculas cabaas. No ambiente de
grande animao e ale-gria de uma festa, um criado serve-nos
um exuberante *Liebfrau-milch*, e admiramos a sua cor de
damasco, inalamos o seu *bouquet*, saboreamos o seu paladar.
Em seguida, fazendo votos mtuos de felicidade, tocamos com os
copos uns nos outros fazendo-os tilin-tar, pois s falta
satisfazer o ouvido para que o vinho seja apreciado por todos
os sentidos.
   Aquilo a que chamamos som  na verdade uma onda que
investe, encapela-se e recua, composta de molculas de ar e
pro-vocada pelo movimento de qualquer coisa, grande ou
pequena, propagada em todas as direces. Antes de mais, 
preciso que algo se mexa -- um tractor, as asas de um grilo
--e agite primeiro as molculas de ar em volta, aps o que as
seguintes principiam, tam-bm, a estremecer, e assim por
diante. Vagas de som rolam como mars at atingir os nossos
ouvidos, onde fazem o tmpano vibrar; por sua vez, este pe em
movimento trs ossos com nomes curiosos (martelo, bigorna e
estribo), os mais pequenos do nosso corpo. A cavidade onde
esto alojados mede apenas cerca de 0,83 cent-metros de
largura e 0,41 de profundidade, mas o ar a aprisionado, pelo
bloqueio das trompas de Eustquio,  suficiente para
incomo-dar os mergulhadores e passageiros de avio, quando a
presso at-mosfrica se altera. Os trs ossos comprimem o
lquido do ouvido interno contra as membranas, o que agita uns
pequenos plos e ac-ciona as clulas nervosas prximas, as
quais levam as mensagens ao crebro: ento, *ouvimos*. Pode
no parecer um caminho particu-larmente complicado, mas na
prtica o percurso  bastante elabora-do, um pouco no gnero
de um campo de golfe louco e em miniatura, com arabescos,
ramificaes, rotundas, percursos au-xiliares, rampas e gua.
   A transmisso do som obedece a trs fases. O ouvido externo
age como um funil e  ele que capta e conduz as vibraes
sonoras, embora quem no disponha de ouvidos externos oua
perfeitamente (como normalmente sucede quando usamos chapu ou
mesmo ca-pacete). Quando o rudo faz vibrar a membrana chamada
tmpano, comea por agitar o primeiro dos pequenos ossos, cuja
extremidade :, se encaixa perfeitamente na concavidade do
segundo; este move o terceiro, que se comprime como um pisto
contra o ouvido interno, macio e cheio de liquido, onde existe
um canal em forma de caracol chamado cclea, dotado de plos
com a funo de impressionar as clulas dos nervos auditivos.
Quando o lquido vibra, os plos agi-tam-se, excitando as
clulas nervosas, e estas transmitem a infor-mao ao crebro.
Assim, o acto de ouvir quebra  antiga barreira entre o ar e a
gua, pois recebe as ondas sonoras, que traduz para ondas
lquidas e depois para impulsos elctricos. De todos os
senti-dos, o ouvido  o que mais se assemelha a um qualquer
dispositivo construdo por um canalizador hbil, a partir de
meia dzia de pe-as soltas. O suave sibilar de uma seara, que
parece envolver-nos num simples suspiro, no tem o carcter
urgente de uma pantera a rugir atrs de ns. Os sons precisam
de ser localizados no espao, identificados conforme o tipo, a
intensidade e outras caractersticas Ouvir tem algo de
geogrfico.
   Porm, tudo comea com o estremecimento de molculas
gasosas, empurradas umas para cima das outras, como uma
multido a acotovelar-se no metropolitano. As ondas que
provocam tm uma determinada frequncia (nmero de vibraes
por segundo) que re-gistamos como altura: quanto mais rpida a
frequncia, mais agudo o som. A maior parte dos sons so
registados como agudos. O som propaga-se pelo espao 
velocidade de 343 metros por segundo, muito abaixo da
velocidade da luz (299.792.458m/s).  por isso que, numa
trovoada, vemos um relmpago e s mais tarde ouvimos o trovo.
Quando era escuteira, ensinaram-me que, se contasse os
segundos entre o relmpago e o trovo e depois dividisse esse
n-mero por cinco, o resultado obtido indicaria a que
distncia ocorrera o raio.
   Tudo o que ouvimos ocupa uma extensa gama de intensidades
-- desde o som de uma joaninha a pousar numa folha de caldio
a um lanamento no cabo Canaveral --, mas raramente ouvimos o
funcionamento interno do nosso corpo, o irritante revolver do
nosso estmago, o nosso sangue a correr, as articulaes a
flectirem, o permanente abrir e fechar das plpebras. Na
melhor das hipteses, quando usamos tampes nos ouvidos, ou
comprimimos um ouvido contra o travesseiro durante a noite,
somos capazes de ouvir o bater do nosso corao. Para um beb
dentro do tero, o bater do corao da me  a mais
maravilhosa das canes de embalar: transmite-lhe paz e
confiana; o rebentar das ondas da respirao materna adormece
e acalma. O tero  uma paisagem acolhedora e familiar, um
invlu-cro quente e ritmado onde o corao da me  um
permanente claro :,
de segurana. Ser que alguma vez esquecemos esse som? Quando
as crianas comeam a falar, em geral as suas primeiras
palavras so repeties dos mesmos sons: mam, pap, bubu.
Muitos pais compram uma pequena caixa para colocar no bero
com a gravao de um corao a bater num ritmo forte e
regular. Todavia, se esse corao bater mais rapidamente do
que o normal, sugerindo, assim, uma me pouco saudvel ou sob
grande *stress*, o beb ficar muito agitado. Me e filho
esto unidos por um cordo umbilical sonoro.
   No existe nada mais perfeito do que o tempo que passamos
no tero, onde, como pequenos loucos, vivemos nas nossas
pequenas celas acolchoadas,  nossa vontade e sem estarmos
condicionados pelo tempo. Um recm-nascido, mamando no seio da
me ou apenas ao seu colo, ouve o mesmo bater ritmado que
ouvia dentro do tero, e a vida parece-lhe segura e agradvel.
Pelo bater do nosso corao sabemos se estamos bem. Tememos
que ele um dia pare,
tememos o silncio do corao de quem amamos. Deitados de
ma-nh na cama, ao lado do nosso amante, ora trocando
carcias, ora dormitando, firmemente abraados, ouvimos o seu
corao bater, o calor dele envolve-nos e sentimo-nos em paz.
Como te sentes, bem l no fundo do corao?, perguntamos.
Tenho o corao despedaado, respondemos, como se ele fosse
um pedao de giz
atingido por um martelo. Intelectualmente, sabemos que o amor,
a paixo e a devoo no residem num rgo. Uma pessoa no 
ne-cessariamente considerada morta quando o seu corao pra;
a morte do crebro  que constitui o argumento definitivo.
Todavia, quando falamos de amor, utilizamos a poderosa
metfora do corao e todos compreendem. No  preciso
explicar. Desde o primeiro momento, o corao  a medida da
nossa vida e dos nossos
amores. Certos filmes incluem muitas vezes um bater rpido do
co-rao na banda sonora, nas cenas destinadas a meter medo.
Mas tambm existem filmes como *Murmur of the Heart*, sobre
uma relao de certo modo incestuosa entre uma me e um filho,
onde o bater suave e regular de um corao se alia  msica
para sublinhar a complexidade do amor entre os dois.
Tradicionalmente, os poemas so escritos em pentmetros
jmbicos, produzindo um som
semelhante a: ba-BUM, ba-BUM, ba-BUM, ba-BUM.
Claro que se pode escrever de acordo com muitos outros
esquemas mtricos e hoje a maioria dos poetas no obedece a
mtrica nenhuma. Mas existe algo de intrinsecamente agradvel
na leitura de um poema jmbico. Alis, temos tendncia para
caminhar em jambos:  o ritmo de passeio normal. O jambo
tambm aprisiona o bater do cora-o numa jaula de palavras, e
ns, que reagimos to profundamente :, aos rudos do corao,
lemos o poema usando a nossa pulsao como metrnomo
silencioso.






FANTASMAS E CORTINAS


   Mesmo todos os que rogamos pragas  banal e intrometida
msica ambiente -- imaginem um restaurante romntico sobre o
mar onde somos obrigados a ouvir, trs vezes antes de pagarmos
a conta, uma longa e sonora verso do *Danny Boy* --, sabemos
que o crebro elabo-ra a sua prpria msica ambiente a partir
do que ele considera normal e suportvel. Os barulhos de um
escritrio, o rudo do trnsito, o ronco do aparelho de ar
condicionado ou do aquecimento, o rumor de vozes numa sala
cheia de gente. Vivemos numa paisagem de sons familiares. Mas,
 noite, se estamos sozinhos, um som familiar pode
assustar-nos como um ladro. Que foi aquilo, uma porta que
rangeu ao ser aberta por um assaltante ou apenas um ramo que
se partiu? Os sons provo-cam-nos alucinaes, mais do que as
vises. H miragens sonoras, que desaparecem sem deixar rasto;
iluses auditivas que afinal no so o que pareciam; e depois
h as vozes ouvidas por santos, videntes, espi-ritas, e que
lhes indicam o que tm a fazer e no que devem acreditar. Ouve
a tua voz interior, costumamos dizer, como se a conscincia
fosse um gnomo que vivesse por baixo do esterno. Mas quando
pessoas consideradas vulgares so perseguidas por vozes --
como An-thony Quinn, que, na sua biografia, diz ter ouvido a
voz de um rapazinho chamar por ele --, procuram, tal como
Quinn, a ajuda de um psiquiatra. Por vezes, o que as pessoas
ouvem no  uma voz, mas sim msica, to impiedosamente
alucinatria que elas se conven-cem de que esto loucas. Num
artigo surgido em 1987 na revista *Aus-tralian Family
Physician Magazine*, um mdico descreve dois casos de
epilepsia musical aguda que julgou serem o resultado de um
ataque cardaco que afectara os lobos temporais do crebro das
doentes. Uma das mulheres ouvia repetidamente o *Green
Shamrock of Ireland* dentro da cabea e tomava remdios para,
ao menos, no o ouvir tantas vezes; a outra, que viveu at aos
noventa e um anos e preferia escutar msica a tomar drogas,
ouvia miscelneas de canes como *Daisy, Let Me Call You
Sweetheart, After the Ball e Nearer, My God, to Thee*. O
as-pecto mais assustador do problema  a sua violncia.
   Por outro lado, frequentemente somos os primeiros a desejar
que um som nos ataque. Queremos que o choro do nosso beb
doente, que dorme na outra ponta da casa, nos acorde de um
sono profundo, apesar de nenhum som, mesmo alto e abrasivo --
o motor da camioneta de recolha do lixo, por exemplo --, o
conseguir. Numa :, festa barulhenta, numa sala de tecto baixo
e m acstica, as ondas sonoras atingem as paredes e, em vez
de serem absorvidas, voltam para trs, fazendo-nos sentir que
estamos dentro de um pavilho desportivo, no meio de um jogo
de andebol. No entanto, consegui-mos ouvir, por cima de todo o
barulho, uma conversa entre o nosso cnjuge e uma desconhecida
que lhe faz a corte.  como se tivs-semos lentes de *zoom*
nos ouvidos. A nossa capacidade de arrastar alguns sons para
valores quase inaudveis e trazer outros para pri-meiro plano
 realmente espantosa. Isso  possvel porque, na ver-dade,
ouvimos as coisas duas vezes. O ouvido externo  um complicado
reflector que capta o som e conduz a maior parte di-rectamente
para o canal auditivo; mas uma pequena fraco do som 
reflectida pelas bordas superior, inferior e laterais do
ouvido externo, sendo conduzida para o canal apenas alguns
segundos mais tarde. Por conseguinte, h uma srie de
diferentes atrasos, de-pendendo do ngulo donde nos chega o
som. O crebro interpreta esses atrasos e sabe como localizar
o som. Os cegos usam os ouvi-dos para se orientar no mundo,
batendo com a bengala e ouvindo atentamente os ecos
produzidos. Tambm h alturas em que dese-jamos que o som nos
absorva o esprito, o suficiente para repou-s-lo. Haver algo
mais calmante do que estar sentado numa varanda e ouvir o
oceano acariciar ritmadamente a areia? Os apa-relhos de rudo
branco enchem um quarto, onde algum dorme, com uma espuma
etrea, muitas vezes o bastante para libertar o es-prito das
garras do pensamento.
   Quando cheguei a casa ontem  noite, ouvi um barulho que
co-meou por me intrigar, um chiar espordico e um matraquear
quase imperceptvel. Ao fim de alguns momentos, percebi o que
se pas-sava: um rato contorcia-se numa ratoeira por baixo da
bancada da cozinha. Abri a cortina amarela e vi-o. Era suposto
a ratoeira ter-lhe
quebrado o pescoo depressa e bem, mas em vez disso
atravessa-ra-se-lhe no estmago: sem guinchar nem gemer,
lutava desesperadamente com a madeira e as molas de metal. De
repente, a sua agitao cessou de vez. Retirei o rato, ainda
agarrado  ratoeira, com a pina da lareira, e enfiei-o
cuidadosamente dentro de um saco que coloquei na garagem
glida. Tenho a certeza de que morreu de frio, ontem  noite,
qual Scott no Antrctico a esvai -se  medida que os sonhos de
calor se dissipavam. Numa casa faz falta a sangui-nolncia do
gato, coisa que eu no tenho. Certa vez, num estbulo, vi
um gato esqueltico atormentar um rato at a sua carcaa
sangrenta gemer e estrebuchar sem no entanto morrer. O gato
seguia o seu instinto e ambos desempenhavam os papis que lhes
haviam sido :, atribudos pela Natureza, a qual nem d nem
espera piedade. Os donos do estbulo tinham o gato com o
intuito especfico de caar ratos. Eu no devia intrometer-me.
Mas quando o gato comeou a esfolar os restos do rato, sa e
tentei recompor-me ouvindo o som da gua gelada a cair sobre o
feno espalhado. Talvez eu no devesse ter fi-cado to
perturbada por aquela cena da Natureza: A Natureza l sabe o
que faz, disse Tennyson. Mas que teria eu ganho em assistir
ao fim sangrento, s costelas espalhadas e arqueadas como asas
abertas, aos despojos gelatinosos e vermelhos sobre o cimento
f-tido? Preferi concentrar-me num s rudo -- a gua a pingar
sobre o feno --, e da a pouco estava suficientemente calma
para prosse-guir o meu dia de trabalho. Acabara de usar o som
como cortina emocional.


:o jaguar do riso doce (*)


   Abrimos a boca, obrigamos o ar a sair dos pulmes para a 

(*) Um mito da criao descoberto no *Popol Vuh*, livro
sagrado dos Maias, segundo o qual as primei-ras criaturas a
surgir  face da Terra foram o Jaguar do Riso Doce, o
Jaguar Negro, o Jaguar da Noite)) e Mahucutab, *o no
penteado*, tendo todos eles algo em comum: falavam. (*N. da
A*.)

la-ringe, onde nasce a nossa voz, e depois a passar pela
abertura entre as nossas cordas vocais, fazendo-as vibrar. E
ento falamos. A altura da voz depende da vibrao das cordas:
se vibrarem depressa, ouvi-mos uma voz aguda, tenor ou
soprano; se vibrarem devagar, ouvimos um contralto ou baixo. A
voz parece uma coisa muito simples, mas j fez cair e nascer
imprios; j ajudou muitas crianas a assinar pe-quenos
armistcios com os pais; empresas a controlar naes inteiras,
como se estas no passassem de brinquedos de corda; amantes a
conhecer as emoes do namoro; sociedades a expressar os seus
so-nhos mais nobres ou preconceitos mais desprezveis. Muitas
dessas qualidades encontram-se gravadas nas prprias palavras.
A lingua-gem regista as modas e os sentimentos dos povos.
Quando o fran-cs Guilherme, *o Conquistador*, invadiu a
Inglaterra em 1066, imps a sua lngua, as suas leis e os seus
costumes, muitos dos quais ainda hoje se podem observar.
Possuidora de uma forte cons-cincia de classe, a elite
francesa achou os Saxes selvagens e bru-tos e a lngua
saxnica, mesmo no seu registo mais culto, inferior e rude,
primeiro porque no era francesa e em segundo lugar porque era
grosseira. Da que a palavra derivada do francs para
transpira-o, *perspiration*, fosse considerada de bom tom,
ao contrrio do termo saxnico *sweat*; o francs *urine* e
*excrement* eram palavras educadas, enquanto o saxo *piss* e
*shit* no o eram. O termo saxnico :, para fazer amor era
*fuck* (do ingls antigo *fokken* bater em) (*), 

(*) Outra palavra saxnica para fazer amor era *swyve*, ainda
hoje usada pelos Ingleses. (*N. da A*.)

mas os Franceses usavam a palavra *fornicate* (do latim
*fornix*, que designava uma diviso de uma cave, com o tecto
abobadado ou em arco e que as prostitutas costumavam alugar;
tornou-se um eufe-mismo para bordel, mais tarde um verbo que
significava fre-quentar um bordel e, finalmente, um verbo que
significava o que se fazia no bordel. *Fornix*  da famlia
de *fornax*, forno redon-do de tijolo, derivado do latim
*formus* que significa simplesmente quente). Assim,
fornicar  visitar um quarto pequeno, quente e
subterrneo com tecto abobadado.  bvio que isto agradava
mais  sensibilidade francesa do que a ideia de bater em
algum, que lhes deve ter parecido demasiado bruta e
grosseira, ou seja tipicamente saxnica. (*) 

(*) Em desespero de causa, nos documentos passaram a ser
includos simultaneamente os dois ter-mos, o francs e o
saxnico, e assim a terminologia jurdica permaneceu at aos
nossos dias, como nos casos *let and hindrance* ou *keep and
maintain*. (*N da A*.)

Para ns, os sons so de tal modo cativantes que
adoramos que as palavras rimem, gostamos de ouvi-las
ricochetear umas nas outras. Por vezes, preferimos que as
palavras tenham um som prximo do seu significado, numa
equivalncia auricular a um trocadilho: *sibilar, sussurrar,
pipilar, gaguejar, deslizar*. Para pronunciar a palavra
murmrio somos obrigados a murmurar e por isso  que estes
versos de Lorde Tennyson recordam com tanta
perfeio uma paisagem estival:

O lamento das pombas nos imemoriveis ulmeiros 
E o murmrio de inmeras abelhas.

Os Gregos chamaram a esse efeito onomatopeia, mas pode
assumir formas to subtis que as suas origens se perdem na
histria da etimologia. Por exemplo, a palavra poeta vem da
palavra ara-maica para o barulho que a gua faz ao correr num
leito de seixos. E quando os Ingleses chamam a um falso mdico
um *quack*, em-pregam uma verso abreviada da palavra
holandesa *kwakzalver*, cujo significado literal  aquele que
est sempre a impingir os seus unguentos e remdios. A forma
como pronunciamos as palavras diferencia-nos, atribui-nos uma
identidade regional ou nacional, rene os fios imperfeitos da
pronncia imigrante numa nica trama razoavelmente uniforme.
Sempre que  preciso vocabulrio novo para responder a novos
desafios, novas reas ou circunstncias sociais, surge um novo
dialecto. Os dialectos so fascinantes por-que os vamos sempre
ouvindo ao longo da evoluo de uma lngua :,
familiar e, em geral, atravessam muitos sculos. A lngua
nacional das Bermudas  o ingls e os naturais falam um
ingls-padro rechea-do de calo respigado da TV
norte-americana, contudo entre eles empregam um dialecto no
to sincopado como o da Jamaica mas igualmente secreto e
colorido. Vou  casota da minha mida esta noite curtir, diz
um jovem das Bermudas ao amigo, querendo ex-plicar que vai a
casa da namorada fazer amor com ela. Mas precisa que lhe
emprestem uma bicicleta. Emprestas-me a tua bicla? No me
peas a minha bicla, tem um furo, responde o amigo. Do outro
lado da rua, uma bela rapariga observa-os com ar provo-cante,
enquanto anda de hotel em hotel. Chau, vou dar de
fros-ques!, diz o segundo jovem referindo-se  sua insistente
amiga. Se aquela garina no curtir, viro-a do avesso!
   Atravs dos tempos, tentmos ensinar vrios tipos de
mamferos a falar como os seres humanos e, embora tenhamos
alcanado al-gum xito com primatas, golfinhos e focas, no
conseguimos gran-de coisa. A nossa capacidade de falar 
especial. Conseguimos falar pela mesma razo que nos
engasgamos com tanta facilidade: a nos-sa laringe est
localizada ao fundo da garganta. Os outros mamfe-ros dispem
de uma caixa vocal no princpio da garganta de modo a
conseguirem respirar enquanto comem. Ns, no. Decerto sabem
qual  a maior proeza para um ventrloquo. Beber gua e fazer
o boneco falar ao mesmo tempo. Quando engolimos, a comida
des-liza pela traqueia; se a ficar retida, impede a passagem
do ar para os pulmes. Muitos de ns engasgamo-nos pelo menos
uma vez por ano e todos conhecemos a sensao. Foi pelo canal
errado, expli-camos, ofegantes, e talvez levantemos os braos
 altura da cabea para abrir mais a passagem. A manobra de
Heimlich serve-se do ar armazenado nos pulmes para aspirar a
comida para fora da tra-queia. Imaginem o erro de concepo
que isto constitui para ns. No decorrer da evoluo, o
discurso deve ter sido to fundamental  sobrevivncia que
valia a pena correr o risco de sufocar.
   Mesmo que os outros animais tivessem a laringe mais abaixo
e a lngua numa posio que lhes permitisse fazer os mesmos
sons que ns, precisariam de uma parte especial do crebro,
chamada o centro de Broca, para tratar o discurso como ns o
fazemos. O meu ltimo atendedor de chamadas tinha uma voz
computorizada que me dava recados e dizia que chamadas tinham
chegado. Baptizei-o de *Gort*, o rob do velho filme de
fico cientfica de Michael Ren-nie, *The Day the Earth
Stood Still*, pois a sua monocrdica voz masculina -- meio
morto-vivo, meio mordomo -- parecia extrada da banda sonora
do filme. Sempre que havia uma sobretenso na :, corrente
elctrica, a lgica de *Gort* ficava de tal modo baralhada, e
ele to pouco fivel, que tive de acabar por despedi-lo. A
minha nova mquina, a que chamo *Gertie*, fala-me numa voz
ainda mais monocrdica, mas feminina, inculta e leviana.
Quando em aco, *Gort* e *Gertie* parecem subservientes e
inofensivos e julgo que o fa-bricante pensa que isso  uma
vantagem. Nos *cockpits* de grandes avies ouvi recomendaes
computorizadas -- quase sempre numa voz feminina e suave (*) 

(*) As experincias comprovam que uma voz feminina a falar
baixo chama mais depressa a ateno do piloto do que um homem
ou mulher que falem alto. (*N da A*.)

--, dando ao piloto instrues urgentes como: Suba! Est
demasiado baixo. Suba! Est demasiado baixo!, ou
lembrando-lhe coisas como: Tem os estabilizadores virados
para baixo. As vozes sintetizadas do *cockpit* parecem mais
reais por-que tm inflexes e modulaes, mas de um modo geral
as vozes computorizadas so muito artificiais. Creio que 
algo que mudar um dia, e ento conversaremos amigavelmente
com computadores como o *Hal*, do *#2001* de Arthur C.
Clarke. Tem sido difcil consegui--lo, porque o discurso 
mais complexo do que a soma das suas partes. Podemos
introduzir a palavra *top* num computador como *t-o-p*, mas
nem todos falam com a clareza de um locutor da BBC! No
entanto, compreendemos o que  dito pelas pessoas que falam
to depressa que mal pronunciam os fonemas, ou to devagar que
arrastam as pa-lavras, ou em diferentes tons, alturas e
sotaques. O que para um ho-mem  um parque para outro  um
paque. Compreendemo-nos uns aos outros, demonstrando uma
incrvel agilidade, embora por vezes tenhamos de facto de
fazer algum esforo. Assim como para muitos falantes de lngua
inglesa  difcil entender o ingls de Shakespeare, tambm
para um americano de determinada regio  difcil compreender
um americano de outra, visto que os dialectos consistem, em
parte, na alterao da pronncia de palavras comuns. Quando
estive em Fayetteville, no Arcansas, perguntei ao meu
anfitrio seno havia por ali nenhumas termas (*spas*). Tinha
ouvido falar das famosas Hot Springs, a sul do mesmo estado, e
pensei que visit-las seria uma maneira agradvel de passar a
tarde. *Spas*?, perguntou---me, no seu acentuado sotaque do
Arcansas. Refere-se a espies (*spies*) russos?


RUDOS BARULHENTOS


   H alguns anos, no Outono, aceitei passar um semestre como
professora convidada de uma faculdade numa pequena e :,
verdejante cidade do Ohio. As nicas instalaes para
professores con-vidados resumiam-se a uma *suite* que havia no
dormitrio dos ra-pazes do segundo ano, cujos ocupantes
acharam que ter urna mulher a viver entre eles, por mais
discreta que ela fosse, era urna provocao. Ainda fazia um
calor insuportvel no Ohio, mas qua-se todas as noites havia
algum que se escapulia at ao quadro da electricidade  minha
porta e desligava os fusveis, de modo que o meu aparelho de
ar condicionado e todos os outros electrodoms-ticos paravam
com um estrondo; quando eu abria a porta para voltar a ligar
os fusveis, ouvia passos e risinhos ao fundo do corredor. Um
grande globo ocular fitava-me sempre que eu espreita-va pelo
olho mgico que havia na porta, at que decidi tap-lo com
fita isoladora. Por duas vezes acordei e vi um jovem
pendu-rado de pernas para o ar em frente da janela da sala,
mexericando clandestinamente no cabo da TV, tentando reduzir
o meu sinal. E todos os dias sem falta, s 9h da manh, tinha
incio um suplcio de *heavy-metal rock*, que seguia aos
berros pela noite dentro. Uma coisa que aprendi acerca dos
rapazes do segundo ano  que so s decibis e testosterona.
No s a msica fazia estremecer as paredes, como tornava
fisicamente dolorosa a travessia do cor-redor debaixo daquele
nvel torturante de som, com a agravante de que bater a uma
porta implicava retirar uma mo de um ouvi-do. Em geral, a
porta abria-se para um quarto cheio de fumo, onde as raparigas
se apressavam a compor-se e os vestgios de lcool ou droga
desapareciam num instante. O barulho diablico no pa-recia
incomodar qualquer deles. quele volume, era quase
impos-svel ser decifrado como msica. Por outro lado, estavam
todos precocemente surdos, como  vulgar nos nossos dias entre
os ma-nacos do *rock* barulhento. Muitos adolescentes gostam
de ouvir msica a nveis to elevados e distorcidos que ela
passa a ser nada mais do que intensidade. Creio que deve ter
sobre eles um efeito ertico qualquer. Infelizmente, a
intensidade pode destruir para sempre o ouvido. Alguns
investigadores fotografaram clulas de pelos da cclea
irreversivelmente danificadas aps uma nica ex-posio a
rudos muito intensos. (*) 

(*) Ao estudar a relao entre a alimentao e as doenas
cardacas, alguns investigadores finlande-ses descobriram que
uma dieta com um baixo teor de gordura pode melhorar a
audio. Parece que o colesterol elevado, a tenso alta, o
tabaco e a cafena dificultam a circulao sangunea,
limitando tambm o fluxo de sangue para os ouvidos. Numa
experincia em que se expuseram ratazanas com uma alimentao
pobre em gorduras a rudos muito intensos, verificou-se que os
danos nos ouvidos eram muito menores. (*N. da A*.)

Passear um tijolo com o vo-lume no mximo num local
sossegado, durante uma tarde calma, ou pelas ruas de uma
cidade muito movimentada , talvez, mais :, um acto de
agresso e prepotncia do que de amor pela msica:
todas as pessoas em redor vero o seu territrio pessoal
invadido, a sua paz de esprito interrompida.
   A psicloga Arlene Bronzaft descobriu que expor crianas a
um rudo crnico amplifica a agressividade e tende a refrear
o comportamento saudvel. Num estudo em que participaram
alunos do ensino bsico de uma escola primria em Manhattan,
verificou-se que as crianas cujas salas de aula ficavam
voltadas para as linhas do comboio chegavam ao sexto ano com
onze meses de atraso em leitura, em relao s do lado mais
silencioso do edifcio. Depois de o
Departamento de Trnsito de Nova Iorque ter instalado nas
linhas equipamento para reduzir o rudo, deixaram de existir
diferenas entre os dois grupos. No passa pela cabea dos
pais preocuparem-se em saber de que lado da escola vo os seus
filhos ter aulas e, no entanto, onze meses de atraso num ciclo
de ensino que dura apenas quatro anos  desastroso. Uma
criana teria de fazer um esforo enorme para recuperar. E
depois admiramo-nos pelo facto de
certas crianas no conseguirem aprender a ler, por o
insucesso escolar ser to elevado em Nova Iorque. Martelos
pneumticos, rebitagem e outros rudos caractersticos das
obras pblicas fazem parte da vida nas grandes cidades, mas
isolando os edifcios em construo com coberturas em malha de
ao, que absorve o som,  possvel erguer um prdio sem fazer
muito barulho.  medida que a civili-zao se alastra, at os
idlicos refgios campestres podem tornar-se insuportavelmente
ruidosos, obrigando-nos a solues extremas para encontrar paz
e sossego: um silencioso parque na Antrctida, uma casinha de
frias subterrnea.
   Sem o altifalante, nunca teramos conquistado a Alemanha,
escreveu Hitler no seu *Manual da Rdio Alem*, em 1938.
Quando pensamos em barulho, imaginamos altifalantes, rdios a
tocar como armamento de primeira linha, metropolitanos a
trovejar e a chocalhar. O que  um rudo? Ser simplesmente um
som aleatrio com
uma intensidade que provoca dor? Tecnicamente, um rudo  um
som que contm todas as frequncias; est para o som como o
branco est para a luz. Mas os sons que nos irritam so
aqueles suficientemente altos ou agressivos para serem
potencialmente prejudiciais ao ouvido. Como um rudo alto ou
nos arranha a psique ou di efectivamente, desejamos
afastar-nos dele. Mas existem tam-bm sons inofensivos de que
simplesmente no gostamos e tendemos a classific-los tambm
como rudos. A dissonncia musical, por exemplo. Em 1899,
quando o pblico ouviu pela primeira vez a revolucionria
*Noite Transfigurada* de Arnold Schonberg, achou-a :, mais
prxima do rudo organizado do que da msica. Que
baru-lheira!, grita um passageiro ao amigo que est do outro
lado da es-treita coxia de um pequeno avio, um *Metroliner*
ou um *Beech 1900*, enquanto os propulsores rugem, com um
rudo estridente como o da broca do dentista, que ensurdece ao
aproximar-se do osso. Quando uma pessoa raspa as unhas num
quadro de ardsia, crispamo-nos e arrepiamo-nos. H tantas
pessoas pelo mundo fora que ficam uma pilha de nervos ao ouvir
esse som, que no deve tratar-se apenas de uma mania, mas sim
de algo biolgico. Alguns neurologistas suge-riram que poder
ser um vestgio da nossa evoluo, quando agu-dos gritos de
horror prenunciavam um fim sbito. Ou talvez se assemelhe
demasiado ao rudo feito pelas garras de um predador riscando
devagar uma rocha mesmo atrs de ns.


:os limites do ouvido,
o poder do som


   No auge da nossa juventude, os nossos ouvidos distinguem na
perfeio frequncias de 16 a 20.000 ciclos por segundo 
-- quase dez oitavas --, o que abrange uma grande variedade de
sons. O d central  de apenas 256 ciclos por segundo,
enquanto as principais frequncias da voz humana situam-se
entre os 100 ciclos por se-gundo para os homens e 150 para as
mulheres.  medida que en-velhecemos, o tmpano torna-se mais
espesso, os sons de alta frequncia j no passam com tanta
facilidade, atravs dos ossos e dos seus intervalos, para o
ouvido interno e comeamos a perder as duas extremidades do
registo, em especial as notas agudas, como verificamos ao
ouvir as nossas msicas preferidas. Os seres huma-nos no
ouvem muito bem as baixas frequncias, o que  uma sorte; se
as ouvssemos, os sons produzidos pelo nosso prprio corpo
se-riam to ensurdecedores como estar sentado numa cadeira de
jar-dim junto a uma queda-d.gua. Porm, muito embora
estejamos limitados a um determinado registo de sons, somos
peritos na ex-panso dos nossos sentidos. Um mdico ouve
melhor o corao de um doente com um estetoscpio. Penduramos
microfones em locais inslitos: debaixo de barcos para escutar
o canto das baleias, dentro do corpo para registar o fluxo
sanguneo. Ouvimos o que se passa nas profundezas do espao
e do tempo com o auxlio de ra-diotelescpios. Os morcegos e
os golfinhos desenvolveram utiliza-es engenhosas para sons
que o Homem no ouve, mas que veio a inventar. No diagnstico
de tumores, os mdicos recorrem a uma forma de localizao
atravs de som, conhecida por ultra-sons e :, constituda por
mais de 20.000 ciclos por segundo. A primeira vez que uma
grvida v o seu beb  atravs de uma imagem de ultra-sons.
Os engenheiros empregam os ultra-sons em testes para verificar
a capacidade de voar dos avies. Os joalheiros usam ultra-sons
na limpeza de pedras preciosas. A medicina desportiva usa
ultra-sons no tratamento de entorses. E, claro, a marinha usa
a localizao por ultra-sons nos submarinos, embora lhe chamem
sonar. Podem adquirir-se coleiras contra pulgas para ces e
gatos, nas quais ondas sonoras de alta frequncia afastam e
afugentam as pulgas, mas no so ouvidas nem pelo animal nem
pelo dono. Podemos dizer Sou todo ouvidos, mas temos
tendncia para empertigar a cabea ou pr a mo em concha
atrs da orelha para ouvir melhor e, quando a audio nos
comea a faltar, usamos altifalantes electrnicos
retumbantemente pequenos. Os primeiros aparelhos auditivos
eram grandes como *abot-jours* e acrescentavam apenas vinte
decibis; hoje so pequenos e discretos e muito mais
poderosos.
No entanto, apesar de amplificarem o mundo no seleccionam o
que nele  mais importante, o que precisa de ser ouvido, nem
excluem aquilo que  simples rudo.
   Na selva de fios elctricos e monitores da unidade de
cuidados intensivos de um servio de cardiologia, vem-se
luzinhas a piscar como olhos de animais selvagens, e os
coraes humanos do a conhecer a sua fria atravs de
minsculos e montonos *bips*. Se o corao de um doente
comea a emitir sons desarticulados, tcnicos atentos
ouvem-nos e vm a correr. Porm, um grupo de investiga-dores
do estado de Michigan est a propor monitores mais complexos e
subtis, capazes de produzir uma srie de notas e no apenas
*bips. As mudanas na melodia do corao constituiriam pistas
para o seu estado. Habituados como estamos a associar o
corao ao som, nada disso nos parece muito rebuscado. O mesmo
no podemos dizer da outra proposta dos investigadores para o
uso do som -- ouvir irregularidades qumicas na urina dos
doentes --, e eles
tm tido de suportar inmeras piadas sobre o seu estudo do
chichi musical.
   Pensamos no som como algo de irreal, mais leve do que o
ar, uma coisa inconsistente e no uma fora com musculatura.
Porm, na Intersonics, Inc., em Northbrook, no Illinois,
comeou a usar-se o som para levantar objectos, naquilo que
referem como levitao acstica. At agora, a maior parte
dos objectos foi levantada graas  aerodinmica ou ao
electromagnetismo. Os ultra-sons tambm podem levantar
objectos. Dispem-se quatro transformadores de energia
acsticos, emitindo ondas ultra-snicas, de modo a dirigirem
estreitos raios para :, um ponto central. No ponto de
interseco desses raios produz-se uma fortificao invisvel,
na qual pequenos objectos podem ficar em sus-penso. Embora o
som tenha uma altura maior do que a de um motor a jacto, um
adulto no consegue ouvi-lo. Enquanto flutuam, os objectos no
sentem nenhuma fora acstica, mas se deslizam para uma das
pa-redes da fortificao, o polcia sonoro volta a
empurr-los para o seu lugar. S se do conta de que esto
enclausurados quando tentam li-bertar-se; por conseguinte, os
objectos parecem flutuarem no reino mgi-co dos tapetes
voadores. Mas para a indstria do sector no se trata de um
jogo de salo, pois esta experincia permite manter um objecto
no seu lugar sem ser preciso tocar-lhe, sem contamin-lo. Os
raios ultra-snicos so suficientemente poderosos para aquecer
um espao pequeno  temperatura do Sol, ou estilhaar e voltar
a arrumar mol-culas, empilhando-as em camadas como se fossem
panquecas. Os cientistas esperam empregar ultra-sons na
criao de novos tipos de vidro, incluindo cpsulas de vidro
perfeitamente uniformes, destinadas ao combustvel hidrognio
nos reactores de fuso nuclear; em lentes de ligas brilhantes
e em fabulosos supercondutores e materiais electrni-cos.
Outra aplicao possvel  a produo no espao. Fornalhas de
levitao ultra-snica viajaram dentro de vaivns espaciais
em 1983 e 1985. Novas ligas metlicas poderiam ser feitas de
materiais de al-tas temperaturas, visto que no haveria o
perigo de os recipientes derreterem.


A audio
(continuao)




A SURDEZ


   Um dia, ao sair de uma sala insonorizada, John Cage
declarou que o silncio era algo que no existia. Mesmo que
no ouamos o mundo exterior, ouvimos a farfalheira, o
latejar, o chiar dos nossos corpos, bem como ocasionais
zumbidos, campainhas e guinchos. Os indivduos surdos por
vezes falam da variedade de sons que ou-vem. Muitos indivduos
comprovadamente surdos ouvem disparos, avies a voar baixo,
martelos pneumticos, motas e uma srie de outros rudos
fortes. O facto de serem surdos no os impede de te-rem
problemas nos ouvidos, j que estes no servem s para ouvir.
Como qualquer pessoa que j tenha tido uma otite interna sabe,
uma das tarefas mais importantes dos ouvidos  manter o
equilbrio e a estabilidade; o funcionamento interno dos
ouvidos assemelha-se a um giroscpio biolgico. No ouvido
interno, canais semicirculares (trs tubos cheios de lquido)
dizem ao crebro quando  que a cabea se move e de que modo.
Se enchessem um copo at meio com gua e o fizessem girar, a
gua rodaria e, mesmo depois de o copo estar :, pa-rado
continuaria a rodar durante uns segundos. Do mesmo mo-do,
sentimo-nos tontos ao sair de um carrossel. Nem todos os
animais ouvem, mas todos precisam de saber pr-se de p. Temos
a tendncia para pensar que os surdos so pessoas sem ouvidos,
mas eles so to atreitos a doenas dos ouvidos como os que
ouvem.
   Apesar de toda a sabedoria popular em volta da importncia
da audio (incluindo a mxima, com dois mil anos, atribuda a
Epicteto, o *Estico*: Deus deu ao Homem dois ouvidos, mas
apenas uma boca, para que ele oua o dobro do que fala), a
maio-ria das pessoas, se pudesse escolher, preferiria perder a
audio do que a vista. Mas os que so simultaneamente cegos e
surdos por vezes lamentam a perda do ouvido mais do que
qualquer outra, e talvez ningum o faa de forma to
persuasiva como Helen Keller:

---------------------------
   Sou to surda como cega. Os problemas da surdez so mais
pro-fundos e complexos, talvez mesmo mais importantes, do que
os da cegueira. A surdez  um infortnio muito maior. Ela
significa a perda dos estmulos mais vitais: o som da voz que
transporta a lin-guagem pe em actividade os pensamentos e
mantm-nos na com-panhia intelectual dos homens... Se eu
pudesse voltar atrs, faria muito mais do que fiz pelos
surdos. Descobri que a surdez  muito
mais desvantajosa do que a cegueira. (*)
---------------------------

(*) Extracto de uma carta escrita em 31 de Maro de 1910,
dirigida ao Dr J. Kerr Love, e publicada no folheto
comemorativo da visita de Helen Keller  Misso dos Adultos
Surdos-Mudos em Queensland, no ano de 1948 (*N da A*.)

   A literatura de autores surdos  extraordinariamente rica.
Escritores e pensadores , de Herdoto a Guy de Montpassant,
escreveram, com emoo, eloquncia e encanto, sobre a sua
prpria surdez ou a de amigos e entes queridos. O leitor
interessado pode recorrer  antologia de Brian Grant, *The
Quiet Ear*, uma excelente recolha de textos sobre a surdez
atravs dos sculos e nas diferentes cultu-ras. Mark Medoff
escreveu uma pea vigorosa intitulada *Filhos de Um Deus
Menor*, de que foi feito um filme igualmente con-vincente. Os
meus livros preferidos sobre a surdez so: *Deaf-ness: A
Personal Account*, a autobiografia do poeta David Wright, e
*Words for a Deaf Daughter*, um clssico livro de me-mrias
da autoria do romancista Paul West. Lendo a obra de Wright
ficamos a saber que o seu mundo, embora contenha pouco :, som,
raramente *parece* silencioso, visto que o seu crebro'',
transforma o movimento numa gratificante sensao sonora:

---------------------------
   Suponham que estava um dia calmo, absolutamente tranquilo,
nem uma folha bulia. A mim, ele pareceria silencioso como um
tmulo, mesmo que os arbustos estivessem repletos de aves
baru-lhentas mas invisveis. Ento, soprava uma brisa, o
bastante para inquietar uma folha; eu veria e ouviria esse
movimento como uma exclamao. A ilusria ausncia de som fora
interrompida. Veria, como se estivesse a ouvi-lo, o sussurro
do vento na folhagem em tumulto... Por vezes, tenho de fazer
um esforo para me lembrar de que no estou a /ouvir/ nada,
pois no h nada para ouvir. Entre tais /no sons/ contam-se o
voo e o movimento das aves e at pei-xes a nadar nas guas
lmpidas de um tanque ou aqurio. Calculo que o voo da maioria
dos pssaros, pelo menos  distncia, deve ser silencioso...
No entanto, *parece* audvel, cada espcie criando uma 
/msica-olhar/ diferente, desde a melancolia despreocupada das
gaivotas ao *staccato* dos fugazes serezinos...
---------------------------

   *Words for a Deaf Daughter*, de West,  frequentemente
citado em bibliografias universitrias, e no apenas, como
seramos levados a supor, de cursos para ou sobre surdos.
Escrita com generosidade, com muito humor e uma devoo
prodigiosa, interessa tambm aos estudantes de filosofia e
literatura como um hino ra-diante  linguagem e  vida.
Inteiramente escrito na segunda pes-soa, dirige-se  filha
surda de West, Mandy, que muitas vezes personifica. E, ao
contrrio do que acontece em muitos livros de memrias sobre
crianas deficientes, no  nem um pouco piegas, mas antes
divertido e potico na forma como aborda a batalha que todos
temos de travar para nos conhecermos a ns prprios e nos
darmos a conhecer. Tais livros permitem-nos es-preitar a vida
interior dos que no ouvem, um privilgio muito especial,
visto muitas pessoas julgarem que os surdos, em espe-cial os
que no sabem ler nem escrever, pensam de modo dife-rente,
debatendo-se nessa terra-de-ningum que fica entre o conceito
e a palavra. Porm, tal como esclarece a literatura dos
surdos, tanto ideias como emoes conseguem encontrar o seu
caminho com surpreendente destreza, seja em ingls, amerndio
ou qualquer outra lngua, do silncio para o mundo interior
onde as palavras so ouvidas


ANIMAIS


   Um antigo provrbio chins diz: Um pssaro no canta por
ter uma resposta; canta porque tem uma cano. Poucos sons
animais so to belos como o canto de um pssaro. Depois de
ouvirmos um bacurau lanando o *boomerang* da sua voz atravs
dos matagais du-rante o Vero, passamos a escutar com uma
sensao nova de pri-vilgio. Os pssaros quando nascem ainda
no conhecem a sua cano; aprendem-na com os pais. Se criarem
alguns pssaros lon-ge dos progenitores e lhes assobiarem algo
diferente -- as notas de abertura da *Nona* de Beethoven, por
exemplo --, eles aprendero o que lhes ensinarem e, decerto,
os vossos vizinhos vo chamar-lhes os pssaros Beethoven.
At aprenderem a compor canes ver-dadeiras, os pssaros
bebs balbuciam, tagarelam e fazem um gran-de alarido que
parece no ter qualquer significado. Como os bebs humanos,
esto a descobrir o impacte de serem capazes de criar sons;
acabam por aprender a control-los e ento praticam. A voz 
um instrumento complexo que podemos usar sem precisarmos de
saber muito a seu respeito. Mas para us-la com sentido 
mesmo necessrio conhecer-lhe os limites e as capacidades. Dai
o balbu-ciar. Os pssaros tm dialectos, tal como as pessoas.
Um corvo de New Hampshire que nunca tenha viajado no
responder ao grito de um corvo do Texas, mas os corvos de
regies diferentes enten-dem-se uns aos outros, exactamente
como os rabequistas de diver-sos estados, quando se encontram
na conveno de Ozarks.
   Alguns animais ouvem em amplitudes muito maiores ou muito
menores do que ns e com uma delicadeza e uma acuidade
impres-sionantes. Um co consegue distinguir os passos do dono
dos de outros membros da famlia ou visitas habituais da casa.
A minha famlia teve um co que reconhecia o barulho do motor
do carro da minha me entre todos os que passavam pela casa.
Nos EUA, qual-quer pessoa pode hoje comprar uma espcie de
buzinas de nevoeiro em miniatura que se aplicam de cada lado
do automvel. Quando o carro avana a mais de cem  hora, o
vento, ao entrar nas buzinas, assobia de modo a alertar
veados, ces ou outros animais que surjam no caminho.  um som
demasiado agudo para incomodar um ouvido humano, mas a um co
dormitando no meio da estrada parece a sirene de uma rusga
policial. Os veados quase no fazem barulho, mas ouvem bem.
Numa experincia recente, um investigador
da Nova Zelndia conseguiu, imitando o grito de acasalamento
do macho, despertar o desejo sexual numa fmea de veado. Os
peixes no dispem de ouvidos externos, mas ouvem vibraes
atravs da :, gua, assim como ns ouvimos os sons propagados
pelo ar. Certos animais movem as orelhas como se elas fossem
pequenos radares, mantendo a cabea imvel. J vi as orelhas
de veados, ces, gatos e outros animais estremecerem em
verdadeiros arpejos. Graas a urna inteligente disposio das
orelhas, uma ligeiramente acima da ou-tra, os nocturnos mochos
conseguem detectar quaisquer rudos, alm de terem as
extremidades das penas levemente franjadas para abafar a sua
aproximao quando esto a caar. Talvez fosse mais prtico
ter apenas uma orelha central, mas duas tornam mais fcil a
localizao do som, tal como dois olhos fornecem uma percepo
profunda. Os elefantes-africanos tm grandes orelhas moles e
pen-dentes, que quase s ouvem os rudos que vm de baixo, e
produ-zem um som de baixa frequncia que ns no conseguimos
ouvir, mas graas ao qual comunicam entre si. (*) 

(*) Numa carta dirigida ao director da revista *National
Geographic* (Dezembro de 1989), Armand E. Singer conta: Eu
estava a passear de elefante na floresta Terai do Nepal quando
ouvi, to baixo que era quase inaudvel, um ronco surdo e
distante como o de um gerador *diesel*. Era, afi-nal, o meu
elefante, cheio de medo de um rinoceronte que andava por ali e
cujo cheiro ele tinha detectado. (*N da A*.)

Muitos insectos tm ouvi-dos onde menos se espera, como por
exemplo nas pernas ou de-baixo das asas.
   Conheci uma gata j velha que, quando estava com o cio, no
parava de soltar lancinantes miaus, como um tocador de
harm-nica fora de si, e enquanto percorria o apartamento de
um lado para o outro, s parando para empertigar o traseiro na
atitude felina de convite ao acasalamento, conhecida por
lordose. Poucos sons so to belos como os das rainetas das
Bermudas, Porto Rico ou outras i-lhas soalheiras. Com pouco
mais de trs centmetros de comprimento, entoam durante a
noite uma melodia doce como a de harmoniosas har-pas. Pensa-se
que as rs de Porto Rico localizam sons por meio dos pulmes.
As ondas sonoras atingem os flancos do corpo da r e che-gam
ao tmpano seguindo uma rota que passa pelos pulmes. Nesta
era de superespecializao, partimos do princpio de que
tambm o corpo se especializou e desenvolveu cada parte de
acordo com o fim a que se destinava. No entanto, parece que h
zonas com tarefas diversificadas. Alm das rs, algumas cobras
e lagartos ouvem igualmente atravs dos pulmes; nas toninhas
e golfinhos, julga-se que o som  propagado pelo maxilar
inferior, cujo interior  oleoso. Nem todos os animais se
servem do som apenas para ouvir. Para os cachalotes, os
golfinhos e outros, o som pode ser uma arma. Pensa-se que
atordoam as presas com fortes estrondos cuja repercusso pode
provocar, em peixes pequenos como a anchova, hemorragias
internas. :,
   Hoje, os grilos esto a cantar muito alto, furiosos,
esfregando as asas em estridentes canes. Parece cantarem em
unssono, mas es-sa sintonia  obra do acaso. No os ouo
falar uns com os outros, visto que os grilos comunicam na
esfera ultra-snica, demasiado aguda para os ouvidos humanos.
O que eu ouo  irrelevante para eles, no passa do barulho
feito pelas asas a bater. Se eu fizesse um registo magntico e
depois passasse a gravao para os grilos ouvi-rem, eles no
lhe responderiam. Cada tipo de animal parece ter as suas
prprias alamedas de som, nas quais comunica e s quais os
seus ouvidos so mais sensveis. Se assim no fosse, teriam de
pas-sar a vida aos guinchos para se fazerem ouvir por cima da
algazarra das outras criaturas.
   Existem plataformas de audio. A Natureza confere aos
ani-mais algum decoro e privacidade no que respeita  sua
prpria es-pcie. (*) 

(*) Tal como existem nichos no cu, os diferentes pssaros,
morcegos, insectos, plenes e outros voadores preferem
determinadas altitudes, de modo a no entrarem em competio
uns com os outros (nas suas mi-graes, os gaios voam baixo
durante o dia e as aves martimas voam mais alto durante a
noite). (*N da A*.)

Se assim no fosse, um aviso dirigido aos seus iguais tambm
seria captado pelos predadores. Claro que isto nem sempre
funciona como devia. Um tipo de morcego da Amrica Central,
que tem um apetite especial pela r *Physalaemus*, persegue a
presa pelo som. Escuta o grito de acasalamento da r macho,
sabendo que quanto mais alto ele for, mais gorda e apetitosa
ser a r. Tudo isso coloca a r numa situao extremamente
difcil. Cheia de desejo sexual, em plena noite tropical, a r
tem de cantar bem alto para aliciar uma companheira... mas
pode atrair antes um morcego es-fomeado. E, no entanto, se a
cano for fraca no atrai nem um nem outro.
   Um dia, no ms de Dezembro, fui com o especialista em
morcegos Merlin D. Tuttle a Bracken Cave, no Texas, uma
gru-ta-viveiro habitada por milhes de mes e bebs morcegos.
Um pouco antes do pr do Sol, sentamo-nos no anfiteatro
natural de pedras  entrada da gruta e aguardmos o incio do
espectculo emocionante que sabamos prestes a principiar.
Assim que a ver-melhido do poente surgiu, alguns morcegos
voaram para fora da gruta, descreveram crculos para ganhar
altitude e desapareceram na noite, em busca de comida; depois
apareceram mais alguns, e logo a seguir dzias deles, em
seguida centenas, at que de repente o cu estava coberto de
morcegos. Merlin e eu sentimos a forte bri-sa que eles
provocavam ao passar rente s nossas cabeas, mas sem nos
tocar, pois detectavam a nossa presena atravs de
ecolocaliza-o. Ento, Merlin ergueu rapidamente um brao e
apanhou um :, deles, segurando-o com cuidado para podermos
observar a sua adaptao  ecolocalizao, bem visveis logo
na pele da cara: pe-quenas pregas e dobras que funcionam como
antenas de radar.
   Os morcegos assobiam ou chamam as suas presas por meio de
um fluxo constante de rudos de alta frequncia. O seu
braille vocal  demasiado agudo para qualquer de ns o
ouvir, visto os morcegos emitirem estalidos a uma mdia de
50.000 ciclos por segundo. No auge da nossa juventude, apenas
distinguimos sons at a um mximo de 20.000. Os morcegos do
estalidos com dez ou vinte intervalos por segundo e os
detectores de morcegos, usados pelos naturalistas, traduzem
os rudos ultra-snicos para trinados e estalos audveis pelos
ouvidos humanos. Como megafones provi-dos de asas, os morcegos
difundem as suas vozes, depois escutam o respectivo eco. 
medida que se aproximam da presa, esses ecos tornam-se mais
rpidos e agudos, e  pelo tempo que decorre entre os ecos que
os morcegos calculam a que distncia est a presa. Os sonoros
ecos de um muro de tijolo ou do cho ouvidos pelo morcego tm
um som diferente dos ecos fluidos de uma flor ou fo-lha. Um
morcego  capaz de elaborar uma eco-imagem completa do seu
mundo, um desenho pormenorizado de todos os objectos e
animais, at ao mais pequeno detalhe da sua textura,
movimentos, distncia e dimenso. Um local cheio de morcegos
pode pare-cer-nos silencioso, mas os morcegos esto a gritar
muito alto, s que no conseguimos ouvi-los. Em *The Scale of
Nature*, o bilogo John Tyler Bonner prope uma forma de pr a
ecolocalizao em termos humanos:

----------------------------
   Recordo-me de ter navegado junto s ilhas San Juan, no
estreito de Puget, no meio de um denso nevoeiro. Apesar de o
brao de gua entre as ilhas ser muito estreito, era
impossvel ver terra. O piloto do *ferryboat* comeou por
dizer gentilmente a todas as mes que mandassem as crianas
tapar os ouvidos. Em seguida, tocou a buzina, ps a cabea
fora da cabina e inclinou-se para um lado, depois repetiu a
operao inclinando-se para o outro. Pelo tempo que o eco
de-morou a ser ouvido, calculou a distncia a que nos
encontrvamos da praia. Estava muito mais confiante no
processo do que eu.
---------------------------

   A ecolocalizao  apenas mais um dos sons animais fora do
alcance do nosso ouvido. O louva-a-deus serve-se de
ultra-sons; os elefantes e crocodilos recorrem a infra-sons.
Poucos espectculos protagonizados por animais so mais
emocionantes do que a dana :, da gua dos jacars machos.
Esticando a sua grande cabea para fora da gua, o jacar
dilata a garganta, retrai os msculos como um culturista e
depois lana um jacto de ar que troveja e rola, fazendo a gua
em volta do seu corpo assobiar e subir, numa chuva invertida
de diamantes. Ns s vemos a gua danar, mas os outros
jacars ouvem tambm o seu sinal infra-snico, apenas emitido
pelos ma-chos, talvez num ritual de acasalamento, ou num
insulto dirigido aos demais machos. Embora as fmeas do jacar
tambm inchem e batam com a cabea na gua uma vez por outra,
no executam uma dana da gua. Contudo, sendo experientes
decifradoras, recebem a mensagem assim transmitida. E, de vez
em quando, um macho, excitado, entediado e muito inspirado,
faz uma srie de danas da gua, num longo bailado cheio de
movimento, msica e desejo.
   Tambm no ouvimos a maior parte dos sons emitidos debaixo
de gua, e isso leva-nos a pensar que os vastos oceanos sao
silen-ciosos, o que no pode estar mais longe da verdade.
Leonardo da Vinci sugeriu que mergulhssemos um remo na gua,
encosts-semos um ouvido ao seu cabo e escutssemos. Os
pescadores da frica Ocidental, bem como os dos mares do Sul,
descobriram o mesmo truque. Usando um remo como se fosse uma
palhinha, mas para ouvir, consegue-se escutar os sons do mundo
submarino. H peixes muito barulhentos. O ruivo, o
peixe-martelo e muitos ou-tros emitem sons ampliados pelas
suas bexigas natatrias; o bo-ca-de-fogo ronca suficientemente
alto para manter toda a noite acordados os pescadores do mar
da China; o cangulo do Havai ran-ge ruidosamente os dentes; o
peixe-sapo macho rosna; os golfinhos estalam e guincham como
cadeiras giratrias a precisar de leo; as baleias da
Gronelndia ronronam e chilreiam; as baleias-de-bossa simulam
um festival de canes. O oceano parece mudo, mas est repleto
de rudos produzidos pelos animais, pelo rebentar das on-das,
pelo movimento das mars, pelo trfego de navios e por
tem-pestades errantes, todos eles encerrados no seio da gua,
tal como os nossos sons esto encerrados na atmosfera.
   Como o mundo nos pareceria vazio sem o barulho dos animais!
Os melros a chicanear como druidas. Os cavalos a galope num
ata-lho de terra macia. Os corvos, que parecem engasgar-se nas
rvo-res. Os balbuciantes chapins, pendurados nos ramos, de
cabea para baixo. O buzinar dos alces, semelhante ao som de
jogos de guerra distantes. O zunido metlico dos noitibs. Os
grilos (em ingls *cricket*, do francs *criquet*, chiar),
que parecem um grupo de crianas no infantrio. A lamria
elctrica das famintas fmeas de mosquito. O alfabeto morse do
pica-pau ruivo. :,


:areias movedias
e a cano das baleias


   Estou nas Bermudas, sentada na praia, e decido fabricar
areias movedias dentro de um copo. Primeiro meto alguma areia
no copo, depois acrescento gua at cobrir a areia e mexo com
fora. O resultado parece slido, como areia firme, mas quando
enfio l o dedo, rapidamente ele se afunda. As areias
movedias so areia suspensa em gua, areia que se encontra
to saturada que pode verter-se, como se de um batido de leite
se tratasse, algo de provisrio e no uma armadilha
definitiva. Nos filmes de terror, vemos pessoas que do um
passo em falso, ficam enterradas, afundam-se, agonizantes, e
depois sufocam. Mas nada disso  provvel que acontea, a no
ser que esbracejemos num pnico tal que o nosso corpo comece a
ir cada vez mais para o fundo, fazendo-nos comear a engolir
gua, a inspir-la, e acabar por nos afogarmos, como numa
piscina ou num lago. A densidade da gua  superior  do
corpo humano, tal como a da areia; e a mistura permite-nos
flutuar com o dobro da facilidade. O corpo bia, se lho
permitirmos. Tive contacto com areias movedias uma vez, num
rancho do Oeste onde estava a trabalhar. Uma vaca fora l
parar e entrara em pnico ao tentar sair, acabando por
afogar-se. Quando conseguimos la-la e arrast-la para fora,
tinha a pele coberta de uma argamassa irregular e as plpebras
fechadas pareciam cosidas com serapilheira. Hoje, lamento no
ter entrado para saber como eram aquelas guas, mas na altura
dei ouvidos aos conselhos dos vaqueiros. O seu conhecimento da
terra nunca me decepcionou e muitas vezes fiquei encantada com
tanta intuio e clareza. Eles j tinham visto cavalos e gado
assustados a debaterem-se at desaparecerem, atolados, e
convenci-me de que as areias movedias eram agressivas e
sempre fatais.
   O hipntico rebentar das ondas embala-me. Se me inclinar e
en-costar o ouvido  areia ainda ouo as ondas rebentar mais
cedo. As vibraes propagam-se dez vezes mais depressa pelo
cho. Se eu fosse uma habitante do Kalahari, esta noite
dormiria sobre o meu lado direito, o ouvido colado ao cho,
para poder escutar algum animal perigoso a aproximar-se; o meu
marido dormiria sobre o seu lado esquerdo, e os dois
acenderamos uma pequena fogueira para nos aquecer enquanto
dormssemos com os ouvidos pregados ao cho. Ou ento, se eu
fosse a personagem de um filme antigo de *cow-boys*, encostava
o ouvido aos carris, a ver se vinha l o com-boio-correio.
Como as ondas sonoras se conservam dentro do metal :, em vez
de se dispersarem no ar, ouviria as vibraes mesmo que
estivessem ainda muito distantes e saberia que o meu ordenado,
ou o meu amor, no tardariam a chegar.
   H horas que observo o oceano  procura de sinais de
baleias--de-bossa, cujas canes foram registadas pela
primeira vez por Frank Watlington, ao largo das Bermudas, e
mais tarde por Roger Payne. Quando fiz a minha ps-graduao
na Universidade Cornell, assisti a um concerto de violoncelo
em que Payne se fazia acompa-nhar por canes de baleias que
ressoavam, uivavam, rangiam os dentes, chiavam e pulsavam,
enchendo o amplo auditrio de uma msica irreal e fazendo os
meus ossos vibrar com as notas mais graves. No era a primeira
vez que eu ouvia canes de baleias; ti-nha o disco da
composio musical *And God Created Great Wha-les*, de Alan
Hovhaness, uma pea onde paira uma mistura de sons que ningum
esperava que resultasse numa cano. E no entanto as baleias
cantam mesmo. Na verdade, cantarolam em voz baixa. Os machos
inactivos e solitrios comeam a cantar no Inverno, a poca da
reproduo, e prosseguem com as suas baladas at arran-jarem
companhia, que vem interromp-las. As suas canes costu-mam
durar cerca de quinze minutos e eles repetem-nas horas a fio.
So canes extremamente estruturadas, obedecendo ao mesmo
ti-po de regras que encontramos na msica clssica. 
   Ainda por cima, as baleias vo variando as suas canes.
Todos os anos surgem novas expresses e novos elementos,
permitindo que as canes evoluam, tal como a linguagem. Em
cada cano, existe uma meia dzia de temas arrumados segundo
determinada ordem; se um tema  retirado, os outros conservam
a disposio original. Quando cantamos o hino dos EUA,
podemos optar por omitir o verso em que se diz que os soldados
ergueram um altar a Deus no orvalho e na humidade da noite e
manter os restantes versos na mesma ordem. Nas canes das
baleias h expresses que so repetidas de acordo com uma
gramtica cuidadosamente estru-turada. Talvez que o aspecto
mais impressionante de tudo isto seja que as baleias no s
aprendem essa linguagem complexa mas tam-bm conseguem no
esquec-la de estao para estao.  chegada, entoam a
cano do ano anterior, como os alunos que regressam s aulas
em Setembro; se durante a nova poca surgirem novas
ex-presses e grias, recordam-nas ao longo do ano e abandonam
o jargo que passou de moda. Elas no cantam expulsando ar,
como seria de imaginar. Nem usam os seus orifcios como se
fossem cla-rinetes, como costumamos ver nos bonecos animados.
Em vez dis-so, pensa-se que criam os seus rudos fazendo o ar
girar dentro da :, cabea. Tal como os cantores de pera,
controlam minuciosamente a respirao, de modo a no
prejudicar a fluncia da cano. A maioria das baleias prefere
captar o ar nas mesmas passagens, e isso permite aos
investigadores identificar o cantor pela respirao.
   Aqueles que j mergulharam entre baleias cantoras
declararam que a sensao causada pelas suas canes  como um
tambor res-soando no peito, ou um rgo a pedal tocado dentro
das costelas. Quem no quiser estar dentro de gua com elas
pode escutar e sen-ti-las cantar nas tbuas de madeira de um
barco. E no so apenas as baleias-de-bossa que cantam. As
baleias-brancas, ou belugas, possuem uma voz to doce e
comovente que os antigos baleeiros lhes chamavam canrios do
mar. Agora que a sua existncia se  encontra dramaticamente
ameaada pela poluio, as belugas esto a tornar-se os
canrios de um tesouro lquido, prevenindo-nos sobre a sade
do oceano. Quando os supersticiosos marinheiros escuta-vam as
canes melanclicas das baleias, que ecoavam atravs dos
cascos dos seus navios, ficavam cativados. Houve tempos em que
as baleias cantaram no Mediterrneo e provavelmente foram elas
que deram origem ao mito grego das sereias que seduziam os
mari-nheiros para um fim trgico contra as rochas. Difundidas
atravs da madeira das embarcaes, era impossvel localizar
as suas canes; os sons deviam envolver o barco num difano
vu musical. Na medida em que as baleias ululam em sons
inimitveis e variados,  difcil descrever as suas vozes, mas
uma vez escrevi o seguinte poema *so-noro*, aps ter ouvido um
concerto de baleias, e talvez ele ajude a dar uma ideia dessas
canes:


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:a cano das baleias


Falando a lngua da tempestade, 
uma baleia-de-bossa, antes de soprar, 
declina uma balada taciturna 
no mar cheio de crustceos, murmura 
lamentos profundos; como um demiurgo, 
ressoa de Erb a Santa Cruz, 
quando encalha, a sua buzina  um denso licor.

De crepes negros como num funeral, 
o cardume desliza, numa mmica hbil,
pelo mar salgado e galopante, 
cada baleia cantando 
a mesma cantiga de roda e de evaso. :,

Dedos secos tocam, arrastam e botem 
um balo cheio. A glote pausa. Estala 
Dedos secos de novo, tocando 
carrilhes sseos, que zunem 
e rimam -- vilancetes, cnticos breves, 
e um gregoriano feito em vrios tons

enquanto, encurraladas longe do ar, 
em busca de comida, cortejando 
ou chorando alguma morte,
satisfeitas ou horrorizadas, 
elas se arremessam contra o muro das lamentaes 
do mar, nadando nas trevas de massapo, 
invisveis, no fora a sua cano.

E por vezes as vozes erguem-se, 
como os olhos dos anjos, num refro 
desmaiado como o mar, intrigante, 
triste, cheio de dvidas, como se 
quisessem compreender o incompreensvel, 
e do cncavo oceano, da espuma vulgar, 
com um salto alcanar a praia, 
o seu bero de algas azuis.

Como trovadores negros e brilhantes 
tocando as suas flautas, cada corpo 
um instrumento, cada forma o daguerretipo 
de um monge oblato a cantar, 
elas migram, felizes com a sua algazarra, 
lamentando os mortos, assombrando o mar, 
espritos inquietos transportando uma cano.
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:os violinos no esquecem


   A msica, o perfume do ouvido, comeou provavelmente como
acto religioso, servindo para exaltar grupos de indivduos. Um
tam-bor pe imediatamente os coraes ao alto e um clarinete
transpor-ta-nos em carruagens de som. Tanto quanto nos 
possvel saber, desde o princpio do mundo que o Homem compe
msica. Os pri-meiros instrumentos utilizados na msica
ocidental devem ter sido paus ou pedras batidos uns contra os
outros, de modo a criar um ritmo. No tero faltado
oportunidades para toc-los: em danas re-ligiosas e outros
rituais; no acompanhamento de canes de :, trabalho; como
forma musical de ensinar os mais pequenos. Foram encontrados
instrumentos mesopotmicos com cerca de 5500 anos (flautas,
ferrinhos, instrumentos de corda e tambores) e os Mesopotmios
chegaram at a inventar um mtodo de notao musical.
Provavelmente, muito antes disso, j as pessoas tocavam
msica, soprando sobre ervas que seguravam entre os dedos ou
batendo com pau e pedras uns nos outros -- instrumentos que
hoje no seramos capazes de reconhecer. Os Maias tocavam uma
variedade de instrumentos de sopro feitos de barro
elaboradamente trabalhado, flautas, flautas de bisel e
ocarinas. Os que tinham a forma de um homem produziam notas
mais graves do que os que tinham uma, forma feminina. Alguns
tinham compartimentos secretos e tocavam cerca de dezassete
notas, outros eram tocados cheios de gua, a qual afectava o
som, e algumas flautas com chaves mltiplas tocavam vrias
notas ao mesmo tempo. Segundo alguns textos chineses, a msica
oriental surgiu por volta do ano 2700 a. C., quando o
im-perador Huang Ti mandou cortar tubos de bambu com
determinado comprimento de modo a poder imitar o cantar da
fnix. Se compa-rarmos campainhas chinesas de h 2400 anos com
a flauta chinesa dos nossos dias, verificaremos que os sons
so muito semelhantes e quase correspondem num osciloscpio.
Desde cedo que os nossos crebros e sistemas nervosos nos
levaram a preferir determina-dos intervalos entre os sons. Os
instrumentos evoluram devido ao profundo prazer interior que
a msica transmite, mas esse prazer tem limites. Muito do que
ouvimos parece-nos no passar, de dissonncia ou rudo,
enquanto tudo o que no ultrapasse determinada amplitude 
considerado suave, intelectualmente a-gradvel, melodioso.
   Aprendi a tocar violino no liceu e embora tenha praticado
oca-sionalmente durante oito anos nunca passei da montona
arcada, do *vibrato* paralisado e do dedilhar sem brilho de um
amador. Adorava o lustro arenoso e brilhante do verniz, que
permitia que o arco fosse puxado suavemente, como que
arrastado sobre a lngua spera de um gato. Comprei umas
cordas chamadas categute (*), 

(*) Do ingls *catgut*. *Cat* significa gato e *gut*
tripas. (*N. da T*.)

mas claro que no tinham nada a ver com gatos; o termo remonta
aos primrdios do violino, quando o pblico achava que as
cordas guinchavam como um gato estripado.  melhor ir
comprar-lhe uma tripa no-va!, dizia-se por piada e a
expresso pegou. Quando eu era adoles-cente e ensaiava
interminavelmente *The Entrance March of the Peers, The Young
Prince and the Young Princess* e *Say It with Mu-sic* :, para
as rcitas do liceu, ouvia falar de um violino escuro, quase
mtico, que tocava praticamente sozinho, um violino que
manifes-tava toda a emoo reprimida mesmo fechado dentro do
seu estojo. O seu nome aflorava aos meus lbios como fumo
mgico: *Stra-di--va-ri-us*. Quantas vezes ansiei por um
*Stradivarius* que convertesse as minhas notas agressivas em
ouro puro. Acabei por ascender  honrosa posio de primeiro
violino da orquestra, o que era fcil, pois bastava conseguir
tocar a melodia, sendo essa facilidade o ver-dadeiro motivo
que me levara a optar pelo violino. Tinha muita pe-na dos
tocadores de tuba que abriam a sopro o caminho para o
esquecimento. Alguns, embora fossem rapazes, no tinham uma
constituio atltica e quando se punham de p quase
desapareciam por trs do metal reluzente, pesado e alucinante,
como se tivessem sido engolidos por um argonauta espelhado. Os
percussionistas fa-ziam uma algazarra to irritante que eu
achava que deviam ser atenciosamente sepultados dentro dos
seus prprios tambores. Nada me atraa no dengoso e amaneirado
obo. As raparigas que tocavam flauta andavam sempre com o
nariz a pingar e, quando tocavam, pa-recia que estavam a ver
se apagavam uma pequena chama. O som dos clarinetes fazia-me
pensar em ratos. E a ideia de tocar violoncelo, viola de arco,
contrabaixo, ou qualquer outro instrumento, por mim
considerado subserviente, deixava-me fria. Eu queria tocar
msica e para mim msica era melodia, um violino a cantar
cheio de emo-o. Embora nunca tivesse ouvido um
*Stradivarius* ao vivo, j o conhecia dos discos e da
televiso e perguntava a mim prpria, co-mo muitas outras
pessoas, a que verniz ou produto mgico utilizado no seu
fabrico se devia aquela riqueza nica e ardente. Os
instru-mentos mais valiosos do mundo ainda hoje so os
*Stradivarius*. Fi-nalmente, os cientistas esto a comear a
perceber porqu.
   Ao longo dos anos, os investigadores atriburam o seu som
ini-mitvel a fluidos animais, a determinadas resinas, a um
fungo aqutico e a muitas outras poes misteriosas.
Recentemente, Peter Edwards e uma equipa de investigadores da
Universidade de Cam-bridge propuseram uma explicao mais
plausvel. Utilizando um mtodo chamado EDAX (espectroscopia
por raios X dispersivos de energia), deitaram sobre um
fragmento de violoncelo electres de alta energia, o que lhes
permitiu analisar os ingredientes da madeira. Para sua
surpresa, descobriram uma fina camada de po-zolana, terra
vulcnica trazida de Cremona, na Itlia, onde Stradi-varius
viveu. A terra vulcnica estava entre o verniz e a madeira e
provavelmente Stradivarius aplicava-a simplesmente como
reforo nos seus instrumentos, tratando-se de uma cola de uso
comum, :,
nunca lhe deve ter ocorrido que poderia afectar o som.  claro
que s por si a pozolana no seria capaz de criar um
*Stradivarius*, cuja idade, arquitectura e arte contribuem
para o som produzido. Muitos violinistas e fabricantes
insistem que os violinos vo adquirindo com o tempo os seus
belos sons guturais e que um violino magistralmente tocado
durante muitos anos acaba por se apropriar desses sons
exemplares. De algum modo, a madeira regista os belos voos 
lricos. Por outras palavras: certas vibraes repetidas vezes
sem conta durante anos, combinadas com o processo normal de
enve-lhecimento, podero dar origem a microscpicas alteraes
da madeira; essas alteraes celulares chegam-nos sob a forma
de tons enriquecidos. Em termos poticos: a madeira no
esquece. Da que uma das tarefas de um mestre violinista seja
educar um violino para as geraes vindouras.





MSICA E EMOO


   Uma das coisas que mais acalmam  encostar a lngua ao cu
da boca, mesmo por trs dos dentes, e cantar *la, la, la, la,
la, la, la*. Quando cantamos, no so s as nossas cordas
vocais que vibram, mas tambm alguns dos nossos ossos. Entoem
uma melodia com a boca fechada e vero que o som chega ao
ouvido interno atravs do crnio, sem se preocupar com o
tmpano. Entoem om ou qual-quer outra mantra num tom forte e
prolongado e sentiro vibrar os ossos da cabea e as
cartilagens do esterno.  como uma massagem vinda de dentro,
muito relaxante. Outra razo que explica que a mantra encoraja
a meditao  o facto de ela criar um rudo branco interior,
cancelando barulhos exteriores, transformando a nossa ca-bea
numa caixa  prova de som. Numa cerimnia judaica em que os
fiis se dobram e entoam cnticos, o efeito  o mesmo. Numa
macumba, o tambor faz-nos entrar numa fria crescente, que vai
subindo cada vez mais alto, como se escalasse o himalaia da
f. Todos esses sons se repetem hipnoticamente. Cada religio
tem a sua prpria liturgia que  importante no s para a sua
divulgao mas tambm porque obriga o iniciado a pronunciar as
mesmas pa-lavras milhes de vezes, at ficarem gravadas na
memria e se transformarem como que numa paisagem com aura.
Somos uma espcie capaz de acrescentar ao mundo coisas,
ideias, artefactos criativos, at mesmo sons, e quando o
fazemos tornam-se to reais como uma floresta.
   O que  estranho na msica  conseguirmos compreend-la e
reagir-lhe sem ser preciso t-la estudado. Numa expresso
verbal, :, cada palavra significa algo por si s; tem uma
histria e tem *nuan-ces*. Mas os tons musicais s tm
significado relacionados uns com os outros, uma vez
organizados. No  necessrio conhecer os tons para que eles
nos emocionem. Se dissermos as palavras: Ser simples  um
dom. Ser livre  um dom.  um dom nascermos onde devamos
nascer, nada de especial acontece. Mas se lhe acrescentar-mos
a melodiosa msica *shaker* que as acompanha (e que Aaron
Copland to bem adaptou em *Appalachian Spring*) (*), 

(*) Aaron Copland comps essa msica para Martha Graham quando
vivia em Hollywood, numa ca-sa sem janelas. (*N. da A*.)

a sua melodia obsessiva, com o entusiasmo, a alegria e a
convico suficientes pa-ra incitar uma aldeia inteira a
construir numa s tarde um celeiro para um vizinho, consegue,
sem dvida, cativar-nos. Quando estive na Florida, numa
colnia de artistas num esturio martimo, um dos meus alunos
de tcnica de escrita, que era tambm um soprador
profissional, regalou-nos certa noite com um concerto de
assobios, incluindo o hino *shaker, Simple Gifts*, e durante a
semana seguinte toda a gente entoava, assobiava ou cantava
esse ritmo vivo e alegre. Fica no ouvido:  a melhor
definio para uma melodia como es-sa; instala-se no nosso
inconsciente e no sai de l nem por nada. Muitos hinos no
precisariam de ter uma letra para empolgar-nos, mas com
palavras adquirem um duplo valor: msica emocional ligada a
recados emocionais. Resulta particularmente bem se o hino
tiver um final cadente, uma sncope musical. Na *Jerusalm*,
de Blake, essa sncope d-se na terceira estncia, na segunda
slaba da palavra desejo, que temos de cantar como um
suspiro numa nota abaixo:

Tragam-me um arco de ouro brilhante! 
Tragam-me setas de de-sejo!

   Poucos desejos nos parecem to ardentes e seculares como
esse, sobretudo se nos lembrarmos da seta de Cupido e dos dois
signifi-cados da palavra *quiver*. (*) 

(*) *Quiver* significa aljava mas tambm estremecimento,
tremor. (*N. da T*.)

Na cano de Natal *O Holy Night*, essa sncope surge logo a
seguir  palavra *fall*, no verso *fall on your knees*, e o
simples acto de cant-lo sanciona a splica. A maior parte dos
hinos sobe progressivamente, devagar, de degrau em de-grau,
das notas mais graves s mais agudas, conforme o cantor vai
subindo uma escadaria mstica, atingindo plataformas de
senti-mento cada vez mais elevadas. O *Amazing Grace*  um
excelente exemplo desse tipo de hino mais-leve-do-que-o-ar,
todo ele :, es-foro e distenso musicais, como se o nosso
prprio esprito esti-vesse a ser alongado. Tenham pensamentos
elevados enquanto entoam essa nobre melodia e num instante se
sentiro enaltecidos, (apesar de terem de cantar palavras nada
melodiosas como runa). Os hipnotizadores empregam uma
tcnica semelhante quando fazem as pessoas entrar num transe
profundamente sugesti-vo: por vezes, contam vrias vezes de um
a dez enquanto lhes di-zem para imaginarem que vo descendo um
pouco com cada algarismo. 
   Tal como as emoes puras, a msica avoluma-se e suspira,
comporta-se com violncia ou sossega e, nessa medida, tem um
comportamento to semelhante ao das nossas emoes que muitas
vezes parece simboliz-las, espelh-las, comunic-las aos
outros e, assim, libertar-nos dos mltiplos inconvenientes e
imprecises das palavras. Uma passagem musical pode fazer-nos
chorar ou provocar a subida na nossa tenso arterial. Se nos
pedem para definir a sensao, damos uma resposta vaga, como:
Entristeceu-me. Ou: Empolgou-me. Em *Great Pianists Speak
for Themselves*, vol. II, Paul Badura-Skoda escreve sobre a
*Fantasia em D Menor*, de Mozart:

-----------------------------
   E quanto ao contedo *emocional*? Que nos diz a obra?
Curio-samente, quando fao perguntas dessas nas minhas aulas,
recebo respostas bastante mornas, como: / uma obra sria/...
e s vezes nem isso. Sinto-me obrigado a exclamar: /No
compreendem, queridos amigos, que a msica  uma *linguagem*
que transmite *ex-perincias*? E que experincias! A vida e a
morte esto presentes nesta *Fantasia*. Posso dizer-vos qual
 a minha interpretao desta obra? A expresso de abertura 
um smbolo de morte: Chegou a hora! Impossvel escapar-lhe!/ O
resto da *Fantasia*  choque e ansiedade nas pginas um e
dois, que do depois lugar a uma srie de recordaes:
recordaes felizes, serenas, como o *adagio* em r e o
*andantino* em si bemol maior, ou violentas, cheias de
angstia, como as duas seces moduladas e rpidas, at que
finalmente re-gressa a chamada inicial. O inexorvel destino
pareceria aceite, no fora o herico gesto de rebeldia mesmo
no fim.  
----------------------------

   Nem todos os compositores gostam que os ouvintes encontrem
um esquema to claro na sua obra, mas as pessoas sentem-se to
frustradas com abstraces na msica que tentam encontrar nela
paisagens de emoes e acontecimentos. :,
   Encontramos um profundo sentido de unidade nas amplas
es-truturas abertas de uma composio clssica; porm, ela 
uma unidade cheia de tumulto, com pequenas idas e vindas, com
buscas interrompidas, com toques de ansiedade e incerteza,
montanhas inultrapassveis, ns que tm de ser desembaraados,
com grandes banhos de sentimentalismo, reflexes indolentes,
golpes estridentes dos quais temos de nos recompor, com amor
que esperamos con-sumar, brusquido, desordem, mas, no final,
com reconciliao. Podemos recriar o turbilho emocional de um
romance de amor, uma desiluso, xtase religioso, no pequeno
espao de um concerto. Mostrem, no revelem!, aconselham os
professores de tcnica de escrita ao seus alunos. Digamos o
que dissermos, poucas vezes as palavras traduzem um choque
emocional imediato to bem como uma pea de msica pungente,
que permite ao compositor no dizer Era qualquer coisa como
isto, mas sim: Eis a emoo imposs-vel de descrever que
senti e tambm a minha obsesso com a es-trutura, a proporo
e o tempo *no vosso interior*. Ou, como diz T. S. Eliot em
*The Dry Salvages*:

... msica to profundamente ouvida 
Que no chega a ser ouvida, mas tu s a msica 
Enquanto houver msica.

   Existem ainda muitas perguntas por responder sobre a msica
e a emoo. Na sua obra fascinante sobre teoria musical, *The
Lan-guage of Music*, Deryck Cooke, por exemplo, prope um
vocabul-rio musical, enunciador dos efeitos emocionais que o
compositor sabe que pode criar com certos sons. Mas porque
ser assim? Ser que tendemos a reagir a uma stima menor com
melancolia e a uma stima maior com uma violenta saudade e
a uma segunda menor com angstia e desanimo, apenas porque
adquirimos o hbito de responder a esses sons dessa maneira,
ou tratar-se- de al-go mais intrnseco  nossa constituio?
Ouam o *Tristo e Isolda*, de Wagner, e escutaro emoes
reprimidas, sublimes, frustradas, de uma tal intensidade que
podem levar-vos ao delrio. A *ansiedade* extravasa a msica
como o menisco num copo demasiado cheio de vinho, e  as-sim
que Wagner descreve a obra:

---------------------------
   ...uma histria feita de desejo interminvel, de saudade,
da bem-aventurana e da destruio do amor; mundo, poder,
fama, honra, cavalheirismo, lealdade e amizade, tudo isso se e
vai no ar como um etreo sonho; apenas uma coisa permanece
viva: a :, sau-dade, a saudade insacivel, uma nsia, uma
fome, uma angstia que se renova eternamente; uma s redeno:
a morte, o fim, um sono de que se no acorde.
---------------------------

   Outra questo que poderemos levantar, juntamente com Cooke,
: se transformarmos a msica em emoo, at que ponto essa
emoo... se assemelha  emoo original de Beethoven?... S
pode haver uma resposta... Ser to semelhante quanto as
emoes de um ser humano podem ser semelhantes s de outro.
E, por no sermos Beethoven, ouvimos a sua alegre Glria da
*Missa Solene* e sentimos alegria, mas talvez de uma forma
menos apaixonada do que ele quando a escreveu. Suponho que um
dos aspectos fasci-nantes da criatividade, seja em que campo
for,  a necessidade que o autor sente de partilh-la -- ou
imp-la -- ao mundo. Quando es-creveu a Glria, Beethoven
atravessava uma fase de alegria vulc-nica, paradisaca; s
que em vez de se pr aos pulos de felicidade, sentiu
necessidade de convert-la numa forma de energia perma-nente,
que pudesse ser armazenada, transportada e reproduzida,
segundo Cooke, um grito de alegria musical, que pudesse ser
ou-vido pelo mundo todo e continuar a ser ouvido repetidamente
de-pois de ele morrer e desaparecer. As notas que rabiscou
nunca foram nem sero mais do que uma ordem de Beethoven para
que o seu grito eterno de alegria seja tocado, juntamente com
uma srie de instrues... que ensinam precisamente como ele
deve ser toca-do. Quando proclamamos que os artistas vivem do
seu trabalho, em geral referimo-nos s pontes emocionais que
atravessam as suas vidas, aos seus estados de esprito e
obsesses dispersas, mas acima de tudo aos seus sentidos.
Beethoven pode ter morrido, mas o sen-tido que tinha da vida
em determinado momento vive na sua parti-tura, neste momento,
em qualquer momento.


:ser a msica uma linguagem?


   A msica diz-nos tanto que muitos msicos e tericos pensam
que ela pode ser uma verdadeira linguagem, que se teria
desenvol-vido mais ou menos ao mesmo tempo que a fala. Um
famoso psi-clogo de Harvard cr firmemente que a msica  uma
espcie de inteligncia, uma aptido, como a que temos para
palavras ou alga-rismos, que simplesmente nasceu connosco.
Atravs de experin-cias com msicos que sofriam de danos
cerebrais, conseguiu localizar a aptido musical no lado
direito da regio frontal do :, crebro. Numa experincia com
o mesmo fim, alguns investigadores da Faculdade de Medicina da
UCLA (*) 

(*) Iniciais de University of California at Los Angeles
(Universidade da Califrnia em Los Angeles.). (*N. da T*.)

deram a ler a alguns volunt-rios um conto de Sherlock Holmes,
depois fizeram-nos ouvir msi-ca e registaram a actividade do
crebro em ecografia. A leitura excitara o hemisfrio esquerdo
do crebro, a msica o direito. Po-rm, saber onde reside a
nossa paixo pela msica no explica co-mo  que ela l foi
parar. Em todas as pocas da nossa Histria encontramos sempre
seres humanos a tocar e ouvir msica, mas de que modo e por
que razo comeamos a gostar tanto dela? Porque  que a msica
difere tanto de cultura para cultura? Porque ser que muitas
pessoas sentem necessidade de viver dentro de casulos de som
organizado, para terem sempre msica  mo de semear? Por-que
ser que reagimos  grande variedade de sons abstractos
conti-dos na msica de forma to intensa, por vezes at
violenta? Se a msica evoluiu a par da linguagem, por que
razo evoluiu? Que importncia teve na sobrevivncia? A msica
possui significado, como qualquer pessoa que oua uma
comovente sinfonia ou uma pera de Waguer no hesitar em
concordar. Mas que significa-do  esse? O que nos leva a
atribuir determinado significado a uma pea musical? Porque 
que a msica  compreendida at pelas pes-soas que no tocam
qualquer instrumento, no tm ouvido nem jeito especial para a
msica? Acima de tudo: como conseguimos entender a linguagem
da msica sem aprend-la? Para j, a resposta razovel para
esta ltima pergunta  que, tal como a capacidade de sorrir ou
analisar,  algo de profundamente hereditrio. A dado momento
do nosso passado no foi apenas importante que todos os seres
vivos, quer fossem Gengalis, Esquims americanos ou ndios do
Peru, quer fossem cegos, esquerdinos ou sardentos, nascessem
com a *capacidade* de fazer msica; eles *precisaram* da
msica para dar significado s suas vidas. Qualquer
recm-nascido responde  msica e quando comea a dar os
primeiros passos j sabe cantar canes e mesmo invent-las.
Em certa medida, a msica -lhes ensinada. As crianas
chinesas aprendem a gostar de msica com intervalos pequenos e
mudanas subtis de tom; na Jamaica, apren-dem a apreciar
baladas sincopadas, e as crianas africanas apren-dem a gostar
de msica com ritmos rpidos e trepidantes. As preferncias
musicais de uma pessoa podem ser intencionais. Cada gerao
tende a identificar-se atravs de um tipo de msica dife-rente
da que era ouvida pelos pais, que em geral definem a msica :,
nova como barulhenta, obscena, uma perda de tempo, no tendo
nada a ver com arte. Quando a valsa apareceu, foi considerada
pro-gressista e escandalosa (*). 

(*) Lorde Byron escreveu um poema famoso sobre a valsa, cujos
excessos ele admirava. (*N da A*.)

Afinal, exigia que homens e mulheres danassem agarrados e
depressa, bem apertados um contra o outro, os cabelos a
esvoaar, balouando as ancas em unssono, fazendo as saias
rodar. O mesmo aconteceu com o *swing*, que foi considerado
ordinrio, repetitivo ou simplesmente idiota pelas geraes
mais velhas da poca. Que diriam de letras como: Tem de ser
gelatina, porque a geleia no treme assim? O tango tem um
ritmo prprio, furtivo e insinuante, alm de um passo muito
provocante, em que a mulher enrosca a perna em volta da perna
do homem, como se ele fosse uma rvore e ela uma planta
trepadeira. As palavras que acompanhavam tal devastao carnal
eram geralmente sensuais, violentas, extravagantes e de partir
o corao. Vejam a letra de um tpico tango argentino, tirado
de *Curious World*, de Philip Hamburguer:

---------------------------
   Durante toda a minha vida fui um bom amigo para toda a
gente. Dei tudo o que tinha e hoje vivo sozinho e doente, no
cub-culo sujo e triste de um bairro de lata, a cuspir sangue.
Ningum me visita, a no ser a minha querida mezinha. Ah,
agora vejo co-mo fui cruel para com ela. Agora que estou 
beira da morte reco-nheo o meu amor por ela.  a nica
pessoa que se preocupa realmente comigo.
---------------------------

   Nos ltimos tempos, a fico cientfica tem apresentado a
m-sica como sendo o esperanto do universo, uma lngua que
pode ser partilhada mesmo pelas criaturas que nos so mais
estranhas. *Encontros Imediatos do Terceiro Grau* talvez seja
o melhor exem-plo de uma histria de fico cientfica baseada
nessa permissa. Um nico acorde pode servir de
carto-de-visita, um acorde extrema-mente simples, baseado na
universal matemtica. A ideia  antiga, remonta  Grcia
antiga e  msica das esferas celestes. Existiu sempre uma
relao entre msica e matemtica, e  por isso que muitos
cientistas sentiram um amor excessivo pela msica, em
es-pecial a de compositores como Bach. O compositor Borodine
foi antes de mais nada e acima de tudo um cientista, que
descobriu um mtodo de combinar flor com tomos de carbono,
de modo a pro-duzir novos compostos. Devemos  sua inspirao
o *teflon*, o fron e uma srie de aerossis. Tinha como
*hobby* compor msica. No Fermi :, National Accelerator
Laboratory, em Illinois, no meio dos gabinetes e dos
laboratrios h uma sala de concertos. Alguns fsicos alemes
es-to a estudar a relao entre a composio musical e a
matemtica apli-cada. Porque  a msica matemtica? Porque,
tal como Pitgoras de Samos descobriu no sculo V a. C., as
notas podem ser medidas com preciso numa corda onde se
registem vibraes, e os intervalos entre as notas podem ser
expressos por coeficientes. Claro que as pessoas cantavam o
que lhes apetecia; no decidiram tocar segundo certos
coe-ficientes. Esta revelao de que a matemtica determinava
secreta-mente a beleza da msica deve ter constitudo, para o
esprito matemtico dos Gregos, mais uma prova irrefutvel de
que o universo era uma estrutura ordenada, lgica, exacta. Os
Gregos costumavam cantar ou tocar as suas escalas de cima para
baixo. Ns preferimos cantar ou tocar as nossas de baixo para
cima. Na verdade, a alterao deu-se com o cristianismo e o
canto gregoriano, e creio que teve ori-gem na exaltao
religiosa, no desejo de transcendncia. A fico cientfica
sustenta que, se a msica  matemtica, ento  universal. No
que toca ao espao interstelar, no se preocupem com mensagens
verbais: enviem uma fuga. Ou as duas coisas, para maior
segurana. Quando a *Voyager I* foi lanada no espao em
1977, levava diversas mensagens para serem encontradas por
seres de outros planetas, in-cluindo um disco com a gravao
de uma miscelnia de rudos terres-tres, alm de msica e
instrues para ouvir o disco.
   Ter a msica, ento, uma gramtica, tal como uma lngua,
ou o seu prprio conjunto de leis matemticas? Se  regida por
princpios matemticos, como se explica que tantas pessoas
ignorantes em ma-temtica se deleitem com ela? Num ensaio na
*New Literary History*, de 1971, o compositor George Rochberg
sustentou que a msica  um segundo /sistema de linguagem/
cuja lgica est intimamente relacionada com a lgica primria
do prprio sistema nervoso do corpo humano, por exemplo. Se
assim , ento a percepo da msi-ca  simplesmente o
processo invertido, isto , ouvimos com o nosso corpo, com o
nosso sistema nervoso e as respectivas funes parale-las/em
srie da memria. *Ouvimos com o nosso corpo*. Com efeito, 
difcil mantermos o corpo quieto quando ouvimos msica:
come-amos a bater os ps, a balouar as mos, pegamos numa
batuta ima-ginria, rodopiamos, espreguiamo-nos em movimentos
de dana. Na pea de Peter Schaffer sobre Mozart, *Amadeus*,
Salieri, o compo-sitor do regime e seu rival, diz:

-----------------------------
   Comeou do modo mais simples: apenas uma vibrao no mais
baixo dos registos -- fagotes e clarinetes contraltos --como
uma :, concertina ferrugenta... E logo a seguir, muito acima,
surgiu de re-pente uma nota nica no obo. E ali ficou
suspensa, decidida, pene-trando-me de modo a eu no conseguir
suster mais a respirao, at que um clarinete veio afast-la
de mim e adocic-la, transformando--a numa expresso to
deslumbrante que me fez estremecer.
----------------------------

   Uma nota musical  apenas uma vibrao de ar que estimula
os rgos existentes no nosso ouvido. Pode ter vrias
qualidades, co-mo volume, altura e durao, mas continua a ser
uma vibrao do ar.  por isso que muitas pessoas surdas
apreciam msica, que  sentida por elas como vibraes
atraentes. Helen Keller ouviu Caruso cantar percorrendo com
os dedos os lbios e a garganta dele e escreveu um texto
maravilhoso sobre um concerto sinfnico que ouviu na rdio,
respondendo a cada instrumento diferente que ia surgindo. Um
osciloscpio consegue tornar visveis os sons. Ao exibir as
vibraes, revela as propriedades acsticas do tom, mas no
consegue de modo algum julgar a experincia musical. Quando
Duke Ellington toca piano, ouo muitas das expresses brandas
e frias de Ravel, mas como descrever uma pea de Ellington? Se
nunca antes ouvimos determinado tom, nenhuma palavra
conseguir re-produzi-lo ou fazer dele uma descrio fiel.
Teddy Wilson, que to-cou piano com a banda de Duke durante
algum tempo, lembra-se de como Ellington tocava o ritmo de
dana com a mo esquerda enquan-to, com a direita, criava um
surto de entusiasmo que ele descreve pito-rescamente como o
mesmo que lanar ao ar areia colorida.
   Cada pas fala uma lngua prpria e exclusiva, mas
civilizaes in-teiras apreciam as mesmas formas de msica, s
quais nos referimos, talvez de forma um pouco chauvinista,
como msica ocidental, orien-tal, africana, islmica, etc. O
que queremos dizer  que cada civilizao parece preferir
ouvir os tons organizados de determinada maneira, de acordo
com leis ligeiramente diferentes. Nos ltimos 2500 anos, mais
ou menos, a msica ocidental tem vivido obcecada com um
arranjo de tons polifnico, mas existem muitos outros arranjos
possveis, cada um deles com um significado to profundo como
o outro, embora incompreensvel a estranhos. As barreiras
entre msica e msica so de lon-ge mais intransponveis do
que as barreiras lingusticas, escreve Victor Zuckerkandl em
*The Sense of Music*. Podemos traduzir de qualquer lngua
para qualquer lngua; porm, a simples ideia de tradu-zir, por
exemplo, msica chinesa para msica ocidental  um evidente
disparate. E porqu? De acordo com o compositor Felix
Mendels-sohn, no  por a msica ser demasiado vaga, como se
poderia pensar, mas, pelo contrrio, por ser demasiado precisa
para poder ser vertida :, num outro idioma tonal, quanto mais
em palavras. As palavras sao ar-bitrrias. No existe uma
ligao directa entre elas e as emoes que representam. Em
vez disso, agarram uma emoo e arrastam-na, exi-bindo-a por
alguns momentos. Precisamos das palavras para nos
apro-priarmos dos nossos sentimentos e ideias; elas
permitem-nos revelar a nossa vida interior uns aos outros, bem
como fazer um intercmbio de bens e servios. Mas a msica 
um protesto controlado das emoes partilhadas por todos os
seres humanos. Embora muitas palavras estrangeiras tenham de
ser traduzidas para serem entendidas, compreen-demos, por
instinto, gritos e sons de lamria, susto, alegria, amor,
soluos, suspiros e muitos outros. Acredito que foram eles
que, com o tempo, levaram a duas formas de sons organizados:
palavras (sons ra-cionais para objectos, emoes e ideias) e
msica (sons irracionais para sentimentos). Como observa
Cooke: Ambos despertam no ouvinte uma resposta emocional; a
diferena  que uma palavra faz surgir uma resposta emocional
e a compreenso do seu significado, enquanto uma nota, no
possuindo significado, apenas provoca uma resposta
emocio-nal. Que tipo de resposta pode suscitar meia dzia de
notas musicais? Surpresa, ira, encantamento, derrota,
estoicismo, amor, patriotismo... Que paixo no pode a Msica
originar e mitigar?, pergunta John Dryden no poema *A Song
for St. Cecelia.s Day* e prossegue:


A pauta suave lamenta-se,
Descobre em notas agonizantes,
Os males dos infelizes amantes,
Cuja cano triste o alade murmura.
Agudos violinos proclamam
A angstia do cime, o desespero,
A fria, a louca indignao
A mais profunda dor, a mais nobre paixo
Pela bela e orgulhosa dama.

   Numa carta a seu pai, escrita em Viena a 26 de Setembro de
1781, Mozart fala da sua pera *O Rapto do Serralho:

----------------------------
   Ora, quanto  ria de Belmonte em l maior -- *O wie
ansgs-tlich, O wie feurig* -- sabe como  ela expressa?... At
o latejar do seu corao ardente  indicado -- os dois
violinos em oitavas... Um v o estremecimento -- a hesitao
--, outro v como o seu peito se dilata, soerguendo-se -- isto
 transmitido por um *crescendo* -- ouvem-se os murmrios e os
suspiros --, expressos pelo primeiro violino, posto em surdina
com uma flauta em unssono. :,
---------------------------

   Para Mozart, a msica no era apenas um meio intelectual
apai-xonadamente intenso, mas sim um meio atravs do qual ele
sentia, e at conduzia, emoes precisas. O tema do primeiro
andamento da *Nona Sinfonia*, de Mahler, reproduz a sua
arritmia cardaca, la-mentando assim a sua mortalidade. Morreu
pouco depois, sem ter-minar a sua *Dcima Sinfonia*.
    claro que num certo e estranho sentido, h msica que no
pode realmente ser ouvida. Em grande parte, a composio
musical  a resoluo de problemas tonais numa escala muito
complexa, um esforo empreendido inteiramente pelo esprito do
compositor. A orquestra no s no  necessria a esse
criativo nmero de prestidigitao, como, muito provavelmente
produzir uma verso inferior da msica que o compositor
imaginou. Como foi possvel que Beethoven escre-vesse a to
brilhante *Nona Sinfonia* quando ficou surdo, perguntamos. A
resposta  que no foi necessrio a Beethoven ouvir a
msica. Pelo menos no como som. Ouvia-a sem falhas e com
muito maior intimidade no seu esprito. Cada pessoa que se
emociona com uma pea musical escuta-a de um modo diferente. O
compositor ouve-a perfei-tamente nas cmaras acsticas da sua
imaginao. O pblico em geral ouve-a atravs da emoo, sem
se dar conta da sua tcnica. Os outros compositores ouvem-na
com conhecimento de causa em relao  sua forma, estrutura,
histria, os seus princpios. Os membros de uma or-questra, na
sua disposio por instrumentos, ouvem-na desenrolar-se, de
dentro, mas no como uma obra equilibrada.
   Certos animais e pessoas falam apenas atravs da msica.
Por exemplo, na ilha Gomera, nas Canrias, os descendentes dos
Guan-ches, um povo aborgene acerca do qual pouco se sabe
excepto que vi-via em cavernas e mumificava os mortos, usam
uma velha linguagem de assobios para comunicar de vale para
vale. Cantam com gorjeios e trinados, semelhantes aos das
codornizes e outros pssaros, mas de forma mais elaborada e,
mesmo a uma distncia de catorze quilmetros, ou-vem-se uns
aos outros e conversam tal como o fizeram os seus
antepas-sados. *Silbo gomero*, chama-se o idoma, e alguns
ilhus misturam-no com vocabulrio castelhano, resultando num
crioulo de assobios e pala-vras. Consideram essa linguagem
hbrida suficientemente exacta.
   Na Austrlia, os aborgenes dividiram a terra de acordo com
um labirinto de estradas invisveis, as *songlines*, que
percorrem no prosseguimento normal dos seus afazeres. Mais
prximas, tal-vez, da forma como as canes dos pssaros
traam o mapa do territrio, as *songlines* so muito
ancestrais e mgicas, mas tam-bm pontos de referncia de
grande exactido. O continente en-contra-se semeado de um
labirinto de *songlines* e os aborgenes :, percorrem-nas
cantando. Bruce Chatwin descreve o processo em *O Canto
Nmada*:

--------------------------
   Independentemente das palavras, o prprio contorno
meldico da cano descreve as caractersticas da terra que a
cano atra-vessa. Assim, se o *lizard man* arrastasse os
calcanhares atravs das salinas do lago Eyre, ouviramos uma
sucesso de longos bemis, como a *Marcha Fnebre* de Chopin.
Se ele saltasse acima e abaixo das escarpas MacDonnell,
teramos uma srie de arpejos e glissan-dos, como nas
*Rapsdias Hngaras* de Liszt.
   Pensa-se que certas expresses, certas combinaes de notas
musicais, pretendem descrever a actividade dos *ps* do
Antepassa-do... Um perito nestas canes, pela ordem em que as
ouvia suce-derem-se, saberia quantas vezes o seu heri
atravessara um rio ou escalara uma ravina... e seria capaz de
calcular onde, e a que dis-tncia de uma *songline*, ele se
encontraria.
----------------------------

   Quando as palavras e a msica se encontram na poesia, cada
uma reala o efeito da outra.  medida que as nossas emoes
se inflamam, o nosso discurso torna-se naturalmente mais
lrico. Toda a linguagem apaixonada se transforma a si
prpria em msi-ca, observa Thomas Carlyle, o discurso de um
homem, mesmo dominado por uma fervorosa ira, torna-se um
cntico, uma can-o. Isto nunca foi to evidente como nos
sermes dos padres fundamentalistas, na estridente retrica
dos activistas polticos, ou nas estncias dos poetas russos,
os quais cantam os seus verso! . Hoje em dia, todos os filmes
tm bandas sonoras e msica de fundo. A ideia de-ve ser a de
que ns no temos competncia para ouvir o mundo e pre-cisamos
que a msica nos fornea emoes rpidas e relevantes. Ser
porque no consideramos o mundo digno de ser ouvido? Ser que
os cineastas optam por combinar a msica com as palavras para
conseguir um efeito emocional mais intenso? Ou ser apenas
porque eles nos jul-gam demasiado preguiosos, ou
superficiais, ou insensveis, para ser-mos capazes de
responder emocionalmente ao que estamos a ver?


MEDIDA POR MEDIDA


   Algumas facetas da nossa biologia so idealmente talhadas
pa-ra a msica, que as atravessa de forma to bela como a luz
a um vitral. William Congreve tinha razo: A msica tem
encanto su-ficiente para domar um corao selvagem. Ao longo
dos anos, as :, pessoas fizeram uma interpretao
propositadamente errada, len-do *de* um selvagem em vez de
selvagem, mas Congreve no quis dizer que os lees se podem
domar com msica, nem que as cobras-capelos podem ser
hipnotizadas pela flauta do encantador de serpentes (alis, 
o movimento da flauta e do prprio encanta-dor, e no o som,
que fascina a serpente; as serpentes so surdas). O que ele
quis dizer foi que a msica pode acalmar o corao do homem
mais sanguinrio, mesmo contra a sua vontade. As nossas
emoes so, quase sempre, algo de privado. Conservamo-las bem
fechadas, como frascos de pssego em calda que arrumamos na
prateleira de cima de uma despensa secreta; depois, numa
si-tuao de crise, recorremos a elas e muitas vezes
desenroscamos a tampa com uma cano. Quem j chorou num
funeral sabe como isso pode ser teraputico. Por vezes, damos
vazo a grandes paixes desatando a cantar. Um estranho com
quem no temos nada em comum, nem sequer a mesma cultura, pode
cantar com uma tristeza ou alegria que todos somos capazes de
entender. O fisiopsicologista australiano Manfried Klein levou
a cabo uma srie dc experincias em que tocava passagens de
Bach e depois media as reaces nos msculos da mo dos
ouvintes. Independentemente do seu nvel cultural (homens de
negcios japoneses e america-nos, aborgenes australianos, e
outros) todos reagiam s mesmas passagens de Bach da mesma
forma. Em seguida, mediu-lhes as respostas nos msculos das
mos quando sentiam alegria, indig-nao e outras emoes
fortes. Os grficos correspondiam aos das passagens de Bach. A
msica parece provocar estados emocionais especficos e
partilhados por todas as pessoas, permitindo-nos, por isso,
comunicar as nossas mais ntimas emoes sem termos de falar
nelas ou defini-las numa tnue teia de palavras.  
   As nossas pupilas dilatam-se e o nosso nvel de endorfinas
sobe quando cantamos; a msica solicita todo o corpo, bem como
o c-rebro, alm de possuir propriedades curativas. Durante a
Segunda Guerra Mundial descobriu-se que mesmo os doentes em
estado de coma conseguiam reagir  msica. Mdicos e
enfermeiras ser-vem-se da msica para comunicar com crianas
deficientes, em es-pecial as que tm vrios problemas. As
crianas autistas ou com problemas de aprendizagem, para quem
a fala constitui uma barrei-ra difcil de transpor, comunicam
mais facilmente atravs de canes e transferem depois essa
fluncia para a fala. Tendo a capacidade de animar e
estimular, a msica encoraja as pessoas se-dentrias a fazerem
exerccio fsico mais prolongado e com maior frequncia. A
escolha habitual  o *jazz, swing, pop* ou *rock*, cujos :,
ritmos excitam o nosso ritmo cardaco e fazem subir a nossa
tenso arterial;  como se nos dessem corda. Mas a msica
tambm pode acalmar. Existe um curso de especializao para
terapeutas chama-do Imagens Mentais Orientadas e Msica, em
que as pessoas so conduzidas, de olhos vendados, a um estado
de relaxamento prop-cio  formao de imagens produtivas. Em
algumas unidades de cuidados intensivos, a audio de msica
clssica faz parte do pro-cesso de convalescena dos doentes
cardacos. Alm de relax-los corre uma cortina musical sobre
as cenas assustadoras que os cer-cam. Alguns mdicos receitam
msica a doentes cancerosos, aos idosos e aos que sofrem de
perturbaes emocionais ou doenas mentais. E existe uma
grande organizao internacional de tera-peutas musicais, cuja
ltima conferncia anual incluiu sesses sobre Emprego da
Msica no Ensino da Leitura a Crianas de Audio Deficiente,
Envelhecimento do Sistema Nervoso: Problemas da
Geropsiquiatria e Terapia Musical, Promoo do Ajustamento
Psicossocial em Queimaduras Peditricas atravs da Terapia
Musical, A Terapia Musical e a Reabilitao de Pessoas com
Traumas Cerebrais e muitos outros temas com nomes
intrigantes.
   Para compreendermos porque  que a msica nos agrada, temos
de perguntar primeiro porque  que seja o que for nos agrada.
Aquilo de que temos uma percepo de prazer pode no passar
da emoo de accionarmos os rpidos no rio de recompensa do
nosso corpo, tal como o alcunhou o qumico James Olds. Foi
Olds quem, ao efectuar experincias com ratazanas, localizou
pela pri-meira vez o centro de prazer do crebro. E h muitas
maneiras arti-ficiais de impression-lo ou tranquiliz-lo, por
meio de elctrodos ou substncias qumicas. Desde o incio,
evolumos atravs de uma espessa trama de recompensas;
portanto, no deveria constituir sur-presa o facto de a nossa
cultura ser dominada por concursos, competi-es, medalhas e
galardes de todos os gneros possveis, nem o facto de os
vcios serem to difceis de vencer. A recompensa, um dos
prota-gonistas do crebro, mascara-se de muitas maneiras. Como
uma melo-dia, pode surgir num tom mais agudo ou mais grave,
num ritmo mais rpido ou mais lento, numa vasta gama de
instrumentos; pode ser sim-ples ou complicada e mesmo assim
ser reconhecida.
   No Addiction Research Laboratory na Universidade Stanford,
uma mulher est sentada numa sala insonorizada e escuta a sua
m-sica preferida atravs de uns auscultadores. Acontece que
se trata de um concerto de Rachmaninov, que vai subindo, de
crescendo em crescendo orgstico; mas outros estudantes
voluntrios escolheriam outro clssico, uma cano *pop* ou
*jazz*. A escolha  irrelevante, :, desde que provoque
arrepios de prazer no ouvinte. Em geral, surge um formigueiro
na nuca, que se alastra at ao rosto e avana pelo couro
cabeludo, desce para os ombros, escorre pelos braos e
fi-nalmente reverbera pela coluna acima. No  estranho que
uma emoo intensa ou a beleza esttica nos cause arrepios?
Sempre que tal acontece, a mulher sentada na sala insonorizada
faz um sinal com a mo. Como se sente emocionada frequentes
vezes quando ouve msica,  colocada num segundo grupo e
novamente testada Desta vez, deram-lhe a tomar *Naloxone*,
uma substncia qumica que bloqueia as endorfinas, os nossos
opiceos naturais. Na mesma experincia, a outras pessoas
deram-se placebos. Van Cliburn inicia a sua vigorosa execuo
do *Segundo Concerto para Piano*, de Rach-maninov, depois
passa majestosamente para os ritmos ascendentes do primeiro
crescendo, que sempre a fizeram sentir um formigueiro. Desta
vez, a msica apenas paira no esprito da mulher. O seu corpo
no sente nada. O xtase desapareceu.


CATEDRAIS DE SOM


   Durante muito tempo, a msica ocidental foi homofnica ou
sempre com a mesma voz, o que no significa que apenas uma
pessoa cantava de cada vez, mas antes que havia uma linha, ou
voz, meldica, e o resto da msica era acompanhamento
harmonioso. Em geral, a melodia principal tinha o tom mais
grave e identificava a pea. O cantocho, a msica religiosa
do sculo IV, no requeria qualquer acompanhamento; uma voz
cantava a melodia simples com letra em latim. No sculo VI,
o papa Gregrio I decidiu insti-tuir uma reforma musical; em
consequncia, surgiu o canto grego-riano, cantado em unssono.
Na Idade Mdia, fez-se a descoberta extraordinria de que se
podiam produzir ao mesmo tempo muitos sons sem que eles se
anulassem uns aos outros nem dessem origem a simples rudo, e
assim nasceu a polifonia. Parece impossvel que se tenha
levado tanto tempo a chegar a essa, hoje, bvia concluso.
Porm, a msica no  como a viso. Se misturarmos azul com
amarelo, as cores individuais perdem-se e criam uma nova; pelo
contrrio, os tons podem ser combinados sem perderem a sua
indi-vidualidade. Aquilo que se obtm  um acorde, algo de
novo, que tem o seu prprio som, mas no qual os tons
individuais continuam a ser distintos e identificveis. No se
trata de uma mistura nem, como poderamos pensar quando
ouvimos vrias pessoas a falar ao mesmo tempo, apenas barulho,
mas algo de uma ordem diferente. :, Um acorde  como uma
ideia, escreve o filsofo musical Victor Zuckerkandl, uma
ideia para ser ouvida, uma ideia para o ouvido, uma ideia
audvel. Para que as cores se conservem separadas e no se
misturem tm de ocupar espao umas ao lado das outras. No
podem ocupar o mesmo espao. Mas as notas *podem* ocupar o
mesmo espao e continuar separadas. Como nos recorda
Zuckerkandl, a polifonia coincidiu com a construo das
grandes catedrais gticas, e o nascimento da harmonia
coincidiu com o culminar do Renascimento e o incio das
modernas cincias e ma-temticas: ou seja, foram elas as duas
grandes mudanas no nosso entendimento do espao. (*) 

(*) Pauline Oliveros: Qualquer espao faz tanto parte do
instrumento como o prprio instrumento. (*N. da A*.)

Isto pode parecer-nos uma observao estranha, dado a viso
ser uma arte espacial e a msica uma arte temporal, que se
desenrola no tempo, uma arte dinmica que re-corre a muitos
estratagemas, como a *sncope*, em que as notas sur-gem como
aparies onde menos se esperam e desaparecem da mesma forma
imprevisvel; ou como a repetio que ora nos con-duz a um
modelo anterior, ora nos lana em frente como se viajs-semos
na crista de uma onda. A msica no s existe no *tempo*,
escreve Zuckerkandl, como faz qualquer coisa *com* o tempo...
 como se o fluxo uniforme de tempo fosse cortado pelos sons
re-gulares e recorrentes em pequenos trechos de igual durao:
os tons *marcam* o tempo. Eles mancham o tempo e depois
reordenam-no em pequenos grupos, como vrias peas de pano que
tivessem sido tingidas separadamente. Pelo menos  o que faz a
nossa msica ocidental; habitumo-nos a usar na msica tempo
medido. Quando surgiu a polifonia, a nica forma de ela fazer
sentido era cada voz conservar o mesmo tempo. Mas se recuarmos
uns 1500 anos, en-contraremos msica em que o tempo no 
medido. Tal como a poesia, um canto gregoriano improvisava o
tempo. Mesmo hoje em dia, a no ser que todos usassem o mesmo
metrnomo, seria difcil chegar a um acordo acerca do ritmo
certo para tempo no medido, por conseguinte as batidas
concordam *umas com as outras* e no com um absoluto. A
plangente *Pavana para Uma Infanta Defunta*, de Ravel, pode
parecer lgubre e trgica quando interpretada por um maestro,
mas quase alegre se ouvirmos uma gravao em que 
interpretada pelo prprio Ravel.
   Ao olhar o interior de uma igreja romnica, por exemplo, a
de Saint tienne na Borgonha, que foi construda entre 1083 e
1097, encontramos um estilo arquitectnico imponente, de
tectos altos e :, abobadados, paredes paralelas e longos
pilares com arcos de volta inteira: um espao ideal para
multides mas tambm para as rever-beraes do canto
gregoriano, que o enche como vinho tinto vertido para um vaso
pesado. Por outro lado, numa catedral gtica como a de Notre
Dame, em Paris, com os seus recessos, claustros, esttuas,
esca-darias, nichos e fugas complexas em pedra, um canto
gregoriano dis-solver-se-ia, ficaria fragmentado. Mas em Saint
tienne podem erguer-se muitas vozes, misturar-se, inundar
aquele espao elabo-rado de uma msica gloriosa. (*) 

(*) Embora esta observao parea muito moderna, o mesmo tinha
j sido dito no sculo XII pelo abade Suger, conselheiro de
Leonor da Aquitnia. (*N. da A*.)

A msica ocidental possui estruturas que recordam a mtrica
potica. Uma sonata  estruturada do mesmo modo que a forma
potica malaia conhecida por *pantoum*. A ordem implicitamente
transmitida ao compositor, ou ao poeta,  levar o mais longe
possvel os limites da forma, tentar voar dentro do espao
restrito de uma gaiola. Essa tenso entre a bvia priso de
uma forma e a liberdade de imaginao , no fundo, a essncia
do prprio gnio potico. Berlioz, por exemplo, na sua pera
mara-vilhosamente sensual *Batrice et Bndict*, criou
msica simulta-neamente grandiosa e ntima. Os duetos refulgem
numa harmonia prxima, comovente, as rias irradiam um desejo
obsessivo, que por vezes se transforma em soluos e suspiros
melanclicos.  uma provao emocional, pessoal e no entanto
mais vasta do que qual-quer instante ou corao. Zuckerkandl
pergunta: O que  o ho-mem, se este quase nada, este /nada
excepto tons/, pode tornar-se numa das suas experincias mais
significativas?
   No filme argentino cuja verso inglesa  *Man Facing
Southeast*, Rantes, um extraterrestre que toca rgo num
hospital psiquitrico diz: Consiste apenas numa srie de
vibraes, mas tem um efeito muito positivo sobre os humanos.
Onde estar a sua magia? Nos instrumentos? Naquele que a
escreve? Em mim? Nos que a ouvem? No consigo compreender o
que sentem. Sim. Compreendo. S no consigo  senti-lo. Mais
tarde, explica que as sensaes perturbam os seres deste
planeta, que podem mesmo ser destrudos pela atraente melodia
de um saxofone ou por um perfume intenso. Juntamente com
outros emissrios, foi enviado pelo seu planeta ao nosso com a
misso de investigar a nica das nossas armas de que eles no
sa-bem defender-se: a estupidez. De vez em quando, um agente
perde--se, torna-se traidor ou destri-se a si prprio. Uma
jovem muito bela, Beatriz, que vai visit-lo ao hospital,  um
desses agentes, e apaixona-se perigosamente pela beleza da
experincia sensorial :, humana, enfeitiada por um solo de
clarinete corrompida pelo pr do Sol, por certas
fragrncias...


:o chamamento da terra


   Para ns, a msica  uma inveno, algo que satisfaz uma
nsia interior, talvez a de fazermos parte integral dos sons
da Natureza. Mas nem todos tm essa percepo da msica. A
cerca de 140 qui-lmetros a norte de Banguecoque, nas faldas
do Wat Tham Krabok, existe um templo budista onde um grupo de
monges se dedica  re-cuperao de toxicodependentes. Usam uma
combinao de terapia herbanria, psicologia e formao
vocacional. Um desses monges, Phra Charoen, um naturalista de
sessenta e um anos, ocupa-se tam-bm da sala de msica onde,
com equipamento electrnico, regista os fenmenos elctricos
do mundo, que depois traduz para notao musical. Charoen e a
sua equipa de monges e monjas traam o pa-dro da flutuao do
som em papel transparente, transferindo em seguida os grficos
para fitas de pano estreitas, fceis de arrumar depois de
catalogadas e enroladas. Os grficos condizem com os
tradicionais trechos de dezoito travesses da msica tai.
Essas melodias puras so ento tocadas num instrumento tai,
ficando o acompanhamento a cargo de um rgo electrnico, e
faz-se uma gravao do resultado. Os elementos que fazem parte
do grupo de Charoen no so propriamente msicos, mas
acreditam que a m-sica no  uma coisa imaginria, nem sequer
algo produzido apenas por pessoas; a msica pode vir das
rochas, das razes, das rvores, da chuva. (*) 

(*) Em *The Heart of the Hunter*, Laurens van der Post relata
que os camponeses australianos se refe-rem  morte de algum
do seguinte modo:O som que por ele soava no cu j no toca.
(*N. da A*.)

Uma mulher ocidental escreveu que debaixo das r-vores do
templo, com o canto dos pssaros a preencher as pausas
mu-sicais, o visitante repousa... e ouve a terra da antiga
Ayutthaya cantar, ou as pedras do Grand Palace, os passeios de
Banguecoque -- ou as rachas no trio da estao de
caminho-de-ferro de Hua Lampong.
   A ideia iria agradar ao compositor americano Charles Dodge
que, em Junho e Setembro de 1970, gravou o Sol a brincar no
campo magntico da Terra, introduzindo dados magnticos de
1961 num computador-sintetizador especialmente programado. A
obra tem um subttulo --Realizaes em som electrnico por
compu-tador -- e trs associados cientficos so referidos
com proemi-nncia na capa do lbum. O resultado, ora
fantstico, ora uma guincharia, consiste basicamente numa
cascata meldica de sons :, vibrantes de violinos e
instrumentos de sopro. Harmoniosos e em-polgantes,
frequentemente criam pequenos floreados e fanfarras parciais;
no parecem de todo tocados ao acaso, mas sim movidos por
aquilo a que eu chamaria,  falta de melhor, *entelquia*,
aquela inquietao dinmica empenhadamente orientada para um
objectivo que ns associamos  msica composta. Possuo tambm
uma gra-vao do campo magntico de Jpiter, que me foi
oferecida pela empresa TRW numa visita ao Jet Propulsion
Laboratory durante as viagens das *Voyager I e II a
Jpiter, em 1980. Um detector de cam-po elctrico dentro da
nave registou uma corrente de ies, o chilrear de electres
aquecidos, a vibrao de partculas carregadas, asso-bios de
relmpagos ressoando na atmosfera do planeta, tudo
acom-panhado por uma aurora que ouvimos como um silvo. O gs
de um vulco na lua Io contribui com um tinido e um grito das
ondas de rdio, semelhante ao *banshee*. (*)

(*) Esprito feminino do folclore galico que, com os seus
lamentos, anuncia uma morte iminente. (*N. da T*.)

Por mais fascinante e til que os cientistas considerem esse
concerto, no parece msica, nem  su-posto parecer; no
entanto, seria fcil criar msica a partir dele ou em sua
volta. Os artistas sempre buscaram na Natureza as suas formas
orgnicas; por isso, no admira que exista uma composio com
uma sonorizao bastante *pop* chamada *Pulsar*. Conhecem-se
mais de quatrocentos *pulsars* a diversas distncias da Terra.
Utili-zando gravaes das pulsaes rtmicas de estrelas
outrora massi-vas a uma distncia de cerca de 15000 anos-luz,
o compositor oferece-nos melodias que lembram as das Carabas,
em que a per-cusso fica a cargo do seu baterista do espao,
como ele prprio diz. Os *pulsars* esto identificados na capa
do disco por nmeros 
-- 083-45 no lado um e 0329 + 54 no lado dois -- como se
fossem de facto msicos a participar numa sesso. Tambm
Susumu Ohno, um investigador de gentica californiano,
atribuiu uma nota dife-rente a cada uma das quatro bases
qumicas do ADN (*d* para a ci-tosina, *r* e *mi* para a
adenina, *f* e *sol* para a guanina e *l* e *si* para a
timina) e depois tocou o resultado, de som algo restrito. As
nossas clulas vibram; nelas existe msica, embora no a
ouamos. Certos animais ouvem algumas frequncias melhor do
que ns. Um caro, perdido no desfiladeiro de uma dobra na
nossa pele, talvez oua as nossas clulas tocar como um
*mobile* de campainhas, de cada vez que nos mexemos.
   Quando a Terra chama, ronca e troveja; estala. Em cidades
co-mo Moodus, no Connecticut, surtos de pequenos sismos fazem
chocalhar os seus habitantes meses sem fim. O epicentro dos :,
tremores de terra  uma rea muito pequena, com apenas alguns
metros de extenso junto  zona setentrional da cidade.
Espanta-me ningum ter feito filmes de terror sobre sumidouros
ou qualquer outra coisa igualmente abominvel. Hoje, chama-se
aos roncos
subterrneos desse tipo rudos de Moodus, mas antigamente,
quando os ndios da tribo Wangunk escolhiam a regio para os
seus feitios, porque era l que a Terra lhes falava, chamavam
ao local Machemoodus, que significava sitio dos rudos e
acreditavam que os deuses provocavam esses barulhos ao soprar,
furiosos, para dentro de uma gruta. Tremores de terra em srie
fazem um barulho semelhante a rolhas a saltar ou to
inexorvel como o de uma carga de cavalaria. J houve quem o
descrevesse como trovoada subter-rnea.  como se nos
batessem na sola dos ps com um malho, queixou-se um
habitante. Os sismos em Moodus so mais barulhentos do que o
habitual porque so mais superficiais (do-se  profundidade
de apenas um quilmetro; ao longo da falha de Santo Andr, a
sua profundidade  em geral de sete a catorze quilme-tros).
Nos terramotos normais, mais profundos, parte do barulho
perde-se na terra, que o amortece e silencia. Tambm pode
dar-se o caso de a terra em redor de Moodus ser simplesmente
boa condutora de som. Como a cidade fica situada entre duas
estaes nucleares, a sua populao fica numa grande ansiedade
quando os sismos rugem durante meses, abanando e estalando o
solo, como uma bate-ria de cozinha a chocalhar.
   No Exploratorium de So Francisco, um rgo de tubos toca a
msica da mar quando embate nas frestas do cais de So
Francisco, com um murmrio espesso e metlico. Agora que
Russos e Ameri-canos planeiam viajar juntos at Marte, espero
muito sinceramente que levem com eles um conjunto de flautas
de P, ideais para a su-perfcie ventosa de Marte. Seria uma
ptima escolha, j que, embo-ra cada cultura do nosso planeta
tenha a sua msica, todas parece inventarem tambores e flautas
antes de qualquer outra coisa. H milnios que qualquer coisa
nos fascina na imagem de um sopro ou do vento a entrar num
pedao de madeira, enchendo-o com um grito vital -- um som. 
como se o esprito da vida brincasse ao longo do corpo de um
ser humano.  como se fosse possvel expi-rarmos para dentro
de uma rvore e faz-la falar. Seguramos um ramo nas mos,
enchemo-lo de ar e ele geme, canta.


A VISO


A melhor coisa que um ser humano
pode fazer neste mundo  ver...
Ver claramente a poesia,
profecia e religio de alguma coisa,
tudo ao mesmo tempo.

John Ruskin, *Modern Painters*


:o olho do espectador


   Olhemos para o espelho. O rosto que nos fixa com um duplo
olhar encerra um segredo terrvel: temos  nossa frente um
preda-dor. A maioria dos predadores tem os olhos na parte da
frente da cabea, o que lhes permite usar a viso binocular
para ver e perse-guir a presa. Os nossos olhos possuem
mecanismos independentes que captam a luz, escolhem uma imagem
nova ou importante, fo-cam-na com preciso, localizam-na no
espao e perseguem-na: fun-cionam como excelentes binculos
estereoscpicos. Por sua vez, a presa tem os olhos aos lados
da cabea porque aquilo de que real-mente precisa  de viso
perifrica para verificar se algum espreita atras dela. Esse
algum pode ser qualquer um de ns. Se a vida  uma selva na
cidade, talvez seja por as ruas estarem apinhadas de zelosos
predadores. Os nossos sentidos mantm-se alerta e, sempre que
necessrio, decretamo-nos uns aos outros presas e arrumamos o
assunto. Por vezes, isso passa-se com pases inteiros. Uma vez
do-mesticmos o fogo como se ele fosse um belo animal cheio de
tem-peramento; aproveitando no s a sua energia como tambm a
sua luz, foi-nos possvel cozinhar alimentos de modo a
tornarem-se mais fceis de mastigar e digerir e, como ficou
provado mais tarde, livres de vrus. Mas tambm somos
perfeitamente capazes de inge-rir comida fria, o que fizemos
durante milhares de anos. Que sig-nificado ter o facto de,
mesmo em elegantes salas de jantar, preferirmos que a carne
seja servida  temperatura de um antlope ou javali acabado de
matar?
   Apesar de nem todos nos dedicarmos  caa, os nossos olhos
continuam a ser os grandes monopolizadores dos nossos
sentidos. Para saborear ou tocar num inimigo ou alimento, 
necessrio :, estarmos assustadoramente prximos deles. Para
os cheirarmos ou ouvirmos, arriscamos um pouco mais de
distncia. Porm, a viso pode atravessar campos e subir
montanhas, viajar pelo tempo, atra-vessar o pas ou milhes de
*parsecs* intergalcticos, reunindo mon-tes de informaes
pelo caminho. Os animais que ouvem altas frequncias melhor do
que ns -- morcegos e golfinhos, por exem-plo -- parece verem
em pormenor com as orelhas, ouvindo geogra-ficamente, mas no
nosso caso o mundo torna-se mais densamente informativo, mais
exuberante, quando o apreendemos atravs do olhar.  at bem
possvel que o pensamento abstracto venha do es-foro
empreendido pelos nossos olhos para encontrar um sentido no
que viam. Setenta por cento dos receptores sensoriais do nosso
organismo residem nos olhos, e  sobretudo atravs da viso
que ava-liamos e compreendemos o mundo. Os amantes fecham os
olhos quando se beijam porque se no o fizessem seriam muitas
as dis-traces visuais a notar e a analisar: o sbito
primeiro plano das pestanas e do cabelo do outro, o papel de
parede, o mostrador do relgio de p, as partculas de p em
suspenso num raio de sol. Os amantes querem tocar-se com
seriedade sem que nada os per-turbe. Assim, fecham os olhos,
como se pedissem a dois queridos familiares para os deixarem a
ss.
   A nossa linguagem est imbuda de imagens visuais. Com
efeito, sempre que comparamos duas coisas, o que fazemos
cons-tantemente (reparem na expresso muito utilizada no
campo: Chovia mais do que uma vaca a mijar de lado sobre uma
pedra), contamos com o nosso sentido da vista para captar a
aco ou a ideia. Ver  uma prova irrefutvel, insistimos com
teimosia (Vi com os meus prprios olhos...) Claro que,
nestes tempos de contingn-cias, truques de magia e iluso,
no camos na asneira de confiar em tudo o que vemos (... um
disco voador aterrou na auto-estrada...). Tudo o que vemos a
olho nu, quero dizer. Como nos recorda Dylan Thomas, existem
muitas vises enganadoras (*) Se expandirmos a :,

(*) Entre elas, as iluses de ptica. Uma poa de agua surge
na auto-estrada  nossa frente. Contudo, ao contrrio de uma
poa verdadeira, vai-se afastando  medida que nos aproximamos
dela. Como estamos num trrido dia de Vero, em que debaixo de
uma camada de ar frio existe uma de ar quente, uma imagem (do
cu)  projectada na estrada. A palavra miragem surge na
nossa mente. Etimologicamente significa olhar para. Quando
olhamos para um objecto vermelho, as lentes que existem nos
nossos olhos adquirem a forma necessria para verem uma coisa
verde que esteja mais prxima. Quando olhamos um objecto azul,
as lentes viram-se para a direco oposta. Em consequncia, as
coisas azuis parece retrocederem e as verme-lhas darem um
salto em frente. Os vermelhos parece contrarem-se e os azuis
dilatarem-se. Diz-se que as coisas azuis so frias, ao passo
que as cor-de-rosa so consideradas quentes. Dado que o
nosso olho est sempre a tentar encontrar um sentido para a
vida quando encontra uma cena intrigante corrige-a de acordo
com aquilo que conhece. Se encontra um padro familiar,
mantm-se-lhe fiel, por menos adequado que ele seja quela
paisagem e quele fundo. (*N. da A*.)

nossa vista com o auxlio de lentes artificiais ou outros
acessrios (culos, telescpios, cmaras, binculos,
microscpios electrni-cos, TAC, raios X, ecografia,
ultra-sons, radioistopos, raios *laser*, detector de ADN e
por a fora), confiamos um pouco mais no re-sultado. Mas ainda
hoje o Missuri  conhecido por estado do *Show Me*! (*), 

(*) Mostra-me  a traduo literal desta expresso
equivalente ao nosso ver para crer. (*N. da T*.)

palavras que, constituindo uma espcie de trocadilho visual,
constam das placas das matrculas dos automveis do mes-mo
Estado. Vejo que muitas dificuldades nos esperam, diz,
cau-teloso, um poltico, esquecendo por instantes que tudo
pode no passar de uma artimanha. Adivinhamos com facilidade o
que pen-sam as pessoas de carcter transparente. E Deus sabe
como ansia-mos por que se faa luz no nosso esprito. Vejo
onde queres chegar, diz uma mulher a outra,  mesa de um
caf, mas olha bem o que fazes, para ele no ver o que andas
a tramar. Veja com os seus prprios olhos!,  o repto que
lanamos com impacincia aos descrentes. Aps o primeiro
imperativo da Bblia -- Faa-se luz! --, Deus observou o
trabalho de cada dia e viu que estava bem feito. Ao que
parece, tambm Ele teve de ver para crer. As ideias
iluminam-nos, se somos suficientemente brilhantes e no
tapados e principalmente se somos visionrios. E quando
namo-ramos, embora esta expresso vulgar possa ter um
significado mais forte e sugestivo, fazemos olhinhos uns aos
outros.
   O processo de ver comeou de forma muito simples. Nos
antigos oceanos, as formas de vida desenvolveram na pele umas
manchas claras sensveis  luz. Eram, pois, capazes de
distinguir a luz da escu-rido, alm da direco da fonte de
luz, mas nada mais. Essas com-petncias vieram a revelar-se de
tal modo teis que evoluram para olhos capazes de registar
movimentos, depois formas e, por fim, uma quantidade
estonteante de pormenores e cores. A necessidade de os nossos
olhos estarem em permanncia banhados em gua sal-gada  uma
reminiscncia das nossas origens ocenicas. Uns dos olhos mais
antigos de que h registo so os do trilobitos, um dos animais
mais perfeitos da era cmbrica, que hoje apenas conhece-mos
atravs dos abundantes vestgios fsseis. No momento em que
escrevo este texto, tenho ao pescoo um pequeno fssil de
trilobito montado num engaste de prata. Quinhentos milhes de
anos atrs, proliferava nos pntanos, com os seus olhos
facetados que viam pa-ra os lados, embora, infelizmente, no
vissem para cima. Os olhos mais modernos de todos so, porm,
aqueles que inventmos, como o olho elctrico (baseado no
estudo dos olhos da r, concebidos :, para detectar
movimento), ou o telescpio de espelho (baseado no o-lho do
lmulo, com uma forma que permite avaliar contrastes), ou as
lentes sncronas utilizadas em microcirurgia, na leitura
ptica e em doenas graves da vista (baseadas na lente dupla
do coplia, um crustceo mope que habita no fundo do
Mediterrneo). Embora as plantas no possuam olhos, Loren
Eiseley insiste na existncia de um olho num fungo, o
pilbolo, possuidor de uma zona sensvel  luz que controla o
esporo com que ele almeja o ponto mais claro que encontra.
   Para ns, os olhos so sbios observadores: todavia, o olho
no faz mais do que reunir luz. Como se sabe, o olho funciona
de modo muito semelhante ao de uma mquina fotogrfica; ou
antes, inven-tmos mquinas que funcionam como os nossos
olhos. Para focar uma cmara, colocamos a lente mais perto ou
mais longe de deter-minado objecto. As lentes do olho,
cristalinas, flexveis, com a forma de um feijo, obtm o
mesmo resultado mudando de forma: tornam-se delgadas para
focar um objecto distante, que parece pe-queno, e espessas
para focar um objecto prximo, que parece maior. Uma cmara
controla a quantidade de luz que recebe. A ris do olho, que
na verdade  um msculo, altera o tamanho de um pequeno
orifcio chamado pupila (*), 

(*) Do latim *pupilla*, pequena boneca. Quando os Romanos se
olhavam nos olhos, viam o reflexo de si prprios, semelhante a
um pequeno boneco. A antiga expresso hebraica para pupila 
semelhante: *eshon ayin*,
que significa homenzinho do olho. (N. da A*.)

atravs do qual a luz penetra no globo ocu-lar. Visto nos
peixes no ocorrer essa resposta dada pela pupila, que protege
a ris de sbitos clares de luz, e quase nenhuns possurem
plpebras (uma vez que os seus olhos esto constantemente
dentro de gua), a luz encandeia-os com enorme facilidade.
Alm da sua funo de porteira, a ris, palavra que em grego
significa arco-ris,  a responsvel pela cor dos nossos
olhos.  nascena, os olhos dos in-divduos de raa branca
parecem azuis e os dos negros castanhos. Aps a morte, os
primeiros parecem castanho-esverdeados. Os olhos azuis no so
inerentemente azuis, no so tingidos de azul, como um tecido:
parecem azuis porque tm menos pigmentos do que os castanhos.
Quando a luz penetra nos olhos azuis, os curtssimos raios
de luz azul espalham-se ao saltar para fora de minsculas
par-tculas no pigmentadas. Os olhos escuros tm uma grande
densi-dade de molculas de pigmento e absorvem os comprimentos
de onda azuis, ao mesmo tempo que reflectem outras cores de
raios mais longos. Adquirem, assim, um aspecto castanho ou cor
de avel. Embora num exame corrente as ris paream todas
iguais o :,
padro de cor, raios, manchas e outras caractersticas  de
tal forma individual que a Polcia j pensou us-las em
complemento das im-presses digitais.
   No interior da mquina fotogrfica, a pelcula regista as
ima-gens. A retina  uma espcie de pelcula fina que forra o
interior do globo ocular e inclui dois tipos de clulas
fotossensitivas, bastone-tes e cones. Precisamos de ambos,
pois vivemos nos dois mundos, o da luz e o da escurido. Cento
e vinte e cinco milhes de basto-netes finos e direitos
analisam o escuro e reproduzem a preto e branco. Sete milhes
de cones rolios examinam o dia claro e re-pleto de cor.
Existem trs espcies de cones, especializados em azul,
vermelho e verde. Todos juntos, bastonetes e cones, permitem
que o olho responda com rapidez s mudanas de cena. H uma
zo-na na retina onde penetra o nervo ptico e que no possui
nem co-nes nem bastonetes, no captando, por isso, estmulos
luminosos; designamo-la por mancha cega. Porm, mesmo no
centro da reti-na existe uma pequena cratera, a fvea, que
contm uma grande concentrao de cones e que utilizamos para
focar com preciso quando queremos examinar um objecto a uma
luz intensa, ou seja,
atingir um mximo de acuidade visual. Por ser muito pequena, a
fvea s consegue executar a sua magia numa rea diminuta (uma
fotografia 4  4 a dois metros de distncia, por exemplo).
Quase todos os cones da fvea tm uma ligao directa ao
crebro; na restante rea da retina, bastonetes e cones servem
muitas clulas, e a viso  mais vaga. O globo ocular move-se
com subtileza, em permanncia, de modo a manter o objecto em
frente  fvea. Quando a luz  fraca, os cones da fvea so
praticamente inteis; precisamos de olhar para fora do
objecto para o vermos bem com os bastonetes circundantes e no
*para* ele, pois a fvea decepcionar-nos-ia e o objecto
pareceria invisvel. Como os bastonetes no vem a cor, 
noite no
captamos estmulos de cor. Quando a retina observa algo, os
neurnios passam a palavra ao crebro por meio de uma srie de
apertos de mo electroqumicos. Mais ou menos num dcimo de
segundo, a mensagem atinge o crtex visual, que comea a
interpret-la.
   No entanto, a viso, tal como a entendemos, no ocorre nos
olhos mas sim no crebro. De certo modo, para vermos bem, em
pormenor, no precisamos dos olhos para nada. Muitas vezes,
recordamos ce-nas passadas h dias, ou mesmo anos, vemo-las
com os olhos da nossa mente e, se quisermos, somos mesmo
capazes de visualizar acontecimentos totalmente imaginrios.
Vemos com surpreendente nitidez quando sonhamos. s vezes,
fico extasiada perante uma paisagem visualmente empolgante em
plena Natureza e quando, :, nessa noite, fecho os olhos, vejo
a paisagem correr frente s minhas plpebras fechadas. A
primeira vez que tal me aconteceu -- num rancho de gado com
8000 hectares, rodeado de planaltos em tons pastel, em pleno
deserto do Novo Mxico --, senti-me num outro mundo. Exausta
devido aos rigores da marcao do gado, precisava de dormir,
mas todas as imagens, gestos e andanas do dia ainda
resplandeciam na minha memria visual. No tinha nada a ver
com sonhar: era como tentar adormecer com os olhos bem abertos
no auge de uma grande festa.
   O mesmo aconteceu mais recentemente, desta feita na
Antrcti-da. Num dia cheio de sol, atravessmos o estreito de
Gerlache, que no extremo sul atinge a largura mnima de 500
metros; montanhas de gelo elevavam-se de ambos os lados do
navio. Colinas negras recortadas, cobertas de cascatas de neve
e gelo, pareciam pinguins de p, na sua postura habitual,
banhados por uma luz brilhante. Enquanto pinguins verdadeiros
nadavam junto ao barco, icebergues enormes passavam a flutuar,
azul-claros na base e verde-menta dos lados. Dentro do convs
vidrado do navio, vrias pessoas descansa-vam em cadeires
perto das janelas, algumas a dormitar. Um ho-mem esticou o
dedo mnimo e o indicador como se estivesse a fazer um gesto
obsceno, mas estava apenas a tomar as medidas de um icebergue.
O dia estava claro e a ilha Deception, embora distante,
parecia prxima e ntida. Um bero de gelo contendo uma gua
macia e azul passou perto do navio. Do outro lado do estreito,
um pedao de gelo separou-se de um glaciar, provocando um
estrondo forte e explosivo. Icebergues de cores claras vogavam
 nossa vol-ta, alguns com muitos milhares de anos. As grandes
presses po-dem sugar o ar do interior do gelo, tornando-o
compacto. Desprovido de bolhas de ar, o gelo reflecte a luz de
modo diferente, como sendo azul. As guas estremeceram com a
pele de galinha de pequenos fragmentos de gelo. Alguns
icebergues brilhavam como hortel-pimenta fosca ao sol: as
impurezas retidas no gelo (fitoplncton e algas) tingiam-no de
verde. Etreas procelrias da neve esvoaavam em torno dos
picos dos icebergues, enquanto o Sol brilhava atravs das suas
asas translcidas. Brancas e silenciosas, as aves
assemelhavam-se a pedaos de neve a voar com determina-o e
graciosidade. Ao passar em frente a um campo de gelo,
torna-ram-se invisveis. O claro transformava de tal modo a
paisagem que parecia uma cor pura. Quando descemos para uns
barcos de borracha a motor chamados *Zodiac*, a fim de dar a
volta aos cam-pos de icebergues, arranquei um pedao de gelo
glaciar e encostei-o ao ouvido, para escutar as bolhas a
rebentar e estalar,  medida que :, o ar se escapava. E nessa
noite, embora estafada com o que vira e fizera durante o dia,
deitei-me no meu beliche estreito, de olhos fe-chados mas
acordada, enquanto icebergues iluminados pelo Sol deslizavam
pelo interior das minhas plpebras e a pennsula da Antrctida
era mostrada devagar, metro a metro, no pequeno ecr dos meus
olhos fechados.
   Como os olhos adoram a novidade e se habituam a
praticamente qualquer cena, mesmo as de terror, muito do que
acontece desliza para segundo plano na nossa ateno. Como 
fcil ignorar o pente farfalhudo no interior amarelo de um
lrio, as minsculas tenazes dentro de uma fechadura, a lngua
vermelha e bifurcada de uma cascavel, ou o modo como um
lamento profundo nos atinge como uma forte ventania! Tanto a
cincia como a arte tm o hbito de despertar-nos, pegar-nos
pelos colarinhos e dizer-nos: Prestem ateno, por favor!
Ningum diria que uma coisa to complexa como a vida pode ser
menosprezada com tanta facilidade. Porm, como os melhores
cavalos de corrida, cheios de vitalidade, deter-minao e
temperamento, tendemos a passar por cima do que no aparece
directamente no nosso caminho: as coloridas multides de
pessoas, de um lado e doutro, as formas traadas nos caminhos
ro-tineiros e o espectculo permanente do cu, esse quadro
vivo por cima das nossas cabeas, eterno e sempre diferente.


:como observar o cu

   Estou sentada no extremo do continente, na Reserva Natural
de Point Reyes, a pennsula a norte de So Francisco, onde a
terra se deixa escravizar pelo Pacfico e pelo enigma azul e
abobadado do cu. Quando o canto dos grilos, forte como uma
serra circular, cessa de repente, apenas as aves fazem o
levantamento, em cdigos
silenciosos, da luz do dia. Um falco debrua-se para o
abismo, preparando-se para voar no ar rarefeito. Primeiro bate
as asas com fora para ganhar altitude, depois descobre uma
corrente de ar quente e abraa-a com as asas, descrevendo
crculos apertados enquanto examina a terra em baixo, em busca
de roedores ou coelhos. Inclinando-se um pouco mais, volta-se
devagar, rodando como um
chapu-de-sol. Instintivamente, o falco sabe que no vai
cair. O cu  uma constante visual nas nossas vidas, o
complexo pano de fundo de todas as nossas aventuras,
pensamentos e emoes. Porm, pensamos nele como algo
invisvel: uma ausncia em vez de uma substncia. Embora nos
movamos atravessando o ar transparente, raramente o imaginamos
como o mundo pesado e espesso que ele . :,
Raramente pensamos no fantasma azul a que chamamos cu.
*Skeu*, exclamo em voz alta, a palavra que os meus
antepassados utilizavam; tento pronunci-la como eles o
faziam, talvez com me-do e espanto: *Skeu*. Na verdade, era
a palavra que eles usavam para designar toda a espcie de
cobertura. Para eles, o cu era um telhado de cor varivel.
No admira que aquartelassem a os seus deuses, como se fossem
vizinhos briges que, quando se zangavam, atiravam ao cho
raios e troves em vez de pratos e copos.
   Olhem para os vossos ps. Esto de p sobre o cu. Quando
pensamos no cu olhamos para cima, mas a verdade  que o cu
comea no cho. Caminhamos atravs dele, gritamos para dentro
dele, apanhamos folhas com um ancinho, damos banho ao co e
conduzimos automveis dentro dele. Inspiramo-lo profundamente.
Ao respirar, inalamos milhes de molculas de cu,
aquecemo-las por instantes e depois expiramo-las de novo para
o mundo. Neste momento, respiramos as mesmas molculas em
tempos respiradas por Leonardo da Vinci, William Shakespeare,
Anne Bradstreet ou Colette. Inspirem devagar. Pensem em *A
Tempestade*. O ar faz trabalhar os foles dos nossos pulmes e
pe em funcionamento as nossas clulas. Dizemos leve como o
ar, mas a nossa atmosfera no tem nada de leve, com os seus
cinco mil milhes de bilies de toneladas. S um rebite to
obstinado como a gravidade seria capaz de prend-la  Terra;
de outro modo ela simplesmente voaria para longe, diluindo-se
na imensido do espao.
   Sem pensar, falamos muitas vezes de um cu vazio. porm,
o cu nunca est vazio. Em cerca de trinta gramas de ar existe
em suspenso um bilio de trilies de tomos constitudos por
oxignio, nitrognio e hidrognio, cada um deles uma coleco
de electres, *quarks* e hipotticos neutrinos. Muitas vezes,
ficamos maravilhados com um dia calmo ou uma noite parada.
Contudo, no h nada de parado no cu, nem onde quer que
vida e matria se encon-trem. O ar est sempre a vibrar e a
brilhar, carregado de gases vo-lteis, de partculas errantes,
poeira, vrus, fungos e animais, todos eles agitados por um
vento inexorvel. H voadores activos como borboletas, aves,
morcegos e insectos que palmilham as estradas do ar; e h
voadores passivos como as folhas do Outono, o plen ou o
algodo do campo, que apenas flutuam. Comeando sobre a terra
e estendendo-se em todas as direces, o cu  o reino espesso
e irrequieto onde vivemos. Quando dizemos que os nossos
antepassa-dos rastejaram para terra, esquecemo-nos de
acrescentar que o que eles fizeram foi passar de um oceano a
outro, das profundezas da gua para as profundezas do ar. :,
   Aqui, os ventos predominantes sopram de oeste, a julgar
pelas formas estranhas e curiosas que a vegetao assume ao
longo da praia. Uma brisa ligeira e constante vinda do
Pacfico empurrou as ervas para trs, numa espcie de penteado
 Pompadour. Um pouco a seguir, numa clareira mais protegida,
encontro um pequeno ar-busto em volta do qual h um crculo
gravado na terra. Parece feito com o auxlio de um utenslio
para cortar bolachas, mas  apenas obra do vento que soprou
sobre as ervas em volta e assim desenhou um transferidor
natural. Consideramos o vento uma fora destrui-dora: uma
chamin que de repente se desprende do telhado de uma escola
em Oklahoma... No entanto, o vento  tambm um pedreiro forte
e astucioso que, pouco a pouco, esculpe rochedos, erode
en-costas, recria praias, faz rvores e rochas descer
montanhas ou atra-vessar rios. O vento provoca ondas, como na
ondulao sensual das dunas do vale da Morte ou nos areais em
permanente transforma-o. O vento sacode a terra como se ela
no passasse de uma toalha de mesa encardida, pelos campos
quadriculados das plancies cen-trais, criando a chamada
*dustbowl*. Faz funcionar centrais elctri-cas, planadores,
moinhos de vento, papagaios de papel e veleiros. Transporta
sementes e plen. Modela a paisagem. Ao longo da costa
escarpada, vemos muitas vezes rvores pateticamente
escul-pidas pelo vento implacvel.
   Nos mapas antigos, o vento norte  representado por um
rosto bochechudo com o cabelo desgrenhado e uma expresso
constran-gida, a soprar com quanta fora tem. Segundo Homero,
o deus olo vivia numa sumptuosa gruta onde guardava os ventos
num saco de cabedal bem fechado. Entregou o saco a Ulisses
para que este pu-desse fazer navegar o seu barco, mas os
marinheiros abriram-no e os ventos escaparam-se e fugiram em
todas as direces, guerrean-do-se, rodopiando, quase sempre
fazendo estragos.  Os filhos da manh, chamou Hesodo aos
ventos gregos. Os antigos Chineses designavam por *fung* tanto
o vento como a respirao e tinham v-rias palavras para as
diferentes ndoles do vento. *Tiu* significava mover-se ao
vento, como uma rvore. *Yao* era o termo para algo que
esvoaava para baixo, empurrado pela brisa. Os nomes dos
ventos so mgicos e dizem muito sobre os vrios aspectos que
o cu pode assumir. Em Portugal, h o *vento coado* (*) 

(*) Em portugus no original. (*N. da T*.)

que sopra das encostas do interior; h o demonaco *tsumuji*
japons ou o suave *matsukaze* que prefere os pinhais; o
refrescante *brickfielder* da Austrlia (termo que comeou por
designar as tempestades de p :, que sopravam do lado das
fbricas de tijolo perto de Syduey); o hmido e morno
*chinook* americano, vento martimo baptizado na linguagem dos
ndios do Oregon; o *blizzard* coalhado de nove ou o feroz 
*Santa Ana* ou ainda o hmido *waimea* do Havai. O *simoon*
(da palavra aramaica *samma*, que significa veneno) do Norte
de -frica, quente e desrtico; o *zonda* argentino, trrido
e devastador, que desce os Andes para varrer as pampas; o
negro e lugbre *haboob* do Nilo; o *buran*, forte vendaval
russo que traz a tempestade no Ve-ro e neves no Inverno; o
*etesian*, que refresca o Vero grego; o quente e forte
*foehn* da Sua, que sopra nas encostas do sotavento das
montanhas; o seco e frio *mistral* (vento mestre) francs
que atravessa o vale do Reno at  costa mediterrnica; o
clebre *mon-soon* indiano, cujo nome significa uma estao
cheia de chuvas; o *bull.s eye squall* do cabo da Boa
Esperana; o petulante *williwaw* do Alasca; o *datoo*, que
sopra em Gibraltar durante a Pscoa; o agra-dvel *solano*
espanhol; o *hurricane* das Carabas (palavra derivada de
*huracan*, que em taino significa esprito malfico); o
sueco *frisk vind*, forte e tempestuoso; o suave *I tien tien
fung*, a primeira brisa do Outono chins.
   Em certos dias, esta costa  assolada por tempestades e
neste momento nuvens espessas e cinzentas atravessam,
hesitantes, o cu. Observo os cmulos (sinnimo de pilha),
que se assemelham a montes de pur de batata, e as largas
tiras de estratos (que significa estendido). Como observou o
escritor James Trefil, uma nuvem  uma espcie de lago
flutuante. Quando o ar quente sobe e colide com o ar frio
descendente, a gua precipita-se, como neste mo-mento.
Abrigo-me debaixo de um alpendre, enquanto se inicia uma
verdadeira borrasca, uma trovoada pujante, a todo o vapor,
durante a qual se abrem rachas no cu latejante. Os relmpagos
parece sal-tarem e espetarem-se no cho como forquilhas. A
verdade  que  frente vem como que um pequeno batedor
elctrico e a Terra responde lanando um raio em direco ao
cu, aquecendo o ar com tamanha rapidez que explode provocando
uma exploso a que chamamos trovo. Conto os segundos que
decorrem entre o re-lmpago e o trovo e depois divido por
cinco e obtenho a sua distn-cia aproximada -- 3,5
quilmetros. Num segundo, o som percorre 3500 metros. Se
relmpago e trovo surgem ao mesmo tempo, no temos grandes
possibilidades de fazer clculos. Por instantes a tempestade
amaina, pois a trovoada afasta-se um pouco. Uma nu-vem com
forma de rinoceronte metamorfoseia-se no perfil de Elea-nor
Roosevelt; depois  uma taa cheia de abboras, em seguida um
drago com a lngua de fora. Desfilando pelo cu, nuvens como
:, esta acocoraram-se por cima de gente de todas as pocas e
pases. Quantas tardes indolentes as pessoas passaram a ver as
nuvens pas-sar! Os antigos Chineses entretinham-se a descobrir
formas nas nu-vens tal como fazem hoje os Esquims, os Bantos
ou os naturais de Pittsburgh. Marinheiros, generais,
lavradores, fazendeiros e outros sempre consultaram o cu,
como se ele fosse uma bola de cristal, para fazer previses
meteorolgicas (nuvens lenticulares: ventos  fortes e altos;
cu manchado: chuva prxima; nuvens baixas, espessas e
escuras, dispostas em camadas: uma frente fria e de tempestade
pode vir a caminho), inventando ditados e mximas alm de
complicadas cartas, atlas e grficos de nebulosidade to belos
quanto teis. Ao atravessar a Sibria de comboio, Laurens van
der Post olhou pela janela e viu uma imensa extenso de
plancies e um cu interminvel. Creio que nunca estive num
lugar com tanto cu e espao em volta, escreveu no seu livro
*Journey into Russia*, e o
que mais o espantou foram as enormes nuvens de tempestade que
saam da escurido para se dirigirem  cidade adormecida,
parecendo,  luz dos relmpagos convulsivos, fabulosos cisnes
batendo as suas asas de fogo na nossa direco. Enquanto Van
der Post ob-servava os relmpagos pela janela do comboio, o
amigo russo que o
acompanhava explicou-lhe que na sua lngua existia uma palavra
para aquele espectculo: *Zarnitsa*.
   Em todas as pocas e regies, as pessoas viveram sempre
obcecadas pelos diversos aspectos do cu. No apenas por as
suas colheitas e viagens dependerem do tempo, mas tambm por o
cu ter um valor simblico to forte. O cu que os deuses
ha-bitam, o cu de cuja permanncia dependemos e que encaramos
como um dado adquirido, como se na realidade no fosse mais do
que um tecto alto e abobadado com estrelas pintadas, tal co-mo
supunham os nossos antepassados. O cu que, nas histrias
in-fantis, pode cair. Nas manifestaes contra o desarmamento
nuclear dos anos 60, havia quem empunhasse cartazes dizendo:
*:chicken little tinha razo* (*). 

(*) Referncia a uma histria infantil tradicional inglesa em
que o protagonista, o pinteinho Chicken Little, conta a todos
os companheiros que o cu lhe caiu em cima da cabea. (*N. da
T*.)

Para ns, o cu  o local onde os que amamos repousam
eternamente, como se as suas almas fossem um perfumado
aerossol. Enterramo-los entre agulhas de pinheiro e vermes,
mas na nossa imaginao viajam at algum recanto do
fir-mamento de onde velaro por ns. No alto residem os
sentimentos elevados, vivem os poderosos, cantam coros de
anjos. No sei por que razo o cu simboliza os nossos mais
nobres ideais e :, motivaes, a no ser que, por termos pouca
confiana em ns prprios, nos tenhamos convencido de que os
nossos actos de misericrdia, generosidade e herosmo no so
qualidades intrnsecas, caracters-ticas que apenas os seres
humanos podem convocar, mas, antes, dons provisrios que nos
foram concedidos por um poder sobrena-tural residente no cu.
Bloqueados pelos acontecimentos, ou horro-rizados com a
natureza humana, muitas vezes erguemos os olhos na direco da
manso de estrelas onde julgamos que o nosso destino 
traado.
   Conduzindo em direco ao sul, ao fim de quatro horas de
pe-nhascos soberbos e um mar bravo e pattico, onde
lontras-marinhas se bamboleiam em camas de algas,
lobos-marinhos ladram, focas se amontoam como pequenas cadeias
de montanhas e os ocenicos corvos-marinhos, maaricos,
alcatrazes e outras aves marinhas fa-zem, atarefadas, os seus
ninhos, detenho-me numa encosta ventosa de Big Sur. Um
pinheiro-de-monterey debrua-se sobre o Pacfico, formando uma
salincia de onde se pode observar o pr do Sol. Os fortes
vendavais arrancaram-lhe os rebentos e ramos de um lado,
fazendo-o parecer um dedo negro e esfarrapado apontando o mar.
As pessoas encostam os seus automveis, saem, e ficam de p a
olhar. No  preciso dizer nada. Partilhamos a mesma magnfica
experincia visual. Acenamos com a cabea uns aos outros. O
almofadado cu azul-plido e o mar azul-escuro encontram-se
numa linha fina co-mo o fio de uma navalha. Porque ser to
empolgante ver uma r-vore segurar pedaos de cu nos seus
ramos e ouvir as ondas rebentar numa praia rochosa, lanando
espuma branca no ar en-quanto as gaivotas chiam? Entre todas
as formas de olhar o cu, urna das mais apreciadas  atravs
da filigrana de ramos de uma rvore, ou por cima de um local
arborizado, ou em volta dele. Isso prende-se com a maneira
como de facto vemos e observamos o cu. As rvores con-duzem
os olhos do cho para os cus, ligando a natureza efmera e
detalhada da vida  volumosa abstraco azul que existe por
cima de ns. Numa lenda nrdica, o imponente freixo Yggdrasil,
com os seus enormes ramos arqueados e trs razes ramificadas,
estende-se at ao cu, suportando o Universo e ligando a Terra
ao cu e ao inferno. A r-vore  habitada por animais e
demnios mticos; numa das suas razes encontra-se o poo de
Mimir, fonte da sabedoria de onde bebeu o deus Odin a fim de
se tornar sbio, o que lhe custou uma vista. Em muitas
histrias e lendas antigas, as rvores surgem como fontes de
conheci-mento, talvez porque parece fazerem a unio entre a
Terra e o Cu, en-tre o mundo conhecido e penetrvel e tudo
aquilo que fica fora do nosso entendimento e poder. :,
   Hoje, o oceano est escuro, com uma espuma que se enrola e
bate constantemente. Perto da praia, a orla espessa e branca
deixada pelas ondas parece ter sido aplicada com uma esptula.
O barulho do vento hmido e salgado lembra o de um vestido de
tatet. Uma gaivota encontra um marisco e comea a
despeda-lo, enquanto outras a perseguem tentando roubar-lhe
o alimento, todas elas chiando como mquinas mal oleadas.
   Quando estive em Istambul h vrios anos, fiquei encantada
com o modo como as mesquitas, com a sua forma de cebola, se
destacavam do cu. Em vez de ver uma linha de horizonte como a
de Nova Iorque ou So Francisco, via-se apenas o espao que
fi-cava entre as ondas, curvas e espirais dos minaretes e das
bulbosas cpulas. Mas aqui v-se a silhueta ntida das rvores
recortadas no cu: o pinheiro-escocs, que parece uma roca,
com o seu tronco es-guio e a sua copa arredondada; o cipreste,
alto, simtrico, em forma de gro de arroz, e o abeto. Mais a
norte, ficam as sequias, os se-res mais pesados a habitar o
planeta. Os eucaliptos de folhas aromticas, rvores
importadas, to resistentes e prolferas que ocuparam
florestas inteiras na Califrnia, parecem cabeas molha-das,
acabadas de lavar. Durante o Outono e o Inverno, encontramos
nos seus ramos longas grinaldas de borboletas penduradas pelos
ps onde tm garras semelhantes a pequenos arpus. Todos os
anos uma centena de milhares delas migra, voando cerca de 6400
quil-metros desde o Norte dos Estados Unidos e Canad para
passar o Inverno na costa da Califrnia. Deslocam-se em grupo
para se manterem quentes. As borboletas parece preferirem
rvores que cheirem a cnfora e menta, pois libertam vapores
que afastam a maior parte dos insectos e aves. Os gaios
atacam-nas quando elas saem das grinaldas em busca de nctar
ou para repousar, de asas bem abertas como painis solares. As
larvas de borboleta comem folhas de asclpia, uma planta
venenosa parecida com a dedaleira,  qual so imunes mas que
as torna a *elas prprias* venenosas; as aves aprendem
depressa que comer borboletas no lhes faz bem. Se virem uma
borboleta a voar com uma espcie de dentada numa asa,
provavelmente esto a olhar para a vtima do ataque de uma ave
mal informada. Quando estive a ajudar a etiquetar borboletas,
vi uma fmea exactamente nessa situao, a tremer na varanda
do meu quarto de hotel. Um gaio enorme e mal disposto estava
empoleira-do no corrimo e dava s asas, pronto para voltar a
atacar a borbo-leta. Embora no tenha o hbito de interferir
no trabalho da Natureza, deixei-me levar pelos meus instintos
e corri l para fora, dirigi-me ao gaio, disposta a dar-lhe um
murro no peito e nesse :, instante ele deu um pulo, um grito e
depois fugiu, verdadeiramente aterrorizado com a minha sbita
investida. A borboleta manteve-se firme e estremeceu; ento,
fui ver se no estaria prestes a pr ovos, segurando-a com
cuidado entre o polegar e o indicador e. fazendo uma leve
presso sobre o seu abdmen,  procura de alguma salin-cia.
No estava, nem a dentada na asa parecia grave, de modo que a
levei at perto de uma rvore onde balouava um longo colar
cor-de-laranja de borboletas. Segurei-a em frente  minha
boca, bafejei-a com ar quente para aquecer os seus msculos
voadores, visto a manh estar fresca, e lancei-a no ar.
Esvoaou at ao grupo de companheiras e quando voltei para
dentro, disse-lhe adeus. O gaio ainda gritava por sangue e
pouco depois vi-o atravessar o ptio dando s asas com energia
e confiana.
   Em Big Sur, os falces parecem membros de um grupo de
tea-tro ambulante, caindo e pondo-se de p, voando por colunas
invis-veis de ar quente, que se eleva do cho aquecido pelo
sol. As aves so to geis e astuciosas! Cada espcie tem a
sua prpria estrutura, maneira de voar e os seus prprios
talentos, a fim de tirar o melhor partido possvel do cu, o
que muitas vezes se reflecte nas suas si-lhuetas. Nalguns
mochos, por exemplo, a extremidade das penas a-presenta-se
levemente franjada, de modo a abafar o rudo da sua
aproximao. Os tentilhes batem as asas com fora durante
algum tempo e depois fecham-nas para descansar um pouco. As
rolas nunca param de bater as asas enquanto voam. Os
falces-peregrinos enco-lhem as asas para descer. Os gavies,
que atingem uma velocidade mdia de quarenta quilmetros 
hora, tm asas pontiagudas, o que os torna mais esguios quando
voam ou planam. No Grand Canyon, podemos v-los actuar nas
paredes do desfiladeiro como se fossem morcegos acrobatas.
   O cu est tambm repleto de voadores passivos. Os
freixos fmeas lanam no ar as suas sementes aladas e os
choupos e outras rvores produzem espigas compridas que deixam
cair pesadamente ao cho. O cer lana sementes com a forma de
cogumelos que ao cair rodopiam como ps de uma hlice,
propulsoras, quais peque-nos giroplanos. Graas ao vento, a
vida sexual de muitas plantas alterou-se. Entre outras, o
dente-de-leo, o cardo e o choupo desen-volveram uma espcie
de pra-quedas ou velas que aproveitam a fora do vento. O
pinheiro, o abeto, o cer, o carvalho e a ambrsia no tm
flores vistosas, mas no necessitam delas para distrair uma
ave ou abelha. O papel de intermedirio que o vento desempenha
 suficiente. As plantas no podem namorar, nem fugir de uma
ameaa; por conseguinte, inventaram formas engenhosas de
explorar o meio :, ambiente e os animais. Os gros de plen
podem ter apenas 0,0025  milmetros de dimetro, no entanto,
precisam de atravessar ventos incertos e chegar a casa em
segurana. Utilizando um tnel aerodinmico, Karl Niklas, um
cientista da Universidade de Cornell, concluiu recentemente
que as plantas no so criaturas passivas  espera que o seu
plen consiga apanhar uma brisa e desa na paragem certa.
Niklas descobriu que a pinha desenvolveu uma configurao
perfeita para captar o vento, venha ele de onde vier: a forma
de uma turbina, com ps que fazem girar o ar em volta. Como um
planeta, a pinha envolve-se numa atmosfera de ar em movimento
rpido, tendo, logo abaixo da camada superior giratria, outra
camada imvel e vazia. Quando o plen cai da camada em movi 
mento para a imvel, vai atingir a pinha a grande velocidade.
Niklas tambm testou a dinmica do fluxo de ar na jojoba, que
se serve de duas folhas com a forma de orelhas de coelho para
dirigir
o ar, com resultados igualmente astuciosos.
   Na estao das alergias, o plen faz-me (e a milhes de
outras pessoas) espirrar, e por vezes tenho tanta comicho nos
olhos que no consigo usar as lentes de contacto. Mas
agrada-me saber que toda essa barafunda se deve apenas 
forma. Como minsculos *sputniks* voando baixo, alguns gros
de plen assemelham-se a bo-las cobertas de espinhos. Outros
so do feitio de bolas de futebol, como os olhos dos jacars.
O plen do pinheiro  redondo, com algo que parece um par de
orelhas, uma de cada lado. Essas formas
fazem-no mover-se ou voar a velocidades diferentes e segundo
padres diferentes, no havendo o perigo de o plen errado ir
dar      planta errada. Parece estranho que o cu tenha
seces, mas tem,   at o vento tem seces.
    medida que cai a noite em Big Sur, toda a fuligem do
mundo parece precipitar-se sobre o pr do Sol. Um enorme
dobro amarelo mergulha devagar no oceano, tremeluzindo como
se estivesse a ser engolido. Depois, um pequeno lingote verde
flutua por instantes no horizonte e desaparece. O raio
verde, assim  chamado com solenidade mstica. Mas  um
brevssimo raio verde, e esta  a primeira vez, em toda a
minha vida de observadora do pr do Sol, que o vejo. Verde,
azul-celeste, roxo, vermelho: que sorte viver num planeta com
cus coloridos. Porque  o cu azul? A luz branca do
Sol  na verdade, um feixe de raios coloridos que
classificamos num espectro de seis cores. Quando a luz branca
colide com tomos dos gases que constituem a atmosfera,
basicamente oxignio e nitrognio, bem como partculas de p e
humidade em suspenso, a luz azul, a mais enrgica do espectro
visvel, espalha-se. O cu :, parece estar repleto de azul.
Isto  particularmente verdadeiro quando o Sol est a pique,
caso em que os raios de luz tm uma distncia menor a
percorrer. Os raios vermelhos so mais compridos e pene-tram
melhor na atmosfera. Quando chega a altura de o Sol se pr,
uma das faces da Terra volta-lhe as costas; a luz tem de
percorrer uma distncia maior e oblqua, atravessando ainda
mais poeiras, vapor de gua e molculas de ar; os raios azuis
espalham-se ainda mais e os vermelhos continuam a sua viagem.
O Sol pode surgir in-chado, enorme, ligeiramente elptico, ou
mesmo acima das ondas do horizonte, quando na verdade est
abaixo delas, devido  refrac-o, o desvio que os raios da
luz sofrem na sua direco. Vemos, ento, um magnfico pr do
Sol vermelho, em especial quando h nuvens que reflectem as
novas cores. A ltima cor que sulca a at-mosfera sem ser
espalhada  o verde, por isso vemos por vezes um raio de luz
verde logo aps o Sol desaparecer. No espao, o ar pare-ce
negro por no existirem poeiras para espalhar a luz azul.
   No farol de Big Sur, encarrapitado num promontrio
distante, um foco luminoso previne as embarcaes de que esto
prximas da costa ou de bancos de areia, projectando a sua luz
de modo a ser vista de longe,  velocidade de 297.600
quilmetros por segundo. A luz do Sol leva cerca de oito
minutos a chegar  Terra. E a luz que nos chega da Estrela do
Norte meteu-se a caminho no tempo de Shakespeare. Reparem como
 recto o percurso da luz. No entanto, basta que a luz do Sol
atravesse um prisma para haver um desvio. Como cada raio sofre
um desvio diferente, as cores separam-se em bandas. Muitas
coisas recebem a luz atravs de um prisma -- as es-camas do
peixe, a madreprola existente no interior da concha de uma
lapa, leo numa estrada escorregadia, as asas de uma liblula,
as opalas, bolhas de sabo, penas de pavo, as espiras de um
disco, o metal ligeiramente bao, o pescoo de um beija-flor,
os litros dos escaravelhos, as teias de aranha salpicadas de
orvalho -- mas a que melhor conhecemos , talvez, o vapor de
gua. Quando o dia est chuvoso mas claro, ou numa
queda-d.gua num local enevoa-do, a luz do Sol incide nas
gotas de gua em forma de prisma e  dividida naquilo a que
chamamos um arco-ris. Nesses dias, for-mam-se sempre
arcos-ris, escondidos algures nas saias da chuva; mas, para
os conseguirmos ver bem, temos de estar na posio cer-ta, com
a luz do Sol baixa e nas nossas costas.
   
    noite no planeta Terra. Porm, trata-se apenas de um
capricho da Natureza, o resultado de o nosso planeta girar no
espao  velo-cidade de 29,79 quilmetros por segundo. Aquilo
a que chamamos :, noite  o tempo que passamos de frente
para as esferas secretas do espao onde existem outros
sistemas solares e talvez outros ha-bitantes. No pensem na
noite como a ausncia do dia; pensem nela como uma espcie de
liberdade. De costas para o nosso Sol, vemos o amanhecer de
vastas galxias. J no estamos ofuscados pelo universo
revestido de estrelas que habitamos. Ao negro intermin-vel,
que parece estender-se eternamente de estrela em estrela e
mesmo para trs, ao tempo do Big Bang, chamamos infinito,
do francs *in-fini* que significa sem fim ou incompleto.
A noite  um mundo de sombra. As nicas sombras que vemos
durante a noite so lanadas pelo luar, ou pela luz
artificial, mas  noite , em si, urna sombra.
   No campo, v-se uma maior quantidade de estrelas, e a noite
lembra um poo sem fundo voltado ao contrrio. Se formos
pa-cientes e esperarmos at os nossos olhos se habituarem ao
escuro, podemos ver a Via Lctea, uma mancha que atravessa o
cu. A espinha dorsal do cu,  como os indgenas do
Kalahari Ihe chamam. Para os Suecos, ela  a estrada do
Inverno que conduz ao cu. Para os ilhus das Hbridas  o
caminho do povo secreto. Para os Escandinavos, a rota dos
espritos. Para os habitantes da Patagnia, obcecados com as
suas aves no voadora,, as pampas brancas onde os espritos
caam emas. Mas na cidade vemos com maior facilidade as
principais constelaes, pois h menos estrelas visveis para
distrair-nos.
   Onde quer que estejamos, para observar as estrelas o ideal
 deitarmo-nos de costas. Hoje v-se uma metade da Lua,
semelhante a um perfil maia. Est luminosa e cintilante, um
autntico farol no meio da noite, e no entanto sei que se
trata de uma luminosidade emprestada. Durante o dia, se pegar
num espelho e com ele fizer um ponto de luz passear pelas
rvores, estarei a reproduzir o modo como a Lua reflecte a luz
do Sol, j que no possui luz prpria. Por cima de mim, entre
o Sagitrio e o Aqurio, a constelao do Ca-pricrnio trota
pelo cu. Os Astecas representam-na atravs de uma baleia
(*cipactli*), os Indianos viram nela um antlope (*makaram*),
os Gregos apelidaram-na de porto dos deuses e para os
Assrios era um salmonete (*munaxa*). A estrela mais conhecida
 talvez a Estrela do Norte ou Polar, embora tenha, claro,
muitos outros nomes; para os Navajos  A Estrela Que No Se
Move, para os Chineses, a Grande
Governadora Imperial do Cu.
   Em todas as pocas as pessoas olharam o cu para descobrir
on-de estavam. Quando eu era criana, costumava pegar numa
lata va-zia, sem fundo nem tampa, e cobrir um dos topos com um
pedao de :, folha de alumnio na qual perfurava o desenho de
uma constelao; depois introduzia uma lanterna de bolso pelo
outro lado, acendia-a e obtinha um planetrio particular.
Quantos viajantes, perdidos na terra ou no mar, esperaram pela
noite para tentar traar o caminho de regresso com o auxlio
da Estrela Polar. Localiz-la como eles o fizeram aproxima-nos
desses nmadas. Primeiro, procurem a Ursa Maior e prolonguem a
linha que passa pelas duas ltimas estrelas da sua cauda.
Vero que a Estrela do Norte parece um monte de natas a
escorrer da constelao voltada de pernas para o ar. Se a
Ur-sa Maior no estiver visvel, podem encontrar a Estrela do
Norte pela Cassiopeia, uma constelao que fica logo abaixo da
Estrela I Polar e que tem a forma de um W ou M, conforme a
hora em que estiverem a observ-la. A mim parece-me sempre uma
borboleta. Devido ao movimento de rotao da Terra, as
estrelas parece flu-tuarem pelo cu de leste para oeste; por
conseguinte, existe outra forma de nos orientarmos que  fixar
uma estrela qualquer e, se ela parecer que est a subir,
estamos voltados para leste; se parecer que est a cair,
estamos voltados para oeste. Quando eu era escuteira, durante
o dia orientvamo-nos espetando uma vara no cho. Faza-mos o
que tnhamos a fazer e regressvamos quando a vara projec-tava
uma sombra com cerca de quinze centmetros de comprimento. O
Sol ter-se-ia deslocado para oeste e a sombra estaria
apontando para leste. Por vezes, utilizvamos um relgio de
pulso como se fos-se uma bssola. Coloquem o relgio com o
mostrador virado para ci-ma e o ponteiro das horas apontando o
Sol. Peguem numa agulha de pinheiro ou num tronco pequeno e
segurem-no muito direito em cima da borda do mostrador, de
modo a projectar uma sombra so-bre o ponteiro das horas. O Sul
ficar a meio do espao entre o ponteiro das horas e o
meio-dia.  claro que existem muitas outras formas de nos
orientarmos, visto que uma das coisas que os seres humanos
mais apreciam  passear, com a condio de regressarem a casa
sos e salvos. Se virem uma rvore com um dos lados do tronco
cobertos de musgo, esse ser provavelmente o lado norte, pois
o musgo prefere o lado sombrio das rvores. Se olharem para um
cepo de rvore, vero que os crculos concntricos so mais
espessos do lado da luz do Sol, ou seja do lado sul. Podem
tambm reparar nos topos dos pinheiros, que em geral se voltam
para leste. Ou ento, se souberem de onde sopram os ventos
predominantes, podem orientar-se pela inclinao da vegetao.
   Novembro. As Lenidas esto a chegar a Leo. So uma chuva
de estrelas que cai sobretudo depois do pr do Sol ou antes da
alvo-rada e surge nas mesmas constelaes todos os anos na
mesma :, altura. Na Antrctida esperei ver auroras, vus de
luz causados pelo vento solar soprando no campo magntico da
Terra e deixando a-trs de si uma fantstica luz trmula. Mas
os dias foram quase todos de um sol radioso e as noites um
lusco-fusco cinzento. Ao fim do dia, o mar estava da cor do
chumbo, mas no vi auroras nem faixas brilhantes. Leiam esta
descrio feita pelo capito Robert Scott, em Junho de 1911:

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   A leste, o cu era uma massa de ondulante luz auroreal...
Dobra a dobra, folhos e drapeados de luminosidade vibrante
ergueram-se e espalharam-se pelo cu, para lentamente se
desvanecerem e voltarem a subir, incandescentes de vida.
   A luz mais intensa parecia fluir, mas depois desdobrava-se
em grinaldas de onde se erguiam raios brilhantes, que logo
corriam em ondas atravs de um qualquer sistema redutor...
    impossvel presenciar um fenmeno to belo sem uma
sensao de assombro e, no entanto, tal sentimento no 
inspirado pela incan-descncia mas sim pela delicadeza de luz
e cor, pela sua transparncia e acima de tudo nela trmula
evanescncia da forma.
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   Hoje, Marte brilha como um ferro em brasa. Embora no passe
de um ponto no cu, no meu esprito  uma regio de plancies
tempestuosas, vulces, ravinas, donas, arcos cavados pelo
vento, leitos secos e coifas polares brancas e brilhantes, que
alternam perodos de crescimento com perodos de declnio,
conforme a estao.  possvel em
tempos ter havido l um clima e gua corrente. Em breve, Vnus
surgi-r com uma luz prateada e brilhante, como habitualmente
sucede trs horas aps o pr do Sol ou antes da alvorada. Com
o seu rosto branco e difano, parece mumificada nas
fotografias, mas sei que essa impresso se deve aos bancos de
nuvens carregadas de cidos que flutuam
sobre uma superfcie onde os efeitos de luz abundam, e as
temperaturas so elevadas ao ponto de derreter chumbo. H
muitos tipos de viso: lateral, imaginativa, alucinatria;
vises de grandeza ou de amplas possibilidades. Embora no
consiga para j ver a luz constante de outros planetas, sei
que eles esto l, juntamente com asterides, cometas,
galxias distantes, estrelas de neutres, buracos negros e
outros fantasmas do espao. E imagino-os com uma segurana que
Walt Whitman tambm sentiu ao proclamar: Os sis brilhantes
que vejo e os sis escuros que no vejo esto no seu lugar.
   Nascer do Sol. A escurido comea a desaparecer do cu. Um
espesso banco de nevoeiro cobre o vaie como a crislida de uma
:, traa. Vnus, Mercrio e Saturno brilham como buracos
prateados a arder no cu, que a pouco e pouco se vai tornando
azul. As estrelas extinguiram-se, j que a sua luz chega 
Terra demasiado plida pa-ra ser vista  luz do dia. Na
neblina, duas silhuetas escuras come-am a definir-se,
correspondendo a duas vacas. Um vitelo torna-se distinto.
Aprender como  o mundo  assim: observar e esperar que as
formas se tornem distintas no nevoeiro da nossa memria. Um
cu plido cobre-se de faixas difanas de nuvens. A terra est
coberta de nvoa. O cume mais alto assemelha-se  chamin de
um comboio: arrasta atrs de si as nuvens. Agora, o mundo de
nuvens que estava horizontal torna-se vertical,  medida que
os cmulos iniciam a sua subida da montanha. Vnus vibra, um
farol imper-feito no cu ocidental. Um agrupamento de tendas
feitas de nuvens eleva-se no topo da cadeia montanhosa. O
primeiro falco do dia plana no ar fresco, as asas arqueadas.
Em gotas redondas e azula-das, o orvalho repousa sobre a erva
salpicada de trevo. Um esqua-dro de dezoito pelicanos voa
numa mancha extensa, descreve uma curva e desaparece, volta a
curvar e deixamos de v-lo. Um enorme travesseiro de nuvens
rola pelo vale. As vacas desaparecem, mas o cu torna-se mais
azul; Vnus empalidece, formam-se nuvens bran-cas, a neblina
sobe como uma febre, surge uma casa e mais algu-mas vacas. Uma
rvore solitria atingida por um raio destaca-se como um totem
na colina, a luz intensifica-se e as aves iniciam o seu
diligente coro,  medida que o primeiro amarelo se eleva no ar
como uma gema de ovo subindo ao parapeito do mundo; de repente
o Sol  um canrio a cantar luz.


LUZ


   Sem luz, poderamos ver? Sem luz e sem gua, existiria
vida?  difcil imaginar a vida sem luz. Nunca vi uma
escurido to ater-rorizadora como quando mergulhei para
visitar uma gruta submari-na nas Baamas. Levvamos lanternas,
mas eu acabei por apagar a minha e ficar s escuras. Mais
tarde, quando sai da gruta e regressei  luz estonteante do
Vero nas Baamas, o Sol ardia a cento e cin-quenta milhes de
quilmetros de distncia e mesmo assim quei-mava os meus
braos e pernas como uma lixa. s dezasseis horas em ponto
chuviscou como acontecia todos os dias quela hora. As
estradas molhadas ficaram lustrosas. O mesmo no aconteceu com
as paredes de pedra. Ao atingir uma superfcie macia e lisa,
as on-das de luz so projectadas todas da mesma maneira,
fazendo a :, superfcie brilhar. Se a superfcie  irregular,
as ondas de luz espa-lham-se em muitas direces e nem todas
regressam aos nossos o-lhos, razo pela qual a superfcie no
brilha. Basta um pouco de luz para estimular um olho -- uma
vela a arder a dezasseis quilmetros de distncia  o
suficiente -- e uma noite de luar, em especial aps uma queda
de neve, inunda o olho de reflexos, formas e movimen-to. Os
astronautas em rbita  volta da Terra vem l em baixo as
esteiras que os navios deixam nos oceanos. Mas quando estamos
numa floresta sob um pesado banco de nuvens e a noite cai como
um poderoso manto negro, no h raios de luz para regressar
aos nossos olhos e ento no vemos. Como Sir Francis Bacon
observou astutamente no seu ensaio sobre religio: Todas as
cores esto de acordo no escuro.
   Mesmo as pessoas cegas de nascena so afectadas pela luz,
j que, embora para ver precisemos de luz, esta tambm nos
influencia de outras formas subtis. Afecta o nosso estado de
esprito, restabelece as nossas hormonas e desencadeia os
nossos ritmos fisiolgicos. Nas latitudes mais elevadas,
durante a estao escura, a percentagem de suicdios aumenta,
a loucura paira em muitos lares e o alcoolismo sobe em flecha.
Certas doenas, incluindo o raquitismo, resultam do facto de
as crianas apanharem muito pouco sol; as crianas so
criaturas muito activas e precisam da vitamina D produzida
pela luz do Sol para se manterem saudveis. Outros males, como
a depresso que ocorre tipicamente nos meses de Inverno, pode
ser tratada com doses dirias de luz muito forte (vinte vezes
superior  da vulgar ilu-minao artificial que usamos em
nossas casas) durante cerca de meia hora, todas as manhs.
Certos tipos de depresso latente podem curar-se alterando o
padro de sono do doente, de modo a correspon-der mais de
perto aos perodos de luz e escurido da poca do ano em
curso. Em Ithaca, no estado de Nova Iorque, o ano tem duas
estaes apenas, ambas hmidas -- calor hmido e frio hmido
-- de modo que a cidade encontra-se quase sempre coberta de
neblinas. A luz no penetra pelas janelas quando o Sol nasce.
Alis, as janelas do meu quarto tm espessos cortinados e
durmo num quarto completamente s escuras. Embora eu pratique
marcha todos os dias durante quinze minutos, verifico que,
durante o Inverno, me sinto muito mais enr-gica, e em geral
muito mais feliz, se a fao de manhzinha ou a meio da manh e
todos os dias sem falhar; no Vero, no interessa a altura em
que fao exerccio nem se de vez em quando falto um dia.
   A luz est a ser usada como terapia no tratamento da
psorase, da esquizofrenia e at de certas espcies de cancro.
A glndula pi-neal, ou o terceiro olho como tem sido
misticamente chamada, :, parece estar intimamente ligada 
nossa capacidade de nos situar-mos no tempo,  sensao de
bem-estar, ao incio da puberdade, aos nveis de testosterona
e estrogneo que produzimos, e est certa-mente associada s
alteraes no nosso comportamento com cada estao. Nos
homens, a testosterona atinge o seu nvel mais elevado no
incio da tarde (por volta das catorze horas) durante o ms de
Outubro, porque, penso eu, uma criana concebida nesse perodo
iria nascer no Vero e ter maiores hipteses de sobrevivncia.
 evi-dente que os homens, que passam por um crescendo do
lbido em Setembro e apenas reduzem o seu entusiasmo muito
ligeiramente perto do Natal, no esperam que chegue esse ms
outonal para fa-zer amor.
   Uma das marcas distintivas da nossa espcie  a capacidade
no s de nos adaptarmos ao meio ambiente como tambm de
modifi-carmos esse meio de modo a melhor nos servir.
Suportamos bas-tante bem o frio, mas no permitimos que ele
nos obrigue a migrar; construmos abrigos e usamos roupa.
Respondemos  luz do Sol e crimos luz para quando ela  fraca
ou inexistente. Utilizamos a energia do fogo e criamos
energia. Fazemos quase tudo isso exteriormente aos nossos
corpos, ao contrrio das outras criaturas. Quando queremos
iluminar o mundo em nossa volta, fa-zemos lmpadas. Em muitos
insectos, peixes, crustceos, moluscos, fungos, bactrias e
protozorios, o prprio corpo  luminoso: vi-bram com luz. O
peixe-demnio chega mesmo a lanar pela boca um engodo
luminoso a fim de atrair a presa. O pirilampo macho acende os
seus faris amarelo-esverdeados do desejo e se a fmea est
tambm sexualmente desperta responde-lhe da mesma forma.
Parecem excitados e incomodados, piscando na noite de Vero
como dois amantes fugindo de um poste de iluminao pblico
para outro. A luz vem-lhes da mistura de duas substncias
qumicas, a luciferina e a luciferase (lcifer significa a
estrela da manh). Se atravessa-rem a chamada bala
fosforescente, ao largo da costa sul de Porto Rico, durante a
noite num barco a remos, deixaro uma esteira de auroras
brilhantes na gua e vero fogo frio saltar dos vossos re-mos;
deve-se a invertebrados microscpicos que vivem nessas guas e
segregam um lquido luminoso sempre que so impelidos. James
Morin, investigador de biologia martima a trabalhar na
U-CLA, tem-se dedicado ao estudo de crustceos pequenos como
gros de arroz do gnero. *Vargula*, que baptizou de
pirilampos--pulgas. Existem trinta e nove espcies
conhecidas e todas se ser-vem da luz no apenas para acasalar,
mas tambm para assustar o inimigo. Ao brilhar tornam-se mais
visveis; no entanto, o mesmo :, se passa com o predador, que
por sua vez se torna mais fcil de lo-calizar por predadores
maiores. Durante o acasalamento, cada esp-cie desenvolve o
seu prprio dialecto luminoso. Muito mais brilhantes do que os
pirilampos, as *Vargulae* produzem um claro de enorme
intensidade. Se eu colocasse um /pirilampo-pulga/ na ponta
dos dedos e o esmagasse, a luz produzida era suficiente para
eu conseguir ler o jornal durante cerca de dez minutos,
explica Morin. Os marinheiros falam de barcos lanando fogo
pela popa. No se referem ao fogo-de-santelmo (fenmeno
atmosfrico que pode atingir um mastro e incendi-lo,
provocando um claro forte e esverdeado), mas ao brilho
semelhante ao do luar que ro-dopia na gua quando os barcos
passam por esses minsculos seres luminosos.
   Na altura do Halloween (*), 

(*) O Halloween (corrupo de *All Hallows Eve*, que
significa Vspera do Dia de Todos-os-Santos), tam-bm
conhecido por Noite das Bruxas,  festejado a 31 de Outubro
em vrios pases de lngua inglesa. Adultos e crianas
mascaram-se de personagens assustadores, pregam partidas e
batem as portas a pedir do-ces e rebuados. (*N. da T*.)

as lojas desatam a vender colares, va-rinhas e outros artigos
de plstico que brilham no escuro. Baseados na
bioluminescncia, contm luciferina e funcionam do mesmo modo
que o claro dos pirilampos. Contudo, para um brilho mais
intenso, muitas pessoas mascam pastilhas de gualtria. Se no
meio da escurido segurarem uma dessas pastilhas entre os
dentes, ela projectar raios de luz azul-esverdeada. Certas
substncias (alguns quartzos, micas e mesmo a fita adesiva
quando  arrancada de cer-tas superfcies) so
*triboluminescentes*: se as friccionarmos, esma-garmos ou
quebrarmos, do luz. Depois de fragmentada, a gualtria
torna-se luminosa e o acar produz uma luz ultravioleta; essa
combinao, em rebuados que contm acar e leo de
gualtria, produz pequenos raios de luz azul-esverdeada.
Experimentem este jogo de salo: fechem-se num armrio com a
boca cheia de pasti-lhas de gualtria um amigo e esperem que
se soltem as fascas.


COR


   Ao crepsculo, asas cor-de-rosa agitam-se no alto das
colinas e o lils executa uma dana de sombras sobre o lago.
Quando a luz in-cide num automvel vermelho que descreve uma
curva na estrada, s os raios vermelhos se reflectem nos
nossos olhos e ento dizemos vermelho. Os outros raios so
absorvidos pela camada de tinta do carro. Quando a luz atinge
uma caixa de correio azul, o azul  reflectido e dizemos
azul. A cor que vemos  sempre aquela que  :,
reflectida, a que no fica quieta nem  absorvida. Vemos a cor
rejeitada e dizemos a ma  vermelha. Mas a verdade  que
uma ma  tudo menos vermelha.
   Embora o pr do Sol esteja prximo e tanto a qualidade como
a quantidade ou o brilho da luz tenham diminudo, ainda vemos
que a caixa de correio  azul, o carro vermelho. No somos
exac-tamente mquinas fotogrficas. Os nossos olhos no se
limitam a medir o comprimento das ondas de luz. Como deduziu
Edwin Land, inventor da Polaroid Land Camera e da fotografia
instant-nea, julgamos as cores pela sua companhia.
Comparamo-las umas s outras e revemos a comparao de acordo
com a hora do dia, a fonte de luz, a memria. (*) 

(*) Como os albinos no tm uma camada escura de clulas por
trs da retina,  maior a quantidade de luz que circula dentro
dos seus olhos e as cores parecem-lhes mais imveis e
diludas. (*N. da A*.)

Se assim no fosse, os nossos antepassa-dos no teriam
conseguido encontrar comida ao crepsculo ou nos dias de
nevoeiro. Os olhos trabalham com coeficientes de cor e no com
absolutos. Land no era um bilogo, mas sim um observador
atento do modo como vemos, e a teoria da constncia da cor por
ele proposta em 1963 continua a fazer sentido. H um dia em
que todos os estudantes desejam saber o que , afinal, *saber*
alguma coisa e se existem de facto simples verdades
perceptveis que as pessoas pos-sam partilhar. Se vemos
televiso a *cores*  porque os nossos ante-passados treinaram
os olhos a detectar se os frutos estavam maduros; e tambm
tinham de prestar ateno s plantas venenosas (que tendem a
ter cores mais vivas do que as outras) e aos animais. A
maioria das pessoas consegue identificar entre cento e
cinquenta a duzentas cores. Mas nem todas vem exactamente as
mesmas co-res, em especial as que forem total ou parcialmente
daltnicas (*), 

(*) Oliver Sachs conta a histria de um artista que, aos
sessenta e cinco anos, sobreviveu a um acidente de automvel,
mas perdeu toda a capacidade de ver as cores devido a uma
leso cerebral. Para ele, a carne hu-mana passou a ser cor de
ratazana e a comida tomou-se odiosa e intragvel por no ter
cor. (*N. da A*.)

como acontece sobretudo entre indivduos do sexo masculino. Um
barco azul pode parecer diferente consoante a margem do rio de
onde for visto, a paisagem, as nuvens e outros fenmenos. Os
sentimentos e recordaes que associamos a certas cores tambm
tingem o mundo em frente dos nossos olhos. E, no entanto, 
es-pantosa a frequncia com que estamos de acordo em relao
ao que consideramos vermelho, verde-verdete ou creme.
   Nem todas as lnguas tm nomes para todas as cores. Os
Japoneses s h pouco tempo incluram uma palavra para azul.
No passado, *aoi* era um termo genrico que designava a gama
de cores que vai do verde e do azul ao violeta. As lnguas
primitivas comearam por :, criar palavras para o preto e o
branco, em seguida acrescentaram o
vermelho, depois o amarelo e o verde; muitas agrupam os verdes
e azuis, e algumas no se do ao trabalho de fazer a distino
entre as outras cores do espectro. No grego antigo, havia
poucas palavras para exprimir cores, e por isso tem-se
discutido muito o significado de certas metforas utilizadas
por Homero como o mar cor de vinho escuro. O galico usa a
palavra *glas* para descrever a cor de um lago na montanha que
pode muito bem ser azul, cinzento ou verde.
Em suali, *nyakundu* pode significar castanho, amarelo ou
vermelho. No tendo palavra para o verde, a tribo dos Jals da
Nova Guin contenta-se em definir uma folha como escura ou
clara. Embora disponhamos de uma razovel gama de termos para
distinguir o azul do verde (como azur, turquesa, verdete,
marinho, indigo, cor de azeitona)  frequente no sabermos se
uma cor deve realmente
ser considerada azul ou antes verde, e ento recorremos a
compara-es como verde-alface ou verde-esmeralda. Em
ingls, po-rm, a linguagem das cores desaba quando se trata
de descrever o desenrolar da vida. Precisamos de seguir o
exemplo dos Maoris da Nova Zelndia que tm muitas palavras
para vermelho: todos os vermelhos que se intensificam ou
empalidecem  medida que os frutos e flores se desenvolvem,
que o sangue circula e seca. Precisamos de alargar a nossa
gama de verdes para descrever o verde
quase amarelado das ervas no final do Inverno, o verde
dolorosamente fluorescente das folhas no pino do Vero e todos
os caprichos da clorofila que ficam de permeio. Precisamos de
palavras para as inmeras cores das nuvens, que podem ser
rosa-prola durante um tranquilo pr do Sol sobre o oceano, ou
cinzento-esverdeadas e elctricas nos tornados. Precisamos de
rejuvenescer a nossa terminologia do castanho para abarcar
todas as tonalidades dos troncos
das rvores. E precisamos de palavras cooperantes que ajudem a
definir as cores que se alteram quando so atingidas por um
claro, diludas pela luz artificial, saturadas de pigmento
puro ou suave-mente banhadas pelo luar. Uma ma ser sempre
vermelha na nossa memria, seja qual for o stio onde a
olhemos, mas reparem como esse vermelho fica diferente debaixo
de uma lmpada fluorescente, sobre o ramo de uma rvore
frondosa, num quintal durante a noite ou dentro de uma
mochila.
   A cor no ocorre no mundo, mas sim na mente. Lembrem-se da
velha pergunta paradoxal: se uma rvore cair no meio de uma
floresta e no estiver l ningum para ouvir, ser que ela faz
barulho? Uma per-gunta paralela respeitante  viso: se no
estiver nenhum olho humano a v-la, uma ma ser realmente
vermelha? A resposta  no, no  :, vermelha no sentido em
que falamos de vermelho. H animais que tm uma percepo das
cores diferente da nossa, conforme a sua composi-o qumica.
Muitos vem a preto e branco. Outros distinguem cores que para
ns so invisveis. Porm, a variedade de formas em que
apreciamos a cor, a identificamos e usamos para tornar a vida
mais significativa  um exclusivo dos seres humanos.
   Na sala das pedras preciosas do Museu de Histria Natural,
em Nova Iorque, fiquei um dia parada em frente a uma enorme
pea de enxofre to amarela que me fez chorar. No me sentia
nem um bocadinho triste. Pelo contrrio, estava muito alegre e
entusiasmada. -A intensidade da cor afectou o meu sistema
nervoso. Na altura, chamei  emoo que senti admirao e
pensei: no  extraordi-nrio estar-se vivo num planeta onde
existem amarelos como este? Um especialista da cor dos
nossos dias ter-me-ia perguntado qual o centro de energia que
o amarelo estimulou. Ultimamente, o uso teraputico da cor
tornou-se uma moda e, por determinado preo, vrios tipos de
pessoas prontificam-se a ajudar-nos a saber de que cores o
vosso corpo precisa, como diz certo guru. Livros recentes
decretam quais as cores perfeitas para nos tornarmos mais
belos ou expulsar os maus espritos. No entanto, h muito
tempo que os cientistas sabem que determinadas cores suscitam
nas pessoas res-postas emocionais. Quando pintam, as crianas
usam cores escuras para expressar a sua tristeza, cores vivas
quando se sentem felizes. Um quarto pintado de cor-de-rosa
pastilha elstica (conhecido nos hospitais, escolas e outras
instituies como cor-de-rosa passivo) tranquiliza-as quando
esto insubordinadas. Numa experincia realizada na
Universidade do Texas, as pessoas observavam luzes coloridas
enquanto se media a fora do seu aperto de mo. Quando olhavam
para uma luz vermelha, que estimula o crebro, o aperto
tornava-se 13,5 por cento mais forte. Noutra experincia,
quando doentes hospitalares que sofriam de agitao convulsiva
olhavam para uma luz azul, apaziguadora do crebro, os
tremores abrandavam. As culturas antigas (grega, egpcia,
chinesa e indiana,
entre outras) recorriam a vrios tipos de terapias em que se
empre-gavam cores, receitadas em muitas doenas do corpo e do
esprito. As cores podem alertar, excitar, acalmar, animar.
Nos estdios de televiso e cinema, chama-se s salas de
espera salas verdes, pois so pintadas de verde, uma cor que
tem um efeito repousante. Vestir os meninos de azul e as
meninas de cor-de-rosa  uma histria muito antiga. Para os
antigos, um beb do sexo masculino era motivo de jbilo, uma
vez que significava mais um brao para trabalhar e a
continuao do nome da famlia. O azul, cor do cu, a :,
re-sidncia dos deuses e dos destinos, tinha poderes
especiais, como dar energia e afastar o mal, e vestiam-se os
bebs do sexo masculino de azul para proteg-los. Mais tarde,
surgiu uma lenda europeia se-gundo a qual as meninas nasciam
das delicadas rosas, passando a sua cor a vestir os bebs do
sexo feminino.
   H alguns anos, quando dirigi um curso de tcnicas de
escrita em St. Louis, no Missuri, usava muitas vezes a cor
como tnico. Independentemente do estudante com olhos de osis
no meu gabi-nete, do ltimo capricho irritante da secretria
ou da ansiedade his-trica do presidente, fazia os possveis
por chegar a casa mais ou menos  mesma hora para ver o pr do
Sol da enorme janela da mi-nha sala que dava para Forest Park.
Todas as tardes, o Sol desapa-recia em plumas lilases como o
capim dos pampas e disparava foguetes cor de fcsia para o cu
cor-de-rosa, depois mergulhava em ondas verde-pavo, que
passavam por todos os tons indianos do azul e finalmente se
tornavam negras, atravessadas por nuvens que lembravam bonecas
de alabastro. Eu precisava desesperadamente do pio visual
daquele pr do Sol. Certa vez, quando almoava uma salada de
gambas e abacate no circunspecto e constrangedor clube da
faculdade, na companhia de uma jovem colega anorctica que
tomava estimulantes, dei por mim a desejar ardentemente que o
dia chegasse ao fim e que a minha sinistra companhia se
eclipsasse, para eu poder arrastar a minha cadeira at junto
da janela e purificar os meus sentidos com o tumulto visual e
colorido do poente. O mesmo voltou a acontecer no dia
seguinte, no caf onde eu conversava com uma historiadora
literria que se vestia com as mais pardacentas co-res de
camuflado e falava sem parar, mesmo depois de ter dito o que
queria. Coloquei os msculos do meu rosto na posio de ouvir
embevecidamente enquanto ela continuava a resmungar sobre os
poetas carolngios, em que era especialista; porm, no meu
espirito o Sol comeava a pr-se, um claro verde dava lugar a
fai-xas de amarelo de enxofre e um comboio de nuvens lilases
surgia, aos ziguezagues, no horizonte. Eu pagava uma renda
demasiado elevada pelo meu apartamento, dizia ela. Era verdade
que o apar-tamento dava para o parque, onde se podia assistir
 sucesso das estaes do ano, tinha uma janela enorme donde
todas as noites se via o pr do Sol e ficava a um quarteiro
apenas de uma encantado-ra zona de ruas empedradas cheias de
galerias de arte, lojas de anti-guidades e restaurantes
exticos. Mas tudo isso significava despesa, como ela dizia,
acentuando com fora a segunda slaba, e no se re-feria
apenas ao aspecto financeiro, mas sim a um estilo de vida
de-masiado extravagante. Nessa noite, quando, ao pr do Sol,
vi as :, girndolas cor de alperche e de alfazema explodirem
devagar em fitas vermelhas, pensei: os insensveis  que vo
herdar a Terra, mas no sem primeiro a transformar num local
onde no valer a pena viver.
   Quando pensamos em algo como a morte, aps a qual (no h
nenhum Especial Informao a garantir o contrrio) o mais
pro-vvel  extinguirmo-nos de um momento para o outro como a
cha-ma de uma vela, deixa de ter importncia se nos esforamos
demasiado, se por vezes procedemos com estranheza, se nos
preo-cupamos excessivamente uns com os outros, se somos
demasiado curiosos acerca da Natureza, demasiado abertos 
experincia, se gastamos  tripa-forra os sentidos, desejosos
de conhecer a vida in-timamente e com paixo. No importa se,
ao tentarmos ser modes-tos e uns observadores atentos dos
muitos espectculos que a vide nos proporciona, por vezes
parecemos desajeitados, nos sujamos ou fazemos perguntas
estpidas, revelamos a nossa ignorncia, dize-mos o contrrio
do que devamos ou nos deixamos assombrar, co-mo as crianas
que todos somos. -nos indiferente que um annimo nos veja
enfiar o dedo nas bolsas de orvalho de dzias de orqudeas
silvestres para descobrir que insectos caem l para dentro e
nos a-che um pouco excntricos. Ou que quando a vizinha for
buscar o correio nos veja de p, ao frio, com a nossa prpria
correspondncia numa mo e, na outra, uma folha de Outono
sismicamente vermelha, cuja cor nos atinge como o disparo de
uma pistola, enquanto permane-cemos imveis, com um grande
sorriso, paralisados pela intrincada textura daquela folha.



:porque  que as folhas mudam de cor no outono


   A chegada furtiva do Outono apanha-nos a todos
desprevenidos. Aquilo era um pintassilgo, empoleirado no
bosque renovado de Setembro, ou apenas a primeira folha de
Outono? Um melro de asas vermelhas ou um cer a fechar a
loja com a aproximao do Inverno? Perspicazes como
leopardos, conservamo-nos imveis e semicerramos os olhos 
espera de ver algum sinal de movimento. A geada da manh cobre
pesadamente a relva e transforma o arame farpado num colar de
estrelas. Numa colina distante, um pequeno quadrado amarelo
lembra um palco iluminado. Finalmente perce-bemos o que se
passa: o Outono faz a sua entrada, pontual, trazendo a sua
bagagem de noites frias, feriados macabros e folhas
espectacu-lares, de uma beleza que impressiona. Em breve, as
folhas vo :, comear a curvar-se timidamente nas rvores e a
enrolar-se como punhos fechados antes de cair. As vagens secas
vo chocalhar como mins-culas cabaas. Mas primeiro teremos
semanas de uma efuso de co-res to vivas, to suaves, to
alegres, que vir gente subir e descer a costa oriental s
para v-las: uma estao inteira de folhas.
   De onde vm as cores? A luz do Sol governa a maioria das
coi-sas vivas com os seus ditos dourados. Quando os dias
comeam a diminuir, pouco depois do solstcio de Vero, a 21
de Junho, as rvores reconsideram as suas folhas. Durante todo
o Vero, alimentaram-nas de modo a poderem processar a luz do
Sol, mas j nos dias de cancula as rvores comeam a empurrar
os nutrientes para dentro do tronco e das razes, a pelar e a
desencorajar gradualmente a formao de folhas. Nos estreitos
pecolos das folhas forma-se uma camada cortical de clulas
que depois deixa uma marca. Subalimentadas, as folhas deixam
de produzir o pigmento chamado clorofila, e a fotossntese
deixa de efectuar-se. Os animais podem migrar, hibernar ou
armazenar alimentos, preparando-se para o Inverno. Mas que
pode fazer uma rvore? Sobrevive largando as folhas e, quando
o Outono chega ao fim, apenas uns raros e frgeis fios de
xilema carregados de seiva agarram ainda as folhas pela haste.
   Ao mudar de cor, uma folha comea por conservar uma parte
verde; depois,  medida que a clorofila vai sucumbindo,
apresenta umas manchas amarelas e vermelhas. O verde-escuro
parece demo-rar-se mais tempo nas nervuras, realando-as e
definindo-as. Du-rante o Vero, a clorofila dissolve-se por
aco do calor e da luz, mas  tambm continuamente
substituda. No Outono, no se pro-duz nenhum pigmento novo, e
por isso reparamos noutras cores que sempre existiram na
folha, mas que o forte verde da clorofila es-condia da nossa
vista. Uma vez retirada a sua camuflagem, vemos essas cores
pela primeira vez em todo o ano e ficamos maravilhados, embora
elas tivessem estado sempre presentes, escondidas como um
segredo debaixo do verde, quente e ofuscante, do Vero.
   A mais espectacular queda de folhas ocorre a nordeste dos
Estados Unidos e na China Oriental, onde as folhas so
fortemente coloridas, em parte devido  riqueza do clima. Na
Europa, o cer nunca apresenta os vermelhos flamejantes dos
seus parentes ameri-canos, que crescem entre noites frias e
dias soalheiros. O clima quente e hmido da Europa torna as
folhas castanhas ou levemente amareladas. O antociano, o
pigmento que d s mas o seu ver-melho e torna as folhas
vermelhas ou violetas,  produzido pelos acares que
permanecem na folha depois de a proviso de :, nu-trientes
desaparecer. Ao contrrio dos carotinides, que do cor a
cenouras, abboras, milho e tornam as flores cor de laranja e
ama-relas, o antociano varia de ano para ano, conforme a
temperatura e a quantidade de luz do Sol. As cores mais
garridas ocorrem nos anos em que no Outono a luz do Sol 
forte e as noites frescas e se-cas (um estado de graa que os
cientistas consideram exaspe-rante prever).  por isso tambm
que as folhas se apresentam estonteantemente vivas e ntidas
num dia de Outono cheio de sol: o antociano sobressai como um
claro.
   As folhas no ficam todas da mesma cor. Os ulmeiros, os
sal-gueiros-chores e a centenria nogueira-do-japo
apresentam um radioso amarelo, bem como a nogueira-amarga, o
lamo, o casta-nheiro-da-ndia, as cotonrias e os altssimos
choupos. A tlia fica cor de bronze, a btula de um
dourado-claro. O cer, que tanto aprecia a gua, exibe uma
sinfonia de escarlates. A sumagreira torna-se ver-melha, tal
como a florida cerejeira-brava, a rvore-da-borracha e a
li-quidmbar. Embora alguns carvalhos amareleam, quase todos
adquirem um tom castanho-rosado. Os campos cultivados tambm
mudam de cor, com pirmides de ps de milho e fardos de feno
cortado a secar ao sol. Nalguns stios, a encosta de um monte
pode ser verde de um lado e ter uma cor viva do outro, pois o
lado sul re-cebe mais sol e calor do que o que fica voltado
para norte.
   Uma caracterstica estranha das cores  a de no terem
aparen-temente uma finalidade especfica. Estamos predispostos
a reagir  sua beleza, claro. Vibram nas tonalidades de um pr
do Sol, nas flores da Primavera, na pele fulva do dorso
perfeito de um potro, no rosa sbito de um rosto que
enrubesce. Os animais e as flores ad-quirem cor por um motivo,
a adaptao ao respectivo meio am-biente, mas no existe
qualquer explicao para o facto de as flores apresentarem
cores to belas, ou de o cu ou o mar serem azuis. Trata-se
apenas de uma das maravilhas fortuitas com que o planeta nos
brinda todos os anos. Consideramos as cores quentes
emocio-nantes e, no entanto, em certo sentido elas
enganam-nos. Como coisas vivas, so sinnimo de morte e
desintegrao. A seu tempo, tornar-se-o frgeis e, como os
corpos, voltaro  terra. Tal como esperamos que seja o nosso
destino depois da morte, elas no desa-parecem, passam de um
estado belo a outro. Embora as folhas per-cam a sua vida
verde, resplandecem com cores fortes  medida que os bosques
se vo mumificando e a Natureza se torna mais carnal,
silenciosa e radiante.
   Em ingls dos EUA, chama-se ao Outono *fall* palavra 
que vem do ingls antigo *feallan* que significa queda, o
que nos leva ao :, indo-europeu *phol* que tambm quer dizer
queda. Tanto a palavra como a ideia so, pois, extremamente
antigas e, na verdade, no muda-ram desde a primeira vez que
um ser da nossa espcie precisou de um
nome para a abundante queda de folhas do Outono. Ao dizer a
palavra, vem-nos  ideia a outra queda, no jardim do
Paraso, quando as folhas da figueira no murcharam e nos
caram escamas dos olhos. O Outono, .fall/  a poca em que
as folhas caem fall das rvores, tal como a Primavera [spring]
 a poca em que as flores brotam [spring], o Vero [summer] 
a estao que mais nos aquece [simmer] e no
Inverno [winter] queixamo-nos [whine] do frio.
   As crianas adoram brincar com pilhas de folhas secas, lan-
-las ao ar como se fossem *confetti*, saltar para cima de
montes delas, macios como colches. Para as crianas, a queda
das folhas  apenas mais um estranho desgnio da Natureza,
como a chuva de pedra ou os flocos de neve. Durante o Outono,
caminhem por uma estrada com um tecto formado por copas de
rvores e vero que se esquecem do tempo e da morte, perdidos
na pura delcia da profuso de cor. Ado e Eva cobriram a sua
nudez com folhas, lembram-se? As folhas sempre esconderam os
nossos segredos mais estranhos.
   Porm, como caem as folhas coloridas?  medida que a folha
envelhece, a hormona vegetal do crescimento, a auxina,
enfraquece e as clulas da base do pecolo separam-se. Duas ou
trs filas de pequenas clulas, em ngulo com o pecolo,
reagem  gua e depois separam-se, deixando os pecolos presos
apenas por alguns fios de
xilema. Uma leve brisa e as folhas vo pelos ares. Planam e
rodopiam, embaladas num bero invisvel. So asas e podem
esvoaar de quintal em quintal, impelidas por pequenos
remoinhos e correntes de ar ascendentes, girando no seu
caminho. Firmemente presos  terra, adoramos ver coisas subir
e voar: bolhas de sabo, bales, aves, folhas. Recordam-nos
que o final de uma estao  to capri-choso como o final da
vida. Apreciamos especialmente a maneira
como as folhas balouam, se inclinam e caem de repente. Um
mo-vimento que todos conhecemos. Os pilotos executam
frequentemente uma manobra chamada cair da folha, durante a
qual o avio perde altitude depressa e propositadamente,
inclinando-se primeiro para a direita, depois para a esquerda.
O aparelho pesa uma tonelada ou mais, mas certa mulher piloto
considera-o leve como uma folha. Ela viu o movimento quando
era criana e brinca-va nos bosques de Vermont. L em baixo,
as rvores irradiam ouro, cobre e vermelho. As folhas caem,
embora ela no as veja cair ao descer; desce para v-las de
perto. :,
   Finalmente, as folhas partem. Mas no sem antes mudarem de
cor e nos empolgarem durante semanas. Depois secam e es-talam
debaixo dos nossos ps. As crianas gostam de ouvir o
ba-rulho, quando arrastam os seus pequenos ps pelas pilhas de
folhas amontoadas junto  borda do passeio. Tapetes de folhas,
escuros e escorregadios, agarram-se-nos aos ps depois da
chu-va. Uma argamassa hmida de folhas meio decompostas
protege as razes tenras at  chegada da Primavera, formando
um h-mus frtil. Uma ou outra salincia ou ondulao nos
montes de folhas indica que um musaranho ou um arganaz cavam
tneis secretos. Por vezes, encontramos em pedras fossilizadas
a im-presso de uma folha, h muito desintegrada, cujo
contorno nos recorda como as coisas perecveis deste mundo so
perfeitas, vi-brantes e vivas.


ANIMAIS


   Os ursos-polares no so brancos, so incolores. A sua pele
transparente no contm um pigmento branco, mas nos intervalos
entre os plos alojam-se bolhas de ar minsculas que difundem
a luz branca do Sol e ns registamos o resultado como pele
branca. O mesmo sucede com as penas do cisne e as asas brancas
de algu-mas borboletas. Tendemos a pensar que tudo o que
existe ao cimo da Terra possui uma cor prpria e intensa, mas
at as cores artificiais de grande efeito, que nos ferem os
olhos como fogo-de-artifcio, no passam de uma cobertura
minscula, uma camada finssima que en-volve as coisas. Muitos
objectos no tm pigmentos sequer e, con-tudo, parecem
ricamente coloridos, graas ao trabalho dos nossos olhos.
Assim como o mar e o cu so azuis por causa da difuso dos
raios de luz, tambm as penas do gaio, que no contm
pig-mentos, so azuis. O mesmo se passa com o azul do pescoo
do pe-ru, da cauda do sardo ou do traseiro do babuno. Por
sua vez, as ervas e as folhas so inerentemente verdes devido
ao pigmento ver-de chamado clorofila. Tanto as florestas
tropicais como os bosques nrdicos cantam um hino verde. Num
cenrio de clorofila verde, terra castanha e cu e gua azuis,
os animais desenvolveram cores caleidoscpicas para atrair
parceiros sexuais, para se disfarar, afastar candidatos a
predadores, afugentar rivais para fora do seu territrio,
avisar o pai ou a me de que est na hora de serem
ali-mentados. As aves das florestas tm muitas vezes uma cor
parda-centa e manchas no corpo, a fim de no serem vistos
entre os ramos,  :, luz filtrada do Sol. Existem muitos
LB:Js (*) 


ou passarinhos castanhos, como lhes chamam os ornitlogos.
   Abbott Thayer, um pintor e naturalista do incio do sculo
xx, chamou a ateno para aquilo que classificou de
contra-sombra, uma camuflagem natural que torna os animais
mais coloridos nas partes do corpo menos expostas  luz do Sol
e mais escuros nas zonas mais expostas. Um bom exemplo disso 
o pinguim, que  branco no peito para parecer azul-claro visto
do fundo do mar, e preto nas costas para se confundir com a
escurido do fundo do oceano quando visto de cima. Uma vez que
os pinguins no esto muito sujeitos a predadores terrestres,
o seu aspecto bicolor no tem grande interesse quando se
bamboleiam por terra. Camuflar ou exibir:  disso que se trata
no reino animal. Os insectos so especialmente bons em
disfarces; um exemplo tpico  uma espcie de traa, nas Ilhas
Britnicas, que, em apenas cinquenta anos, mudou de cor,
passando de um cinzento, mesclado e opaco, para um quase
negro, de modo a
no ser notada sobre a casca das rvores escurecida pela
poluio industrial. As traas claras eram mais facilmente
detectveis pelas aves,  medida que as rvores escureciam;
por conseguinte, as escuras sobreviveram, dando origem a
outras ainda mais escuras, que por sua vez tambm
sobreviveram. Os animais faro o que for ne-cessrio para se
disfarar. Muitos peixes apresentam uma espcie de olhos na
cauda, o que faz o predador dirigir a sua investida a essa
zona menos vital do corpo; certos gafanhotos assemelham-se de
tal modo ao quartzo que se tornam invisveis nas colinas da
--frica do Sul; as inteligentes borboletas desenvolvem nas
asas umas manchas grandes e escuras que parecem olhos, de modo
a que a ave predadora se convena de que tem  sua frente um
mocho; os insectos chamados bichos-paus so escuros e nodosos
como tronquinhos; os grilos das matas do Qunia contundem-se
com os lquenes dos troncos das rvores; o gafanhoto verde
toma a cor das folhas: alguns at apresentam seces
acastanhadas com aspecto de fungos; existe um gafanhoto
peruano que imita as folhas secas e enru-gadas no cho das
florestas; as asas do bicho-cabeludo da Malsia parecem folhas
em decomposio: castanhas, rasgadas ou perfuradas. Muitos
insectos disfaram-se de cobras, outros de excremento de aves;
lagartos, camares, rs, peixes e certas aranhas tingem o seu
corpo de modo a confundir-se com o meio. Para um peixe,
camuflagem significa cintilar na gua que o rodeia, diluir o
contorno
do seu corpo nos corredores de luz submarinos. Como Sandra :,
Sinclair -(*) 

(*) Iniciais de *Little Brown Jobs* que, traduzido  letra,
seria coisinhas castanhas. (*N. da T*.)

explica, em *Como Veem os Animais*: Cada escama reflecte uma
tera parte do espectro; quando trs escamas se sobrepem, as
cores ficam canceladas, produzindo-se um efeito de espelho. O
predador no v mais do que um claro retorcido de luz. As
lu-las luminescentes manobram a grandes profundidades, onde a
luz  escassa; nadando pela escurido, imitam a luz natural
vinda de cima e chegam mesmo a disfarar-se das nuvens que se
reflectem  superfcie da gua, a fim de no serem vistas pela
presa. So lulas sub-reptcias. Todos os tipos de animais
podem mudar de cor rapidamente, reduzindo ou ampliando a sua
quantidade de melanina; ou espalham a cor em volta, a ponto de
parecerem mais escuros, ou a concentram num espao mais
pequeno, de modo a que alguns pigmentos subjacentes se tornem
visveis. Em *Speak, Memory*, Vladimir Nabokov escreve sobre
o fascnio que sente pelo mimetismo das traas e borboletas:

--------------------------
   Imaginem uma asa com manchas semelhantes a bolhas... ou
pequenas salincias amarelas e lustrosas numa crislida, a
imitar ndoas de veneno. (No me comam!... J fui esmagada,
provada e rejeitada.) Imaginem a esperteza de uma lagarta
acrobata que durante a infncia toma o aspecto do excremento
dos pssaros... Quando determinada traa se assemelha a
determinada vespa na forma e na cor, tambm se mexe e agita as
antenas como uma ves-pa e no como uma traa. Sempre que uma
borboleta tem de pare-cer-se com uma folha, no s reproduz na
perfeio todos os pormenores de uma folha, como no se
esquece de introduzir mar-cas a imitar buracos feitos por
lagartas. A seleco natural, no sentido darwiniano, no
explica o milagre da coincidncia do as-pecto imitativo, nem
podemos recorrer  teoria da luta pela vida quando um
dispositivo de proteco  levado a um ponto de sub-tileza
mimtica, exuberncia e luxo muito alm da capacidade de
apreciao de um predador. Descobri na Natureza os prazeres
no utilitrios que procurei na arte. Ambas eram uma forma de
magia, um jogo de complexo encantamento e iluso.
-------------------------

   Os animais entregam-se a formas de exibio to profusas e
exuberantes que seria necessrio um livro inteiro para
enumerar as suas virtude de coloristas. A cauda cintilante do
pavo, com a sua multiplicidade de olhos,  um exemplo to
famoso que  hoje um epnimo. Que grande pavo!, dizemos de
um cavalheiro exage-radamente preocupado com a sua aparncia.
A cor funciona to bem como linguagem silenciosa que quase
todos os animais a :, falam. Os polvos mudam de cor consoante
o seu estado de esprito. Uma perca de gua doce assustada
perde automaticamente a cor. Um beb pinguim sabe bicar na
bolsa cor de alperce do bico do pai ou da me quando quer ser
alimentado. O babuno empertiga o seu traseiro azul em
situaes sexuais ou de submisso. Apresentem a um tordo macho
um punhado de penas vermelhas, que ele investir de imediato.
Um veado estica a cauda branca num aviso aos seus parentes e
depois foge a correr do quintal. Erguemos as sobrance-lhas
para exprimir incredulidade. Mas muitos animais tambm usam as
suas cores vistosas como sinais. Certa espcie de sapo, que
habita a floresta tropical da Amaznia, brilha com cores
vibrantes, azul-gua e escarlate. No se metam comigo!,
grita a sua cor aos potenciais predadores. Eu e um grupo de
pessoas encontrmos um desses sapos sentado num tronco, e a
tentao de tocar o seu dorso de esmalte foi to forte que um
dos homens no resistiu e s no o fez porque um companheiro
lhe agarrou o brao mesmo a tempo. Aquele sapo no precisava
de fugir: estava revestido de um visco to venenoso que se o
homem o tocasse ficava logo envenenado.
   Quando, ao anoitecer, o vosso gato pressente uma agitao
ras-teira e a persegue, apetece acreditar na sabedoria
popular, segundo a qual os gatos vem de noite. Afinal de
contas, no  verdade que os olhos deles brilham? Mas nenhum
animal consegue ver sem luz. Os gatos e outras criaturas
noctvagas possuem uma camada fina e iridescente (*) 

(*) Do latim *iris*, arco-ris + *escence*, tornar-se. A
combinao *esc* converte as palavras do estado es-ttico ao
estado de movimento e mudana: putrescncia, adolescncia,
luminescncia. (*N. da A*.)

de clulas protectoras por trs da retina, chamada *ta-petum*.
A luz atinge a sua superfcie espelhada e  reflectida na
reti-na, permitindo-lhe ver com uma iluminao fraca. Se
colocarem uma lanterna de bolso na testa durante a noite e
apontarem a sua luz  floresta, a um pntano ou ao mar, faro
brilhar os olhos ver-melhos ou cor de mbar de criaturas
nocturnas: uma aranha, um caimo, um gato, uma traa, uma ave.
Mesmo as vieiras, que tm uns minsculos olhos cor de
azeitona, possuem um *tapetum* que lhes permite captar mais
luz, para poderem detectar durante a noite algum bzio que
pretenda aproximar-se sorrateiramente. Os resul-tados das
experincias cientficas parecem indicar que os animais de
sangue frio vem melhor com pouca luz do que os de sangue
quente; por isso, os anfbios tm, em geral, melhor viso
nocturna do que os mamferos. (Numa experincia efectuada nas
universida-des de Copenhaga e de Helsnquia, para ver uma
minhoca durante a noite, os seres humanos precisaram de oito
vezes mais luz do que :, uma r.) Tal como outros predadores,
os gatos tm os olhos im-plantados na parte anterior da
cabea; por vezes, possuem olhos relativamente grandes e uma
aguada percepo em profundidade, de modo a conseguir ver e
apanhar a presa. Reparem no mocho, um par de binculos com
asas, cujos olhos ocupam um tero do tama-nho da cabea. Os
caranguejos, coloridas aranhas dos recifes bem conhecidas dos
mergulhadores, tm olhos to afastados que quase conseguem ver
num crculo completo. Os cavalos possuem uma percepo em
profundidade fraca pois os seus olhos esto muito afastados,
um de cada lado da cabea. Como todas as outras presas,
necessitam de viso perifrica para manter debaixo de olho o
ata-que de um predador. Sempre achei muito valente da parte
dos ca-valos disporem-se a saltar obstculos que tm de perder
de vista  ltima hora. Os predadores tm muitas vezes pupilas
verticais, uma vez que olham em frente em busca da presa,
enquanto os carneiros, as cabras e muitos outros animais com
cascos, que se vem obriga-dos a vigiar os campos enquanto
pastam, tm pupilas horizontais. Uma caracterstica
interessante da pupila do jacar  a capacidade de se inclinar
um pouco quando a posio da cabea muda, de mo-do a nunca
deixar de focar a presa. Os lutadores de trazer por ca-sa
que se gabam de voltar um jacar de pernas para o ar, de lhes
esfregar o estmago e de os adormecer, esto, na verdade, a
p-los com vertigens. De pernas para o ar, as pupilas do
jacar no se ajustam, e o mundo transforma-se num tumulto
contuso de ima-gens. Muitos insectos tm olhos facetados e
iridescentes, mas rara-mente so to belos como os do
hemerbio: sobre um fundo negro, uma estrela perfeita de seis
pontas, com um brilho que comea por ser azul nas extremidades
e se torna primeiro verde, depois amarelo e finalmente
vermelho no centro.
   Os ces-da-pradaria no vem o verde nem o azul, os mochos
so totalmente daltnicos (porque s possuem bastonetes) e as
formigas no vem o vermelho. Os veados que invadiram o meu
quintal para se banquetear com as minhas mas e roseiras
vem-me em v-rios tons de cinzento, tal como os coelhos que
comem os morangos silvestres na minha horta das traseiras, to
mansos que eu consigo dar-lhes uma palmada no rabo. Mas uma
quantidade surpreendente de animais v as cores, s que as
cores que vem so diferentes. Ao contrrio de ns, alguns at
tm viso de infravermelhos, ou olhos radicalmente diferentes
dos nossos (obstrudos, facetados, iridescentes, tubulares, na
ponta de hastes). O mundo que os espera parece dife-rente. Os
filmes de terror convenceram-nos de que o olho facetado da
mosca permite-lhe ver a mesma imagem repetida inmeras vezes,
:, 
mas hoje os cientistas j conseguiram fotografar atravs de
olhos de insectos e sabemos que a mosca, tal como ns, v uma
nica cena, s que  uma cena curva: seria como se olhssemos
o mundo atra-vs de um pesa-papis de vidro. Partimos do
princpio de que os in-sectos e os animais no vem muito bem,
mas as aves conseguem ver as estrelas, algumas borboletas vem
os raios ultravioletas e al-gumas alforrecas produzem a sua
prpria luz quando querem ver. As abelhas conseguem calcular o
ngulo em que a luz atinge os seus fotorreceptores e desse
modo conhecem a posio do Sol, mesmo num dia de nevoeiro. H
orqudeas to semelhantes a abe-lhas que as prprias abelhas
tentam acasalar com elas, quando an-dam a espalhar plen. Essa
adaptao extrema e complexa no ocorreria se as abelhas
tivessem uma viso fraca. Os filmes parece serem uma srie
contnua de imagens, porque os fotogramas pas-sam  razo de
cerca de vinte e quatro por segundo, enquanto ns processamos
imagens a cinquenta ou sessenta por segundo. Quando vemos um
filme, metade do tempo estamos a ver um ecr branco. Durante o
resto do tempo projectam-se fotografias umas atrs das outras,
cada uma ligeiramente diferente da anterior e no entanto com
ela relacionada. Os olhos demoram-se apenas o suficiente em
cada imagem, que logo se dilui na seguinte, dando a ideia de
que se trata de uma imagem nica e em permanente movimento. Os
olhos teimam em ligar as imagens separadas. Por sua vez, as
abelhas es-to habituadas a ver passar trezentas imagens por
segundo; portanto, para elas, o *Lawrence da Arbia* seria
apenas uma sucesso de fotogra-fias. Pensava-se que a dana
sacudida das abelhas inclua um cdigo de sinais com que uma
delas ensinava s outras o caminho para um lu-gar cheio de
comida donde acabava de chegar; mas hoje os cientistas crem
que essa dana transmite tambm mensagens atravs do tacto, do
cheiro e do ouvido. Embora seja verdade que as abelhas tm
viso ultravioleta,  fraca do extremo vermelho do espectro,
de modo que uma flor branca  vista como azul por uma abelha,
e uma flor vermelha neo tem para ela qualquer interesse. Por
outro lado, as traas, as aves e os morcegos adoram flores
vermelhas. As flores que nos parecem de-sinteressantes e
simples -- um monte de ptalas brancas -- para uma abelha
podem ser como um cartaz com letras de non a apontar o
ca-minho para o nctar. Os touros no vem a cor, por
conseguinte o ver-melho da capa do toureiro podia muito bem
ser negro ou cor de laranja. E vermelho para benefcio do
pblico, que o acha uma cor intrinseca-mente excitante, alm
de sugerir o sangue que est para correr, ou do touro ou do
toureiro. O touro apenas v o objecto grande que se agita
irritantemente diante do homem, e investe. :,
   Os Boran, do Qunia, so conduzidos at aos ninhos das
abe-lhas pela pantomima de uma ave africana, o *Indicator
indicator*. Se lhes est a apetecer um pouco de mel, chamam a
ave com um assobio. Se  a ave que est com desejos de mel,
voa em volta dos Boran, alertando-os com o seu
tirr-tirr-tirr. Depois desaparece por instantes, a fim de
localizar o paradeiro de algum ninho, e re-gressa para os
guiar num voo rasante, cantando repetidamente. Quando chega ao
ninho, a ave desce para indicar o local exacto e entoa uma
cano diferente. Com habilidade, os Boran assaltam o ninho e
extraem o mel; deixam algum para a ave, que de outro modo no
conseguiria invadir o ninho. Ao fim de trs anos a estu-dar
esta estranha relao de simbiose, um grupo de ornitlogos
alemes do Instituto Max-Planck descobriu que os indgenas
gasta-riam o triplo do tempo para descobrir o mel sem o
auxlio das aves. Parece que estas guiam de forma semelhante
os texugos. Se  verdade que os olhos dos animais podem ser
rpidos e vivos, poucos so to perspicazes como os do
artista, um tipo especial de caador cuja presa vive
simultaneamente no mundo exterior e na tundra interior.


:o olho do pintor


    sabido que, para o fim da vida, Czanne se viu assolado
por dvidas sobre o seu gnio. Teria a sua arte sido apenas
uma excen-tricidade da sua vista e no imaginao e talento
guardados por uma esttica vigilante? No seu excelente ensaio
sobre Czanne, *Sense et Non-sense*, Maurice Merleau-Ponty
afirma: Ao envelhe-cer, duvidava se a originalidade da sua
pintura no viria de proble-mas na vista, se a sua vida toda
no se teria baseado num acidente do seu corpo. Czanne
examinou ento cada golpe de pincel com ansiedade, tentando
alcanar o mais pleno sentido do mundo, como to bem descreve
Merleau-Ponty:

-------------------------
   Vemos a profundidade, a delicadeza, a suavidade e a dureza
dos objectos; Czanne afirmava mesmo que lhes vemos o odor. Se
o pintor quiser exprimir o mundo, a disposio das suas cores
deve traduzir esse todo invisvel, de outro modo o quadro
apenas sugeri-r as coisas em vez de reproduzi-las na unidade
imperiosa, na pre-sena, na inultrapassvel plenitude que ,
para ns, a definio da realidade.  por isso que cada golpe
de pincel deve satisfazer uma infinidade de condies. Por
vezes, Czanne ponderava durante :, horas antes de se decidir
a aplicar determinado trao, pois, como dizia Bernard, cada um
deles tinha de /conter o ar, a luz, o objecto, a composio,
o carcter, o contorno e o estilo/. Exprimir aquilo que
existe  uma tarefa interminvel.
--------------------------

   Abrindo-se  plenitude da vida, Czanne sentia que se
encon-trava no cruzamento da Natureza com a humanidade: A
paisagem pensa-se em mim... Eu sou a sua conscincia... E
costumava tra-balhar ao mesmo tempo as diferentes seces de
um quadro, como se desse modo conseguisse captar todos os
ngulos, as meias ver-dades e as reflexes contidas numa cena
e fundi-las numa verso conglomerada. Considerava-se
impotente, escreve Merleau--Ponty, porque no era
omnipotente, porque no era Deus, e con-tudo desejava retratar
o mundo, transform-lo totalmente num es-pectculo, tornar
*visvel* a forma como o mundo nos *toca*. Se pensarmos na
quantidade de cor e formas existente nos seus qua-dros, talvez
no surpreenda saber que Czanne era mope, embora se
recusasse a usar culos, gritando, segundo consta: Tirem
daqui essas coisas ordinrias! Tambm era diabtico, o que
talvez lhe tenha causado algumas leses na retina, e com o
tempo surgiram--lhe cataratas (o enevoar das lentes limpas).
Huysmans descreveu-o capciosamente como um artista com uma
retina doente que, mo-vido pelo desespero que uma vista
defeituosa lhe fazia sentir, des-cobriu uma nova arte.
Nascido num universo diferente do da maioria das pessoas,
Czanne pintava o mundo que os seus olhos li-geiramente tortos
viam, mas a ideia dessa condio aleatria ator-mentava-o. Por
outro lado, o escultor Giacometti, cujas figuras compridas e
alongadas parecem consciente e propositadamente dis-torcidas,
confessou, afvel: Todos os crticos falaram do contedo
metafsico ou da mensagem potica da minha obra. Mas para mim
no se trata de nada disso.  um puro exerccio ptico. Tento
repre-sentar uma cabea tal e qual a vejo.
   Muito se descobriu, nos ltimos anos, sobre os problemas de
vista de certos artistas. Os *Lrios* de Van Gogh foram
vendidos em 1988 na Christie.s por quarenta e nove milhes de
dlares, o que o teria certamente divertido, visto s ter
conseguido vender um nico quadro durante a vida. Apesar de
conhecido por ter cortado uma orelha, Van Gogh tambm se
espancava com um basto, ia a muitas missas todos os domingos,
dormia em cima de uma tbua, tinha alucinaes religiosas
bizarras, bebia querosene e comia tinta. Alguns estudiosos
sustentam hoje que muitas das singularidades :, estilsticas
de Van Gogh (coroas em volta de candeeiros de ilumi-nao
pblica, por exemplo) talvez no sejam afinal distores
intencionais, mas sim resultado de doenas ou mesmo de
envene-namento causado pelos dissolventes e pela terebentina
por ele usa-dos, que podem ter danificado os seus olhos,
fazendo-os ver halos em volta das fontes de luz. Segundo
Patrick Trevor-Roper, cuja o-bra *The World Through Blunted
Sight* investiga as doenas dos olhos de pintores e poetas,
alguns diagnsticos possveis para as depresses de Van Gogh
incluram tumor cerebral, sfilis, defi-cincia de magnsio,
epilepsia do lobo temporal, envenenamento por dedaleira
(ingerida como tratamento da epilepsia, que pode ter provocado
a viso amarela) e glaucoma (alguns auto-retratos mostram uma
pupila direita dilatada e pintava halos amarelos em redor das
luzes). Mais recentemente, num encontro de neurologistas em
Bston, um cientista acrescentou a sndroma de Geschwind, uma
perturbao da personalidade que muitas vezes acompanha a
epi-lepsia. O prprio mdico de Van Gogh afirmou a propsito
do seu doente: O gnio e a loucura so vizinhos bem
conhecidos. Muitos desses males podem ter afectado a sua
viso. Igualmente importante, porm,  o facto de os pigmentos
mais brilhantes inclurem normal-mente metais txicos como
cobre, cdmio e mercrio. Vapores e venenos facilmente
afectavam a comida, j que era frequente os pintores
trabalharem e viverem no mesmo quarto. O pintor do s-culo
XVIII George Stubbs, conhecido pelos seus quadros com
ani-mais, passou a lua-de-mel numa casa com dois quartos, num
dos quais pendurou a carcaa em decomposio de um cavalo que
dis-secava e estudava nos seus tempos livres. Renoir fumava
imenso e provavelmente no se dava ao trabalho de lavar as
mos antes de enrolar um cigarro;  bvio que a tinta dos
dedos passava para o papel. Dois mdicos dinamarqueses que
estudaram a relao entre a artrite e os metais pesados
compararam as cores preferidas por Renoir, Peter Paul Rubens e
Raoul Dufy (que sofriam todos de ar-trite reumtica) e pelos
seus contemporneos. Quando Renoir esco-lhia os seus fortes
vermelhos, laranjas e azuis, estava tambm a escolher grandes
doses de alumnio, mercrio e cobalto. De facto, 60 por cento
das cores que Renoir preferia continham metais perigosos, o
dobro da quantidade utilizada por contemporneos seus, como
Claude Monet ou Edgar Degas, que muitas vezes pintavam com
pigmentos mais escuros feitos de compostos de ferro mais
brandos.
   Segundo Trevor-Roper, existe uma personalidade mope que
os artistas, matemticos e as pessoas dadas s letras tendem a
parti-lhar. Possuem uma vida interior diferente das outras
pessoas, :, uma personalidade diferente, porque vem o mundo
em primeiros planos. As imagens que encontramos nas suas obras
giram em tor-no de coisas que podem ser vistas de muito
perto, e so pessoas mais introvertidas. Sobre a miopia de
Degas, por exemplo, afirma:

---------------------------
   Com o tempo, passou a pintar a pastel em vez de leo, pois
tra-tava-se de um meio mais fcil para a sua vista debilitada.
Mais tarde, descobriu que se usasse fotografias dos modelos ou
cavalos que de-sejava pintar era possvel coloc-los ao
limitado alcance da sua vista. Por fim, recorria cada vez mais
 escultura, pois tinha a cer-teza de que, pelo menos, poderia
sempre confiar no seu tacto e ex-plicava: /Agora tenho de
aprender um ofcio de cegos/, apesar de se ter sempre
interessado pela modelagem.
---------------------------

   Trevor-Roper salienta que o mecanismo que provoca a miopia
(maior refraco do globo ocular) afecta tambm a percepo
das cores (os vermelhos aparecem mais ntidos); as cataratas,
em espe-cial, podem afectar a cor esbatendo-a e avermelhando-a
simulta-neamente. Reparem em Turner, cujos ltimos quadros
Mark Twain comparou a um gato amarelo a ter uma sncope
dentro de uma ti-gela cheia de tomates. Ou no crescente
fascnio de Renoir pelos vermelhos. Ou em Monet, cujas
cataratas se encontravam num es-tado to adiantado que ele
precisava de colar etiquetas nos tubos de tinta e arrumar
cuidadosamente as cores na paleta. Aps ter sido operado s
cataratas, Monet ficou, segundo alguns amigos, surpre-endido
com tanto azul que havia no mundo e espantado com as co-res
estranhas que empregara nos ltimos trabalhos, os quais se
apressou a retocar.
   Existe uma teoria sobre a criao artstica, segundo a qual
os artistas extraordinrios vm ao mundo com uma maneira
dife-rente de ver. Isso no explica o gnio, claro, que tanto
tem a ver com risco, revolta, uma ardente fornalha interior,
sentido de de-coro esttico, melancolia incontrolvel,
curiosidade vigilante e muitas outras qualidades, incluindo a
disposio de estar sempre disponvel para a vida, contemplar
tanto os seus padres gerais como os seus pormenores
arrebatadores. Como disse um dia a pintora, fortemente
sensual, Georgia O.Keeffe: De certo modo, ningum v
realmente uma flor, ela  to pequena, no temos tempo... E
para ver  preciso ter tempo, tal como para ter um amigo 
preciso ter tempo. Que tipo de viso original trazem os
artistas consigo para o mundo, muito antes de desenvolverem
uma viso interior? A questo perturbou Czanne, entre outros,
:,
como se fizesse alguma diferena saber como e o qu ele
acaba-ria por pintar. Ao fim e ao cabo,  como disse
Merleau-Ponty: Esta obra, para ser realizada, exigiu esta
vida.




:o rosto da beleza


   Num inqurito em que se pedia a uma srie de homens para 
o-lhar para fotografias de mulheres bonitas e escolher uma,
concluiu-se que eles preferiam nitidamente as mulheres com
pupilas dilatadas. Essas fotografias faziam as pupilas dos
homens dilatar cerca de trinta por cento. Claro que isso no 
novidade para as mulheres do Renascimento italiano ou da
Inglaterra vitoriana, que costuma-vam pr pingos de beladona
(planta venenosa da famlia da erva-moira, cujo nome significa
mulher bonita) nos olhos, a fim de aumentar as pupilas,
quando iam encontrar-se com um cavalheiro. As nossas pupilas
expandem-se involuntariamente quando nos ex-citamos ou
exaltamos; assim, para um homem, ver uma bela mu-lher com as
pupilas dilatadas era sinal de que ela o achava atraente, o
que fazia com que as pupilas dele entrassem num jogo de
lingua-gem corporal em resposta. H pouco tempo, viajei de
barco pelos speros ventos e mares do estreito de Drake e
pelas guas turbu-lentas da pennsula da Antrctida, ilhas
rcades do Sul, Gergias do Sul e Malvinas, e reparei que
muitos passageiros usavam um em-plastro de escopolamina atrs
da orelha para combater o enjoo. Ao fim de poucos dias de
viagem, comeararn a ver-se pupilas muito dilatadas, um efeito
secundrio do emplastro, todas as pessoas com que me cruzava
tinham olhos enormes e simpticos, que encorajavam
imedia-tamente sentimentos de amizade e camaradagem. Alguns
passageiros ficavam com aspecto de mortos-vivos quando
iluminados por uma luz forte, mas a maioria parecia apenas
extrovertida e amvel. (*) 

(*) Um alcalide extrado do meimendro-negro e de vrias
outras plantas da familia da erva-moint a escopolamina 
tambm usada como soro da verdade. A mistura ideal para um
cruzeiro: grandes pupilas demonstrando um interesse permanente
por qualquer pessoa e uma forte desinibio e en-trega. (*N.
da A*.)

Se o tivessem verificado, as mulheres teriam descoberto que os
seus pescoos estavam tambm dilatados. Nas profisses em que
 ne-cessrio esconder as emoes ou interesses, como no jogo
ou no negcio do jade, as pessoas usam muitas vezes culos
escuros para disfarar intenes visveis nas suas pupilas
reveladoras.
   Podemos fingir que a beleza  uma coisa superficial, mas
Aristteles tinha razo quando disse que a beleza  o melhor
carto-de-visita do mundo. A triste verdade  que as pessoas
:, bonitas tm melhores resultados na escola, onde so mais
ajudadas, mais bem classificadas e menos castigadas; no
trabalho, onde so recompensadas com melhores salrios, postos
de trabalho mais prestigiantes e promoes mais rpidas; na
procura de parceiros se-xuais, pois tendencialmente so elas
que controlam as relaes e tomam quase todas as decises; e
entre desconhecidos, que  par-tida as consideram
interessantes, honestas, virtuosas e bem sucedi-das. Afinal,
nos contos de fadas, os heris so belos e os viles feios. As
crianas aprendem implicitamente que os bons so boni-tos e os
maus feios e,  medida que vo crescendo, a sociedade
rea-firma essa mensagem subtilmente e de vrias maneiras.
Assim, talvez no seja de admirar que os cadetes bem-parecidos
de West Point sejam graduados com uma categoria mais elevada
ou que seja provvel um juiz dar uma pena mais leve a um
criminoso atraente. Num estudo efectuado em 1968 sobre o
sistema prisional na cidade de Nova Iorque, os homens com
cicatrizes, deformidades e outros defeitos fsicos foram
divididos em trs grupos. O primeiro foi 
-submetido a cirurgia esttica, o segundo a tratamentos e
terapia e ao terceiro no se fez nada. Um ano depois, quando
os investigadores foram ver como estavam a comportar-se,
descobriram que os que ti-nham feito cirurgia esttica
haviam-se adaptado melhor e tudo indi-cava que no voltariam 
priso. Em experincias efectuadas em empresas, verificou-se
que quando se colavam diversas fotografias a um mesmo
currculo, o da fotografia mais bonita era o escolhido. Os
bebs bonitos so mais bem tratados do que os mais
desengraados e no apenas por desconhecidos, mas tambm pelos
prprios pais. As mes aconchegam, beijam, falam e brincam
mais com o seu beb se ele for bonito e, de uma maneira geral,
os pais de bebs bonitos li-gam-se mais aos filhos. As
crianas mais bonitas tm notas mais altas nos seus testes de
aproveitamento, talvez porque a sua beleza suscita a
admirao, a ateno e o interesse dos adultos. Num estudo
realizado em 1975, pediu-se aos professores de uma criana de
oito anos com um QI baixo e notas fracas que fizessem uma
avaliao das suas fichas. Todos os professores viram as
mesmas fichas, mas numas colou-se a fotografia de uma criana
mais bonita e noutras as de uma mais feia. Os professores
tenderam a recomendar que a criana feia fosse mudada para uma
aula de crianas atrasadas. A beleza pode ser um acessrio
precioso. Num inqurito particularmente interessante, pedia-se
a vrias pessoas que olhassem para a fotografia de um casal e
que avaliassem apenas o homem. Quando a mulher de brao dado
com o homem era bonita, consideravam o homem mais inteligente
e bem sucedido do que quando a mulher era feia. :,
   Se bem que chocantes, os resultados destas experincias e
dou-tras semelhantes vm confirmar aquilo que h muito
sabemos: quer se queira quer no, o rosto da mulher sempre
foi, at certo ponto, um produto de consumo. Uma mulher bela
consegue muitas vezes fazer um casamento que lhe permite subir
na escala social e sair da pobreza. Belezas lendrias como
Clepatra e Helena de Tria so exemplos de como a beleza pode
ser suficientemente poderosa para provocar a queda de grandes
lderes ou mudar o destino de um imp-rio. Todos os anos, as
mulheres americanas gastam milhes em maqui-lhagem; alm
disso, h os cabeleireiros, as aulas de ginstica, as dietas,
as roupas. A vida tambm corre melhor aos homens
bem--parecidos, mas para um homem a verdadeira vantagem  a
altura. Foi feito um estudo baseado na vida profissional de
dezassete mil homens. Os que tinham pelo menos um metro e
oitenta de altura estavam muito melhor na vida: recebiam mais
dinheiro, eram pro-movidos mais depressa, alcanavam posies
de maior prestgio. Talvez que os homens altos nos evoquem
recordaes de infncia relacionadas com ter de olhar para a
autoridade que est acima: s os pais e adultos eram altos e
tinham o poder de castigar ou proteger, dar amor, realizar os
nossos desejos ou frustrar as nossas esperanas.
   O ideal humano de rosto bonito varia de cultura para
cultura, claro, mas tambm atravs do tempo, como salientou
Abraham Cowley no sculo XVII:

 beleza, animal fantstico e selvagem 
Que em cada pas mudas de forma!

   Em geral, porm, aquilo que provavelmente procuramos  uma
combinao entre caractersticas maturas e imaturas: os olhos
gran-des de uma criana, que despertam os nossos instintos
protectores, as mas do rosto salientes e outros traos de um
homem ou mulher bem desenvolvidos, que nos fazem sentir
*sexy*. Num esforo para parecermos *sexy*, furamos o nariz,
alongamos os lobos das orelhas ou o pescoo, tatuamos a pele,
ligamos os ps, espartilhamos as costelas, pintamos o cabelo,
fazemos lipoaspirao  gordura das coxas, alteramos o nosso
corpo de inmeras maneiras. Ao longo de quase toda a histria
do Ocidente, esperou-se que as mulheres fos-sem curvilneas,
cheias e voluptuosas, verdadeiras mes da terra radiantes de 
sensualidade. Era uma preferncia que partia de uma base
slida: uma mulher forte armazenava maiores quantidades da
gordura e dos nutrientes necessrios durante a gravidez,
sobrevivia mais facilmente nos tempos de escassez e poderia
proteger o feto :,
durante o crescimento e amament-lo depois do nascimento. Em 
muitas regies da frica e da ndia, a gordura no s 
considerada formosura como tambm prestigiante para homens e
mulheres. Nos Estados Unidos, durante os loucos anos 20, mas
tambm nas dca-das de 70 e 80, quando a magreza estava na
moda, os homens que-riam que as mulheres tivessem figuras de
rapazinhos, e muito haveria a dizer sobre a forma como isso
reflectia a mudana que comeava a sentir-se no papel das
mulheres na sociedade e no mer-cado de trabalho. Hoje em dia,
a maior parte dos homens que co-nheo prefere mulheres com um
corpo mais cheio e saudvel, embora muitas mulheres ainda
desejem ser magras.
   No entanto, foi sempre o rosto a atrair os primeiros
olhares de um admirador, em especial os olhos, que podem ser
to ardentes e expressivos, e ao longo dos tempos as pessoas
sempre acentuaram os traos do seu rosto com maquilhagem. No
Egipto, alguns arquelogos encontraram vestgios da existncia
de perfumarias e sales de beleza no ano 4000 a. C. e artigos
de maquilhagem datados de 6000 a. C. Os antigos Egpcios
usavam sombra de olhos verde sobre a qual a-plicavam um p
brilhante, que faziam esmagando as carapaas iri-descentes de
alguns escaravelhos; lpis para os olhos e *rimel* de *kohl;
baton* azul-escuro; *rouge* vermelho; dedos e ps tingidos com
hena. Rapavam as sobrancelhas e no seu lugar desenhavam outras
falsas. Uma egpcia chique dessa poca realava as veias dos
seus seios com tinta azul e cobria os mamilos com ouro. O
verniz das u-nhas indicava a classe social, sendo o vermelho
usado pela mais alta. Os homens tambm se entregavam a
sofisticadas poes e ar-tigos de beleza, e no apenas em
ocasies especiais: o tmulo de Tutankamn continha frascos de
base para o rosto e cremes de be-leza para ele usar na outra
vida. Os homens romanos adoravam cosmticos e os chefes
militares coifavam e perfumavam os cabelos e pintavam as unhas
antes de ir para a batalha. Os cosmticos eram ainda mais
apreciados pelas mulheres romanas, a uma das quais Marcial
escreveu, no sculo I da nossa era: Enquanto ests em ca-sa,
Galla, o teu cabelo fica no cabeleireiro;  noite tiras os
dentes e dormes aconchegada entre centenas de caixas de
cosmticos: nem sequer o teu rosto dorme contigo. Depois
piscas aos homens um o-lho, debaixo de uma sobrancelha que
tiraste da gaveta nessa mesma manh. Um fsico romano do
sculo II inventou o creme de limpe-za para a pele, cuja
frmula pouco mudou desde ento. Do Velho Tes-tamento, todos
recordamos que a rainha Jezabel pintava a cara antes de se
dedicar s suas perseguies, costume que aprendeu com os
aristocrticos Fencios por volta de 850 a. C. No sculo
XVIII, as :, mulheres europeias dispunham-se a comer Arsenic
Complexion wafers, umas bolachas feitas com arsnico que lhes
faziam a pele mais branca: envenenavam a hemoglobina do sangue
e elas adqui-riam uma palidez frgil, etrea. Muitos *rouges*
continham metais perigosos como chumbo e mercrio e quando
usados para pintar os lbios penetravam no sangue. Na Europa
do sculo XVII, tanto as mulheres como os homens usavam, por
vezes, uns sinais de be-leza falsos, com a forma de coraes,
sis, luas ou estrelas, aplica-dos sobre os seios ou no rosto,
para desviar a ateno dos admiradores de pequenas
imperfeies como marcas de varola, muito vulgares na poca.
   Em inquritos conduzidos recentemente na Universidade de
Louisville, perguntou-se a docentes e alunos universitrios
quais consideravam ser os componentes ideais num rosto
feminino, e as respostas foram introduzidas num computador.
Descobriu-se que, para eles, a mulher ideal tinha mas do
rosto salientes, olhos gran-des e bastante afastados, nariz
pequeno, sobrancelhas colocadas bem acima, um queixo pequeno e
bem desenhado e um sorriso que lhe iluminasse metade do rosto.
Nas caras consideradas bonitas, cada olho tinha um catorze
avos do comprimento do rosto e trs dcimos da sua largura; o
nariz no ocupava mais do que cinco por cento da cara; a
distncia entre o lbio inferior e o queixo re-presentava um
quinto do comprimento do rosto, enquanto entre o centro do
olho e a sobrancelha a distncia era de um dcimo. So-brepondo
os rostos de vrias mulheres bonitas num computador, nenhum
deles corresponde a outro. No fundo, esta geometria da beleza
procura encontrar o rosto de uma me ideal: uma mulher jo-vem
e saudvel. Uma mulher tinha de ser frtil, saudvel e
enrgica para proteger a sua prole e continuar a ter mais
filhos, muitos dos quais morriam bebs. Os homens atrados
para essas mulheres ti-nham mais hipteses de ver os seus
genes sobreviver. Capitalizan-do nas subtilezas contnuas
dessa atraco, os cirurgies plsticos fazem uma publicidade
por vezes excessivamente fria. Um cirur-gio plstico
californiano, o Dr. Vincent Forshan, publicou uma vez um
anncio de oito pginas a cores na revista *Los Angeles*, que
mostrava uma jovem de grande beleza com um busto proeminente,
barriga achatada, ndegas firmes e salientes e umas pernas
longas e elegantes, posando ao lado de um *Ferrari*. O ttulo
por cima da foto dizia: Automvel criado por Ferrari...
*Corpo criado por For-shan*. Pergunta: e ns, que no somos
jovens, altas e esculturais, que fazemos? Resposta:
consolemo-nos com o facto de a beleza ser uma coisa relativa.
Embora a beleza seja a primeira coisa a ganhar a :, nossa
admirao e chamar a nossa ateno, pode desaparecer diante
dos nossos olhos de um minuto para o outro. Recordo-me de ter
visto Omar Sharif em *Doutor Jivago* e de o ter achado
extraordina-riamente belo. Quando uns meses depois o vi ser
entrevistado na televiso e declarar que o seu nico interesse
na vida era jogar br-dege, ao qual dedicava a maior parte do
seu tempo livre, para meu espanto, ele transformou-se diante
dos meus olhos num homem horroroso. De repente, os seus olhos
pareceram-me remelosos, o queixo grande de mais e nenhuma
parte da sua anatomia tinha as propores adequadas. J
observei essa obra de alquimia funcionar ao contrrio, quando
um homem que no era particularmente a-traente comeou a falar
e se tornou fascinante. Ainda bem que existem qualidades
interessantes como graa, inteligncia, humor, curiosidade,
doura, paixo, talento e graciosidade. Ainda bem que, embora
a beleza possa convocar imediatamente as atenes, a sen-sao
duradoura da beleza de algum se vai revelando por fases.
Ainda bem que, como Shakespeare diz em *Sonho de Uma Noite de
Vero* O amor no v com os olhos, mas com o esprito.
   No amamos apenas as feies uns dos outros, claro, mas
tam-bm as da Natureza. A nossa paixo por belas flores
devemo-la in-teiramente aos insectos, morcegos e aves, visto
estes polinizadores e elas terem evoludo juntos; as flores
servem-se da cor para atrair as aves e insectos que as
fecundam.  possvel cultivarmos flores de modo a obtermos o
ponto de cor e perfume que preferimos e nos satisfaz os
sentidos, e desse modo alteramos grandemente o aspecto do
mundo, mas h uma magnificncia especial que s encontramos na
Natureza no seu estado mais selvagem e poro. No nosso mundo
doce e espontneo, como e. e. cummings lhe chama, encontramos
belezas impressionantes e ntimas que nos enchem de xtase.
Tal-vez que, como ele,

*notemos o convulso fragmento cor de laranja da Lua
empoleirado num instante prateado da noite*

e a nossa pulsao de repente acelera como a cavalaria, os
olhos fe-cham-se-nos de prazer e, atordoados, suspiramos antes
mesmo de saber o que se passa. A cena  to bela que nos
esvazia. O luar as-segura-nos a luz suficiente para
encontrarmos o nosso caminho nas plancies escuras ou fugirmos
de um animal que ande a rondar pela noite. O claro festivo do
pr do Sol recorda-nos o calor em que crescemos. O exuberante
colorido das flores anuncia a chegada da Primavera e do Vero
quando a comida abunda e a vida  radiante :, e frtil. As
aves de cores vivas excitam-nos por solidariedade, com o seu
mpeto e deslumbramento sensuais, pois no fundo somos
at-vicos, e qualquer outro jogo sexual nos recorda o nosso.
Contudo, a essncia da beleza natural  composta de novidade e
surpresa. No poema de Cummings,  um convulso fragmento cor
de laranja da Lua que nos chama a ateno. Quando tal
acontece, alarga-se o nosso sentido de comunidade... No
pertencemos apenas uns aos outros, mas tambm s outras
espcies, outras formas de matria. Acharmos um cristal ou
uma papoila belos significa que estamos menos ss, escreve
John Berger em *The Sense of Sight*, que es-tamos mais
profundamente inseridos na existncia do que um per-curso de
uma nica vida nos levaria a pensar. Os naturalistas dizem
muitas vezes que nunca se cansam de ver o mesmo quil-metro de
floresta tropical, ou de cruzar os mesmos caminhos na sa-vana.
Porm, se forem pressionados, acrescentaro inevitavelmente
que h sempre uma coisa nova para ver, uma coisa diferente.
Como explica Berger: A beleza  sempre uma excepo, existe
sempre *a despeito de*. Por isso  que nos emociona. E, no
entanto, tambm respondemos com paixo  forma extremamente
organizada de ob-servar aquilo a que chamamos arte. At certo
ponto, a arte aprisiona a Natureza dentro de um pesa-papis.
De repente, um local ou uma emoo abstracta  visvel  nossa
vontade, sai do seu caminho, pode ser rodeada e considerada de
vrios pontos de vista, torna-se to fixa e, nessa medida, to
sagrada como a paisagem. Como diz Berger:

--------------------------
   Todas as linguagens artsticas tm sido desenvolvidas como
tentativas de transformar o instantneo em permanente. A arte
pressu-pe que a beleza no  uma excepo -- no existe *a
despeito de* --, mas  a base de uma ordem... A arte  uma
resposta organizada quilo que a Natureza nos permite entrever
ocasionalmente... o rosto transcendente da arte  sempre uma
forma de orao.
---------------------------

   A arte  mais complexa do que isso, claro. Uma emoo
intensa incomoda e esperamos que os artistas sintam por ns,
que sofram e se rejubilem, que descrevam os pontos mais altos
da sua resposta apaixonada  vida, de modo a podermos goz-la
de longe, com se-gurana, e conhecermos melhor a verdadeira
extenso de toda a ex-perincia humana. Podemos escolher no
viver os extremos da conscincia que encontramos em Jean Genet
ou Edvard Munch, mas  maravilhoso espreitar para dentro
deles. Pedimos aos artistas que parem o tempo por ns, que
quebrem o ciclo do nascimento e :, morte e ponham
provisoriamente fim aos processos da vida.  um esforo
demasiado, para qualquer pessoa, faz-lo sem ficar com os
sentidos esgotados. Por seu lado, os artistas adoram essa
intensi-dade. Pedimos-lhe que preencham a nossa vida com uma
parada de vises e percepes novas, que a transformem no que
costumava ser, quando ramos crianas e tudo era novidade. (*) 

(*) Como observou Laurens van der Post entre os Bochimanes do
deserto do Kalahari: Percebi por que razo a poesia, a msica
e as artes plsticas so uma questo de sobrevivncia: de vida
ou mor-te, para todos ns... As artes so simultaneamente
guardis e obreiras dessa cadeia; esto encarrega-das de
manter os movimentos originais nas mais recentes edies do
Homem; tornam novo e imediato aquilo que  primitivo e antigo
no espirito humano. (*N. da A*.)

Com o tempo, grande parte do espectculo da vida esbate-se
delicadamente, por-que, se nos detivssemos a considerar cada
lrio que aparece com manchas, nunca teramos a papelada em
ordem nem as compras feitas.
   Por vezes, coisas no belas tambm encantam os nossos
olhos. Grgulas, lantejoulas, retalhos de cor intensa, efeitos
de luz. As gi-rndolas e o fogo-de-artifcio so quase
dolorosos de ver, mas 
a-chamo-los lindos. Um diamante perfeito de sete quilates 
pura cintilao e tambm a consideramos bela. Ao longo da
Histria, as pessoas sempre trabalharam as mais rudes pedras
da Natureza, transformando-as em jias requintadas, obcecadas
com a forma como a luz penetra os cristais. Podemos considerar
os diamantes e outras pedras preciosas visualmente magnficos,
mas v-los tal como o fazemos agora  uma inovao recente. S
no sculo XVIII a recm-aperfeioada arte de lapidar
produziu as fulgurantes pedras que ardem e atordoam, por ns
admiradas. Antes dessa data, at as jias da coroa eram
montonas e sem brilho. Porm, no sculo XVIII surgiu a moda
da lapidao, bem como a dos decotes profundos. Com efeito, as
mulheres usavam uma jia pregada no decote dos vestidos de
modo a que uma chamasse a ateno do outro. Porque ser que
achamos as jias to belas? Um diamante funciona como um cacho
de prismas. A luz que entra num diamante faz ricochete e gira
dentro dele, reflecte-se a partir do fundo e espalha as suas
cores com uma exuberncia maior do que atravs de um vulgar
prisma de vidro. Um bom lapidador de diamantes consegue que a
luz forme raios no interior das muitas faces da pedra e se
projecte dos ngulos para fora. Faam girar um diamante na
vossa mo e vero uma cor pura logo seguida de outra. A
variedade  a garantia que a matria d s coisas vivas.
Encontramos a energia, o movimento e as cores mutveis da vida
enclausuradas no pequeno espao morto de um diamante, que num
momento brilha como o non e no outro vomita :, feixes de luz.
O nosso sentido do maravilhoso desperta, tudo parece fora do
seu lugar, uma fogueira mgica acende-se, as coisas ganham
vida com um fulgor inesperado, e as chamas iniciam uma dana
breve e rpida. Quando observamos um rosto, fo-go-de-artifcio
ou o lanamento de uma nave espacial, a dana  mais lenta,
mas as cores e luzes tornam-se dolorosamente intensas  medida
que nos vo cercando e encantando, numa sublime e pura
fantasia visual.


:o lanamento nocturno de um vaivm espacial


   Uma torre gigantesca e reluzente brilha atravs das
charnecas da, Florida. Holofotes iluminam os cus em volta,
desenrolando tapetes de luz. Helicpteros e jactos piscam em
torno da pista de lana-mento, como insectos atrados por uma
chama. Nem o feiticeiro de Oz jamais conseguiu que o cu
parecesse cravejado de diamantes como este. Debaixo da cascata
de luz, uma trelia enorme suporta um foguete esguio, que tem
de cada lado um termo cheio de combustvel slido, com a cor e
a consistncia de borracha dura, e nas costas um vaivm
espacial com um focinho pontiagudo, que a ele se agarra co-mo
a cria de um animal extico. Uma lua cheia e baixa destaca-se
no cu, voltada para a rampa de lanamento, a boca aberta.
   As sbrias consolas dos painis de controlo fazem a
contagem de-crescente. Quando os nmeros se extinguirem e o
tempo chegar ao fim, algo desaparecer. No o vaivm, esse
permanecer connosco, atravs da vista e do radar, e surgir
por todo o mundo em dezenas de satlites de observao que
giraro as cabeas, tentando aliviar a sua angstia. H muitas
horas que aguardamos ansiosamente nestes pntanos a emoo do
que est para acontecer, desejando sermos lanados para longe
da rotina e subir, tal como o obelisco, at ao infinito. Tanto
nas mar-gens do rio Banana, cobertas de grinaldas de nevoeiro,
como nos pos-tos de observao  beira das estradas,
aguardamos: s no centro espacial esperam-se cinquenta e cinco
mil pessoas.
   Quando os holofotes focam a rampa de lanamento, os
obtura-dores das mquinas fotogrficas e os obturadores
mentais abrem-se todos ao mesmo tempo. O ar est leve e
hmido. Cem mil olhos voltam-se para o mesmo ponto, onde um
claro do foguete auxiliar se transforma num cata-vento de
lume, como as girndolas que se-guramos na mo no feriado de 4
de Julho. Nuvens brancas dispa-ram em todas as direces, numa
tempestade de areia levantada pelo fogo, um sara ondulante que
de cinzento-claro passa  cor da :, platina, to incandescente
que nos fere a vista, um dourado fulgu-rante to intenso que
esquecemos como piscar os olhos. O ar est carregado de
ferroadas de abelhas, incomodativas e elctricas. Os po-ros
enchem-se de comicho. Os cabelos atrs do pescoo
arre-piam-se. A rampa costumava derreter aps o lanamento,
mas eis
que um milho e duzentos mil litros de gua se precipitam de
cima, irrompem de baixo. Nuvens de vapor de gua perfumam o ar
com uma poeira mineral. Devido  reflexo, os cursos de gua
tomam a cor do bronze martelado. Nuvens espessas oscilam e
amontoam-se ao nvel do cho, onde ningum esperava ver
cmulos de trovoada.
   Poucos segundos aps o lanamento, um rasto cor de pssego
projecta-se aos solavancos, como os flancos de um cavalo rabe
a galope, e agora empalidece o Sol  medida que as nuvens
sobem e se amontoam como nas cenas da Criao. Pssaros saltam
para o ar, bem como traas, liblulas, mosquitos e outras
criaturas aladas, todas tomadas de pnico com o clamor que
ressoa, estala e uiva a favor do vento. Que , afinal, o voo,
se pode ocorrer nas frgeis asas de uma traa, cuja central de
energia  um corao to pequeno como o *chip* de um
computador? Que  o voo, se trs milhes de quilos de peso
morto, colocados num guindaste colossal, conseguem subir,
gemendo? Se fecharem os olhos, ouviro o barulho ensurdecedor
dos foguetes, senti-los-o reverberar no vosso peito. Se
abrirem os olhos, vero um fabuloso msculo de ao a pingar
fogo, enquanto um impulso de quatro milhes de quilos faz uma
pausa moment-nea num suporte prateado, para depois voltar a
ser impelido num tumulto de nuvens. Escoras de ferro so
empurradas para a rampa de lanamento como se fossem jornais,
fazendo rolar ondas de cho-que batendo com os seus punhos
gigantes, batendo nas charnecas onde as aves guincham e voam,
batendo nos vossos peitos onde um corao que j batia com
rapidez comea a querer fugir. O ar est tenso como um tambor,
as molculas pulam. De repente, o vaivm espacial salta bem
por cima da plancie, longe do riso agora frentico das aves,
longe do delrio esganiado dos insectos e do espanto dos
espectadores boquiabertos, muitos dos quais choram ao verem-no
er-guer-se numa cascata de chamas com dois metros de
comprimento, lanando fascas colossais enquanto sobe, num
halo dourado que permanece ardente na memria.
   Apenas dez minutos depois do lanamento, deixar a
segurana da nossa atmosfera e entrar em rbita a 300
quilmetros de distn-cia no espao. No se trata de um
milagre. Ao fim e ao cabo, ns, os seres humanos, nascemos de
uma fria do Universo, quando a nossa composio qumica tomou
forma pela primeira vez. :, Evolumos por acidente, por acaso,
umas vezes por um triz, outras por sorte. Desenvolvemos a
linguagem, edificamos cidades, fundamos naes. Hoje,
desviamos rios e movemos montanhas; retemos trilies de
toneladas de gua com barragens de cimento. Abrimos o peito ou
a cabea das pessoas; operamos coraes e crebros. Comparado
com tudo isso, o que  desafiar a gravidade? Em rbita, no h
noite e dia, acima e abaixo. Ningum pode ter os ps na
terra. Nenhuma piada ser pesada. Nenhuma questo ser
terra-a-terra. Ne-nhuma emoo ser do outro mundo. Em
rbita, o Sol nascer de hora e meia em hora e meia e cada
semana ter cento e doze dias. Mas o tempo sempre constituiu
uma das mais ousadas e engenho-sas invenes humanas e, vendo
bem, talvez a menos plausvel das nossas fices. Guinando
para leste por cima do oceano, o vaivm rola lentamente de
costas, trepando a pouco e pouco, um facho dis-parado para o
ar, largando atrs de si um cordo umbilical de fumo branco.
Quando os dois foguetes espaciais se desprendem, como pontos
de interrogao vermelho-vivo, principiam uma viagem que
durar quatro dias. Durante mais de seis minutos de
encantamento, a estrela que o Homem arremessou ao cu
cravejado de estrelas permanecer visvel. O que 
proximidade?, perguntamo-nos. Se-r o molho de margaridas
amarelas junto ao rio Banana, que as tra-as sobrevoam e
penetram sem precisar de foguetes auxiliares? Para os
espritos grandes, a Terra  um lugar pequeno. No to
pe-queno que se esgote numa vida, mas um lar acolhedor,
confortvel, alegre, um stio para acarinhar, o centro
fantstico das nossas vidas. Mas seramos capazes de ficar em
casa para sempre?


:a fora de uma imagem: coroa circular


   No nosso esprito, esse local abstracto onde reside a
imagina-o, vemos o rosto de um amante, saboreamos um beijo.
Quando o recordamos, temos vrios pensamentos; mas quando o
vemos real-mente, como se fosse um holograma, emocionamo-nos.
Ver  muito mais do que ver. A imagem visual  uma espcie de
fio onde tropeam as emoes. Uma fotografia pode recordar-nos
todo um regime poltico, uma guerra, um acto herico, uma
tragdia. Um gesto pode simbolizar a amplitude do amor
parental, a incerteza e a desordem do amor romntico, a
perturbao da adolescncia, a r-pida transfuso da
esperana, a sensao de ventos cortando o cora-o a que
chamamos perda. Quando olhamos para uma encosta verdejante,
lembramo-nos imediatamente do cheiro da relva acaba-da de
cortar e da sensao que transmite quando est hmida, das :,
ndoas verdes que nos deixa nas calas de ganga, do som
produzido quando seguramos uma lmina de relva e lhe sopramos
para cima, e de vrias outras recordaes associadas  relva:
piqueniques que fi-zemos com a famlia, jogos de bola num
pomar dos planaltos cen-trais; levar o gado a pastar desde o
poeirento deserto do Novo Mxico aos campos cobertos de erva
fresca; passeios a p pelos Adirondacks; fazer amor no tapete
relvado de uma colina, num es-caldante dia de Vero em que
soprava uma brisa e a luz do Sol, brilhando entre nuvens,
iluminava uma parte da encosta de cada vez, como se
estivssemos num quarto onde as luzes ora se acen-dessem, ora
se apagassem. Quando observamos um objecto, todos os nossos
sentidos despertam para apreci-lo. Os lojistas que temos no
crebro apreciam-nos dos seus prprios pontos de vista, todos
os funcionrios pblicos, contabilistas, estudantes,
lavradores, mec-nicos. Em conjunto, vem todos a mesma coisa
-- uma encosta verdejante -- e cada um tira fotos diferentes,
formando todas juntas aquilo que vemos. Os outros sentidos
tambm convocam memrias e emoes, mas os olhos so
especialmente dotados para percep-es simblicas,
aforsticas, multifacetadas. Por saberem isso, os go-vernos
esto constantemente a erigir monumentos. Em geral, no so
grande coisa, mas as pessoas olham-nos e emocionam-se. Para os
o-lhos, quase tudo  monumental. E umas formas afectam-nos
mais do que outras.
   Por exemplo, nos ltimos vinte anos, tenho acompanhado de
perto o programa espacial e, fascinada, aprendi muito sobre o
sis-tema solar, principalmente graas  nave espacial
*Voyager*, que tem enviado para a Terra filmes sobre os seus
parentes prximos. Foi uma surpresa maravilhosa descobrir que
metade dos planetas pos-suem anis; no apenas Saturno, mas
tambm Jpiter, Urano, Neptu-no e talvez Pluto. E todos esses
anis so diferentes. Os anis escuros e estreitos de Jpiter
contrastam com as faixas claras e lar-gas em volta de Saturno.
Os que envolvem Urano trazem a reboque umas luas brilhantes. O
sistema solar tem estado discretamente a passar anis em nossa
volta. Que coisa extraordinria e comovente! Poucos smbolos
tm tanto significado para ns como os anis,
in-dependentemente da nossa religio, simpatia poltica,
idade, sexo. Oferecemos anis para simbolizar amor eterno e
harmonia entre duas almas. Os anis recordam-nos as clulas
simples, que foram a mais antiga verso da vida, e a sinfonia
de clulas que hoje somos. Quando andamos de carrossel,
esticamo-nos para agarrar um anel. Um halo circular indica um
santo. Desenhamos crculos em volta do que queremos destacar.
Muitos desportos realizam-se num crculo :, mgico do campo de
jogos. Um caleidoscpio de sensaes desen-rola-se na arena
redonda do circo. O crculo simboliza o infinito: no tem
princpio nem fim. Os anis simbolizam promessas, votos.
Sugerem eternidade, imutabilidade, perfeio. Marcamos o
tem-po no mostrador de um relgio, transformando-o em pontos 
roda de um crculo. Nos recreios das escolas, as crianas
brincam com berlindes num crculo desenhado a giz; so
excelentes inventores, pondo em prtica mecanismos
planetrios. Vemos o que se passa no mundo com os nossos
globos oculares, mundos dentro do mundo. Apreciamos a alma
redonda que pensamos ver num ser amado. A-creditamos que, tal
como se pode obter um crculo forte a partir de dois arcos
mais fracos, tambm podemos completar-nos unindo a nossa vida
 de outra pessoa. Ns que admiramos a simetria imor-tal, o
compromisso representado num anel, louvamos as maravilhas do
Universo o melhor que sabemos, percorrendo o crculo do
nas-cimento e da morte. Os astronautas da *Apollo*
regressaram  Terra mudados, s por terem visto o nosso
planeta a flutuar no espao. O que viram foi uma espcie de
aforismo visual, o qual todos precisamos de aprender de cor.


:as paredes redondas de casa


   Imaginem esta cena: todas as pessoas que conhecem, todos
aqueles que alguma vez amaram, toda a vossa experincia de
vida flutuando num lugar, sobre um nico planeta por baixo de
vs. Nesse osis estonteante, rodopiando em azuis e brancos,
os siste-mas meteorolgicos tomam forma e viajam. Vem as
nuvens zunir e erguer-se acima do Amazonas, sabem que o tempo
que l faz afectar as colheitas do outro lado do planeta, na
Rssia e na China. Erupes vulcnicas reluzem l em baixo. As
florestas tropicais esto a desaparecer na Austrlia, no Havai
e no Prximo Oriente. Dispositivos de percepo  distncia
avaliam a humidade do de-serto e j vos preveniram de que,
este ano, ele ser invadido por pragas de gafanhotos. Para
vosso espanto, identificam as luzes de Denver e do Cairo. E
embora os tivessem conhecido um a um, co-mo peas separadas de
um *puzzle*, vem agora que os oceanos, a atmosfera e a terra
no so independentes, mas fazem parte da teia intricada e
complexa que  a Natureza. Como a Dorothy de *O Fei-ticeiro
de Oz*, apetece-vos bater com os vossos sapatos mgicos um no
outro e dizer trs vezes: No h nada como o nosso lar.
   Todos sabemos o que  o lar. Durante muitos anos, tentmos
ser observadores modestos e curiosos dos cus e da Terra, cujo
verde :, tanto amamos. O lar  um pombo que se pavoneia numa
petio, no quintal em frente de vossa casa. O lar so as
nogueiras l de trs, que cumprem rigorosamente a lei. O lar 
um cartaz afixado numa estao de servio  sada de
Pittsburgh onde se l: Se no conse-guirmos consert-lo, 
porque no est avariado. O lar  a Primavera nas cidades
universitrias da Amrica, onde os estudantes se espa-lham
pela relva como os feridos de guerra em Gettysburg. O lar  a
selva da Guatemala, por vezes to mortfera como um arsenal. O
lar  o faiso que lana ameaas roucas ao co dos vizinhos. O
lar  um requintado tormento de amor e de tantas outras leses
cardacas menores. Mas queremos poder recuar de modo a v-lo
na totalida-de. Queremos dar expresso quele desejo secular,
retratado nos mitos e lendas de todas as culturas: erguer-nos
acima da Terra e ver o mundo formigar e desabrochar l em
baixo.
   Recordo a minha primeira lio de pilotagem. A norte do
estado
de Nova Iorque, o Vero arrastava-se, calmo. Quando empurrei
para a frente o manpulo de comando do combustvel, disparei
pela pista at o trem de aterragem comear a danar; em
seguida, o cho afastou-se e eu vi-me no ar, subindo um lance
de escadas invisvel. Para meu espanto, o horizonte subiu
comigo (nem podia ser de ou-tra maneira, num planeta redondo).
Pela primeira vez na vida, compreendi o que era um vale,
quando voei por cima de um a sete mil ps de altitude. Vi
nitidamente a devastao causada pela mariposa, cuja fome
sangrara as florestas, agora de um cinzento mesclado. Mais
tarde, quando sobrevoei Ohio, reparei com tristeza que o ar
estava ocre e estagnado e que a longa extenso do rio Ohio,
escura e rasteira, no apresentava a textura normal da gua e
por vezes chegava mesmo a parecer inflamvel, devido aos fumos
das fbri-cas de plstico que se erguiam como pstulas ao
longo do rio. Compreendi, ento, o modo como as pessoas povoam
uma paisagem, em ondas e cruzamentos, como tratam um terreno e
o irrigam. Acima de tudo, descobri que no nosso mundo h
coisas que s podemos perceber de determinada perspectiva.
Como entender os oceanos sem fazer parte das suas intrincadas
profundezas? Como compreender o planeta sem caminhar sobre
ele, conhecendo as suas maravilhas uma a uma, e depois
sobrevo-lo e v-lo todo de uma s vez?
   O sculo XX ser recordado, sobretudo, como o tempo em
que comeamos a entender o que era a nossa morada. A bola
grande, azul, bela e hmida dos ltimos anos  uma forma de
defini-lo. Mas outra mais profunda mencionar as ordens de
magnitude dessa grandeza, os matizes desse azul, a delicadeza
arbitrria da prpria :, beleza, o modo como a gua tornou a
vida possvel, e a frgil euforia deste complexo ecossistema
que  a Terra, uma Terra sobre qual, do espao, no se vem
muros, zonas militares ou fronteiras nacionais. Precisamos de
enviar para o espao uma multido de artistas e naturalistas,
de fotgrafos e pintores, que virem o espelho para ns e nos
mostrem a Terra como um planeta nico, um s or-ganismo
flutuante, frgil, verdejante, bulioso, repleto de
espect-culos, de fascinantes seres humanos, algo que devamos
acarinhar. Aprender tudo sobre a nossa morada talvez no ponha
fim s guer-ras, mas aumentar a nossa admirao e o nosso
orgulho. Recor-dar-nos- que o contexto humano no  apertado
como um n, mas amplo como o Universo que temos o privilgio
de habitar. Persua-dir-nos- de que somos cidados de algo
maior e mais profundo do que meros pases, de que somos
cidados da Terra, os seus utentes e os seus zeladores, e de
que faramos melhor se resolvssemos os problemas dela em
conjunto. A vista do espao oferece a todos ns, que estamos
na infncia da evoluo, a primeira oportunidade de atravessar
a rua csmica e observar de frente a nossa casa, espanta-dos
por v-la to nitidamente pela primeira vez.



SINESTESIA


A caneta  a lngua do esprito.

      Miguel Cervantes, 
          *Don Quixote*


FANTASIA

  O borro creme de um suculento som azul cheira a morangos
apanhados h uma semana e postos a escorrer num passador de
alumnio, enquanto uma me se aproxima num halo de cor e
taga-relice, cheirando ao dourado caramelo. Os recm-nascidos
viajam numa mistura de ondas de viso, som, tacto, gosto e, em
especial, cheiro. Daphne e Charles Maurer recordam-nos em *O
Mundo do Recm-Nascido*:

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   O seu mundo tem um cheiro semelhante ao nosso, mas ele no
sente os odores apenas atravs do nariz. Ele tambm ouve os
odores, v os odores e sente os odores. O seu mundo  uma
amlgama de aromas pungentes... e sons pungentes, sons com um
cheiro amargo, vises com um cheiro doce e sensaes com
cheiro acre sobre a pele. Se fosse possvel visitarmos o mundo
de um recm-nascido, julgara-mos estar dentro de uma
perfumaria alucinognica.
---------------------------

   Com o tempo, o recm-nascido aprende a destrinar e a domar
as suas impresses sensoriais, algumas das quais tm nome e
muitas das quais nunca o tero at ao fim dos seus dias. As
coi-sas que escapam ao nosso controlo verbal so difceis de
definir e quase impossveis de recordar. Uma nvoa confortvel
no quarto das crianas evapora-se no catalogar rigoroso do
senso comum. Mas para algumas pessoas essa sobreposio
sensorial nunca desaparece e vem-lhes  boca o sabor dos
feijes em mo-lho de tomate quando ouvem a palavra Francis,
como j al-gum afirmou, ou vem amarelo quando palpam uma
superfcie mate, ou cheiram a passagem do tempo. A estimulao
de um :, dos sentidos estimula um outro: sinestesia  o
termo tcnico, do grego *syn* (juntamente) + *aisthanesthai*
(ter percepes). Um es-pesso manto de percepes, tecido
com fios sobrepostos. H uma palavra semelhante, sntese, na
qual vrias ideias so tecidas em conjunto num manto de
pensamento, e que originalmente se referia s roupas leves de
musselina usadas na antiga Roma.
   A vida quotidiana  uma agresso constante s percepes de
cada um e, at certo ponto, em todos ns as percepes
interferem umas nas outras. Segundo os psiclogos
gestaltistas, quando se pe-de s pessoas que relacionem uma
lista de palavras ao acaso com formas e cores, elas
identificam certos sons com certas formas, de acordo com
padres muito ntidos. O mais surpreendente  que isso se
verifica quer se trate de Americanos, Ingleses, habitantes da
pe-nnsula do Mahali ou do lago Tanganhica. Alm disso, as
pessoas em que se produz uma sinestesia intensa tendem a
responder de modo previsvel. Um inqurito feito a duas mil
dessas pessoas, com culturas diversas, revelou a existncia de
muitas semelhanas nas cores atribudas aos sons. 
frequente, por exemplo, associarem sons graves a cores escuras
e sons agudos a cores vivas. Uma certa dose de sinestesia 
inerente aos nossos sentidos. Se quisssemos criar uma
sinestesia momentnea, um pouco de mescalina ou ha-xixe fariam
o servio, ao exacerbar as ligaes neurais entre os sentidos.
So raras as pessoas que experimentam regularmente uma
acentuada sinestesia natural -- cerca de uma pessoa em
quinhentas mil -- e, segundo o neurologista Richard Cytowic, a
explicao pa-ra o fenmeno est no sistema lmbico, a zona
mais primitiva do crebro, razo pela qual ele chama a essas
pessoas fsseis cogniti-vos vivos, pois provavelmente o seu
sistema lmbico no  intei-ramente governado pelo mais
sofisticado crtex (que evoluiu muito mais recentemente). Como
ele prprio diz, a sinestesia... pode ser um vestgio do modo
como os primeiros mamferos viam, ouviam, cheiravam,
saboreavam e palpavam.
   Se  verdade que a sinestesia pode levar as pessoas 
contuso, tambm afasta as confuses umas das outras. Se  uma
pequena praga para quem no deseja tal sobrecarga sensorial,
revigora aqueles que so inegavelmente criativos. Algumas das
pessoas sinestticas mais famosas so artistas. Os
compositores Alexander Scriabine e Nikolai Rimsky-Korsakov
associavam livremente cores  msica que escreviam. Para
Rimsky-Korsakov o d maior era branco; para Scriabine era
vermelho. Para Rimsky-Korsakov o l maior era rseo e para
Scriabine verde. Mas o mais curioso era o facto de as suas
sinestesias msica-cor serem to aproximadas. :, Ambos
associavam o mi maior ao azul (para Rimsky-Korsakov
azul--safira e para Scriabine azul-plido), o l bemol maior
com roxo (para Rimsky-Korsakov era violeta-acinzentado e para
Scriabine viole-ta-arroxeado), o r maior com amarelo, etc.
   Os escritores ou so particularmente dotados em relao 
sineste-sia, ou so mais capazes de descrev-la. O Dr. Johnson
afirmou um dia que no h nada que o escarlate represente to
bem como o som de um clarinete. Baudelaire orgulhava-se do
seu esperanto sensorial, e o seu soneto sobre a
correspondncia entre perfumes, cores e sons in-fluenciou
grandemente o movimento simbolista, que tanto esti-mava a
sinestesia. Smbolo vem da palavra grega *symballein*,
reunir, e, como explica o *The Columbia Dictionary of
Modern Eu-ropean Literature*, os simbolistas acreditavam que
todas as artes so tradues paralelas de um mistrio
fundamental. Os sentidos corres-pondem uns aos outros; um som
pode ser traduzido por um perfume e um perfume por uma
viso... Perseguidos por essas correspondncias horizontais,
e servindo-se da sugesto e no da comunicao directa, eles
buscaram a Unidade escondida na Natureza atrs da
Diversida-de. Rimbaud, que atribuiu uma cor ao som de cada
vogal e descre-veu o A como sendo um corpete negro e peludo,
feito de ruidosas moscas, sustentava que a nica forma de um
artista alcanar as ver-dades da vida era experimentando
todas as formas de amor, de so-frimento, de loucura, a fim
de estar preparado para um desordenar longo, imenso e
planeado de todos os sentidos. Os simbolistas, que tomavam
drogas, ficavam maravilhados perante a forma como os
alucinognios intensificavam simultaneamente todos os seus
senti-dos. Teriam adorado (durante algum tempo) tomar LSD e
assistir ao filme de Walt Disney *Fantasia*, no qual a cor d
expressso  msica clssica, nela se transforma e dela brota.
Poucos artistas escreveram sobre a sinestesia com a preciso
de Vladimir Nabokov que, em Speak Memory, analisa aquilo a que
chama audio colorida:

---------------------------
   Talvez /ouvir/ no seja a palavra exacta, visto que a
sensao de cor parece ser produzida no instante em que eu
verbalizo determinada letra enquanto imagino o seu contorno. O
/a/ longo do alfabeto in-gls... tem, para mim, o tom da
madeira envelhecida, mas o /a/ fran-cs evoca o bano
polido. Este grupo negro inclui tambm o /g/ explosivo
(borracha volcanizada) e o "r" (um trapo sujo de fuligem a ser
rasgado). O /n/ de farinha de aveia, o /l/ que caminha com
difi-culdade e o /o/, esse espelho de mo em marfim,
repartem entre si o branco. Fico intrigado com o meu /on/
francs, que vejo como a ten-so supefficial de um copo cheio
de lcool at  borda. Passando ao :, grupo dos azuis, temos o
metlico /x/, o carregado /z/ e o /k/ cor de mirtilo.
Visto existir uma pequena interaco entre o som e a forma,
vejo o /q/ mais castanho do que o /k/, enquanto o /s/
no  do mes-mo azul-claro do /c/, mas sim de uma mistura de
azur e madreprola. As tintas adjacentes no se misturam,
portanto os ditongos no possuem uma cor prpria, a no ser
quando representados por uma nica letra, como acontece
nalgumas lnguas (da a letra russa para o /sh/,
cin-zento-clara e com trs pernas, uma letra to antiga como
as cheias do Nilo, influenciar a sua representao inglesa)...
A palavra para arco--ris, um arco-ris primrio mas
decididamente lamacento, , na minha lingua particular e quase
impronuncivel, /kzspygu/. O primeiro escritor a debater a
*audition colore* foi, tanto quanto sei, um fsico albino em
1812, em Erlangen. 
   As confisses de um /sinesttico/ devem parecer
enfadonhas e pretensiosas queles que esto protegidos dessas
fugas e correntes de ar por paredes mais slidas do que as
minhas. A minha me, no entanto, considerava tudo muito
normal. A questo foi levantada certo dia quando, aos sete
anos, eu tentava erguer uma torre usando blocos de madeira com
as letras do alfabeto. Observei que as cores das letras
estavam todas mal. Descobrimos ento que algumas das letras
dela tinham a mesma cor das minhas e que, alm disso, ela era
afectada opti-camente por notas musicais. Estas nunca evocaram
em mim cromatismos de espcie alguma.
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   A sinestesia pode ser hereditria, portanto no admira que
a me de Nabokov a tenha experimentado, nem que ela se
exprimisse de forma pouco diferente no seu filho. Contudo,
apesar de parecer estranho que Nabokov, Faulkner, Virginia
Woolf, Huysmans, Baudelaire, Joyce, Dylan Thomas e outros
famosos sinestticos tenham sido mais primitivos do que a
maioria das pessoas, isso pode muito bem ser verdade. Os
grandes artistas sentem-se bem numa fonte luminosa de
sensaes, s quais acrescentam a sua prpria e complexa
tor-rente sensorial. Nabokov teria certamente achado divertido
saber que estava muito prximo dos mamferos seus
antepassados, os quais ele no hesitaria em retratar numa casa
de espelhos imagin-ria, com uma subtileza suave, mordaz,
nabokoviana.


invocando as musas


   Que gente estranha somos ns, os escritores, que buscamos a
palavra perfeita, a expresso gloriosa que tornar de algum
modo :, dizvel a requintada avalanche da conscincia. Ns que
vivemos em bairros sociais mentais, onde qualquer vadio se
pode transformar em mo-de-obra honesta, bastando-lhe para tal
receber o incentivo certo; um copo de vinho, uma leve
chicotada, uma seduo deli-cada. Estava tentada a dizer que
as nossas cabeas so os nossos escritrios ou capelas
morturias, como se a criatividade vivesse no pequeno sto de
um modesto prdio sem elevador. Sabemos que o esprito no
reside apenas no crebro; por conseguinte, a sua locali-zao
 um mistrio to grande como o seu funcionamento. Katherine
Mansfield disse que era preciso percorrer muitos jardins
para produzir inspirao, mas creio que ela se referia a algo
mais consequente do que os passeios de Picasso pelas florestas
de Fontainebleau, onde ele apanhou uma tremenda indigesto de
verde, que se sentiu impelido a despejar para a tela. Ou
talvez ela tenha querido dizer precisamente isso, o trabalho
que d o facto de saber exactamente onde e quando e durante
quanto tempo e de que maneira se deve caminhar, e depois a
fora de vontade que  preciso ter para sair e andar o maior
nmero de vezes possvel, mesmo quando
estamos cansados ou no nos est a apetecer, ou acabmos de
cami-nhar em vo. Os artistas so conhecidos por pr em
debandada os sentidos, por vezes utilizando notveis truques
de sinestesia.
   Dame Edith Sitwell costumava deitar-se durante algum tempo
num caixo vazio antes de iniciar a escrita do dia. Quando
contei este boato macabro a um poeta amigo, ele disse com
azedume: Que pena ningum se ter lembrado de fech-lo.
Imaginem Dame Edith a ensaiar a sua posio do tmulo, como
preldio aos espec-tculos imaginrios que ela tanto gostava
de criar. O linear nunca foi o seu estilo. Nela, s o muito
ridicularizado nariz era rgido, embora ela tivesse conseguido
empertig-lo durante quase toda a vida. O que  que nessa
atitude obscura e contida era capaz de es-timular a sua
criatividade? Seria o caixo ou antes a sensao, o cheiro ou
o ar pesado, que tornava essa criatividade possvel?
   O estratagema usado por Edith, de se deitar num caixo,
pode parecer ridculo, mas vejamos como outros escritores
invocavam as suas musas. O poeta Schiller guardava mas
podres debaixo da tampa da escrivaninha e inalava esse odor
pungente quando precisava de encontrar a palavra certa.
Depois, fechava a tampa, embora a fragrncia se conservasse na
sua cabea. Investigadores da Uni-versidade de Yale
descobriram que o aroma de mas condimenta-das exerce sobre
as pessoas um efeito poderoso e embriagador e
pode at gerar acessos de pnico. Schiller devia sab-lo. Algo
no cheiro ranoso e doce daquelas mas punha o seu crebro
numa :, actividade frentica, ao mesmo tempo que lhe acalmava
os nervos. Tal como George Sand, Amy Lowell gostava de fumar
charuto enquanto escrevia e em 1915 chegou mesmo a comprar dez
mil dos seus charutos preferidos para se certificar de que a
sua chama criativa nunca se apagaria. Foi ela quem afirmou que
costumava introduzir ideias no seu subconsciente, como quem
pe uma carta no correio. Ao fim de seis meses, as palavras do
poema come-avam a chegar-me  cabea... Parecia que estavam a
ser pronun-ciadas dentro da minha cabea, mas sem que ningum
as dissesse. Depois, consubstanciavam-se numa nuvem de fumo.
Tanto o Dr. Sa-muel Johnson como o poeta W. H. Auden bebiam
quantidades colos-sais de ch: diz-se que era frequente
Johnson beber vinte e cinco chvenas de uma s vez. De facto,
Johnson morreu de ataque cardaco, mas no h a certeza de que
tenha sido provocado por ingesto exage-rada de ch. Victor
Hugo, Benjamin Franklin e muitos outros diziam que trabalhavam
muito melhor nus. D. H. Lawrence chegou mesmo a confessar que
gostava de trepar s amoreiras todo nu: o corpo contra a casca
da rvore, um fetiche que lhe estimulava as ideias.    
   Colete comeava o dia por catar as pulgas do gato, e parece
natural que esse tocar e acariciar regularmente o plo macio
tenha tornado o seu esprito to voluptuoso. Afinal,
tratava-se de uma mulher que, mesmo nas viagens mais curtas,
se fazia acompanhar de imensa bagagem e insistia em levar
cestos cheios de coisas indispensveis como chocolates,
queijo, carne, flores e po. Hart Crane adorava festas
turbulentas, no meio das quais desaparecia, corria para a
mquina de escrever, punha a tocar um disco de rum-bas
cubanas, em seguida o *Bolero* de Ravel, depois uma trgica
cano de amor, aps o que regressava com o rosto vermelho,
os olhos a arder, o cabelo grisalho todo em p. Na boca, um
charuto barato que se esquecera de acender. Nas mos, duas ou
trs folhas dactilografadas.../Leiam-me s isto!/ dizia
ento, /no  o melhor poema que jamais se escreveu?/ A
descrio  de Malcolm Cowley, que prossegue com mais exemplos
sobre como Crane lhe fazia re-cordar outro amigo, um famoso
caador de marmotas, quando o escritor tentava atrair a sua
inspirao para fora da toca, bebendo, rindo e tocando o
fongrafo.
   Stendhal lia duas ou trs pginas do cdigo civil francs
todas as manhs antes de trabalhar em *A Cartuxa de Parma*,
a fim de, dizia ele, adquirir o tom adequado. Willa
Carther lia a Bblia. Alexandre Dumas (pai) escrevia obras de
divulgao em papel cor-de-rosa, obras de fico em papel
azul, e poesia em papel amarelo. Era extrema-mente metdico e,
para curar as insnias e regularizar os seus :, hbitos, ia ao
ponto de comer uma ma debaixo do Arco do Triunfo, todos os
dias, s sete da madrugada. Kipling s escrevia a tinta o mais
negra possvel e dizia que gostaria de contratar um ra-paz
para me fazer a tinta-da-china, como se o peso da tinta
tornasse as suas palavras to indelveis como as suas
recordaes.
   Alfred de Musset, o amante de George Sand, confessou que
ficava excitado quando ela acabava de fazer amor e ia direita
para a secretria, como era habitual. Mas mais directo era
Voltaire, que escrevia sobre as costas da amante. Robert Lonis
Stevenson, Mark Twain e Truman Ca-pote costumavam escrever
deitados, e Capote chegou mesmo a decla-rar-se um escritor
completamente horizontal. Os estudantes de tcnicas de
escrita ouvem muitas vezes contar que Hemingway escre-via de
p, mas poucos sabem que primeiro afiava os lpis
obsessiva-mente e que no ficava de p por se considerar uma
sentinela do pensamento, da prosa incisiva, mas sim porque um
acidente de avio lhe deixara problemas nas costas. Diz-se que
Poe escrevia com o gato empoleirado no ombro. Thomas Wolfe,
Virginia Woolf e Lewis Car-roll tambm escreviam de p; Robert
Hendrickson afirma em The Li-ferary Life and Other
Curiosities, que Aldous Huxley escrevia frequentemente com o
nariz. Em The Art of Seeing, Huxley diz que escrever de vez
em quando com o nariz traz melhoras assinalveis a uma vista
defeituosa.
   Muitos escritores recebiam a sua inspirao durante
passeios a p. Em especial os poetas: todos temos um
versejador dentro de ns; caminhamos ao ritmo jmbico. Entre
eles, Wordsworth, claro, e John Clare, que costumava partir 
procura do horizonte e um dia, demente, disse t-lo
encontrado; A. E. Housman que, quando lhe pediram para definir
poesia teve o bom senso de responder: No posso definir
poesia, tal como um co no sabe definir uma rataza-na, mas
creio que ambos reconhecemos o objecto pelo efeito que provoca
em ns... Se eu fosse obrigado... a dizer a que classe de
coisas pertence, chamar-lhe-ia uma secreo. Depois de beber
uma caneca de cerveja ao almoo, dava um passeio de trs ou
qua-tro quilmetros e depois segregava suavemente.
   Creio que o objectivo de todas estas medidas  a
concentrao, essa miragem petrificada, e poucos se lhe
referiram to bem como Stephen Spender no seu ensaio *The
Making of a Poem*:

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   O corpo tem tendncia para sabotar a ateno do esprito,
fornecendo-lhe distraces. Se essa necessidade de distraco
for dirigida para determinado canal -- como por exemplo o
cheiro a mas podres, o gosto do tabaco ou do ch --, as
outras distraces :, exteriores a ns ficam fora da corrida.
Outra explicao possvel e que o esforo de escrever um poema
 uma actividade espiritual que nos faz esquecer completamente
que temos um corpo. D-se uma pertur-bao no equilbrio entre
corpo e esprito e por essa razo precisamos de uma espcie de
ncora que ligue a sensao ao mundo fsico.
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   Isso explica, em parte, porque  que Benjamin Franklin e
Edmond Rostand, entre outros, escreviam dentro do banho. Com
efeito, foi Benjamin Franklin quem trouxe a primeira banheira
pa-ra os Estados Unidos, na decada de 1780, e gostava de ficar
horas a meditar dentro de um bom banho de imerso. Banho de
gua e ideias, bem entendido. Na Roma antiga, um banho de sumo
de mo-rango ou de leite de burra era considerado teraputico.
Tenho uma tbua de pinho que costumo pousar nas bordas da
banheira de modo a poder passar horas num banho de espuma a
escrever. A gua desloca muito do nosso peso fazendo-nos
sentir leves e baixando a nossa tenso arterial. Quando a
temperatura da gua  a mesma do corpo, o meu esprito vagueia
sozinho. Certo Vero escrevi, de banheira em banheira, uma
pea toda em verso, principalmente composta de monlogos
falados pela poetisa mexicana do sculo XVII sror Juana
Ins de la Cruz, pelo seu amante, um corteso italiano, e por
vrias figuras da sua vida tumultuosa. Eu queria deslizar
pelos s-culos como por uma encosta de argila. Para isso, um
banho era o ideal.
   Os romnticos eram, claro, doidos por pio, e Coleridge
admitiu que tomava uns gros antes de trabalhar. A lista de
escritores que o lcool levava  grande inspirao ocuparia um
livro bem enchar-cado. O tnico de T. S. Eliot era viral:
gostava de escrever quando estava constipado. A farfalheira
que ento ouvia, semelhante ao rumor de mil saias, afastava as
relaes lgicas normais entre as coisas, permitindo que a sua
mente divagasse. 
   Muitos escritores adquirem uma fixao em determinada pea
musical quando esto a escrever um livro, e tocam-na talvez
mil vezes s num ano. Enquanto escrevia *The Place in Flowers
Where Pollen Rests*, Paul West ouviu sonatinas de Ferruccio
Busoni umas atrs das outras. No sabia explicar porqu. John
Ashbery comea por dar um passeio, depois faz uma chvena de
ch francs *Indar* e escuta qualquer coisa ps-romntica (a
msica de cmara de Franz Schmidt tem-me sido benfica,
disse-me). Alguns escritores ficam obcecados com canes
populares da mais fraca qualidade, outros com determinado
preldio ou poema sinfnico. Creio que a msica que escolhem
cria um enquadramento mental em volta da essncia :, do livro.
Sempre que a msica toca, recria o terreno emocional em que a
aco decorre. Causando um efeito mnemnico, conduz um ouvinte
fetichista a um estado idntico, o que provavelmente seria
visvel num exame de ondas cerebrais.
   Quando inquiri junto de alguns amigos sobre os seus hbitos
de escrita, estava certa de que eles me iam confessar as
maiores ex-centricidades: que se punham de p numa vala a
assobiar o *Jerusa-lm*, de Blake, ou que invocavam as cores
fazendo festas na corola sarapintada de uma dedaleira. Porm,
quase todos me juraram que no tinham... nem hbitos, nem
supersties, nem rotinas especiais. Telefonei a William Gass
e insisti:
   -- No tens hbitos de trabalho esquisitos? -- perguntei,
no tom mais neutro que consegui. Tnhamos sido colegas durante
trs anos na Universidade de Washington e sabia que por trs
da sua aparncia calma e profissional se escondia um extico
grozinho de loucura.
   -- No, desculpa l ser to chato -- suspirou. Ouvi-o
sentar-se confortavelmente nos degraus da despensa. E como o
seu esprito parece uma despensa cheia at acima, pareceu-me
adequado.
   -- Como comea o teu dia?
   -- Oh, saio e passo umas horas a tirar fotografias
--respondeu.
   -- E fotografas o qu?
   -- As zonas abandonadas, ignoradas, degradadas da cidade.
Porcaria e decadncia, principalmente -- disse num tom de voz
in-diferente, to casual como um aceno de mo.
  -- Fazes isso todos os dias, fotografas porcaria e
decadncia?
   -- Quase todos.
   -- E em seguida escreves?
   -- Pois.
   -- E no achas isso esquisito?
   -- Eu no.
   Um cientista meu amigo, reservado e distinto, que publicou
dois livros maravilhosos sobre o mundo e o seu funcionamento,
disse-me que a sua inspirao secreta era sexo violento. No
perguntei mais nada, mas reparei que ele estava mais magro. Os
poetas May Swenson e Howard Nemerov contaram-me que todos os
dias se sentavam durante algum tempo  secretria e tomavam
nota de tudo o que lhes vinha  cabea, ao grande ditador,
como lhe chamava Nemerov, e depois passavam tudo a pente fino,
na esperana de descobrir jias entre as pedras. Amy Clampitt,
outra poetisa, con-tou-me que procura uma janela onde se possa
empoleirar, seja na cidade, num comboio ou  beira-mar. H
algo no efeito caixa de :, Petri do vidro que lhe clarifica
as ideias. A romancista Mary Lee Settle salta da cama e vai
direita para a mquina de escrever, antes que os seus sonhos
desapaream. Alphonso Lingis, cujos livros in-vulgares,
*Excesses e Libido*, se debruam sobre os reinos da
sen-sualidade e perversidade humanas, percorre o mundo
recolhendo objectos erticos exticos. Por vezes, no se
contm e escreve aos amigos. Possuo algumas cartas
extraordinrias, meio poticas, meio antropolgicas, que ele
me enviou de uma priso tailandesa (onde cumpriu uma pena por
escrever sobre a escumalha), de um con-vento no Equador, de
frica (onde praticou mergulho na compa-nhia da cineasta Leni
Riefenstahl) e de Bali (onde participou em rituais de
fertilizao).
   Tais mtodos de auto-estimulao so difceis de explicar
aos nos-sos pais, que gostam de pensar que os filhos s fazem
coisas perfeita-mente normais e s se do com pessoas bastante
vulgares e no com gente que cheire mas podres ou escreva em
pelota.  melhor nem falar de J. M. W.Turner, que gostava de
ser atado ao mastro de um barco e em seguida navegar durante
uma tempestade tremenda, de modo a estar mesmo no centro da
agitao. Todos os caminhos vo dar a Roma, como diz o
ditado, muitos deles sinuosos e cheios de cogumelos e pedras,
enquanto outros so montonos e regulares. Creio que vou
contar aos meus pais que olho para ramos de rosas antes de
trabalhar. Ou, melhor ainda, que fico a olhar para eles at
aparecerem borboletas. A verdade  que, alm de abrir e fechar
gavetas mentais (as quais vejo na perfeio), escrever no
banho, comear cada dia de Vero escolhendo flores com as
quais fao belos arranjos zen, ouvir msica obsessivamente (o
*Concerto n.o 2, para Obo*, em r menor de Alessandro
Marcello, o seu adagio,  o que de momento me alimenta os
sentidos), pratico marcha durante uma hora todos os dias.
Metade do oxignio do estado de Nova Iorque j passou pelos
meus pulmes. No sei se isto ajuda ou no. A minha musa  do
sexo masculino, tem uma pele radiante e pra-teada como a Lua e
nunca fala directamente comigo.








PS-ESCRITO


   Existe um limite para l do qual os sentidos no podem
condu-zir-nos. O xtase projecta-nos para fora da nossa
personalidade normal, mas  uma comoo interior. O misticismo
substitui o aqui e agora por verdades mais transcendentes, que
o espartilho da lin-guagem no consegue explicar; mas essa
transcendncia tambm se regista nos sentidos, como um fogo a
arder-nos nas veias, um es-tremecimento no peito, uma
submisso discreta e fossilizada nos ossos. As experincias
sobrenaturais tm como objectivo libertar os sentidos, mas no
o conseguem. Podemos ver de uma nova pers-pectiva, mas
continuamos a ter uma experincia visual. Os compu-tadores
ajudam-nos a interpretar alguns dos processos da vida que, at
agora, buscvamos, localizvamos e compreendamos recorren-do
apenas aos nossos sentidos. Os astrnomos preferem olhar para
os monitores dos seus telescpios do que estudar as estrelas a
olho nu. Porm, continuamos a usar os nossos sentidos para
interpretar o trabalho dos computadores, ver os monitores,
julgar e analisar e para pr em prtica sonhos ainda mais
inovadores de inteligncia artificial. Nunca abandonaremos o
palcio das nossas percepes.
   Se  verdade que nos encontramos mergulhados na rotina,
trata-se de uma rotina palaciana e requintada. E, no entanto,
tal como prisio-neiros dentro de uma cela, tentamos soltar-nos
das suas garras, de-batemo-nos e suplicamos-lhe que nos
liberte. Na Bblia, Deus ordena a Moiss que queime incenso
doce, como Ele gosta. Deus tem nari-nas? Como pode um deus
preferir determinado cheiro terrestre a outro? Os rudimentos
da decadncia completam um ciclo necess-rio ao crescimento e
 libertao. Para ns, a carne putrefacta tem um cheiro
pestilento, mas  delicioso para os animais que se :,
ali-mentam dela. Graas s suas excrees, o solo tornar-se-
rico e as colheitas abundantes. No h necessidade de eleio
divina. A per-cepo , em si mesma, uma espcie de graa. Em
1829, Goethe, ao escrever sobre a teoria da cor, afirmou:
Procuramos em vo o que est para l do fenmeno; ele  s
por si uma revelao.
   Existem tantas diferenas fsicas entre as pessoas: umas
tm co-raes fortes, outras bexigas fracas, umas tm mos
mais firmes, algumas vm mal;  lgico que os nossos sentidos
tambm variem. Contudo, eles esto de tal modo de acordo que 
possvel os cien-tistas definirem uma onda vermelha como
sendo produzida por 660 milimcrons, o que estimula a retina a
ver vermelho. Os sons so definidos com a mesma preciso,
assim como as temperaturas que sentimos como frias ou quentes.
Os nossos sentidos unem-nos num campo comum de glria
temporal, mas podem tambm sepa-rar-nos. Umas vezes por pouco
tempo, outras, como  o caso dos artistas, durante toda a
vida.
   Este Inverno, depois de uma noite de neve, acordei e vi que
as conferas em frente de minha casa estavam dobradas ao meio,
car-regadas de neve e gelo. A no ser que eu as libertasse,
cederiam sob o seu prprio peso; portanto, peguei numa p e
comecei a bater com fora nos ramos para a neve cair. Nisto,
um dos ramos mais pesados soltou-se e a neve queimou-me o
rosto como se fosse a luz do Sol, gelada, colada  minha cara,
at que comeou a pingar en-quanto eu me conservava imvel, de
p, o queixo inclinado para ela escorrer mais depressa, com
todos os meus sentidos concentrados. Porm, um rapaz que
andava por ali e foi afastado da sua brincadei-ra por um
estrondo surdo, deve ter pensado que eu era uma maluca
apanhada pela sua prpria tormenta. Pelo canto do olho vi-o
fazer uma careta, depois puxar pelo seu tren e deslizar dali
para fora. Para mim, o tempo arrastou-se penosamente; os
minutos parecia nunca mais passarem e pensei em mamutes a
deambular por ali, nas manhas da poca glaciria, na marca
deixada por um glaciar em movimento, numa avalanche de neve
descendo uma ravina polar. Para o rapaz, o mesmo momento
passou num pice.
   Por comodidade, e talvez numa espcie de amuo mental por
ser to difcil estarmos vivos, dizemos que existem cinco
sentidos. Contudo, sabemos que h mais, assim ns quisssemos
explor-los e glorific-los. Ao adivinharem onde h gua, os
vedores respon-dem talvez a um sentido electromagntico que
todos possumos em maior ou menor grau. Outros animais, como
as borboletas e baleias, navegam detectando os campos
magnticos da Terra. No me sur-preenderia saber que tambm
ns temos essa capacidade. Fomos :, nmadas durante grande
parte da nossa histria. Somos to fototr-picos como as
plantas, encantamo-nos com a luz do Sol, e isso de-veria ser
considerado um sentido independente da viso, com a qual pouco
tem a ver. A nossa experincia de dor  diferente dos outros
domnios do tacto. Muitos animais percepcionam infravermelhos,
temperaturas, electromagnetismo e tm outras percepes
sofistica-das. O louva-a-deus comunica atravs de ultra-sons.
Tanto o ele-fante como o crocodilo usam infra-sons. O
ornitorrinco agita o bico para cima e para baixo dentro de
gua, usando-o como uma antena para receber sinais elctricos
emitidos pelos msculos dos crust-ceos, batrquios e pequenos
peixes de que se alimenta. O sentido vibratrio, to
desenvolvido nas aranhas, nos peixes, nas abelhas e noutros
animais, deveria ser mais bem investigado nos seres huma-nos.
Temos um sentido muscular que nos orienta quando pegamos em
objectos: sabemos imediatamente se so pesados, leves,
slidos, duros ou macios e somos capazes de calcular quanta
presso ou re-sistncia requerem. Estamos constantemente
conscientes de um sentido de gravidade, que nos diz qual  o
lado de cima e como li-dar com o nosso corpo quando camos,
trepamos, nadamos ou nos dobramos numa posio pouco habitual.
Existe o sentido do rgo proprioceptor, que nos informa sobre
a posio de cada componente do nosso corpo, em qualquer
momento do dia. Se o crebro no soubesse sempre onde esto os
joelhos ou os pulmes, ser-nos-ia impossvel andar ou
respirar. Parece haver um complexo sentido espacial que, visto
aproximar-se uma era de estaes, cidades e viagens espaciais,
vamos precisar de conhecer em pormenor. As estadas prolongadas
no espao afectam a nossa fisiologia e tambm os nossos
sentidos, em parte devido aos rigores da ausncia de gravidade
(*), 

(*) Por exemplo, o rosto incha quando os lquidos do nosso
organismo fluem para cima e o crebro aconselha o corpo a
deit-los fora urinando mais e bebendo menos. (*N. da A*.)

mas tambm por causa do carcter ilimitado e infinito do
espao em si, que tem pou-cas referncias, apoios, marcos, e
no qual, para onde quer que olhemos, no vemos cenas mas sim
pura vastido.
   As espcies desenvolvem sentidos orientados para diferentes
programas de sobrevivncia, e  impossvel colocarmo-nos nos
rei-nos sensoriais das outras espcies. Desenvolvemos formas
exclusi-vamente humanas de percepcionar o mundo, a fim de
enfrentar as exigncias do nosso meio ambiente. A Fsica fixa
os limites, mas a Biologia e a seleco natural determinam
como se classifica um animal relativamente a todas as
possibilidades sensoriais. Quando cientistas, filsofos e
outros comunicadores falam do mundo real, :, esto a falar de
um mito, um conceito inventado por comodidade. O mundo  uma
obra que o crebro constri com base nos dados sensoriais que
recebe, e essa informao constitui apenas uma pe-quena parte
da que h disponvel. Podemos modificar os nossos sentidos com
radares, binculos, telescpios e microscpios, alargando esse
horizonte sensorial, e h instrumentos que nos transformam
numa espcie de predadores sensoriais, coisa que a seleco
natural nunca nos destinou a ser. Os fsicos explicam que as
molculas nunca esto paradas: o livro que tm na frente est,
na verdade, a contorcer-se sob os vossos dedos. Porm, no
vemos esse movimento das molculas, porque no  importante
para a evoluo que o vejamos. S nos  dada a informao
sensorial indispensvel  nossa sobrevivncia.
   A evoluo no nos sobrecarregou com capacidades
desneces-srias. Por exemplo: podemos usar nmeros na classe
dos milhes e trilies, s que isso no nos interessa para
nada. Muitas coisas no esto ao nosso alcance por no fazerem
parte do passado distante da nossa evoluo. Por estranho que
parea, os animais unicelulares tm um sentido mais realista
do mundo do que animais mais com-plexos, pois respondem a
todos os estmulos que recebem. Ns, pelo contrrio,
escolhemos apenas alguns. O corpo selecciona e desbasta a
experincia, depois envia-a ao crebro para que ele a ar-quive
ou utilize para algum fim. Nem todas as brisas conseguem fazer
estremecer os plos do pulso. Nem todos os raios de sol se
re-gistam na retina. Nem tudo  sentido por ns com fora
suficiente para enviar uma mensagem ao crebro; muitas
sensaes invadem-nos sem nos dizerem nada. Muito perde-se na
traduo ou  censurado, e os nossos nervos nem sempre
disparam de imediato. Alguns per-manecem silenciosos enquanto
outros reagem. Isso faz com que a nossa verso do mundo seja
algo simplista, tendo em vista a complexidade desse mesmo
mundo. O corpo no vive em busca da ver-dade mas sim da
sobrevivncia.
   Os nossos sentidos anseiam, tambm, por novidade. Detec-tam
a mais pequena mudana e enviam uma mensagem ao cre-bro. Se
no h mudanas nem novidades, ficam adormecidos e registam
pouca coisa ou mesmo nada. O mais doce prazer perde todo o
sabor se for muito demorado. Um estado permanente, ainda que
de excitao, torna-se enfadonho com o tempo, esba-te-se,
porque os nossos sentidos evoluram no sentido de detec-tar
mudanas, coisas novas, coisas surpreendentes que precisam de
ser avaliadas: um novo petisco a provar, um perigo inesperado.
O corpo vai fazendo o levantamento do mundo, tal como um :,
general atento e observador se movimenta pelo campo de
batalha, procurando modelos e estratagemas. Por conseguinte,
no s  possvel como tambm inevitvel que uma pessoa se
habitue aos rudos e ao tumulto visual de uma cidade e deixe
de registar constantemente tais estmulos. Por outro lado, a
novidade em si ser sempre capaz de atrair atenes. H aquele
momento nico em que temos diante de ns uma coisa diferente e
o encanta-mento comea. Seja ela o que for, brilha,
destaca-se, as suas ca-ractersticas fascinam-nos debaixo de
uma luz forte e crua; olh--la  s por si uma revelao, uma
nova litania sensorial. Mas  segunda vez que a vemos, a mente
diz: Oh, no, outra vez a mesma coisa, um caminhante com
asas, uma lua a aterrar. E da a pouco tempo, quando a coisa
passa a lugar-comum, o crebro comea a esbater os seus
detalhes, a reconhec-la de imediato por uma ou outra das suas
caractersticas; no precisa de se dar ao trabalho de fazer um
exame minucioso. Ela perde, ento, todo o encanto, deixa de
ser algo de extraordinrio e passa 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